Notas iniciais
Minhas meninas,
Quanto tempo! Mais de um mês.

Bom... nesse período eu passei por duas cirurgias. Sim, foram duas. Mas a notícia boa é que está tudo bem. Com fé... nada de ruim aconteceu.
Ainda sinto dores e a cicatrização é demorada, mas enfim... é sempre melhor olhar o lado bom de tudo isso.
Gostaria de ter postado esse capítulo anteriormente, porém, tenho que confessar que a dor me impediu.
Desculpem-me pela demora... e saibam que sempre estiveram em meus pensamentos.
Acreditem nisso, pois quando eu gosto de uma fic, sinto-me exatamente como vocês: ansiosa por mais!!!
Aproveitem a leitura Este é o penúltimo capítulo.
Obrigado pelas mensagens de incentivo, força, coragem e ânimo que me enviaram... elas significam MUITO para mim.
Um enorme beijo e saibam que não sei como retribuir tamanho carinho que me foi dado.
Estamos tão longe umas das outras.... e tão perto. É estrondoso!
Fênix.

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Ela tinha apenas 19 anos e estava amarrada em um mastro em cima de feixes de feno que queimariam rapidamente, formando assim a impiedosa fogueira. Joana D’arc, vestia uma túnica branca que chegava até os pés e mantinha um semblante pacífico, apesar dos seus olhos demonstrarem medo.

A Praça do Velho Mercado estava cheia de gente esperando pela execução. Dois homens se aproximaram e um deles leu o veredicto em voz alta, para que não restassem dúvidas quanto à heresia e bruxaria daquela mulher. Ela foi queimada viva, mas não emitiu um grito sequer.


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Lisa chorou por Joana, lágrimas consternadas pelo sofrimento de uma mulher inocente que foi usada pela Igreja e por Reinados corruptos que serviam ao vil pretexto de lucros fáceis e notoriedade.

– Como você mesma pôde ver Lisa, mais uma vez os humanos manipularam os fatos que...

– Os humanos manipularam os fatos assim como você está tentando me manipular – a afirmação saiu dura e elucidativa.

– O quê? – Lilith tentou manter a calma, porém seus olhos arregalados a traíram.

– Sim... tenho medo pelo futuro de meu filho, nisso você tem toda razão. Mas, eu não sou a idiota que você pensa. Viajei com você pelo tempo como disse que seria, todavia a única coisa que me mostrou, além de conjurar feitiços e misturar poções, foram os muitos erros cometidos pelos humanos com as Bruxas Brancas.

– E não é o suficiente para você? – perguntou Lilith com a voz subindo cada vez mais, furiosa – O que mais interessa?

– E a bestialidade das Bruxas Negras? O que me diz de feiticeiras, como você, que encantavam com o intuito de obter ouro, com o intuito de possuir o corpo de outra pessoa para corromper, roubar, matar, escravizar e conjurar espíritos malignos? – Lisa deu um passo a frente e parou bem perto de Lilith – Você não é diferente de Évora, pelo contrário, você é quem ela gostaria de ser.

– Não seja tola – gritou – Será que não consegue enxergar...

– Não adianta Lilith. – a frieza nas palavras de Lisa era impressionante – Eu sei o que sou. E não permitirei que interfira em minhas escolhas. Vá embora. Eu não preciso de você.

– O quê? Não pode continuar sem mim e seu filho...

– Meu filho tem uma mãe que o ama e um pai que o defenderá com a própria vida, caso isso seja necessário. Repito, eu não preciso de você – A calma expressa em seu rosto assustou Lilith – Sem contar, é claro, que posso dominar os cinco elementos e que a avó de meu filho, por mais que eu não goste dela, é a Deusa de sua raça.

Lisa levantou vagarosamente sua mão direita e só parou quando a posicionou em cima do seu coração. Levemente começou a fechar seus dedos até transformá-la em um punho.

– Acho que você vai começar a sentir falta de ar, Lilith.

Imediatamente a feiticeira puxou o ar, porém não conseguiu respirar. Ao olhar para Lisa uma máscara de frieza mórbida cobria seu rosto e seus sentimentos. Seu olhar era de um azul esverdeado escuro, profundo e tenebroso igual ao lugar mais sombrio de uma floresta impenetrável. Seu punho continuava fechado fortemente e não havia qualquer pretensão de cessar.

– Essa é a hora que você se curva... até o chão e expressa seu arrependimento por ameaçar meu filho.

Lilith lutou para não obedecer, para manter-se ereta, porém quanto mais tentava, mais doloroso ficava não respirar. Ela estava perdendo a batalha para uma amadora. Havia subestimado sua oponente.

Uma dor dilacerante queimou suas costas, um agarre mortal envolveu sua coluna vertebral, fazendo seu sangue jorrar. Ao olhar sobre os ombros percebeu que não poderia mais resistir. “Chimera” era seu algoz.

A besta horripilante era um grande leão com enormes asas monstruosas que cuspia fogo pela boca, como os dragões. Suas patas, na verdade eram garras afiadas que naquele momento comprimiam o corpo de Lilith sem qualquer piedade. Lisa sorriu.

– Ainda não escutei seu arrependimento e não estou disposta a esperar mais por ele – disse sarcástica, voltando seu olhar para “Chimera”.

– Me perdoe – era quase um gemido.

Lisa abriu levemente a mão e Lilith pode respirar.

– Meu erro não se repetirá – afirmou a feiticeira enquanto puxava o ar para encher seus pulmões – Eu tomei você como uma tola. Não lhe dando o devido crédito.

– Não é isso que eu quero ouvir – rosnou Lisa, enquanto a besta enterrava suas garras mais fundo – Comece novamente ou...

– Está bem... – gritou Lilith apavorada – Eu... eu jamais chegarei perto de seu filho... eu prometo.

– Você jamais chegará perto do meu filho e da minha família. Aqueles vampiros, todos eles, são a minha família junto com Eligor. Agora, repita em alto e bom tom, para que eu saiba que você entendeu.

– Eu prometo que jamais chegarei perto de seu filho e de sua família.

– Solte-a! – ordenou Lisa, o monstro afastou-se ao comando de sua voz.

– Para seu próprio bem Lilith, eu espero que você cumpra sua promessa...

– Eu cumprirei – reafirmou cheia de pavor.

– Agora suma da minha frente, antes que eu me arrependa de tê-la soltado.

Quando Lilith desapareceu envolta a uma fumaça escura, Lisa percebeu que ainda se encontrava na cena da morte de Joana D’arc, só que tudo parecia ter parado no tempo, congelado.

– Obrigado – ela disse aproximando-se do monstro.

Ele se curvou em reverência, seu olhar expressava submissão e lealdade. Ela sentiu a ligação entre eles. Apesar de estranhamente diferente de tudo que Lisa conhecia, o animal era magnífico. Apoiado sobre as quatro patas, ele chegava à altura dos ombros dela.

– Então é você. Graças a Deus! – Lisa se aproximou ainda mais e o abraçou, surpreendendo-o com o gesto – Eu nunca quis que Raghe fosse o Guardião ou Vishous... tão pouco. Estou aliviada por essa revelação.

Por mais absurda que tal cena pudesse realmente acontecer, o fato era que o animal ronronou ao ser acarinhado, emitindo um som que lembrava um gato, só que grande e selvagem.

– Bem... – disse ela divertindo-se – Existem pessoas com cães, gatos e papagaios como animais de estimação e no meu caso...

Ele pareceu não gostar de ouvir tais palavras e balançou a cabeça mostrando sua contrariedade. A surpresa se tornou maior. Ele entendia o que ela falava perfeitamente.

– Não importa... e me desculpe pelo “animais de estimação” eu estava brincando, sei exatamente o que você significa – Lisa sorriu timidamente – Você tem nome?

Mais uma vez ele balançou a cabeça em negativa.

– Agora tem. Seu nome é Guardyan! – Ela se imaginou pedindo permissão a Wrath para que Guardyan vivesse na mansão e não conseguiu conter a risada – Isso vai ser divertido... e por favor, tente não comer o gato que mora lá.

Ele a encarou não entendendo quase nada que ouvia.

– Eu sei... só estou confundindo você. Não importa... é hora de voltar. Preciso voltar para o que realmente importa. Preciso voltar para minha família!



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Com o passar dos dias, Anne não tinha mais esperanças de receber um telefonema avisando sobre qualquer coisa ou decisão tomada. Tudo tinha terminado da pior forma possível. Nem o vídeo que enviara para o celular de Lisa foi capaz de mudar o triste destino da situação.

Suas lágrimas caíam sem controle quando ela entrou dirigindo seu carro, passando pelos portões da enorme casa que um dia foi o lar de sua melhor amiga e que hoje, pertencia a ela por causa do testamento. Todavia, ela não queria aquele bem para si.

Era a última vez que Anne pisaria naquele lugar. Tudo seria vendido e o dinheiro arrecadado seria doado a alguma instituição de caridade. Ela não odiava Lisa, afinal Nick foi precipitado e agiu movido por uma vingança cega que foi capaz de ofuscar o amor deles.

O que é pior, receber a notícia que Nick matou V., o pai do filho de Lisa ou saber que ele foi executado por isso? Tal questionamento, ainda habitava os pensamentos de Anne, porém eram dispensáveis. Ela errou. Ela deveria ter contado a ele que Lisa ainda estava viva quando teve oportunidade.

O remorso lhe corroia a alma. Anne guardou o segredo da amiga que considerava ser sua irmã e com isso, o homem que amava, morreu.

Anne havia perdido ambos e isso estava a matando aos poucos.



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Em meio aos escombros do “Rancho Montana”, Évora vivia escondida, articulando seu plano, sua vingança contra Eligor. Matando Lisa, ela finalmente acertaria seu alvo. O Rei dos Exércitos de Lúcifer receberia um golpe tão forte que seria seu fim.

Tudo havia sido queimado. Quem fez o serviço não queria que restasse nada, nenhum vestígio do lugar que havia abrigado o martírio de Lisa. Sentindo seu sangue ferver pela proximidade de seu objetivo, ela começou a colocar em prática a primeira parte sórdida, enquanto ainda era dia.

– Julia... – chamou Évora mentalmente – Sei que pode me ouvir...

Passivamente ela esperou saboreando os minutos. Tinha certeza de que a despreparada adolescente lhe responderia.

– Eu já esperava seu silêncio, não é nenhuma surpresa para mim. Mas eu vou dizer assim mesmo o que quero que faça. Se você quiser que Lisa continue viva... venha até mim. Até o Racho Montana e não diga nada a ninguém. Estou dentro de sua cabeça, sei o que faz e o que sente.

Évora concedeu alguns segundos no mais profundo silêncio para que a afirmação minasse as certezas de Julia e a dúvida começasse a se alastrar como uma sombra por suas ideias, confundindo seus pensamentos.

– Eu a encontrei. Sei exatamente onde Lisa está e se você não vier ao meu encontro dentro de uma hora. Eu vou matá-la, ainda tenho aliados do outro lado e eles farão isso sem hesitar.

Mais uma vez não houve resposta. Então, Évora continuou.

– Se bem que talvez a morte de Lisa seja até uma saída para a sua vidinha pequena e sem graça – a feiticeira suspirou profundamente demonstrando desprezo – Talvez você esteja esperando por isso, talvez seja seu maior desejo. Assim, finalmente, você poderia ficar com o homem dela e tê-lo só para si. Afinal você o ama. Quer que eu mate o filho deles também?

Não acredito em você, você é má e... – gritou Julia.

– Então, pague para ver, garota... e ela nunca mais acordará. Consegue viver com isso, Julia? Com a culpa sobre seus ombros? Consegue jogar com a provável morte de Lisa ou será que só precisa de tempo para perguntar ao vampiro apaixonado por ela o que você deve fazer? – as palavras certeiras atingiram a alma de Julia como flechas envenenadas, Évora estava certa. Ela não tinha nada a perder. – Acha realmente que ele escolheria sua vida a da mulher que ama? Você não tem nada, você não é nada. Portanto trate de vir até mim agora mesmo e fazer o que é certo ou sua amiguinha nunca mais despertará do seu sonho de Branca de Neve.

A ligação mental foi cortada e Julia não conseguia mais se conectar com Évora. Era claro a superioridade dos poderes que a feiticeira exercia. E se ela falasse a verdade? E se Lisa estivesse realmente em perigo?

Apavorada com a situação, Julia saiu de seu quarto para verificar o estado de Lisa, só que ao passar em frente ao imponente espelho bisotado com moldura em bronze que adornava a parede lateral, a verdade de sua condição foi revelada sem qualquer bálsamo.

Lá, expressos mortalmente, os números, a marca que ela sempre via quando uma pessoa estava próxima da morte. Estampados em sua testa, como uma contagem regressiva.

Ah... ela tinha tão pouco tempo! Seu corpo estremeceu perante o infortúnio que caía sob sua vida não vivida, mas ainda assim, mesmo o medo dominando sua mente, faria o que era certo. Por um momento Julia se permitiu sentar no chão, sob o tapete persa caríssimo, uma antiguidade, que escondia o piso de madeira de seu quarto.

Seu quarto? O quarto não era dela, aquela não era sua família... ela nunca teve uma família. Não passava de mais uma criança abandonada das ruas de Praga. Uma aberração. Sempre sendo jogada de uma Instituição Governamental para outra. Às vezes simples orfanatos e nos piores dias Reformatórios para crianças com problemas mentais ou como diziam os especialistas, suspeitas de homicídios cruéis, que era o que constava em sua ficha médica. Praticamente uma psicótica.

Até que fazia sentido, o destino era brincalhão e implacável. Ela saiu de Praga com a ajuda de Évora era justo terminar seus dias com a ajuda dela novamente. Évora seria a última pessoa que ela olharia nos olhos antes de morrer. Julia passou as mãos pelo rosto e arrastou-as pelos cabelos compridos. Quando finalmente se levantou do tapete o olhou de novo para o espelho, notou que havia desperdiçado oito minutos com pensamentos que não a levariam há lugar nenhum e que, muito menos, mudariam seu fim.

Como se cumprisse um ritual, ela ajeitou a roupa que usava sobre o seu corpo, esticou a camiseta preta e remexeu o quadril para que a calça jeans ficasse no lugar, calçou seus tênis All Star e finalmente abriu a porta. Caminhou de cabeça erguida pelo corredor das Estátuas, apreciando pela última vez a imponência do ambiente. Passou em frente do escritório do Rei, a porta estava fechada e chegou à escadaria.

Aproveitou a descida dos degraus notando peculiaridades que nunca tinha percebido anteriormente, continuou andando até entrar na cozinha e se deparar com dois doggnes que trabalhavam para aprontarem o jantar e em se importar como aquilo era estranho para eles, já que nunca havia entrado na cozinha da mansão.

– Ah... olá... onde está o Fritz? Ele saiu?

– Não, foi até a lavanderia – respondeu um doggen que colocava uma torta no forno – Precisa de alguma coisa, Senhora?

As chaves dos carros utilizados pela criadagem, estavam penduradas próximo ao batente da porta e cada uma delas exibia um chaveiro com a marca e a cor do carro correspondente. Tudo era muito organizado. Julia logo pensou que não poderia pegar as chaves do BMW ou do Mercedes, já que eram utilizados por Fritz quando ele saia com Beth, ou Mary, ou... enfim, era melhor um utilitário para cruzar os portões, não chamaria a atenção e assim, não seria notada. Pelo menos, a princípio.

– Um sanduíche – respondeu sem pensar, tentando ganhar tempo – E... n-não achei uma blusa de botões acinzentada, com um bordadinho na gola, queria saber se ele a encontrou.

– Entendo. Eu farei o sanduíche Senhora e depois...

– Não! Pode deixar, eu mesma faço... sou enjoada para comer. Não gosto de muita coisa, mas agradeço sua ajuda se fizer a gentileza de procurar por Fritz e perguntar sobre minha blusa.

– Com certeza Senhora.

O doggen fez uma pequena reverência e saiu rumo à lavanderia. Não havia dúvidas, esse era o momento de agir. Julia ainda teve tempo para abrir a embalagem do pão de forma e passar uma generosa camada de pasta de amendoim e foi nesse momento que o outro empregado que estava cozinhando se virou para olhar e mexer o molho que fervia no fogão.

Era o que Julia esperava. Num rápido movimento ela pegou as chaves da Pic-up Ford e tentou escondê-las no bolso da calça, porém deixou cair o chaveiro no chão. Sentindo uma agonia tomar seu corpo, ela pisou em cima das chaves e num impulso violento para distrair a atenção do doggen que se virava, empurrou e derrubou o vidro de pasta de amendoim espatifando-o no chão.

– Droga! Eu sinto muito – disse ela abaixando-se.

– Senhora, por favor... deixe que eu faço isso, eu limpo – o doggen abriu uma das gavetas da pia e retirou alguns panos, enquanto Julia se levantava e escondia as chaves em um de seu bolsos.

– Obrigada e me desculpe pela falta de jeito – disse sem graça.

– Foi só um acidente, Senhora.

– Acho que vou atrás de Fritz também e me desculpe mais uma vez.

Ela saiu da cozinha e andou rapidamente em direção a garagem. Andou rapidamente porque sua vontade era de ir até o “Buraco”, até o quarto de Vishous e contar tudo o que estava acontecendo. Queria que ele pudesse lhe dar uma solução, queria ver se Lisa estava bem, se as coisas poderiam ser resolvidas de outro jeito, se havia alternativa para o que estava por vir... com todos esses pensamentos pulsando em sua cabeça, Julia começou a correr!



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Como é maravilhosa a sensação de despertar de um pesadelo. É tão compassivo quanto o sol raiando depois da temida tempestade.

Lisa abriu os olhos e esperou que a imagem se revelasse nítida e inegável diante de si. Primeiro o teto, depois as paredes negras, os inúmeros livros empilhados, a enorme TV de Plasma. Antes de seu cérebro compor totalmente o quarto, havia um odor. Sim... uma fragrância peculiar de tabaco turco misturada ao cheiro de especiarias.

Vishous!

Seu coração disparou no peito, arrebatado pelo amor imenso e pela dolente saudade. Sem maiores gestos, ela moveu sua cabeça devagar e olhou para o lado da cama. Lá estava ele... deitado ao seu lado, dormindo profundamente com sua mão direita brilhante entrelaçada a dela, como se sua vida dependesse daquele agarre. Ela sentiu o calor do contato e também o suor no meio dos seus dedos e era tão bom, tão natural, tão íntimo e familiar.

Deus, ele é magnífico. De uma beleza bruta e indomável. Mechas de seu cabelo preto caíam por cima do rosto quadrado, escondendo parcialmente sua tatuagem na têmpora direita. Sua barba estava crescida e acentuava ainda mais o cavanhaque, dando-lhe um ar sinistro e perigoso, como se isso fosse possível. Ela lembrou do brilho de seus olhos adiamantados... podia vê-los antes mesmo dele despertar, mas Lisa não o acordaria... estava aproveitando o retorno, o momento. Estava se perdendo no contentamento do regresso ao lar.

Então, notou que Vishous mantinha seus lábios cerrados, em uma linha fina como se sentisse dor. Seu maxilar expressava uma dureza polida e entre os olhos, sua testa estava franzida. Ele estava sofrendo, preocupado com o futuro.

Movendo a mão que estava livre, Lisa tocou-lhe suavemente o peito na altura do coração.

– Meu amor... – disse murmurando baixinho.

– Lisa.

Enfim, o brilho do olhar de seu macho pairava sobre ela e se lhe perguntassem o que aquilo significava, não saberia descrever com simples e banais palavras. Por mais que essas fossem profundas, honestas e completas.

V. pulou estremecendo, despertando instantaneamente e sentando-se depressa na cama.

– Lisa – um terror tomou-lhe o peito, queria dizer tantas coisas, mas sabia que o tempo com sua amada era curto. Então começou a soltar as frases rapidamente, tentando falar tudo que estava guardado em seu cérebro genial antes que a febre retornasse – Eu te amo. Está tudo bem. Stronger está bem. Beth, Bella... as shellans cuidam dele com carinho e...

– Vishous...

– Não! Espere... deixe-me falar – os olhos do macho estavam repletos de emoção – Demore o tempo que demorar, eu estarei aqui. Estarei sempre aqui, eu esperarei por você. Vai dar tudo certo, nós teremos um futuro, eu amo você, não posso te perder. Você é o amor da minha vida, sem você...

– Vishous, acabou – ela estendeu o braço e toco-lhe o rosto transtornado, acariciando-o – Eu voltei, amor. Não vou mais a lugar algum.

Com um movimento de posse, V. a agarrou e lhe abraçou fortemente, tanto que o ar não chegava aos pulmões de Lisa. Ele mergulhou seu rosto por entre os cabelos de sua amada e se permitiu chorar de alegria e ela lhe acompanhou.

Não se sabe ao certo quanto tempo permaneceram naquele abraço, um ou cinco, talvez dez minutos. Até que se afastaram, os olhares fixos um no outro.

– Precisa comer. Vou alimentar você, leelan – não era um pedido, era uma ordem e Lisa sorriu, seu macho arrogante, dominador e mandão estava de volta.

Ele se levantou, pegou o telefone e pediu um pouco de tudo que podeia ter na cozinha da mansão, o que quer dizer, que trariam comida para um batalhão.

– Eu queria tomar um banho – pediu Lisa.

– Depois de comer.

– Por favor. Sentirei-me melhor – argumentou.

– Eu banhei você, cuidei de você enquanto...

– Eu sei, mas realmente gostaria de um banho, V. – ela colocou a cabeça de lado, quase que implorando – Você pode me ajudar se quiser.

Como se isso fosse negociável.

– Está bem, vou abrir o chuveiro. – ele foi em direção ao banheiro, porém retornou ao telefone para falar com um Fritz – Peça que venham trocar a roupa de cama, agora!

Mais uma vez Lisa sorriu... se dando conta que realmente sentiu falta daquela arrogância.



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Julia olhava para os escombros que um dia representaram uma bela casa. Não sobrou nada do Rancho Montana, Vishous havia queimado tudo, até a placa de entrada estava caída ao chão consumida pelo incêndio. Cuidadosamente ela procurou por Évora, mas não viu a feiticeira.

Olhou uma última vez no espelho do carro. Seu rosto, sua testa e os números que ali estavam. Qual seria o pensamento que deveria ter naquele momento?

Ela levou à mão a maçaneta e destravou a porta do veículo, abrindo-a totalmente.

O golpe foi rápido, certeiro e irrefragável. A lâmina aguçada da navalha de prata mergulhou na garganta de Julia abrindo-a totalmente. Não ouve tempo sequer para uma única palavra ou som.

Enquanto o corpo caía ao chão sem vida, a única preocupação de Évora era evitar o mínimo de desperdício do precioso sangue, já que ela precisava beber todo ele, para se transformar na adolescente e assim cumprir seu plano.

Finalmente chegava a tão esperada hora de sua vingança e ela esmagaria a todos sem compaixão. Não tinha certeza de que o “despertar” de Lisa pudesse ter terminado, caso isso fosse verdade, há essa hora ela seria imortal.

A imortalidade de Lisa não assustava Évora, afinal ela conseguiu sobreviver por séculos usando seu conhecimento e a poderosa Magia Negra. Nada foi capaz de detê-la, nem mesmo Eligor, que subestimou sua inteligência e perspicácia.

O momento tão esperado havia chegado, apresentando-se melhor do que a própria feiticeira pudera supor ou prever. Ela entraria na mansão como Julia, ninguém conseguiria notar o feitiço, tinha vinte e quatro horas para concretizar seu apocalipse.

Vampiros, anjos, demônios e até a poderosa Lisa, não seriam capazes de sentir a alma da garota morta, já que todo o sangue dela tinha sido consumido por Évora. E uma vez dentro da fortaleza, esperaria o momento certo e... mataria o bebê.

Sim! Não poderia haver dor maior para Lisa e Eligor. Ela triunfaria diante de seus inimigos e a feiticeira imortal viveria para sempre com o martírio e a culpa de não ter salvado o próprio filho. Sua união com o vampiro sucumbiria, afinal o amor não suportaria a carga do engano, além, é claro, do peso da morte de Julia que também a assombraria.

Por fim, Lisa se transformaria... primeiro seria corroída pela mágoa e depois sua alma, aos poucos, tornar-se-ia funesta, danosa, agourenta, tétrica e sombria. No final, a profecia se realizaria e diante de tamanha maldade sobre a face da Terra, não haveria alternativa a não ser aprisioná-la nos confins do Inferno e isso enfraqueceria Eligor, seu reinado perfeito cairia e as tropas que comandava com tanto orgulho se voltariam contra ele.

Seria perfeito!



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A casa da Guarda ficou pequena, os Irmãos e suas shellans, todos, queriam compartilhar a alegria pelo retorno de Lisa.

O último casal a chegar foi Wrath e Beth, a conversa fluía em tom descontraído e era gratificante ver Lisa segurando seu filho nos braços.

– Seja bem-vinda, Lisa – saudou o Rei.

– Obrigada Wrath. Estou feliz por estar em casa.

Beth lançou um abraço carinhoso em Lisa e aproveitou para beijar a testa de Stronger que dormia, apesar do barulho e das vozes que se misturavam. Foi Raghe que chamou a atenção de todos após olhar o monitor que exibia imagens do circuito fechado das câmeras de segurança.

– Que merda é aquela que está diante das portas de entrada? – sua voz saiu alta e perigosamente sinistra – Vejam.

Os machos saíram do quarto e foram averiguar sobre o que Raghe falava e não acreditavam no que viam.

– Um leão alado? – perguntou Z.

– Seu rosto é quase humano? – disse Butch – Que porra é essa?

– Não podemos sair para matá-lo, ainda é dia. – argumentou Phury – O que faremos?

– Vamos esperar, falta pouco para o anoitecer – falou Wrath – E comecem a descrever o que vêem nos mínimos detalhes já que não posso vê-lo.

– Com certeza trata-se de uma besta maligna – Vishous olhou para seu quarto preocupado – Deve ter vindo atrás de Lisa.

– Não se preocupe, ele jamais colocará suas garras sobre ela – afirmou Raghe – Vou transformá-lo em pó.

– Jesus Cristo! Esqueci completamente – disse Lisa saindo do quarto com um sorriso divertido – Está vendo só, o que você faz comigo V.?

Todos a olhavam como se ela fosse uma alienígena. Que diabos estava dizendo?

– É uma “chimera”, uma criatura mística. Criado a partir da fusão de um ser humano com um animal. O nome dele é Guardyan, ele é o meu guardião. Errei ao pensar que era Raghe ou V., mas com ele eu sinto a ligação. Eu o trouxe para cá, ele lutou por mim quando eu estava em perigo – ela olhou séria para Vishous e depois para Wrath, e o Rei soube exatamente quando isso aconteceu – Eu ia conversar com você. Pedir sua permissão...

– Minha permissão? Para quê, exatamente, Lisa? – rosnou o Rei.

– Fiquei tão feliz ao ver todos vocês... me esqueci completamente que ele estava esperando do lado de fora – ela caminhou para mais perto do Rei, parando a sua frente – Guardyan não é do mau. Ele tem um bom coração, é leal e fiel... posso sentir, e com todo o respeito, meu Senhor, gostaria de lhe fazer um pedido.

– Meu Senhor – zombou Wrath – Desde quando você me chama de Senhor? Deve ser um pedido e tanto, não é mesmo?

– Sim. – murmurou Lisa sem graça.

– Então o faça. – ordenou seriamente.

– Peço, com todo o respeito, que Guardyan seja aceito nesta casa como eu fui.

Wrath não exibiu qualquer reação, seu rosto era uma máscara fria e seus sentimentos indecifráveis enquanto analisava o estranho pedido. Por fim, se pronunciou sarcásticamente.

– Desde que ele não coma qualquer um de nós, tão pouco Boo ou meu cachorro... está feito.

As risadas se espalharam e Lisa ficou tão feliz que abraçou o Rei fortemente, enquanto que V. rosnava ao fundo, vigiado discretamente por Butch e Z que se colocavam na frente do macho possessivo.

– Ele não vai comer ninguém, prometo. Afinal, vocês são a minha família. – Lisa disse sorrindo.

Ela soltou o Rei e olhou para todos, emocionada, foi quando notou que Eligor, Legassa e Lassiter também estavam na sala do “Buraco”.

– Por falar em família... temos um assunto desagradável para tratar com você, minha filha.

A temperatura caiu, tornando o lugar frio em questão de segundos. Eligor se aproximou e beijou Lisa no rosto, mantendo-se distante emocionalmente.

– O que foi? O que aconteceu pai?

– Caralho, será que não pode poupá-la por mais algumas horas, Eligor? Ela ainda está cansada e fraca – V. deu um passo na direção do demônio.

– Quanto antes terminarmos com isso, mais rápido poderei matá-lo. Já esperei tempo demais. – respondeu Eligor imponente.

– Do que é que ele está falando, Vishous? – ela se virou olhando-o confusa.

V. passou a mão pelos cabelos, desesperado, ainda não era hora para colocar Lisa em xeque. Não sabia como ela poderia resistir à pressão e ao que estava por vir. Enquanto ele buscava formar uma frase que não soasse tão impactante, Eligor disparou claramente.

– Seu amigo. Ele tentou matar Vishous, na noite em que você deu a luz. O homem mau que habitava seus piores pesadelos é ninguém mais do que Nick, seu ex-segurança.

– Não, n-não pode ser – gaguejou, suas palavras saíam picotadas pela dor que sentia – Eu vi no meu sonho um homem pálido, de cabelos brancos e...

– Nick se juntou a eles, Lisa. Estava tudo planejado e agora não há mais nada que você possa fazer – Eligor falava firme, expressando um propósito mortal – Ele é tão monstruoso, ou talvez pior, que os redutores.

– V? – Ela olhou para seu homem esperando que ele desmentisse, buscando alento.

– Sinto muito – murmurou Vishous, aproximando-se – Só estou aqui, porque Eligor me salvou. Ele recebeu o tiro no peito por mim, me protegeu da eminente morte.

Lisa fechou os olhos e sentiu o peso da traição. Nick era seu amigo. O cara que cuidou dela quando estava drogada, no fundo do poço, retirando-a de boates e de cenas escandalosas que, sem dúvida, manchariam cada vez mais a sua carreira. Ele era mais do que apenas um segurança fazendo o seu trabalho. Ele sempre estava por perto, ele e Anne... Ah, que porra!

Anne...

Porém, Nick nunca simpatizou com V., nunca houve uma palavra de consolo ou compreensão. Apenas desconfianças e críticas. Podia ouvir as palavras de Nick ecoando em sua cabeça, na última discussão que tiveram:

– Ele é perigoso.... Você tem que tomar cuidado... Se ele fizer você sofrer eu o mato.

– Não existe perdão, Lisa – disse Eligor furioso – Vamos acabar logo com isso. Nick vai morrer hoje. Estou aqui para matá-lo.

– Pai... – ela arregalou os olhos, mas parou de falar, não podia defender o homem que quase tirou a vida de V.

– O que está feito, está feito. Olho por olho, a vida é assim Lisa, chegou à hora de você aprender essa lição, porra. – Eligor se dirigiu para a saída, para cumprir a sentença de morte.

– Espere – gritou Vishous – Quero que Lisa veja isto antes que você faça uma coisa de que certamente irá se arrepender.

– Me arrepender? – grunhiu o demônio – Acho difícil.

V. tirou um celular de uma das gavetas da mesa onde seus computadores de última geração faziam sua mágica e depois de ligar e apertar algumas teclas entregou-o para Lisa.

– É o seu celular... tem uma mensagem de Anne. Várias, aliás, de alguns dias atrás, com um vídeo anexo – ele olhou diretamente dentro dos olhos de sua fêmea e ordenou – Assista.

O pedaço da vida filmado ali, era bem conhecido por Lisa e ela o reconheceu imediatamente. Dois anos já havia se passado...

O jardim de sua antiga casa. Ela tinha recebido alta da Clínica de Reabilitação, estava estável, porém muito deprimida. Sentada em um dos sofás, Lisa apenas apreciava a beleza do local, imóvel e infeliz... até que surge Nick com seu largo sorriso, trazendo um violão em uma das mãos e na outra um bongô.

– Vamos tocar e cantar princesa- seus dentes brancos constratavam com sua pele negra – Você está precisando de uma boa dose de música.

– Não estou no clima. – respondeu mal humorada.

– Eu já estou filmando – a voz de Anne soou alta, mas não era possível ver a loira.

– Qual é... vai me deixar cantar sozinho? – perguntou Nick.

– Por favor, Lisa, ajude! Nick é péssimo cantando – disse Anne.

– O quê? Ahhhh... Anne, assim você acaba com o meu ego.

E Lisa sorriu, anestesiada.

Ela se sentia tão perdida e vivia amedrontada, tinha medo de ficar totalmente desequilibrada e acabar como sua mãe, internada em um hospício. Louca, demente. Mesmo assim... sorriu. Seus amigos, seus únicos e verdadeiros amigos tinham o poder de fazer isso acontecer, amenizar sua dor e seu desânimo perante a vida.

– Ela tem razão, Nick – concordou Lisa forçando-se a viver.

– As duas contra mim? Não posso acreditar. É praticamente um complô (nessa hora a imagem tremeu. Anne também estava rindo).

Nick, então, esticou o violão na direção de Lisa e ela o pegou de bom grado.

– Walking on Sunshine – afirmou ele.

– Vamos cantar algo mais calmo.

– Não, Lisa! Walking on Sunshine. Essa música sempre deixa você melhor. É divertido ver como você se transforma ao cantá-la. E no fim é sempre a mesma coisa... você começa a tocar de novo e de novo e de novo. Vamos lá!

As primeiras notas soaram e em menos de um minuto a energia mudou. Lisa cantava alto a plenos pulmões, com uma alegria contagiante, enquanto Nick batucava o bongô. O sorriso largo estampado em seu rosto demonstrava que a melancolia estava se perdendo, dando lugar a um recomeço...


– Não concorde com a morte de Nick, Lisa – falou Vishous baixinho, tirando-a do passado.

Ela o olhou surpresa, com olhos arregalados. Como poderia poupar a vida de um homem que quase matou o pai do seu filho e seu amor?

– Foi o desespero. Nick não sabe que você está viva. – V. respondeu a pergunta sem que ela precisasse pronunciá-la.

– O que ele fez não tem perdão – cuspiu Eligor – Se tudo tivesse sido diferente, nem seu filho você teria conhecido.

– Jesus Cristo. – Lisa sentiu suas pernas falharem, seu pai tinha razão. Ele dizia a verdade.

– Nick pensa que eu sou o culpado pela morte dela. Pense Eligor. Será que você não agiria da mesma forma? – argumentou Vishous com o mesmo tom de voz ameaçador do demônio – Não é exatamente isso que está querendo fazer agora? Assista a esse vídeo...

– Chega. Já basta! Não estou pedindo autorização, não preciso dela – e virou-se para sair.

– Sou grato por salvar minha vida, mas aqui, não é seu reino – rosnou V. ameaçador – Portanto você precisa de autorização... precisa da palavra do Meu Rei e eu não estou escutando a voz dele.

– Pai... – Lisa correu ao seu encontro, agarrando-se a ele tentando evitar um confronto – Espere, por favor.

– Não, seu amiguinho morre agora! – rebateu sem se importar com as represálias.

– Não pai! Nick não tem que morrer – as lágrimas começaram a correr pelo seu rosto – Ele é um homem bom que cometeu um erro terrível e é também um grande amigo. O único que eu tive por vários anos, ele me protegeu de tanta coisa, principalmente de mim mesma. V. tem razão. Perdoe, por favor.

– Essa palavra não faz parte do meu vocabulário.

– Então esqueça... por mim, por seu neto. Estou implorando, pai – entre soluços Lisa tentava argumentar – Jamais poderei retribuir o que fez por Vishous, você salvou a vida dele e serei grata eternamente.

– E eu também – disse V. – Com toda a minha honra e respeito.

– Não quero agradecimento fudido nenhum. Fiz o que era certo – o demônio cuspia as palavras.

– Pois continue fazendo – sussurrou Lisa, agarrando-se mais ao pai – Tudo que ele fez foi movido por vingança e foi errado... Pai, será que não vê? Estamos vivendo o mesmo impasse aqui. Você quer vingança também.

Apesar de não responder, uma chama brilhou no olhar de Eligor, ele se surpreendeu ao escutar as últimas palavras de sua filha. Ela não deixava de ter razão.

– Sábias palavras, Lisa – falou Wrath.

O Rei se aproximou e colocou sua mão forte sobre o ombro de Eligor.

– Vamos Eligor, vamos beber. Comemorar que sua filha retornou para nós – Wrath sorriu e acrescentou – Reis são teimosos e também cometem erros, meu amigo. Às vezes não escutamos nosso coração e somos movidos pela animosidade. Sei bem do que estou falando.

O gesto, assim como as palavras pareceu surtir efeito, Eligor baixou a guarda pensativo.

– É uma boa hora para soltar o prisioneiro – ordenou Wrath calmamente.

– Sim – concordou Lisa – Vou falar com ele, vem comigo V.?

O casal passou pela porta no mesmo momento que Beth estendia uma cerveja para Eligor.



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O barulho da tranca de ferro ressoou pelo calabouço.

– Não vou nem perguntar o que esse lugar significa. – disse Lisa com uma sobrancelha arqueada.

– É melhor – respondeu Vishous, escancarando a porta – Eu entro primeiro.

Acorrentado à parede estava Nick, deitado com um braço sobre o rosto, ele sequer se incomodou em olhar quem entrava, com certeza era o velho empregado trazendo comida.

A cela era pouco iluminada, recebia apenas a luz do dia por uma janela com grades e Lisa se entristeceu ao pousar o olhar sobre seu amigo.

– É hora de conversarmos – falou V.

– Não perca seu tempo – disse Nick, continuando na mesma posição – Dá minha parte não há arrependimentos.

– Pois deveria – Lisa passou a frente de V. e deu dois passos em direção ao amigo – Já que eu me arrependo de não ter dito a você que estava viva.

Nick pulou sobre a cama, seus olhos viam Lisa viva, mas seu cérebro emitia um aviso de que tudo não se tratava apenas de alucinação.

– Como consegue fazer isso? – gritou para Vishous – O que ela é?

– Lá vamos nós – desdenhou o vampiro friamente – Não a reconhece? Vou ter que explicar? Que tal se eu começar a soletrar?

Lisa lançou um olhar torto, expresso em um rosto de desaprovação para V.

– Você não está ajudando – acrescentou balançando a cabeça em negativa.

– Quem fez a pergunta idiota foi ele, não eu.

– Isso vai ser pior do que eu imaginava – suspirou profundamente buscando as palavras certas e depois começou a falar calmamente – Nick... escute com atenção. Estou viva, sou eu mesma... e sinto muito por ter mentido para você, mas eu tive meus motivos e para ser bem sincera, não posso lhe explicar a maioria deles.

– Lisa? – Nick perguntou ao se levantar, assombrado com a presença dela – É você mesma?

– Sim – para provar, ela correu para ele e o abraçou com ternura. – Estou aqui.

Com o passar de apenas dois míseros segundos, Nick sentiu o calor do corpo de sua amiga, o coração batia disparado e a emoção dos braços ao seu redor era real. Então, exultado retribuiu abraçando-a fortemente. Uma de suas mãos a agarrou pela cintura, enquanto que a outra lhe puxava para mais perto, na altura dos ombros. Sua amiga tinha voltado, estava viva.

O momento não durou! Com um único golpe Vishous o afastou de Lisa e o jogou de volta a cama que ficava encostada na parede.

– Chega – rosnou o macho, enquanto um perfume de especiarias se espalhava pelo ar – Acho que já deu para entender que ela está viva.

– Vishous... – mas Lisa não teve tempo de argumentar, os olhos possessivos de V. cravaram-se sobre ela como flechas envenenadas.

– E você – disse raivoso – Vai parar de sair por aí abraçando todo mundo.

– Vai sonhando – respondeu Lisa com um sorrisinho desafiador no rosto enquanto o afastava – Sai da frente, V.

Ela circundou seu macho e foi se sentar ao lado de Nick, na cama.

– Vamos começar novamente, desta vez...

– Que educação ele tem! – disse Nick sarcasticamente.

– Bem, pelo menos ele não atirou em seu peito. O que me faz deduzir que ele é mais educado do que você. Nunca duvide disso.

– Boa garota. – grunhiu V. com um sorriso velado ascendendo seu cigarro.

O semblante de Lisa mudou, tornou-se sombrio e carregado depois da afirmação. Sua voz soou forte e profunda. Apesar de entender os motivos de Nick, ela não os aceitava e pensar que poderia ter perdido Vishous para sempre era doloroso e inaceitável, o que a deixava mais instável.

– Você foi longe demais – falou autoritária – Passou dos limites. Juntou-se com seres repugnantes e malévolos para atingir o seu objetivo. Ficou tão cego por vingança que se esqueceu de Anne, da mulher que você ama e de quem realmente é.

Um grande silêncio se instaurou, foi incômodo para Nick, porém para V. que permaneceu com o corpo encostado na parede e com os tornozelos cruzados foi divertido.

– A história é muito comprida, mas resumindo quem tentou me matar, por mais irônico que possa parecer, foram os redutores, ou seja, os seus novos amiguinhos.

Como se isso fosse possível Nick arregalou mais os olhos e uma grande frustração inundou sua alma. A verdade era que Lisa estava diferente de um jeito que ele não conseguia compreender, mas não era uma coisa ruim, pelo contrário, apesar da vergonha que começava a sentir por suas escolhas erradas e seus atos defeituosos, ele notou com facilidade a transformação... ela estava segura.

– Eu não sabia que...

– Ainda não terminei – ela ajeitou uma mecha de seu cabelo e passou para trás da orelha, o que ia revelar era extremamente íntimo – A culpa não é exclusivamente dos redutores, eles contaram com uma ajuda inesperada.

Lisa sentiu o corpo estremecer ao se lembrar da maldade de Évora e de como era fácil para ela manipular as vontades de Paul. Por um breve minuto hesitou e lembranças horríveis do cativeiro surgiram em sua mente. V. se remexeu junto à parede ao sentir o cheiro da tristeza de sua fêmea, mas não interferiu. Sabia que aquele momento pertencia exclusivamente a ela.

– Só resisti... só consegui sobreviver a tudo porque eu sabia, eu tinha certeza de que Vishous me amava – uma lágrima solitária escorreu silenciosa por seu rosto – O amor dele me transmitia coragem, me manteve viva... o amor e o filho que eu carregava.

Lisa olhou para o seu macho e sorriu, em seu rosto estava estampada a paixão que sentia.

– Quero que você entenda de uma vez por todas Nick, que V. jamais me faria mal. Ele foi a minha salvação. Não posso e também não quero lhe contar tudo... é um dos meus segredos. Nem você e nem Anne precisam saber e espero que entendam o meu posicionamento.

– Um filho? Um menino? – perguntou emocionado entrelaçando suas mãos as dela, enquanto Lisa confirmava balançando a cabeça – Meu Deus... eu sou tio.

– Ahhhh Nick... ele é tão lindo.

Ela abriu um grande sorriso ao olhar nos olhos do amigo percebendo que Nick tentava conter as lágrimas e tornou a abraçá-lo.

Vishous rosnou do outro lado da cela e mesmo sem olhar para ele Lisa pôde sentir que o macho fechava suas mãos, transformando-as em punhos. Ela emitiu um som que ficava entre um soluço de preocupação e uma risada de “estou louco de tanto ciúmes”.

– Sim. Você e Anne são tios – respondeu livrando-se do abraço, antes que V. explodisse.

Nick se pôs em pé em um gesto inesperado e aproximou-se, o mais que a corrente presa ao seu tornozelo permitiu, de Vishous. Ergueu a cabeça e olhou diretamente para ele.

– Eu me envergonho do que fiz e se pudesse voltar atrás... teria escutado Anne, teria parado para ouvir o que ela queria me dizer. Não posso negar que senti algo estranho, algo muito ruim, ao falar com aquele homem pálido. Meu desespero e minha sede de vingança poderiam ter arruinado a vida de Lisa e de seu filho. – Nick pigarreou antes de continuar, sua boca estava seca – No final eu me transformaria no portador da escuridão que sempre a assombraria. A escuridão que eu sempre tentei afastar dela.

Lisa posou a mão sobre seu coração. Tudo era verdade. Nick sempre a protegeu de tudo e todos, porém, o mais importante e espantoso disso tudo é que ele a protegia dela mesma. A protegia de seu desejo auto-destrutivo e isso incluía uma grande lista de itens vergonhosos como drogas e escândalos.

– Pedir perdão, chega a ser estúpido... já que quase lhe tirei o direito de conviver com seu filho e com Lisa. Mesmo assim, eu peço que me perdoe – Nick fechou os olhos como se sentisse dor — Eu não mereço ser perdoado, mas quero que saiba que tudo que fiz foi porque Lisa significa muito para mim. Ela é a preciosa, é especial...

– Você não precisa enumerar as qualidades de minha fêmea. Eu conheço todas elas – disse V. cheio de orgulho e arrogância – Quanto ao que aconteceu... vamos esquecer.

Nick abriu a boca, depois fechou e tornou a abrir novamente. As palavras não saíam. Aquele homem tinha dito esquecer. Não era o tipo de pessoa que esquecia que alguém o tentou matar... ele estava relevando e esquecendo por Lisa.

– É hora de você ir – continuou V. – E acredito que não preciso dizer sobre manter a boca calada...

– É claro que não – interrompeu Lisa, levantando-se da cama — Não é necessário.

– Tem minha palavra e minha lealdade, jamais direi uma palavra sobre o que se passou e...

– Já entendemos Nick. Agora... você quer conhecer meu filho ou quer fazer isso ao lado de Anne?

– Não sei se... – tinha tantas dúvidas quanto a reconquistar Anne.

– Vá se entender com ela e depois eu apresentarei Stronger a vocês dois... juntos! – respondeu Lisa confiante.



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Évora cruzou os portões facilmente, as memórias em seu cérebro eram as de Julia e o código de segurança a ser digitado para entrar, surgiu claro e direto. Ainda olhou uma última vez no espelho retrovisor para conferir a imagem da adolescente refletida em si. Ingênua idiota – pensou sobre a garota e sorriu. Tudo estava correndo como havia planejado e em breve o sangue do filho de Lisa mancharia suas mãos.

Seguiu pelo caminho de pedras até avistar a imponente mansão. Meticulosamente olhou ao seu redor. Com olhos de águia analisou o local e suas possíveis rotas de fuga. Se cometesse um erro não seria nada fácil sair dali.

Hora do show.

Estacionou o carro na vaga de garagem que lhe era destinada, puxou o ar para dentro de seus pulmões, estalou o pescoço e abriu a porta.

O ar frio do inverno balançou seu cabelo, jogando-o em frente ao rosto. Sem perceber Évora praguejou ao olhar para os fios escuros, no seu íntimo queria que sua verdadeira imagem estivesse ali.

Calma! Pensou ela contendo o ímpeto de rebeldia e começou a caminhar em direção a porta de entrada. Iria rapidamente para o quarto de Julia e esperaria pela melhor oportunidade.

O destino não é tão previsível quanto se pensa... e a majestosa porta de madeira maciça entalhada com perfeição abriu-se.

Lisa, Vishous e um homem negro saíram. Ela não esperava por esse encontro. Pelo menos, não agora. Só então se deu conta que já havia anoitecido, levou mais tempo do que imaginava para conjurar o feitiço que lhe transformou na adolescente. Merda.

– Julia – chamou Lisa ao ver a amiga.

A falsa Julia abriu um sorriso grande demonstrando toda a emoção pelo reencontro, começou a andar rapidamente e depois correu em direção a Lisa para abraçá-la.

A menos de dois metros de conquistar o primeiro passo para alcançar seu objetivo, Évora teve que estancar a corrida. Uma “quimera” pulou à sua frente, interpondo-se entre ela e Lisa.

Não podia ser verdade. Animais como aquele não passavam de mitos esquecidos, eram extremamente raros e o último registro que se tinha conhecimento de uma interação com humanos datava-se da Grécia Antiga.

– Guardyan, o que está fazendo? – gritou Lisa.

Ele sequer se mexeu, continuou olhando fixamente para a adolescente com um ar ameaçador e em posição de ataque, ele sabia. Era o tipo de criatura que não podia ser enganada por viver entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno... era um dom específico, mas também cruel. “Quimeras” viviam isoladas e solitárias.

Évora estremeceu aterrorizada. Seu feitiço de nada mais valia.

– Lisa, me ajude. Estou com medo – implorou a adolescente.

Lisa começou a descer os degraus quando Vishous a segurou pelo braço.

– Aonde pensa que vai? Você disse que ele era inofensivo para todos desta casa.

– E ele é. Não sei o que está acontecendo – Lisa tentou soltar o braço inutilmente.

– Acha que eu vou deixar você se aproximar daquele monstro? – perguntou indignado – Espere aqui.

Agora era a vez de Lisa retrucar, porém ela não teve tempo suficiente para expor seus argumentos. Atrás deles, um por um dos Irmãos saíam porta afora. Todos armados e prontos para a luta, o último foi o Rei, Wrath.

O que ela tinha feito? Tinha dado sua palavra. Teria se enganado novamente?

– Vamos acabar com essa palhaçada agora. – grunhiu Raghe. – Antes que esse monstro mate a garota.

Todos já sabiam o que estava por vir. A respiração do Guerreiro ficou mais pesada e profunda, o olhar vidrado ameaçador... A Besta estava pronta para sair.

– Não – gritou Lisa e Raghe caiu de joelhos.

A Irmandade não podia acreditar na submissão da Besta perante Lisa. No quê ela tinha se transformado?

– Por favor, solte o meu braço – pediu a V. determinada – Acho que acabei de provar que posso lidar com isso.

Lá estava o impasse. Ele não soltaria e sabendo disso Lisa se desvencilhou dele com um ato brusco, afastando-se para em seguida ficar ao lado do animal.

– Ela é minha amiga – falou olhando para Guardyan, porém ele não desviou o olhar de sua presa.

Qualquer movimento que a garota fizesse, por menor que fosse... ele atacaria.

– É só ordenar, meu Senhor – disse Tohr para Wrath, com o animal na mira de sua automática.

Um rugido selvagem e feroz ressoou, a fera era indomável e estava determinada. Évora tremeu por dentro.

– Matem-no – exigiu desvairadamente a garota – Agora!

O tom de voz... a entonação febril, a inflexão da ordem sem hesitação alguma. Como uma cortina que se abre, Lisa relembrou o cativeiro.

– Faça Évora – pediu Paul.

– Só se eu puder olhar – as palavras soaram inflexíveis. A entonação era febril e maldosa.

O pedido, ou melhor, a condição imposta era repugnante. Queria testemunhar o estupro.

– Você entendeu muito bem – ela se sentou na poltrona de veludo vermelho – Quero assistir, quero olhar para Lisa...

Era isso. Tudo fazia sentido.

Lisa baixou os olhos sabendo que sua amiga, a verdadeira Julia estava morta. Uma dor terrível tomou conta de todo o seu ser e ela teve vontade de gritar para aliviar o peso do seu fracasso. Ela era apenas uma menina, uma adolescente delicada... que estava vivendo sua primeira paixão platônica não correspondida.

O cheiro de terra molhada. O cheiro da dor de Lisa espalhou-se e todos os Irmãos presentes ficaram confusos por não saber o que aquilo significava. Afinal do que se tratava? De onde brotava aquela agonia que era sensível a todos os vampiros?

– Ninguém vai atender à sua ordem – disse Lisa levantando o olhar para a feiticeira. Ela estava mudada, fria como gelo.

– Ele vai me matar, me ajude – Évora ainda tentou dissimular a situação – Você está confusa... por favor.

– Não! Ele não vai te matar, mas eu vou!

Primeiro uma labareda, um pequeno estalo. Depois uma enorme fogueira fervilhava a pouco menos de cinquenta metros.

– Onde o corpo dela está? – perguntou ao se aproximar um pouco mais da ilusão a sua frente.

– O que está dizendo? Não sei...

– Responda a porra da pergunta Évora – bradou Lisa – Caso contrário você vai sofrer muito antes de arder naquela maldita fogueira.

Uma comichão de vozes, todos falavam ao mesmo tempo. Era surpreendente a ousadia da feiticeira de invadir o Complexo e mais surpreendente era assimilar que não era Julia que estava parada na frente de todos pedindo por socorro.

– Ela está no lugar de onde você nunca deveria ter saído – respondeu com voz baixa e ameaçadora – A casa onde você e Paul brincaram de amantes. Tão ligados um ao outro... pelo sexo.

O braço esquerdo de Évora foi arrancado de seu tronco na altura do ombro e arremessado em direção da fogueira. Um grito horrível foi ouvido e a feiticeira caiu ao chão.

Lisa permaneceu imóvel, seu controle era tanto que chegava a ser assustador. O silêncio era quase total, só o peso das respirações era audível e os passos de Guardyan que começou a circular o corpo de Évora.

Eligor e Legassa de repente entraram no campo de visão de Lisa. Foi seu pai que deu um passo a frente.

– Eu cuido disso – disse Eligor tentando contê-la.

– Você já teve sua chance – rebateu Lisa, sem olhar para ele.

Se qualquer outra pessoa lhe tivesse respondido daquela maneira, Eligor o teria feito pagar pelo atrevimento, porém, pensando com sensatez sua filha tinha razão, não tinha? Ele deveria ter matado Évora, todavia não o fez e agora a vadia estava ali, na porta de entrada da nova casa de Lisa.

Uma enorme poça de sangue se formou manchando o chão de pedras. E agora Évora não parecia mais como Julia. A mulher estava distorcida, apresentava uma mistura das duas fisionomias e foi nesse momento de Lisa começou a ler seus pensamentos e descobriu que o alvo não era exatamente ela.

Uma fúria sem precedentes, indescritível, tomou conta do seu corpo.

– Seu ego é tão grande que você realmente acreditou que poderia chegar perto do meu filho? Que teria a oportunidade de matá-lo? – a voz rouca, baixa e mortal de Lisa expressava seu desprezo e atrás dela ouviu-se o rosnado de V. – Eu aprendi muito com Lilith.

Pela primeira vez os olhos de Évora expressaram seu medo.

– Muitas feiticeiras foram mortas na Santa Inquisição. Lembro-me de ter assistido a um flagelo onde a mulher ficava pendurada de cabeça para baixo, suspensa pelas pernas, presa a uma plataforma de madeira. Permanecia nessa posição por cerca de uma hora e depois os inquisidores voltavam. Eles lhe tiravam as roupas e começam a serrar o corpo pelo meio das pernas, nas partes íntimas. Era muito agonizante – a fala era passiva e nesse momento Lisa sorriu diabolicamente, estava tomada pelo mal – Agonizante para quem assiste e principalmente para quem está sendo cerrado ao meio. Já que o sangue acabava se acumulando na cabeça, a feiticeira só morria quando a serra alcançava o peito... os carrascos faziam o sofrimento durar por horas.

Lisa começou a andar na direção de sua inimiga, até se colocar ao lado dela.

– E é exatamente isso que vou fazer com você – sussurrou terrivelmente.

Trovões explodiram no céu. Ventos fortes atingiram o complexo. As árvores balançavam e seus galhos foram forçados a se curvarem perante a força do vendaval, a fogueira pareceu ganhar vida e aumentou de volume até se tornar um ser diabólico. Tudo era escuridão.

Nas profundezas da alma de Lisa só existia ódio. Estava totalmente preenchida pela perversidade, a ruindade corria em seu sangue e as trevas habitavam seu coração.

O cheiro de terra molhada foi substituído por um odor ruim, seco, áspero e mais uma vez todos os vampiros puderam sentir e entender o que se passava com Lisa, afinal a maioria deles já tinha vivido dias negros. Cada membro da Irmandade tinha total consciência do que era se sentir amaldiçoado e totalmente vazio.

Como uma nuvem, centenas de corvos negros pousaram ao redor da mansão e no limite da floresta de carvalhos vultos sombrios espreitavam, aguardando o momento de se mostrarem.

– Maligna... você é maligna, como reza a profecia – Évora levantou a cabeça para olhar no rosto de Lisa enquanto cuspia as palavras – Eu sempre soube. Sempre soube que você sucumbiria.

– Não interessa no que eu possa me transformar desde que você sofra e pereça aos meus pés, sua vadia imunda.

Eligor olhou para os lados e depois para Legassa, mais uma vez ele tentou interceder.

– Lisa se você vai...

– Você teve sua chance e não fez o que deveria ter feito – rebateu com o maxilar travado, quase perdendo o controle – Não se intrometa, quem decide agora... sou eu.

Sem pensar duas vezes no que poderia acontecer, Vishous avançou e se meteu entre pai e filha, apesar dos murmúrios de insatisfação de seus Irmãos.

– Leelan – disse V. com voz calma e centrada – Eu entendo como se sente. Eu entendo seu medo por nosso filho e sua revolta pela vida perdida de Julia.

Ele propositalmente parou de falar e esperou até que Lisa olhasse em seus olhos. Como não houve resposta V. continuou.

– Eu vivia na escuridão, sei exatamente o tamanho do ódio e da fúria que habita sua alma nesse exato momento. Vivi séculos assim.

Mais uma vez não surtiu efeito, o olhar de Lisa estava cravado na feiticeira que se contorcia de dor.

– Vivi séculos na escuridão... até você aparecer e me puxar para a luz – a voz de V. baixou tornando-se quase um murmurar – Você é a luz do meu caminho.

Nesse momento, Lisa piscou. O sangue começou a correr por seu corpo produzindo uma pulsação devastadora em seu peito. Ela sentiu seu coração se aquecendo e o gelo, o congelamento furioso começou a derreter por causa daqueles olhos adiamantados. O olhar lhe aquecia de dentro para fora, afastando-a da realidade tétrica que habitava. Seu macho chamava. Ele estava lhe tirando de um profundo transe nebuloso, do limbo sufocante.

Ele estava trazendo-a para a vida.

Sua respiração ficou rápida. Seu peito subia e descia visivelmente. Ela reconheceu imediatamente o que aquilo significava. Reconheceu dentro de si que nunca fora má. Se algum dia provocou dor, foi nela mesma. Por opção de escolhas erradas e descontroladas. Aceitando o olhar de Vishous que a queimava ela deu a ordem.

– Guardyan... mate-a!

A “quimera” atacou Évora no pescoço, na jugular e no momento seguinte arrancou-lhe a cabeça do corpo, trazendo com ela a espinha dorsal. Com um gesto forte e preciso arremessou as partes do corpo sem vida em direção a grande fogueira e deixou queimar. O pesadelo chegava ao fim. O ciclo estava fechado.

A ventania cessou. O céu começou se abriu. A lua cheia surgiu clareando as trevas. Os corvos levantaram vôo e as silhuetas sombrias na entrada da floresta retrocederam, para onde quer que tenham saído.

Lisa abraçou seu macho fortemente e ele retribuiu de bom grado.

– Não quero que Nick se lembre disso. – sussurrou baixinho só para V. ouvir.

– Vou apagar as memórias delo sobre o que aconteceu aqui – dentro do abraçoVishous corria as mãos pelas costas de Lisa consolando-a – Depois de levá-lo para casa... buscarei pelo corpo de Julia.

– Eu te amo.

– Eu sei leelan. Eu também te amo.


Notas finais
Então... agora a hora é de vocês!!!!!
Aproveitem para contar como se sentiram ao ler esse capítulo. O que acharam, quais as expectativas para o próximo. Falta alguma coisa?
Espero por esses comentários.
Beijos com enorme carinho...
Fênix

P.S.: Minha próxima fic chama-se: ARDENTE VINGANÇA.
Conta a história de Dean Winchester, um lord que foi forçado a se transformar em um pirata impiedoso e obstinado. Ele quer vingar a traição que seu pai recebeu e que foi a causadora de sua morte. Só que Dean não contava com o destino... ele não contava que o seu objetivo seria nublado por uma mulher. Um mulher forte o bastante para abalar sua alma. A filha do homem que tirou tudo da sua família.
Postarei a capa e sinopse em alguns dias. A fic será postada na categoria "Seriados - SOBRENATURAL".