Traições
8 Capítulo 8
Elyssa foi para casa pensando na mensagem que Willian lhe enviara naquela manhã. Ela não sabia porque, mas por alguma razão não conseguia tirar aqueles olhos de sua mente. Aquilo a estava enlouquecendo.
- Bom dia filha — disse Clara assim que a Elyssa abriu a porta e entrou em casa. — Estava quase indo em seu quarto acordar você. Esqueci que você não dormiu em casa essa noite.
- Como sempre não é mãe? — disse Elyssa, rindo.
- Ainda tenho que me acostumar com essa ideia de que você está namorando.
- Acho bom se acostumar logo ou vai acabar chamando a polícia um dia desses que eu demorar para chegar.
- Haha, muito engraçado.
- Desculpa mãe.
- Ah, já ia me esquecendo, alguém ligou para você agora há pouco.
- Quem? — Perguntou Elyssa pensando automaticamente em Willian. Ele faria isso? Será que ele tentou ligar para ela e não conseguindo resolveu ligar para sua mãe? Não. Ele não poderia.
- Flávia. — Disse Clara olhando para a filha e esperando por uma reação. Ela era contra a separação das duas amigas. Flávia era como sua segunda filha.
- Flávia? — Elyssa estava surpresa — O que ela queria?
- Conversar com você, apenas.
- Estranho, quando eu fui atrás dela para conversar ela me ignorou. Deve estar precisando de alguma coisa, por isso está me procurando. Aposto que nem está sentindo minha falta e deve estar sendo horrível passar por cima do orgulho.
- Não fale assim Elyssa. — Disse Clara esperando a compreensão da filha. — Ela pode estar arrependida. Com certeza sente sua falta assim como você também sente.
- Eu não sinto falta de ninguém. — Elyssa desviou o olhar de sua mãe.
- Não minta para si mesma.
- Não estou mentindo. A Flávia saiu da casa da mãe dela e nem se preocupou em me avisar. Eu fui atrás dela muitas vezes tentando pedir desculpas e ela não quis me ouvir. Ela não estava do meu lado quando eu precisei. O que ela espera de mim agora?
- Porque você não dá uma chance a ela de se explicar? Devem haver motivos para ela ter ido embora. Você deveria ouvi-la.
- Não sei.
- Você sabe o que tem que fazer. Anotei o número dela na agenda que está ao lado do telefone. Você deve ligar para ela.
- Não vou ligar. — disse Elyssa, virando as costas para sua mãe e se dirigindo ao seu quarto.
- Não vou insistir. — Disse Clara, percebendo a mentira nas palavras pronunciadas pela filha.
- Obrigada. — Disse Elyssa, aliviada por ter finalmente encerrado o assunto com a mãe.
Entrou em seu quarto e sentou em sua cama segurando o celular na mão. Começou a lembrar dos momentos que passava com Flávia na infância. Olhou seu celular e procurou mensagens antigas que ainda estavam salvas na caixa de entrada. Riu das coisas engraçadas que a amiga costumava mandar, chorou quando chegou na mensagem de "Feliz Aniversário" que estava ali havia um ano. Ela realmente sentia falta de Flávia.
Continuou lendo as mensagens uma a uma até chegar na mensagem que Willian mandara pela manhã. Lembrou que precisava respondê-lo.
Ao começar a digitar algumas palavras para enviar a Willian, o celular tocou. Era ele. Coincidência? Elyssa não sabia.
- Alô? — Disse após respirar fundo e pensar no que falaria.
- Oi, Elyssa. Sou eu, Willian. Tudo bem?
- Oi, tudo e você?
- Você não respondeu minha mensagem então resolvi te ligar para saber sua resposta.
- Eu iria te responder agora, nesse exato momento. Acredita?
- Sério? Acho que nossos pensamentos estão conectados. Pensamos ao mesmo tempo um no outro.
Elyssa riu.
- Então... — Disse ela ainda pensando se deveria mesmo aceitar o convite.
- Então? — Indagou Willian.
- Eu não sei se é uma boa ideia aceitar o convite que você me fez. — Disse Elyssa, percebendo que aquelas não eram exatamente as palavras que ela queria pronunciar.
- Por que não seria?
- Você tem namorada.
- E você tem namorado, mas isso não impediu que você retribuísse meus olhares no cinema.
- Mas isso não está certo. Não deveríamos...
- Por que não deveríamos? Eu quero e sei que você também quer. Não somos mais crianças e somos os únicos responsáveis por nossos atos e nossas vontades.
- Como tem tanta certeza de que eu quero?
- Eu sinto. Eu senti no seu olhar naquele dia no cinema e estou sentindo agora em sua voz.
- Você realmente quer fazer isso?
- Quero e você também quer.
- Sim, eu quero.
- Então aceita sair comigo hoje a tarde?
- Aceito. Onde?
- Conhece aquela rua que fica atrás do shopping onde estávamos?
- Sim.
- Então, esteja lá as 14:00 horas e eu passo te pegar.
- Tudo bem então. Combinado, estarei lá.
- Ótimo. Até depois. — Willian disse isso e desligou.
Elyssa ficou com o celular nas mãos por alguns minutos pensando no que acabara de fazer. Sorriu. Aquilo não era certo mas estava fazendo tão bem a ela. E já tinha algum tempo que ela não se sentia assim. Os momentos que passava com Matheus não davam a mesma sensação que ela teve com aquela conversa rápida com Willian no dia anterior. Tudo parecia louco, confuso, errado. Mas Elyssa queria arriscar. Voltou a olhar para o celular e então lembrou o que estava fazendo minutos antes de Willian ligar. Levantou-se e foi até a sala onde ficava o telefone fixo e a agenda em que sua mãe anotara o número de Flávia.
- Alô? — A voz de Flávia do outro lado da linha fez Elyssa sentir vontade de chorar. Era tão bom falar com ela outra vez.
- Oi Flávia, sou eu Elyssa. Você me ligou? — Elyssa não queria demonstrar que estava com saudades. Queria manter o orgulho e passar por cima de qualquer emoção. Mas foi inútil.
- Elyssa — Flávia falou em um tom de desespero e emoção. — Que bom que você ligou, eu queria tanto falar com você. Sim, eu te liguei porque senti sua falta.
- Onde você está? — Perguntou Elyssa ainda tentando esconder a felicidade por ouvir a voz da amiga outra vez.
- Estou na casa da minha tia Claudia.
- Por que foi embora? E por que me ligou hoje?
- Ah Elyssa — suspirou Flávia — Eu tenho tanto para te contar.
- Pode começar — incitou Elyssa.
- Então, eu vou resumir a história. Eu acho que você deve ter ficado sabendo que o Allan foi preso.
- Sim, eu soube.
- A culpa foi minha. Eu não aguentava mais ver o Allan fazendo aquelas coisas e de repente ele começou a ficar violento comigo. Tentei terminar o namoro mas ele ameaçou se matar. Fiquei com medo e então não terminei. Mas eu denunciei aquele tal "De Menor" á policia. Eu não pensei nas consequências, apenas achei que acabaria com aquela história de uma vez. Mas não. O "De Menor" entregou o Allan e então eu acabei pagando por isso. O Allan foi até minha casa furioso e tentou me agredir e disse que eu deveria ajudá-lo a fugir ou pagaria com minha vida. Eu não sabia o que fazer, estava sozinha em casa naquele dia. Não tive saída. Peguei uma mochila com algumas roupas e saí com ele. Mas como não sabíamos para onde ir exatamente, perdemos tempo demais e a polícia acabou nos encontrando. Como eu sou menor de idade, os policiais ligaram para meus pais que foram me tirar da delegacia. Mas o Allan teve que ficar. Quando eu estava saindo de lá ele me ameaçou, disse que me encontraria quando saísse de lá. Meu pai ficou super bravo comigo e minha mãe então, nem se fala. Me mandaram para casa de minha tia, aqui o Allan jamais vai me encontrar. Estou segura, na opinião deles.
- Nossa, Flávia. — Disse Elyssa completamente chocada com a história que amiga acabara de contar. — Eu não sabia de nada disso. Ninguém nunca falou nada sobre o que havia acontecido realmente. Nem sua mãe comentou nada com a minha.
- Ninguém soube sobre o que aconteceu e meus pais decidiram que manteriam segredo. Não queriam que falassem de nossa família pelo bairro.
- Entendi. Mas por que você não me procurou? Por que não me contou sobre isso?
- Por que eu estava com vergonha. Eu briguei com você para defender o Allan. Eu estava cega. Resolvi deixar o tempo passar. Mas agora acho que está na hora de te pedir desculpas. Por isso te liguei.
- Eu é que te devo desculpas. Eu não tinha o direito de ter te dado aquele tapa. Desculpa.
- Somos amigas novamente? — Perguntou Flávia demostrando um tom de felicidade.
- Nunca deixamos de ser. — Confirmou Elyssa.
- Nem acredito nisso. Nossa, estou com tantas saudades.
- Eu também. Quando você volta?
- Ainda não sei. Estou ligando para minha mãe todos os dias tentando convencê-la de me deixar voltar, mas ela diz que meu pai ainda não acha uma boa ideia. Mas acho que logo eu volto. Não vejo a hora. Não aguento mais ficar aqui.
- Eu vou á sua casa. Vou falar com seus pais. Você tem que voltar. Eu tenho tanta coisa para contar também. Estou namorando o Matheus.
- O quê? Não acredito? Nossa, que legal Elyssa. Isso é demais. Quando eu voltar você vai me contar toda essa história em detalhes, ok?
- Pode deixar.
- Agora tenho que desligar, antes que minha tia volte e comece a reclamar. Ela não gosta muito que eu fique ao telefone. Enfim, até mais amiga, foi muito bom falar com você.
- Foi bom falar com você também Flávia. — Elyssa desligou o telefone.
- Eu sabia que você não iria aguentar muito tempo. — A voz alegre de Clara assustou Elyssa. — Mas eu achei que você esperaria pelo menos até amanhã.
- Sabia que é feio ouvir conversa dos outros, mãe?
- Eu não estava ouvindo. Só ouvi o final. Mas adorei sua atitude. Espero que esteja tudo bem agora.
- Está sim. Mas não quer saber o que aconteceu com ela?
- Não preciso. Qualquer coisa que tenha acontecido é problema dela e se ela te contou é porque você é a melhor amiga dela e não deve contar a ninguém.
- Tem razão mãe.
Essa era uma das qualidades de Clara. Não se metia na vida das pessoas e odiava fofoca. Era perda de tempo na opinião dela. Elyssa admirava isso.
- Agora vem almoçar que já está pronto. Fiz aquela lasanha que você adora.
- Hmmm tá querendo me engordar hein dona Clara?
- Claro, você está precisando. Olha só, está um palito.
- Ah mãe, só você acha isso. — Elyssa riu.
Naquele dia as coisas estavam indo muito bem. Flávia voltara a falar com Elyssa. Willian estava sentindo-se atraído por ela também. Tudo estava perfeito.
Ás 14:00 horas em ponto Elyssa estava na rua combinada esperando por Willian. Estava nervosa por saber que não era certo o que estava fazendo, mas muito mais ansiosa para ver aqueles olhos hipnotizantes outra vez e aquele sorriso perfeito.
Willian chegou alguns minutos atrasados. Parou o carro ao lado de Elyssa e a convidou para entrar rapidamente.
Elyssa entrou sem olhar para os lados e ver se alguém a observava ou não. Willian era seu único foco. O mundo poderia desabar ao seu redor, ele estava ali e nada mais importava.
- Tudo bem com você? — Perguntou Willian assim que Elyssa fechou a porta do carro.
- Tudo. E com você?
- Tudo ótimo. Principalmente agora que você está aqui.
Elyssa sorriu e por um momento sentiu seu rosto corar. Ele conseguia ficar mais encantador a cada segundo que passava. Ele realmente era perfeito.
- Não precisa ficar vermelha. — Disse Willian notando a reação de Elyssa. — Só estou sendo sincero. Estou feliz que tenha vindo.
- Eu também estou feliz. — Disse Elyssa sendo sincera. — Para onde vamos?
- Eu pensei em um lugar para ficarmos tranquilos e á vontade. Pode confiar em mim.
- Eu confio. — Afirmou ela.
- Mesmo? — Duvidou Willian.
- Não sei porque, mas eu confio. Não deveria.
- E por que não?
- Porque eu não te conheço.
- Mas está conhecendo agora. E pode ter certeza que não sou nenhum maníaco estuprador. — Willian riu.
- Eu sei. Percebe-se isso pela Fernanda.
- Fernanda?
- Sim, ela é uma garota incrível e está com você há 2 anos. Então com certeza você não é uma pessoa má.
- Boa percepção. Garota esperta.
Elyssa riu.
- Mas não vamos falar sobre Fernanda agora. Quero que essa tarde seja apenas nossa.
Elyssa encarou Willian por alguns instantes. Aquilo parecia um sonho.
- Chegamos. — Disse Willian estacionando em frente á uma casa em uma rua que Elyssa não conhecia, só sabia que era distante de sua casa. Elyssa olhou em volta e percebeu que não havia outras casas por perto. A alguns metros dali ela avistou uma cachoeira e algumas árvores. Era um lugar lindo, mas isolado.
- Que lugar é esse? — Perguntou Elyssa curiosa.
- A casa de um amigo. Disse a ele que estava precisando terminar algumas coisas do meu trabalho no meu computador, mas precisava de um lugar tranquilo e no meu apartamento não consigo fazer isso. Aí, como eu sei que aqui na casa dele nunca vem ninguém e, como você pode perceber, o vizinho mais próximo mora a alguns metros de distância daqui, achei que seria uma boa ideia te trazer aqui. Ele não mora aqui, apenas vem passar os finais de semana quando cansa da cidade.
- Parece bem tranquilo aqui mesmo. — Disse Elyssa saindo do carro assim que Willian abriu a porta para ela.
- Vamos entrar? — Willian retirou uma chave do bolso e se dirigiu á porta da frente da casa.
- Tem certeza que ninguém vai aparecer aqui? — Elyssa sentiu um certo medo invadi-la naquele momento. Mas não sabia exatamente o que estava temendo.
- Tenho. Ninguém vem para cá durante a semana. Pode ficar tranquila, confie em mim.
- Eu confio.
Willian abriu a porta e fez sinal para que Elyssa entrasse.
- Damas primeiro.
- Obrigada.
Era uma casa simples mas super aconchegante. Um sofá vermelho em frente a uma estante velha chamou a atenção de Elyssa. Havia uma televisão pequena ali e um um rádio que parecia não funcionar. Uma mesa pequena com apenas duas cadeiras estava á pouca distância do sofá e um fogão que parecia novo estava do outro lado do cômodo. Á esquerda de Elyssa havia um corredor que levava a outras portas.
Willian foi até uma delas e chamou Elyssa.
- Vem cá conhecer nosso quarto. — Disse rindo ao abrir a porta e fazer sinal com uma das mãos para Elyssa acompanhá-lo.
Elyssa riu e o seguiu.
- Nosso quarto? — Elyssa se aproximou da porta e notou uma cama de casal que estava arrumada, como se alguém tivesse estado alia antes e arrumado. Com certeza Willian esteve ali.
- Podemos fingir por hoje. A não ser que você não queira. — Willian colocou a mão na cintura de Elyssa que estremeceu em seguida.
- Por que eu não iria querer? — Elyssa encarou Willian e sorriu.
- Você tem um sorriso lindo. — Willian disse, se inclinando para beijar sua boca em seguida. Um beijo que fez o coração de Elyssa acelerar. De repente ela não sentia mais seus pés no chão. Aquele momento era perfeito. Elyssa não pensou em mais nada. Apenas deixou acontecer e se entregou completamente a Willian naquela tarde.
Fale com o autor