Tragic Magic
1 Essas serão as melhores férias da vida dela
Notas iniciais
Finalmente, EUA! Depois de passar 10 anos morando na Inglaterra com meus tios chatos e conservadores, EUA! Não encontro nada familiar nas ruas a primeira vista, claro, mas após alguns dias andando por aqui garanto que saberei reconhecer qualquer coisa. "TAXI!". Ai meu deus, ainda não me livrei do sotaque britânico, o taxista está rindo. Dá pra ser mais humilhante do que isso, a minha glorificada volta à terra natal?
Jogo as malas no banco do táxi e entro antes que o taxista pudesse ter tempo de me oferecer ajuda. Ele fixa os olhos verdes nos meus castanhos claros e pergunta o destino. Faço a cara mais esnobe que consigo e lhe entrego o papel com o nome do hotel simplesmente FABULOSO que eu ficarei. Ele alisa o post-it rosa e enxuga o suor.
_Beach Palace, senhora? De onde a senhora é?_ ele diz claramente surpreso.
_Senhorita, e eu sou daqui mesmo. Agora, o senhor poderia começar logo a viagem?
Oh céus, ainda não perdi o sotaque, agora é oficial. O táxi arranca, e eu tenho que fazer força pra não escorregar no banco de couro junto com minhas malas. O motorista é tão louco e acelerado, que fazemos o caminho de 10 Km em 15 minutos. Meio desorientada e descabelada, saio do carro e peço ajuda a um funcionário do hotel com as minhas malas. Pego apenas a bolsa e uma mochila.
Olho pro alto e respiro fundo. Lembro de mim e meus pais vindo nesse hotel quando eu era pequena. Na verdade, morávamos na Califórnia, mas eu sempre quis conhecer o glorioso Beach Palace. Então, uma vez, viemos passar dois dias. Foi o passeio mais louco da minha vida. Porém, um mês depois, eles morreram, e eu me mudei pra Inglaterra pra morar com meus tios tradicionalistas e sem vida, Tio Florence e Tia Helena, e os filhos deles, James e Anna.
Passar a adolescência saindo escondida não me rendeu boas influências. Comecei a andar em bairros perigosos e a fazer amizade com meninos de gangues. Em compensação, nunca fui assaltada. Agora, com 18 anos, uma conta bancária gorda, e ninguém pra me vigiar, eu vou aproveitar ao máximo esses três meses aqui. Sair, dormir tarde, dormir fora do hotel beber, fumar, transar, experimentar. TUDO. Xô frescura. Xô chá das cinco. Xô monarquia. XÔ INGLESES.
Entrego o dinheiro pro taxista e subo pra minha suíte. É linda, é enorme. Vou até a varanda, dou uma olhada na vista, abro a mala e começo a escolher a roupa. Um short jeans meio velhinho, uma camisa social branca meio transparente aberta com um top grande preto por baixo e uma sapatilha vermelha. Me troco e desço para o saguão. Pergunto a recepcionista onde fica o Mc Donald's mais próximo, e corro até lá assim que obtenho a informação.
Claro que na Inglaterra tem Mc Donald's, mas eu quero comer num americano. Na metade do caminho, começo a andar, apreciando o vento fresco que vem da praia, o sol gostoso, o cheiro de maresia, o barulho das ondas. Passo em frente a um quiosque de Donuts e compro um. Mordo e sinto o recheio se espalhar em minha boca. Um donut americano, que delícia. Aliso as coxas com as mãos e penso no quanto vou engordar enquanto estiver aqui. Bem, olá América, olá celulite. É a vida.
Chego a tão aguardada lanchonete e meu apetite se renova. Vou até o caixa e peço a coisa mais calórica que meus olhos conseguiram achar no painel luminoso. Após alguns minutos, a atendente me entrega meu hambúrguer enorme, minha porção de batatas fritas extra grande e meus 700 ml de milk shake. Sento em qualquer lugar e começo a comer quase chorando, lembrando de quando vinha aqui com meus pais. Até que vejo alguém que me chama a atenção na mesa da frente.
Quem é esse gato?
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