Notas iniciais
Olá meninas...

Chegamos ao final. Que caminho enormes percorremos juntas, não é mesmo?
Como foi incrível ler os comentários de cada uma de vocês. Como foi delicioso poder sentir as emoções contidas em cada palavra escrita.
Meu Deus... o que posso dizer para agradecer a amizade, a cumplicidade, o companheirismo? Nós rimos, sofremos e choramos juntas.
Passamos por atos heróicos, tortuosos, tenebrosos e hediondos. Compartilhamos cenas de sexo, tristeza, nascimentos, mortes e arrependimentos.
Que maravilha, que sensação gratificante.
Muitas de vocês se tornaram amigas que apesar de distante (por morarem em outro Estado) estão sempre presentes em meus pensamentos.
Mais uma vez obrigado por me darem apoio e me incentivarem. Eu não sou a única responsável por essa história, ela não teria sido possível se TODAS VOCÊS não estivessem aqui, comigo.
Adoro cada uma, e reconheço os comentários da maioria sem precisar ler os nomes acima.
Bem... vamos ao capitulo final.
Beijos.
Fênix

Julia foi sepultada no meio da floresta, numa noite fria de inverno e luar minguante ao lado de uma secular sequóia com mais de sessenta metros de altura. O lugar era tranquilizador e uma energia afável emanava calmamente, serenando os corações.


Assim que V. e Butch retornaram ao complexo com o corpo de Julia, Lisa fez questão de fazer as honras, sozinha. Banhando-a com carinho, ela limpou o corte mortal da garganta e depois lavou o corpo e o perfumou com alfazema. Antes de envolvê-la na mortalha de linho branco, Lisa permitiu-se embalar a adolescente e forçou-se a imaginar que apenas dormia em seus braços. Deixou que suas lágrimas caíssem sobre o rosto delicado de Julia e despediu-se pedindo perdão e agradecendo por sua coragem e grandeza.



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Cinco dias depois...


Vishous estava no banheiro, passava a toalha felpuda pelo corpo nu para se secar do banho que acabara de tomar, tinha se esgotado na academia. A maioria de seus músculos estava exaurida e não poderia ser de outra forma, ele precisava aplacar seu ardente desejo.

Escutou claramente quando a porta do quarto se abriu e depois o seu suave fechar. Não precisou desviar o olhar para saber quem era. O cheiro de sua fêmea encontrava-se acentuado, sua excitação e sua ânsia aos poucos dominavam seu corpo e, para ele, aquilo era uma tortura.

Ainda é cedo. Pensou V. tentando afirmar sua convicção. Não tocaria nela, só ele sabia o quanto Lisa chorava solitariamente no quarto, ainda sofrendo com a avalanche de acontecimentos recentes. Ele a queria por completo, tremia ao imaginar ela embaixo de seu enorme corpo. Porém nada disso aconteceria até que estivesse certo de que ela estava psicologicamente estável.

– Onde está Stronger? – perguntou, saindo do banheiro e contendo sua febre carnal.

– Com Mary, voltei para buscar... – seu cérebro travou e seus olhos percorreram o corpo nu do macho, expressando toda a luxúria contida – Uau... você está...

A força esmagadora que expelia do corpo másculo, forte e esculpido perfeitamente parado a sua frente era a mesma. O magnetismo que exercia sobre Lisa era o mesmo e a atração entre eles faiscava atirando-a contra o macho. Era algo tão arrebatador que podia ser palpável, visível e absurdamente violento.

Não conseguia sequer terminar a frase que havia começado. Inspirando profundamente sentiu o odor que vinha dele. O cítrico do sabonete misturado com o perfume nativo de especiarias a fez estremecer. Seu corpo respondeu tremendo e sem perceber ela separou os lábios puxando o ar e depois passou a língua por eles, em um gesto que exibia que ainda lembrava do seu gosto.

Vishous gemeu do outro lado do quarto, totalmente imóvel.

Lisa piscou várias vezes seguidas tentando sair do transe em que se encontrava. Todavia, a única coisa certa em sua mente era que ela daria cinco ou seis passos à frente e arrancaria a toalha que estava envolta nos quadris de V. o expondo inexoravelmente, depois, correria sua boca por todo aquele corpo fazendo-o delirar.

Jesus... Vishous era o tipo de homem que fazia uma mulher perder a razão. Naquele momento, Lisa faria qualquer coisa que ele pedisse... que ele mandasse. Era só ordenar e pelo olhar semicerrado, sensual e perigoso de V., ele também sabia disso.

O instinto do macho vinculado explodiu, a enorme ereção surgiu como uma promessa de prazer inevitável. Se estendesse o braço a alcançaria facilmente e no minuto seguinte estaria dentro dela. A onda de eletricidade era insuportável e corria por sua coluna vertebral provocando reações semelhantes a centenas de ferroadas de abelhas.

Lisa começou a se aproximar. Andando sedutoramente, balançando os quadris e abrindo descaradamente o primeiro botão de sua blusa rendada. Por mais estranho e anormal que a situação parecesse, Vishous deu um passo atrás e conteve-se, afastando-se.

Cara... aquilo era a mesma coisa que negar-se a respira. Porra.

– Lisa, por mais que eu a deseje, ainda é cedo – tentou ouvir mais uma vez a voz de sua razão, apesar de seu maxilar estar travado e ter a voz rouca – Você passou por muitas emoções...

– O quê? Não acredito. Vai usar esse discurso novamente? – rebateu indignada.

– Não é discurso. O que estou dizendo é coerente e lógico. Estou cuidando de você...

– Ah, meu Deus – ela levantou os braços em sinal de contrariedade e estancou no lugar.

– Lelaan, você voltou para mim há menos de uma semana. Teve que decidir sobre a morte e a vida de seu melhor amigo, persuadir a opinião de seu pai, lutar contra Évora, lidar com a dor pela morte de Julia e ainda aceitar que não tem leite para amamentar Stronger – enquanto falava suas palavras subiam um tom – Se você acha que isso é pouco, eu não.

– Eu mudei aos seus olhos? – a pergunta era mais semelhante a um soco bem dado no meio da cara – É isso? A gravidez deixou meu corpo...

– Caralho, não! – rosnou furioso.

Vishous não permitiu que ela terminasse a frase acabando com sua auto-estima. Com um movimento rápido puxou-a contra seu corpo, enfiou a língua profundamente em sua boca beijando-a de forma exigente e então, esfregou sua tremenda ereção nas coxas fazendo-a gemer.

– Sinta – ele balançou os quadris forçando-o cada vez mais enquanto que o odor de especiarias se espalhava pelo ar – Estou desesperado para estar dentro de você, para sentir seu sabor, quero tomá-la de todas as maneiras, quero beber seu sangue e quero que beba o meu para que nunca mais eu deixe de saber se está viva, onde está e onde posso encontrá-la.

Lisa sentia-se entregue, seu corpo relaxou nas mãos fortes que a envolviam por inteiro. Naquele maldito momento seu sexo implorava por tamanha atenção que se ele a beijasse novamente, gozaria em pé, chamando seu nome.

– Mas não farei isso – sussurrou em seu ouvido – Eu a quero por inteiro e não fragilizada como está.

Dizendo isso V. se afastou e indo até o closet livrou-se da toalha e começou a vestir a calça de couro negro para mais uma noite de guerra contra a Sociedade Redutora.

– Está me negando? – perguntou ofegante e desorientada. Que desculpa era aquela?

– Não – respondeu suavemente, colocando suas adagas no coldre peitoral – E você sabe disso.

O desejo foi substituído pela frustração. O que Lisa esperava era uma trepada violenta, alucinante de rasgar os lençóis. Aquilo que estava acontecendo era surreal. Ela estava completamente molhada e ele... ele estava civilizado.

– Vishous, eu estou bem – tentou argumentar irritada.

Deus... estava quase implorando por sexo e ele continuava a se armar como se ela nem estivesse ali, como se não estivesse totalmente ereto. Seu posicionamento era distante, inabalável e parecia frio.

– Se estivesse tão bem não choraria todas as noites ou pensa que não percebo? – grunhiu ele sem se virar.

– Poderia pelo menos olhar para mim enquanto fala – imagens surgiram em sua mente, dolorosas lembranças.

Lisa o desejava sem nenhuma dúvida, mas a sombra do que Paul havia feito com seu corpo ainda existia. Como dizer isso a Vishous?

Não era a gravidez, isso não passava de uma desculpa idiota que se forçava a acreditar. A verdade é que apesar do desejo que sentia por V., tinha medo de se perder na hora “H” e simplesmente confundir seu macho amado com aquele psicopata.

– Eu pelo menos falo. A propósito: se lembrou de alguma coisa, fêmea? – ele rosnou ao pronunciar a pergunta – Não, eu não consigo ler seus pensamentos, mas suas incertezas eu posso farejar.

A última coisa que Vishous ouviu foi a porta do quarto batendo fortemente.



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– Você não foi buscar uma manta?


Perguntou Beth com Stronger em seu colo, assim que viu Lisa. Mary e Bella também estavam na sala de sinuca. Nalla estava deitada em um “chiqueirinho” dormindo. Ao lado do sofá de couro, Boo estava sentado sobre as costas de Guardyan que ronronava tranquilamente enquanto Lassiter passava a mão em sua juba.

– Eu gosto desse leão alado – disse o anjo sorrindo – E Boo também, já que vive empoleirado nas costas dele. Esse gato é muito folgado.

Como se entendesse o desaforo referido, o gato o olhou por um instante e depois foi até a mão que acarinhava Guardyan, pedindo o mesmo carinho.

– Você não passa de um sem-vergonha. Seu grande vira lata. – acrescentou rindo e passando a mão no pelo negro e macio.

– Nem me diga Lassiter – falou a Rainha – A primeira vez que ele viu Wrath foi logo se esfregando nas pernas dele.

Todos riram, o clima era agradável. As coisas começavam a se encaixar e Lisa estava de volta sã e salva, apesar de tudo.

– E a manta? – insistiu Beth.

– Eu... eu esqueci – respondeu Lisa meio que contrariada.

Houve um silêncio constrangedor.

– Está tudo bem? – disse Bella.

– Sim.

– Ele só está preocupado com o seu bem estar – começou Lassiter, olhando-a nos olhos – Quem é que pode censurá-lo?

Ah, não! Não mesmo. Falar sobre minha frustração sexual não é aceitável. Pensou Lisa incomodada com o comentário, ou seria defesa? Lassiter estava defendendo Vishous. O que ele sabia sobre o assunto?

– Preciso de ar, vou até o jardim – Lisa virou para sair – E não me siga, anjo.

O que Lassiter recebeu foi olhares perfurantes e contrariados. Principalmente de Beth.

– Qual é? A única coisa que eu sei é que o cara anda malhando feito um louco – dizendo isso ele levantou as mãos em um gesto de paz. – Precisava ter visto... ontem Vishous correu uma maratona em cima da esteira. Acho que estava tentando se esgotar fisicamente por completo.

– Cala a boca, Lassiter – falou Mary.

– Como as mulheres são complicadas – continuou falando zombeteiramente – Se não estamos nem aí, somos alienados sentimentais. Agora... se nos preocupamos, viramos chatos incompreendidos. Vai entender. É por isso que eu assisto a Ellen DeGeneres Show.

Uma almofada acertou seu rosto em cheio. Bella atirou enquanto Mary saia pelo corredor atrás de Lisa.

– Fica quieto. – acrescentou a shellan de Z.



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Lisa estava parada ao lado de sua Mercedes MacLaren, na garagem, no pátio da mansão. O Escalade de Vishous estava estacionado ao lado. Que metáfora mais conveniente... lado a lado, porém silenciosos.



Depois que Nick voltou para casa e se desculpou com Anne, chegando ao ponto de jogar-se aos seus pés, tudo voltou ao normal. O casal estava junto, feliz e agora Lisa podia buscar suas coisas pessoais na antiga casa sem que Anne precisasse mentir ou omitir. Portanto, aquele carro não era mais seu único bem, ainda tinha um patrimônio.

Correu os dedos sobre o capô, o veículo estava tão limpo que chegava a brilhar. Como uma coisa inanimada que era, não tinha a mínima percepção do tempo e de tudo que havia acontecido e era exatamente isso que Lisa deveria fazer. Enterrar suas memórias nauseantes o mais profundo que pudesse em sua alma e deixá-las lá para sempre.

– Eu adoro esse carro. Ele é tão... você – falou Mary com sua voz calmante.

– O quê? – perguntou sem saber ao certo o que é que perguntava, enquanto balançava a cabeça em negativa.

– Por que não sai com ele? Vá dar uma volta.

Lisa não respondeu e Mary entendeu que ela se questionava as inúmeras razões daquela sugestão não ser uma boa ideia.

– No início Raghe era Hal, foi assim que ele se apresentou – prosseguiu Mary – A primeira vez que eu andei naquele GTO púrpura e envenenado, eu também tentei fugir.

Pela primeira vez Lisa pousou seu olhar sobre Mary.

– Tentei fugir do câncer que havia retornado – a shellan de Raghe se aproximou parando ao lado da amiga – Tentei fugir da atração que sentia por ele e do medo de não ter um futuro por estar morrendo.

Com as lembranças voltando nitidamente Mary sorriu.

– Perguntei a ele se o carro era rápido e quando ele disse que era eu pedi para me mostrar, então ele pisou fundo no acelerador e o motor rugiu, disparando rápido pela Rota 22.

– Deve ter sido divertido – Lisa respondeu tentando entender o que significava aquilo.

– Na verdade, era histerismo.

Então Lisa sentiu o olhar penetrante de Mary, como se ela estivesse lendo sua alma.

– Eu deixei que o carro e o homem que o estava dirigindo me levassem para qualquer lugar. Eu só queria ser livre.

Bingo! Cacete... era isso!

– Você é uma ótima psicóloga – disse Lisa sorrindo – Você sabe disso, não é?

Ela deu de ombros, sem responder.

– E se eu o confundir na hora do sexo com... com Paul? – murmurou a pergunta tão baixo que teve dúvidas se Mary a tinha ouvido.

– Confundir? – ela esticou a mão e pegou a de Lisa entrelaçando os dedos – Isso não vai acontecer.

Como podia ter tanta certeza?

Mary virou-se de frente para ela.

– Não aconteceu no sonho. Naquele que Julia também vivenciou – Mary fez uma pausa, permitindo que suas palavras cravassem no cérebro de Lisa – Vishous é um macho inconfundível, incomum. Ele é tão especial para você, como Raghe é para mim.

Lisa estava com os olhos arregalados diante de tal revelação. E aquilo era tão lógico, tão simples.

– Permita-se – sussurrou Mary enquanto a abraçava fortemente – Liberte-se.



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– Puta que o pariu. Que porra você tem hoje? Onde é que está com a cabeça?



– Assim você vai me deixar complexado, tira. O que é que eu estou fazendo?

Butch balançou a cabeça enquanto caminhavam por um beco escuro do centro de Caldwell.

– Além de estalar esse pescoço de cinco em cinco minutos, ficar praguejando e estar desatento... nada, você não está fazendo nada.

– É tão visível assim? – disse V. incrédulo.

– Talvez para os outros Irmãos não seja. Mas, cara... para mim você não passa de um maldito livro aberto.

– Que merda – e estalou novamente o pescoço.

– Pois é. Então, qual é o problema? E eu sei que tem a ver com Lisa...

– Só preciso de uma boa luta. Matar uns bostas de redutores vai deixar meu humor melhor – disse ele ferozmente.

– Difícil...

– Qual é Butch? Tá querendo foder comigo? Que papo é esse? Eu estou bem.

– Caralho – rosnou o tira enquanto se colocava a frente do amigo fazendo-o estancar – Por acaso pensa que eu não escuto as discussões entre vocês? E olha que não é porque eu quero, nossos quartos são parede com parede. É que às vezes vocês levantam tanto o tom de voz que é impossível ignorar. Com por exemplo, hoje, quando Lisa saiu do quarto batendo a porta como se quisesse derrubar as paredes do maldito Buraco.

– Porra! – gritou Vishous

– Sem falar, que agora você deu para correr maratonas na esteira e levantar peso que nem louco. Não sou cego V.

– Porra! – e passou a mão pelos cabelos.

– Vocabulário pequeno está noite, não é amigo? – o sarcasmo saiu cortante.

Ele assentiu.

– Malhar até a exaustão é sinônimo de...

– Não começa essa merda! – V. se desvencilhou e continuou a andar – Não vou falar sobre isso.

– Ótimo – Butch o agarrou pelo braço e o puxou. Os narizes quase se tocaram – Se não vai falar, então vai ouvir.

Se fosse qualquer outro Irmão, Vishous teria pulado em cima do filho da puta e lhe esmurrado a cara, mas aquele era Butch, o seu melhor amigo. O único que falava o que queria e do jeito que queria.

– Chega dessa besteira de achar que Lisa vai quebrar como cristal e...

– Que se foda a sua opinião – V. continuou encarando.

– Cara, eu já lhe disse mil vezes que você é o deus dos computadores. Você pode hackear qualquer coisa ou lugar – ele soltou o braço de V. e depois pousou suas mãos nos ombros do amigo – Mas esse seu jeito de ser é fodástico e sua mulher também não é nada fácil, com todo o respeito. Mas, meu camarada... vocês estão quebrando o pau por causa de sexo? Isso é sério? Por que...

– Ainda é cedo – ele repetiu a única frase que sua razão entendia no momento – Ela não está bem.

– Ela lhe disse isso?

– Não e morreu o assunto.

O vampiro de olhos adiamantados empurrou o tira e desmaterializou-se. Em pouco segundos Butch ouviu um assobio e olhou na direção do barulho. Em cima do telhado, Vishous sinalizava que a festa estava para começar e um odor de talco de bebê preencheu todo o beco decadente.

Era hora do show!



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A batida na porta foi suave e se repetiu depois de um tempo. Quem quer que fosse sabia que a Escolhida estava em seu quarto. Lamentando a sua qualidade sentimental de não ignorar ninguém, Gaya se sentiu na obrigação de atender.



– Oi. Está ocupada?

Ocupada? Era óbvio que não. A vida dela era vazia, portanto não tinha mais nada a fazer do que gerar a criança dentro de seu ventre e do jeito que as coisas caminhavam lentamente o restante do caminho era longo e bem desesperador. Infelizmente.

– Não. – respondeu Gaya abrindo passagem para Lisa e seu bebê.

– Eu só passei para ver como você está, já que não participa mais das principais refeições.

Ela já tinha falado sobre isso com Mary e principalmente com o Primale, teria, agora, que explicar isso a Lisa, também? Ah, não. Não mesmo!

– Desculpe – disse Lisa sem jeito – Não é problema meu.

Ah, merda... estava fazendo tudo errado.

– Não... sou eu que devo me desculpar – ela olhou para suas mãos. Estava esfregando-as, não sabia como se comportar – Você veio até aqui para me ver e eu a recebo dessa forma, me perdoe. Por favor, sente-se.

Lisa se sentou na poltrona que Gaya apontou e permaneceu calada. Stronger dormia.

– Ele... ele está chupando o dedo? – perguntou a Escolhida admirada, curvando-se sobre o bebê.

– Sim – sorriu Lisa – É bonitinho, não é?

– Ele é tão parecido com o pai, principalmente acordado, quando seus olhos estão abertos.

– É verdade. E se continuar assim, acredito que será uma cópia fiel de Vishous quando crescer, bem... talvez com um gênio um pouquinho melhor.

Gaya riu. Era bom conversar com Lisa, não era de sua raça, portanto não esperava a perfeição nem nos modos e nem nos sentimentos de uma Escolhida.

– Quer segurá-lo um pouquinho?

– Não – respondeu retesando-se – Não é... bom. É que eu não quero... não posso... não sei como...

– Eu sinto muito. Sinto mesmo... por tudo.

Gaya balançou a cabeça, mas não a interrompeu, também não havia motivo para isso já que Lisa se levantou e foi em direção à saída.

– Venha quando quiser – disse ela em voz baixa.

– Está bem. – respondeu Lisa resignada entendendo a situação e virando a maçaneta.

– Eu não participo de nenhuma refeição, nem tão pouco tenho contato com Raghe que não seja para me alimentar.

Ela estava realmente falando, estava botando para fora o lixo armazenado dentro dela.

– Não suporto sequer ouvir a voz do Primale me dizendo que minhas atitudes são... são...

Sentindo o peito esmagado ela começou a andar pelo quarto de um lado para o outro, não olhou para Lisa, mas percebeu que ela tinha virado de costas para a porta e esperava pela continuação de seu desabafo amargurado.

– Sou grata pela vida que carrego em meu ventre e por poder ajudar minha Raça, mas eu... eu não suporto mais – Gaya tocou sua barriga de grávida – Ah, o que estou dizendo? O que é que estou dizendo?

De repente ela teve sua resposta. Aquele pequeno ser que crescia era o problema. Pela Virgem Escriba quando é que se tornou tão indigna da dádiva que tinha recebido? Começou a respirar com dificuldade, seu peito subia e descia descompassadamente enquanto continuava a andar pelo quarto.

– Eu não sei o que pensar. Não sei como me comportar, não sei quem sou. Nunca deveria ter saído do Santuário, eu não era a mais indicada... sou inapropriada. É isso. Sou inapropriada de carregar...

–Shhhh – Lisa a abraçou e ela nem notou que o bebê dormia sobre a cama – Acalme-se.

– Eu...

– Vai passar Gaya. Só mais alguns meses e estará livre.

– Eu nunca serei livre – murmurou entre lágrimas.

– Você só precisa de tempo. Deixe que o tempo acerte as coisas, no momento, ele é o seu melhor amigo.

Para quem Lisa estava afirmando aquilo? Para Gaya ou para ela mesma?



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Os dias foram correndo dentro da rotina. Guerra, treinamentos, refeições, problemas com a glimera e em uma noite especial para os humanos as premiações do Grammy aconteceram. Como de costume, os canais de televisão não perderam tempo e mostraram tudo sobre o evento integralmente.



Uma homenagem póstuma a Lisa Hendrix foi o ponto alto da cerimônia e logo em seguida a música “Bring Me to Life” foi premiada como melhor canção e Lisa como melhor cantora. Era a glória, o reconhecimento de seu talento e sua dedicação à música.

Dentro da sala do Buraco, ela assistia a reprise do programa na enorme TV plasma. Vishous, Butch e Marissa não estavam por lá.

Era bom estar sozinha, sem barulho ou conversas paralelas, sua razão teve a chance de lhe mostrar que a última porta de sua antiga vida acabara de se fechar. Seu passado ficava no passado e terminava da melhor forma possível. Sua boca se converteu em um pequeno sorriso de alívio quando se deu conta que estava seguindo em frente.

O celular tocou e o nome de Anne apareceu no visor.

– Está assistindo a reprise?Nossa... estou tão feliz. Tão orgulhosa. Aí que maravilha, quantos elogios e as imagens que apareceram... você estava linda em todas elas. Tão viva.

– Anne, eu estou viva! – afirmou enquanto que o risinho de sua amiga soava do outro lado da linha.

– Eu sei disso, sua boba. Sabe Lisa... eu nunca lhe disse isso mas, para mim, essa música nada mais é do que o seu coração falando.

– É uma música especial. Eu me lembro quando a compus...

– Você já estava apaixonada por ele. Por isso essa canção é tão especial. E olhe só... vocês estão juntos. Tudo acabou se resolvendo.

Nem tudo... ainda! Pensou Lisa. Por outro lado podia começar imediatamente a resolver o tal problema. Não toleraria mais uma noite sequer esse impasse. Chega, afinal para que falar e falar e falar sobre seu martírio no cativeiro. Ela tinha o filho e o homem amado ao seu lado, o que mais ela poderia querer? E quanto a Vishous... bem, ela falaria com ninguém menos do que Wrath.

Abusando da sinceridade, a hora já havia passado e quanto mais demorasse mais complicado seria. Era chegada à hora de “enlouquecer” Vishous e nada de escolhas para ele.

– Anne, posso ligar para você mais tarde? Tenho um assunto importante para resolver que não pode ser mais adiado.

– Claro. Falamos-nos depois e não esqueça de marcar aquele jantar. Eu e Nick vamos cozinhar para vocês.

– Combinado.

Saiu do Buraco, correndo em direção a mansão. Tinha pressa porque Stronger dormia e queria voltar antes que ele acordasse chorando de fome. Optou pelo caminho mais curto, ou seja, por cima, nada de túneis. Eram duas horas da tarde e o tímido sol do lado de fora não lhe fazia mal, pelo contrário sentia falta dele e o calor em sua pele era uma benção.

Passou pela garagem de carros e chegou à frente das portas duplas de bronze envelhecido rapidamente, digitou o código e elas abriram, revelando outro conjunto de portas de madeira esculpida. Podia passar o tempo que fosse, Lisa sempre se impressionaria com a vultuosidade do lugar.

Ao entrar avistou Lassiter sentado nos degraus da ampla escadaria, era ele mesmo que estava procurando, só que o anjo não tinha uma aparência muito boa, parecia preocupado, sua testa estava franzida.

– O que é que está fazendo sentado aqui sozinho? – ela não esperava uma resposta explicativa.

– Pensando na vida, em Tohr e numa solução eficaz – ele suspirou profundamente – Para ser bem sincero, é isso.

– Ah... bom, se está interessado eu acho que você é um grande amigo e...

– Eeeeee... vamos deixar esse papo para depois – brincou ele desconversado e colocando-se em pé – Onde está indo com tanta pressa?

– Preciso de você.

O anjo gargalhou alto.

– Cara, o que eu não daria para o seu macho escutar essa frase – e continuou gargalhando.

– Para com isso Lassiter – apesar de censurá-lo a voz de Lisa não convenceu, ela também estava rindo – Preciso que vá comigo até a cidade.

– Ele sabe? – uma de suas sobrancelhas foi erguida – Caso contrário, vai ficar puto.

– Aham... vai! Vai mesmo. Mas eu vou pagar para ver – ela respondeu quase que sinistramente.

– Garota, às vezes você me dá medo – ele fez que tremia o corpo – Chego a ter dó de Vishous, se é que isso é possível.

– Então, você vem comigo ou não? – perguntou ela cruzando os braços e batendo o pé no chão.

– Se você está disposta a isso... quem sou eu para negar um pedido.

– Me dê dez minutos, é o tempo de falar com Beth e ajeitar as coisas – quando ia começar a correr novamente olhou para Lassiter e acrescentou – E não comente nada com ninguém, vai ser a nossa surpresinha.

Enquanto Lisa subia as escadas pulando de dois em dois degraus o anjo pensou que era bom que a Rainha soubesse sobre a tal saída sórdida e assim, com sorte... talvez, Wrath conseguisse segurar Vishous quando partisse para cima dele como um trem de carga desgovernado depois que ele e Lisa voltassem da cidade.

Lassiter gargalhou mais uma vez, sozinho, imaginando a ira do vampiro.



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Droga, não havia ninguém no escritório Real, o que indicava que deveriam estar no quarto dormindo ou...



Lisa ficou parada olhando para a porta fechada a sua frente sem saber que atitude tomar, atrapalhar o casal, não era uma boa idéia, era?... Não, não era! Porém, era exatamente isso que queria fazer.

Enquanto pensava na sua decisão Fritz apareceu no corredor. Ele saía do quarto de Gaya com uma bandeja nas mãos.

– Fritz que bom que você apareceu – ela disse embaraçada.

– Madame – o mordomo balançou a cabeça saudando-a – Em que posso ajudá-la, Senhora?

– Sabe-me dizer onde está Warth?

– O meu Senhor encontra-se descansando em seus aposentos.

– Ai, Jesus...

– Como disse? – perguntou confuso.

– O quarto fica no andar de cima, no terceiro andar, não é? – estava tão constrangida que não olhou para ele ao fazer a pergunta.

– Sim, madame – ele apontou para outra escada, do lado direito – Por ali.

Merda. Era privativo demais, sem falar extremamente inconveniente da parte de Lisa.

– Que se foda. – pensou ela em voz alta enquanto começava a correr em direção ao caminho indicado – Obrigada Fritz.


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A forja não ia bem. A marreta descia violentamente açoitando a lâmina sem piedade.



– Caralho – resmungou para ninguém.

Como tudo estava errado, encostou sua mão brilhante no metal e o derreteu instantaneamente, voltando ao começo.

Aonde andava a sua concentração? Fechou os olhos e numa fração de segundos se lembrou do cheiro da excitação sexual de Lisa, quando seu pau ficou duro como pedra foi fácil fazer a ligação: concentração-Lisa – Lisa-concentração. Que alegria.

– Caralho – voltou a repetir em voz alta.

Guardou a marreta, deixou o metal derretido em cima da bigorna e começou a colocar sua luva de couro. O melhor a fazer era sair de sua oficina e ir direto para a academia.

Não ia ceder, não sem uma conversa franca. Lisa teria que falar com ele. Teria que falar como se sentia verdadeiramente. Cansado de tanto pensar sobre o assunto, Vishous se sentou no chão, apoiou a cabeça nas mãos e se perguntou se era isso mesmo ou se ele estava com medo de ser confundido com filho da puta do redutor que a amarrou, amordaçou e espancou enquanto a estuprava.

– Caralho – é realmente seu vocabulário andava escasso.

Ele fazia isso, não fazia... com as fêmeas em sua cobertura? Era tudo consensual, elas procuravam por isso. Queriam sentir a dor tanto quanto ele queria proporcioná-la... e como proporcionava. Sempre cruel, sempre exigindo cada vez mais de suas submissas.

Pare, agora! Antes que seja tarde demais. A voz de sua consciência tilintou em seu lóbulo frontal alertando-o, todavia, para seu desespero, ela dividia o espaço do cérebro com uma visitante indesejada: a Senhora Dúvida.



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Mais uma vez Lisa batia em uma porta fechada, só que se a do escritório era desagradável, imagine a porta do quarto do casal Real. Acrescente a essa cena, o fato de que George, o cachorro do Rei, também estar do lado de fora.



Totalmente desconcertada, passou as mãos pelos cabelos e tentou controlar sua respiração enquanto esperava a porta abrir.

– Um momento – disse a voz rouca do Rei.

Meu Deus, ela realmente ia fazer aquilo.

A porta se abriu e Wrath apareceu com seus óculos escuros e em sua cintura pendia um lençol negro enrolado.

Imediatamente Lisa baixou os olhos para o piso de madeira, enquanto que Wrath sentia um cheiro seco e picante em seu nariz que demonstrava o quanto a fêmea de V. estava envergonhada.

– Desculpe atrapalhar... quero dizer o incomodo... – onde é que ela tinha deixando as frases inteiras? Provavelmente no andar de baixo – Isso é... quero dizer... o seu descanso. Isso, o seu descanso.

Ele quase sorriu quando a frase saiu toda atrapalhada.

– Está tudo bem, Lisa – disse calmamente – Aconteceu alguma coisa?

A Rainha apareceu, envolta em um roupão e se posicionou ao lado de Wrath, era nítido o odor de especiarias em seu corpo. Realmente Lisa estava interrompendo.

– Beth, desculpe.

– Vou desculpar se você olhar para nós – e lá estava a Rainha, simpática e sorridente.

– Desculpe – pronunciou mais uma vez ao erguer os olhos e caramba, os longos cabelos do Rei estavam bagunçados o que denunciava tudo, Lisa corou – Desculpe interromper.

– Já que o fez... – falou Wrath se divertindo com o enorme incômodo da mulher e apoiando o braço no batente – É melhor falar de uma vez.

– Wrath? – suspirou Beth – Por Deus, ela já está vermelha como um pimentão...

– Precisodeumacerimôniadecasamentoparahoje.

O que foi que Lisa tinha dito? As palavras saíram tão rápidas que por um minuto o casal pensou ter ouvido errado. Porém antes que um deles perguntasse, ela inspirou profundamente e começou a falar, afinal era por isso que estava parada naquele corredor interrompendo o sexo do casal Real.

– Wrath, preciso de uma cerimônia de casamento... para hoje, depois que todos chegarem da rua – espere um pouco, ela estava dizendo o que fazer ao Rei? – Isto é... se nenhum Guerreiro voltar ferido e se você permitir.

– Você precisa? – perguntou sorrateiramente sério.

Esse era o momento certo para um buraco mágico aparecer no piso de linóleo e Lisa pular dentro dele.

– Sim, claro – Beth tomou a frente de seu hellren empolgada – Eu organizarei tudo.

– Pode me dizer por que é que Vishous não está aqui para falar sobre isso? Geralmente é o macho que...

– Ele não sabe – pronto, agora havia dito tudo.

O Rei deixou a cabeça ser jogada para trás enquanto ria divertidamente e já que ele demonstrava bom humor, Lisa tentou explicar.

– Eu e ele... nós precisamos oficializar tudo isso e às vezes V. pensa demais e quanto mais tempo passar...

– Já entendi e não me oponho – afirmou Wrath mantendo o sorriso – Eu avisarei a todos os meus Irmãos que não saiam esta noite. E fique tranquila... não lhes direi o motivo.

– Obrigada e tem mais uma coisinha – disse com a voz anuviada – Estou indo até a cidade com Lassiter comprar umas coisas. Volto rápido.

– Se está me comunicando essa tal saída é porque Vishous também não sabe sobre isso, acertei? – o tom ficou sério – Você tem idéia do que isso significa para um macho vinculado?

– Bom, eu vou levar o Escalade, por isso ele vai poder me monitorar pelo sinal do GPS – respondeu Lisa enquanto seus olhos brilhavam obscuros – E quanto ao resto... o resto é pura provocação mesmo.

Interessante, pensou Wrath.

– Meu Irmão não poderia ter encontrado fêmea melhor.



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As portas da academia se escancararam e Vishous entrou pisando firme em seus Nick’s. Não falou com ninguém, era como se Butch, Raghe e Z. não estivessem no recinto. E era dessa forma que iria continuar, com a maldita boca calada. Não estava a fim de papo furado.



Na real, se pudesse, daria um chute na própria bunda, como é que calculou tão mal o tempo que passou em sua oficina? Porra, os caras ainda estavam malhando, que merda! Ele queria ficar sozinho.

Que desejo estranho, ele estava sozinho na oficina, não é mesmo? Tecnicamente, sim. A não ser, é claro, que sua ereção contasse como um indivíduo. O pau dele era um maldito traidor, um bastardo pérfido que dia após dia minava sua gloriosa inteligência transformando-o em um vegetal vegetativo, no sentido literal da palavra.

– E aí meu Irmão? – disse Hollywood.

V. não respondeu. Subiu na esteira, apertou os botões e começou a correr.

– Lá vamos nós – praguejou o tira enquanto puxava ferro.

– Mais uma maratona – acrescentou Z.

Maravilha... três palhaços para encher o seu saco. Será que o dia poderia se tornar pior?

O celular de V. vibrou na mesma hora que o de Butch emitia um sinal sonoro.

– É o Escalade? – falou o tira confuso – Pediu para Fritz...

– Não. – V. respondeu mais do que contrariado – Não pedi nada.

Butch parou de exercitar os bíceps e pegou o telefone interno, ligou para o ramal da cozinha. Foi o próprio mordomo que atendeu.

– Ei, Fritz meu camarada.

– Meu Amo, posso lhe servir em alguma coisa?

– Eu só gostaria de saber sobre o Escalade, sabe, acabei de receber um sinal que o carro saiu da mansão. É algum tipo de manutenção?

Ah é isso, meu Amo. Não, não há nada de errado com o veículo. Apenas a Senhora Lisa e o Senhor Lassiter que saíram. Ela me pediu para avisar que foram até a cidade, caso alguém perguntasse por eles.

– Ok. Obrigada Fritz.

Isso era bem semelhante à explosão de uma bomba atômica, não era? Certamente seria, assim que ele repetisse para Vishous o que acabara de ouvir.

Porra!

– Então? – perguntou V. correndo em um ritmo forte – Qual é a do carro?

O tira passou as duas mãos pelos cabelos, olhou para Raghe e Z. e pensou: Seja o que Deus quiser!

– Lisa pegou o Escalade e foi até a cidade com Lassiter.

Vishous socou o botão de “stop” da esteira interrompendo sua corrida, enquanto sentia uma onda de fúria percorrer todo o seu corpo. O sangue parecia ferver, o ar em seus pulmões queimava, a temperatura despencou e um frio hediondo tomou todo o salão fazendo com que algumas lâmpadas explodissem.

– Eu vou matar aquele filho da puta. Anjo do caralho – gritou Vishous descontrolado.

Ouvia dentro de seu cérebro perturbado um retumbar ao longe, um rugido horrendo e seu coração bombeava a ponto de explodir no peito. Com um impulso desceu da esteira e começou a perambular da esquerda para a direita, ocupando todos os espaços e transformando-se em um animal acuado. Um animal perigoso e ferido que mataria qualquer um que se dignasse a ficar diante de seus olhos.

E quanto a Lisa... Que merda ela supunha estar fazendo? Indo a cidade com aquele monte de estrume. Vou trucidá-lo.

A fêmea acabara de suplantar todos os limites possíveis e imaginários da paciência miserável de V. A única explicação é que deveria estar louca ou teria perdido o senso de certo e errado em sua maldita vida.

Escutava vozes ao seu redor, mas não conseguia distinguir nenhuma delas. Nada lhe era concreto ou tangível, a não ser seu ódio, sua agonia e agressividade. Sentiu que seu corpo era detido, agarrado por trás e jogado ao chão.

Estava imobilizado.

– Pare, agora!

–Chega, Vishous.

– Vai destruir tudo.

Quando finalmente recobrou a calma percebeu que Raghe. Z. e Butch estavam em cima dele, cada um agarrando-o com sua melhor pegada. Ele tinha mais de trezentos e cinquenta quilos de músculos esculpidos e fortemente treinados contendo-o arduamente. Era impossível se soltar... apesar de ele ter ousado de todas as maneiras.

Piscou os olhos tentando clarear a visão e só então viu os pesos de musculação arremessados contra as paredes e espalhados por todo o piso. Parecia ter havido uma guerra no recinto. Em alguns lugares o reboque caía, em outros, buracos fundos compunham a nova decoração da academia.

– Vamos soltar você – falou Zsadist com voz grossa e profunda – Mas se enlouquecer novamente voltará a beijar o chão. Está entendido?

Buscando o equilíbrio, V. começou a respirar profundamente encontrando um ritmo, sentindo seu peito subir e descer com a respiração apesar do peso dos corpos dos três machos em suas costas.

– Você entendeu meu Irmão? – perguntou Raghe – Responda.

Ah, ela passou dos limites... Droga. Estou fodido. Essa mulher me tira do sério, sempre me desafiando... sempre me provocando.

Fechando os olhos Vishous simplesmente tentou deletar toda a bagunça que borbulhava dentro de sua cabeça. Não queria pensar, não podia pensar. Se conseguisse tal proeza provavelmente não mataria um de seus Irmãos e tão pouco Lisa, ou ainda, aquele ordinário anjo-do-caralho-filho-de-uma-cadela.

Não pense. Não pense.

– Então, o que vai ser? – disse Butch – Até quando pretende ficar deitado no chão?

Antes mesmo do tira terminar a pergunta, V. já estava respondendo.

– Porra. Acho melhor vocês me segurarem mais um pouco.



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– Pronto – Lisa abriu a porta do carro e entrou, largando um monte de sacolas no banco de trás – Acho que agora podemos voltar.



– Wrath ligou – o anjo coçou a cabeça na parte de trás – Seu macho está espumando.

Ela apenas sorriu.

– E quando olhar para você e vir o que está vestindo, vai...

– Vai o quê? – indagou Lisa confiante – Eu tenho tudo sob controle.

– Diga isso para as vinte e três ligações que atendi na última hora e meia – e balançou a cabeça negativamente – Quer a lista?

– Não estou interessada – ela ignorou e olhou pela janela do carro.

– Além do Rei, falei com Beth, Mary, Bella, Tohr...

– Eu disse que não estava interessada.

– É claro que não está – retrucou sarcásticamente – Quem ele quer matar sou eu. Afinal, eu é que estou passeando com a fêmea dele como se fossemos um casal de namorados.

– Quanto drama... porém... se todos estão preocupados é melhor você acelerar – ela deu de ombros enquanto ligava o “cd player” – Relaxa Lassiter, V. está exatamente no lugar que eu quero que ele esteja.

A conversa continuou. Lassiter falava, tentava explicar que V. era perigoso, agressivo, sanguinário, descontrolado e bla-bla-bla. Por sua vez, Lisa escutava tudo sem dar importância a uma única palavra dita.

Tudo corria exatamente como tinha planejado e o melhor ainda estava por vir. Um esboço de sorriso transpareceu em seus lábios e ela se pegou imaginando a fisionomia do vampiro quando colocasse os olhos sobre ela. O carro estancou diante dos imponentes portões de ferro.

O anjo digitou o código, olhou para a câmera de segurança e entrou rapidamente, um minuto depois estavam estacionando na garagem que ficava ao lado da fonte.

Ela saltou do carro e pegou todas as sacolas.

– Obrigada – disse com um verdadeiro e enorme sorriso estampado em seu rosto antes de sair correndo, rumo à porta de entrada.

– Vai... vai logo cutucar a onça com vara curta – gritou o anjo ficando para trás.

Ao entrar na mansão, se dirigiu diretamente ao quarto de Gaya para verificar se Stronger estava bem. Encontrou seu bebê dormindo tranquilo.

Depois disso, era hora de procurar por Vishous. Ainda estava descendo as escadas quando recebeu uma mensagem de Beth:

V.: Na academia e furioso.

Sem hesitar, Lisa seguiu rumo aos corredores do Centro de Treinamento. De repente a compreensão súbita de suas escolhas lhe atingiu como uma bala. Respirou fundo, sentindo que precisava fazer um esforço para conter sua empolgação.

Bem, a sorte estava lançada e ela sem perceber, encontrava-se a poucos passos da entrada. Lisa podia jurar que escutava o som de seu sangue correndo por suas veias em um frenesi desajustado. Sem pensar em mais nada, escancarou as portas e entrou.

A imagem era a seguinte: Vishous sentado em um banco olhando para o chão, ao seu lado, ombro a ombro, também sentado, Butch. Raghe e Zsadist em pé. Um à direita e outro à esquerda. Todos pareciam tensos e retesados. Todos pareciam estar contendo um touro indomável e alucinado.

– Olá – disse Lisa sorrindo, como se não tivesse lançando uma granada pronta para explodir.

– Merda. – praguejou Raghe enquanto olhava com censura.

A cabeça de V. começou a se levantar... era agora. Quando seu olhar feroz e adiamantado caiu sobre a fêmea o mundo pareceu parar.

– O quê? – gritou ele, seus olhos a fuzilavam – Que porra é essa que está vestindo?

– Gostou?

Lisa devolveu a pergunta dando uma voltinha inteira, girando o corpo devagar. Sobre sapatos pretos “Louboutin” de salto altíssimo, as longas pernas esculturais estavam totalmente à mostra e uma camiseta, usada como micro vestido, agarrava seu corpo curvilíneo. A sexy camiseta azul era oficial e estampava o símbolo dos Yankes de Nova York e para completar o “look”, um gorro.

Um gorro bem parecido com o que Vishous gostava de usar... só que o de Lisa, pertencia ao time inimigo.

– Aconteceu tanta coisa nos últimos meses – continou ela, falando com voz impassível e mansa – que só ontem, assistindo ao Grammy, é que me dei conta de que os Yankes foram campeões. Não é ótimo?

A tensão do ar transformou-se em um ser de carne e osso. Os olhos de Vishous brilhavam de fúria e algo mais. O maxilar quadrado, travado, delatava sua irracionalidade. Ele agarrou a beirada do banco com as mãos e suas juntas ficaram brancas com o esforço... tentava não explodir.

– Santo Deus – murmurou Butch, não acreditando no que via. Será que ele podia xingar a fêmea de Vishous? – Você saiu para comprar isso?

– Vá para o quarto e tire essa roupa agora! – ordenou V. com voz gutural enlouquecendo, enquanto se colocava em pé.

Lisa sentiu o corpo tremer, encontrava-se em ebulição.

– Não! – ela respondeu e continuou exatamente onde estava para provar o que dizia.

– Não estou pedindo – rebateu furioso.

– E quem autorizou você a me dar ordens? – disse olhando dentro dos olhos dele juntamente com um leve sorriso sarcástico – Você não manda em mim. Faço o que quero na hora que quero e... quanto a sair com Lassiter... não gaste seu tempo ficando de mau humor. Ele é ótima companhia.

Com um movimento surpreendente e abrupto V. a agarrou pela cintura, tomou-a em seus braços e saiu pelas portas duplas pegando o caminho dos chuveiros. Precisavam de privacidade para a discussão que viria a seguir. Porém, ainda estava perto o bastante para escutar a voz de Zsadist dizendo:

– Ele não podia ter escolhido fêmea melhor.



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Vishous não fez questão alguma de ser cavalheiro ou gentil quando a prensou na parede azulejada dos chuveiros do Centro de Treinamento. Só que ele foi e ela percebeu.



A mão sem a luva já tinha arrancado o gorro pelo caminho, agora, estava no meio dos cabelos sedosos, puxando-os. Quando jogou a mulher contra a parede, protegeu a cabeça de Lisa, com a mesma mão, evitando que batesse contra os azulejos. Ela conteve seu riso.

Colando seu corpo, pressionando-o opulentamente contra o dela, ele segurou-lhe o queixo enquanto falava enfurecido.

– Você. Me. Deixa. Louco – sua voz sai baixa e carrega um tom de advertência inflexível.

– Eu sei... Ah... – e um gemido atrevido escapava, sem querer, por sua boca entreaberta.

– Mandei você tirar a porra da roupa, fêmea – as palavras saíram por entre os dentes travados – Qual foi a parte que não entendeu?

O hálito quente soprou em seu rosto. Uma promessa do tipo de sexo que Lisa desejava ardentemente e que conseguiria a qualquer custo. A intensidade do ato sexual que tanto V. precisa e que também era sua marca registrada ascendia nela desejos tórridos e obscuros. E ela estava disposta a satisfazer cada um deles indecentemente até chegar à completa exaustão.

Ele tirou a mão enluvada do queixo de Lisa e correu os dedos nos lábios carnudos, parecia estar acariciando, brincando com eles. Seus olhos ardiam, queimavam e ela sentiu o cheiro do couro da luva preta.

– Você não manda – rebateu ela ofegante, enquanto lhe devolvia a mesma pergunta – Qual foi a parte que não entendeu?

Ele posicionou as mãos no alto do decote redondo e puxou. A peça de algodão não teve a menor chance e rasgou-se ao meio, caindo obediente no chão. Foi nesse momento, que os olhos de Vishous faiscaram. Por baixo ela usava apenas uma pequena calcinha... Filha da puta!!!

Uma calcinha de renda branca, com lacinhos vermelhos. Um de cada lado. E bem no meio, no centro, um emblema bordado chamava a atenção. Um emblema dos RED SOX.

Vishous arregalou os olhos e gargalhou alto, como se estivesse aliviado. A expressão em seu rosto era de um perigo fugaz somado ao desejo insano e, com certeza, alegria.

– Meu Deus, garota – sussurrou com a respiração pesada – Um dia você vai acabar me matando.

Ele inclinou a cabeça para baixo e beijou-a indecentemente, metendo a língua naquela boca molhada e exigindo tudo que lhe era de direito, enquanto suas mãos percorriam a calcinha rendada. Um tesão angustiado tomou os amantes.

Lisa podia sentir seu peito subindo e descendo descompassado, o calor da mão de Vishous parecia queimar através da renda branca e cada músculo do seu ventre ficou tenso. Ela estava completamente molhada e entregue. Rendida pela avidez e volúpia. Precisava dele, agora, ali, de qualquer forma.

– Rasgue – sussurrou desesperada por mais – Rasgue... comprei uma dúzia delas, só para ver você perdendo o controle. Rasgue... por favor.

– Está implorando?

Perguntou arrogantemente abrindo um sorriso maléfico começando a esfregar seu corpo contra o dela. A enorme ereção contra o quadril, cada vez mais perto, cada vez mais quente.

–Sempre – e para completo horror e deleite de Lisa, ela esta admitindo – Por favor. Ah...

Com outro puxão bruto a tira lateral se partiu facilmente e o som do tecido sendo rasgado ecoou pelo banheiro. Os dedos longos de Vishous dançavam sobre a entrada escorregadia e sem pedir licença, dois deles se enterraram fundo na umidade luxuriosa.

– Há momentos que é simplesmente maravilhoso ser eu – falou colado ao ouvido de Lisa.

Ela pendeu a cabeça para o lado, oferecendo o fino e elegante pescoço, mas era V. quem estava no comando do espetáculo. Tirando os dedos com um movimento lento demais, ele os aproximou de sua boca e os chupou minuciosamente ao ponto de fechar seus olhos para desfrutar do sabor adocicado de sua fêmea, quando tornou a abri-los uma corrente elétrica tomou o ar. Ele aproximou o próprio pulso de sua boca e o abriu com uma mordida profunda. Fincando os dentes pontudos. O sangue correu fácil.

– Beba, lelaan... beba o meu sangue.

Lisa se atirou contra o corte como se fosse uma verdadeira vampira e sugou fortemente. O gosto do sangue encorpado e vermelho preencheu toda a sua boca e quando começou a engolir sentia que fortes contrações sacudiam seu corpo excitado. Perdida no meio de intensas sensações, escutou V. falando no Antigo Idioma e aquilo quase a levou a loucura.

– Lisa, minha Lisa. Meu amor.

A maneira como ele grunhiu seu nome era uma espécie de honraria e tudo aquilo junto parecia demais, ela estava tão perto do orgasmo que, nem ao menos se lembrava como era respirar, mas sabia perfeitamente que aquele ato garantia ao seu macho nunca mais perdê-la de vista. Sabia que daquele dia em diante, poderia encontrá-la em qualquer lugar, nem que fosse... no inferno.

Ele rosnou e deitou-se de costas no chão frio, deixando Lisa por cima. Ele queria, precisava daquela lembrança para sempre. Da sensação dela montada sobre ele, do rosto lindo contorcido pelo prazer, dos olhos vidrados de desejo, dos seios balançando enquanto o cavalgava, dos sons que ela, em instantes, emitiria enlouquecida. Ele queria ouvir os gritos de delírio.

Vishous puxou-lhe as coxas com força, abrindo-a, posicionando-a em cima de seu membro grosso, pulsante e faminto. Como é que ele se livrou de suas roupas, ela não sabia explicar, mas não era necessário.

Lisa sentou sobre ele, enterrando-o totalmente dentro dela, bem fundo, o mais que podia. Finalmente estava preenchida por V. Finalmente eles estavam onde deveriam estar.

Ela soltou um gemido grave, arqueando as costas e jogando a cabeça para trás. Mordia os lábios em redenção a incontrolável luxúria, enquanto que aumentava o ritmo do vai e vem, do cavalgar.

– Abra os olhos – ordenou ele – Olhe para mim.

Imediatamente ela obedeceu e quando os olhares se encontraram, ela se viu diante do rosto mais erótico que já havia visto em toda a sua vida. As enormes presas não lhe cabiam na boca e o aroma... Ah, aquele maravilhoso e inebriante aroma de especiarias começava a saturar o ar e impregnar toda a sua pele.

– Sei que é você Vishous... – disse gemendo enquanto balançava os quadris, olhos nos olhos, em um ritmo intenso – Ninguém mais é capaz de fazer meu corpo sentir o que estou sentindo nesse momento. Eu preciso de você.

Ele se inclinou para frente, abocanhando um seio, chupando-o vagarosamente para depois morder o mamilo endurecido e pontudo.

– Isso... Vishous... – murmurou desnorteada, sem saber ao certo como controlar as sensações que seu corpo estava produzindo.

Então, para sua perplexidade e espanto, Lisa sente o golpe em sua bunda. Um tapa forte e vigoroso. Um tapa punitivo e marcante. Uma mescla de ardor e deleite... ao mesmo tempo que queimava sua pele lhe dizia que ela pertencia a um dono. Um dono que a estava marcando a ferro e fogo, igual como acontecia com o vampiro que a marcava quando a mordia, enterrando suas presas profundamente em seu corpo. Um macho que a amava e que era muito... muito depravado.

Um grito de surpresa e luxúria saiu de sua garganta, os olhos vidrados se arregalaram por um breve segundo, para em seguida, gemer de prazer.

– Você gostou – afirmou Vishous ao sentir a reação no corpo ardente que segurava forte.

Como podia gostar daquilo? Uma palmada. Um tapa... Um tapa na hora certa que intensificou seu desejo, transportando-a para um lugar onde nunca tinha estado.

– Sim... – disse ele com a voz entrecortada e quase irreconhecível – Esse sou eu, Lisa... seu macho... seu hellren.

Quando ele sorriu de um jeito sombrio apoiando as mãos, uma de cada lado, na cintura de Lisa e começou a comandá-la, ela se sentiu em casa. Ele metia com força e determinação. Cada vez mais forte. Cada vez mais fundo. As estocadas se tornavam selvagens e os amantes, animais no cio.

– Isso... Oh, Deus. – Lisa soltou mais um gemido.

– Você gosta disso, não gosta lelaan? Gosta de me sentir por inteiro dentro de você – ele estava quase lá, mas continuava a controlar tudo – Diga. Diga e eu a deixarei gozar.

– Sim – ela gemeu incoerente, quase gritando.

– Aposto que também tem saudade da minha boca em você. Do meu gosto...

– Sim... sim...

Ao ouvir as próprias palavras, Vishous não se importou com mais nada: o sofrimento, as injustiças, o sequestro, o cativeiro, as submissas, a vida em preto e branco.

Aquela ligação era a sua realidade, o seu verdadeiro mundo. A química forte e o laço que existia naquela fêmea era a sua salvação, ele nunca em sua vida sentira algo tão arrebatador, desvairável e intenso.

Ela o amava como ele era e o amor de Lisa o transformou em um homem melhor. Ele estava liberto do passado e podia sentir que sua fêmea também se libertava.

– Goze, Lisa. Eu adoro ver você gozar... Goze comigo. Goze para mim.

A sensação era uma tormenta devastadora. Ele penetrou de novo e de novo e mais uma vez. Os corpos estavam suados, escorregadios. Os cabelos grudados pelo rosto e testa. Os olhares fixos e eles se moveram mais uma última vez, juntos, encontrando um orgasmo violento, arrebatador e implacável.

O cérebro parou e os corpos explodiram em meio a um ardor insuportável. Puro fogo queimando e consumindo, labaredas ensandecidas, um choque lascivo e inebriante.

– Vishous!

Ela gritou recitando o nome dele e deixou vibrar a sonoridade pelas paredes ladrilhadas, estava ofegante e absolutamente perdida em sensações assombrosas. Enquanto os olhos adiamantados tentavam se ajustar ao impacto do gozo, ele sentia que as entranhas de Lisa ainda o ordenhavam em convulsões indomáveis...

– Eu amo você, Lisa – declarou, enquanto sua fêmea desabava sobre o seu corpo, completamente exausta e satisfeita.

– Eu também te amo, Vishous – murmurou com o corpo entregue, sem energia.

Corada, despenteada, suada e totalmente relaxada ela era a imagem perfeita e Vishous puxou-a para mais perto de seu corpo, aninhando-a, entrelaçando os poderosos braços ao seu redor. Poderia ficar ali, naquele piso frio para sempre...

A consciência bateu à porta dos amantes, cerca de quarenta minutos depois. A mensagem no celular de Vishous era bem clara:

Reunião com Wrath, AGORA!



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– O que foi dessa vez? – perguntou V. ao entrar no escritório fumando um de seus cigarros artesanais.



Ele foi o último Irmão a chegar. Toda a Irmandade estava reunida e pelas caras não era nada bom. Todos muito sérios, inclusive o Rei.

– Temos um assunto sério para tratar, mas estamos esperando por Lassiter – disse Wrath.

– Lassiter? O que esse...

– E antes que eu perca a pouca paciência que tenho, apague a porra desse cigarro. Meu cachorro não tem que conviver com essa merda.

Antes de Vishous ter a chance de se desculpar por estar fumando, Lassiter entrou com seu jeito descontraído, carregando sobre um de seus ombros algo parecido com uma embalagem ou capa de armazenar ternos.

– Ei, cara, aí está você – e parou em frente ao vampiro.

– A minha vontade é socar essa sua cara horrorosa até que vire geléia. – rosnou V.

– Eu não tenho culpa de nada – enquanto dizia isso andou até o outro lado da sala, parando à direita de Tohr – Lisa me fez um pedido e eu, como um ser celestial e bem intencionado... aceitei.

Vishous avançou, mas não chegou longe foi parado por Z. e Raghe.

– De novo Irmãos? Sério? – gritou ele encarando os dois.

– É o seguinte – continuou Lassiter – Acho que isso vai caber em você – esticou o terno na direção do vampiro detido – Está claro é que bem menor do que o número que eu uso, já que sou mais forte que você, mas... eu o escolhi com todo o respeito que sinto por Lisa e por você... Meus parabéns!

V. franziu a testa ao ponto das sobrancelhas se aproximarem e não entendeu nada. O que é que estava acontecendo? Para que ele precisava de um terno?

– É isso mesmo – bradou o Rei em voz alta e clara – Sua fêmea veio pedir minha autorização para um casamento e eu consenti. Você se casa esta noite, meu Irmão.

Enquanto os machos o abraçavam, dando uma série de tapas fortes em suas costas e falando frases como: “você foi fisgado”, “ela pediu você em casamento para o Rei”... Vishous sorriu e em seu peito ele sentiu plenamente o significado de ser feliz, além é claro, de agradecer por sua vontade de matar o anjo estar diminuindo.



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Lá estava ele, vestido em um elegante terno chumbo “Ermenegildo Zegna”, cercado por paredes amarelo vivo, quadros caríssimos, lustres de cristal, espelhos antigos e cortinas de veludo. Ainda não conseguia acreditar que estava acontecendo, nem mesmo quando cruzou o vestíbulo e começou a subir a ampla escadaria que conduzia ao segundo andar.



Nervoso!

O salão estava arrumado perfeitamente para a ocasião. Vozes masculinas se misturavam com as das fêmeas que esperavam pelo momento exato.

Todos da mansão estavam presentes. Os Guerreiros com suas companheiras, Gaya, Qhuinn. Layla e Blay. Além de Manny, que V. já aceitava como o macho de sua irmã Payne. Lassiter, Legassa e Eligor que tinha Stronger dormindo em seus braços e o casal de amigos: Nick e Anne. Quem diria, que isso, um dia poderia acontecer.

O piano de cauda fora trazido para o ambiente e de repente... criando vida, tocava sozinho!

Lisa!


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Surgiu esplendorosa em um vestido esvoaçante tomara que caia, tom rose pastel, que marcava perfeitamente suas curvas. Descalça, ela caminhava rumo a sua felicidade sem qualquer constrangimento. Seus cabelos estavam soltos, levemente cacheados e não trazia qualquer tipo de jóia. Nenhuma sequer.

V. estava sorrindo, aquele seu maravilhoso e malvado cavanhaque emoldurava o sorriso sombrio e avassalador. Seu macho, seu homem... seu futuro.

Com os acordes do piano tocando ao fundo, Lisa começou a cantar seu amor por Vishous. A música, a melodia, a letra... era a canção perfeita e dizia tudo sobre eles:



http://www.youtube.com/watch?v=xrBnQvVdi6o



– Leelan... – por Cristo, ela tinha lhe tirado o fôlego, não encontrava palavras dignas a altura de sua fêmea e seus olhos estavam mareados. Sua respiração estava suspensa, como se tivesse recebido um soco no estômago.



Foi Lisa que caminhou até ele.

– Está tudo bem, Vishous – sussurrou ela em seu ouvido – Eu sei o que está sentindo, chama-se felicidade.

As mãos dele envolveram os cabelos cacheados, seus dedos estavam enroscados, Lisa o abraçou forte e depois V. enlaçou-a pela cintura e a ergueu em seus braços, rodopiando pelo salão. Os convidados aplaudiram e algumas shellans choravam, emocionadas.

– Vishous... – disse o Rei sorrindo – É hora de despir a camisa.

Aqueles machos, seus Irmãos, sua família, estavam prontos e tão ansiosos quanto ele para ver tatuado no Antigo Idioma o nome de Lisa em suas costas e depois o de Stronger... e foi isso que aconteceu.

V. tirou o terno, a gravata e finalmente a camisa de linho branco, depois se ajoelhou abaixando a cabeça.

– Meu Irmão – falou Butch – Qual é o nome de sua companheira?

– Chama-se Lisa.

O desembainhar metálico da adaga retumbou no salão, soando alto como um trovão. O nome da fêmea começava a ser esculpido sobre os ombros largos, um fio de sangue correu pelas costas do vampiro que orgulhoso sorria, olhando para o chão.



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Cerca de seis meses depois...


A tempestade chegou barulhenta e com relâmpagos que clareavam a noite. No quarto, sozinha, Gaya soube que não poderia mais evitar o inevitável. Estava quase na hora de pedir ajuda, as contrações se intensificavam e sua principal obrigação era para com o ser que habitava dentro dela.

Enfim, ela colocaria no mundo a criança de Raghe e Mary e assim, cumpriria seu papel de Escolhida, o papel de perpetuação da Raça.

Movida pelo orgulho, Gaya esperava ter força suficiente para enfrentar o parto sem precisar da ajuda de ninguém, porém as dores avançavam de maneira devastadora e sua convicção começou a desmoronar.

O Doutor Manny saberia o que fazer e por ajudá-lo na enfermaria, ela confiava nele.

Por sorte suportou as dores até o anoitecer, pedido a Virgem Escriba, em uma prece silenciosa, que os Guerreiros já estivessem fora da mansão, principalmente Raghe e foi atendida. Naquela noite o macho não estava de folga.

Jogou um casaco por cima de seu manto e saiu do quarto, andando com dificuldade. Não queria encontrar ninguém, nenhuma fêmea, nenhum doggen. Determinada caminhou silenciosamente pelos corredores até chegar à enfermaria.

Tudo, por enquanto, se desenrolava como sua mente lhe permitiu imaginar nesses últimos meses de solidão e reclusa.

– Ehlena – chamou Gaya quando entrou.

Para a shellan de Rehv não foi preciso maiores explicações, a fêmea percebeu imediatamente que a hora do parto havia chegado.

– Venha... por aqui.

Estendendo as mãos, ela amparou Gaya e a conduziu para a sala de procedimentos. Tirou-lhe a roupa, vestiu-a com um avental azul e pediu que deitasse na cama hospitalar. Eficientemente ela também mandou uma mensagem de texto ao médico.

Poucos minutos depois, Manny adentrou.

– Gaya, vai dar tudo certo – sua confiança era tocante, apesar dos riscos altos – Fique calma.

– As contrações e a dilatação já estão adiantadas – informou Ehlena – provavelmente esperou o máximo que podia antes de nos procurar.

As palavras da enfermeira eram de crítica, mas quem poderia censurá-la, já que eram verdadeiras.

– Porque demorou tanto, Gaya? – perguntou o médico.

– Eu estou bem e ter vindo antes, bem...

– Isso sou eu quem deveria decidir, não acha? – ele franziu a testa – Não foi isso que nós combinamos. Eu me lembro de lhe ter dito que quando as primeiras contrações fossem sentidas, deveria vir para cá, imediatamente.

Ela não respondeu. Não havia resposta, ele estava certo.

– Agora, isso não mais interessa, vamos ver como você está. – então ele se virou para Ehlena e disse – Avise Mary e peça que chame Raghe, se ela precisar de sangue...

– Espere, isso é realmente necessário? Quero dizer... – A frase não foi concluída, a contração calou sua voz e o grito ecoou pela sala.

O Doutor Manny continuou com o exame, sua calma era espantosa.

– Há quanto tempo começou? Quando foi a primeira contração, Gaya?

– Talvez... quatro horas – respondeu atordoada.

– Por Deus... – ele balançou a cabeça – Ok, vamos lá. Você precisa me ajudar. Quando eu disser força... faça força, entendeu?

A ordem veio acompanhada por fios que agora monitoravam seu batimento cardíaco e também, por um cateter intravenoso introduzido em seu braço com medicação para acelerar a dilatação e o processo.

– Ehlena, você avisou Mary? – disse ele enquanto se posicionava aos pés da cama.

– Sim – a resposta foi curta. O motivo era porque quando avisou Mary, ela estava reunida com as outras shellans e não era uma boa hora para se mencionar tal fato á Gaya.

Tudo foi muito rápido, para surpresa de Manny, a fêmea ajudou e seu corpo também contribuía. As contrações começaram a se intensificar como era de praxe e o risco de uma provável tragédia, já não pesava tanto.

– Estou vendo a cabeça... – avisou o doutor – Ehlena, quando a próxima contração chegar, você vai ajudar Gaya a se levantar.

A enfermeira balançou a cabeça afirmativamente.

– E você, Gaya – acrescentou ele – Faça força, muita força. Empurre o quando puder.



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No corredor, do lado de fora da enfermaria, Lisa segurava a mão de Mary enquanto aguardavam silenciosas. Vishous chegou com Beth ao seu lado.



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– Falou com Raghe? – perguntou Lisa para seu hellren.

– John e Qhuinn estão indo para o centro – respondeu ele – Logo Raghe estará aqui.

– Meu Deus. Nunca pensei que ficaria tão nervosa – desabafou Mary – E se... bem, se ela quiser ficar com o bebê...

– Ela não quer! – afirmou Lisa – E eu já lhe disse isso.

– Não é esse o costume da Raça – falou a Rainha.

– Se Gaya morrer... – Mary passou as mãos pelos cabelos – Jesus Cristo... o que Raghe fez por mim... a culpa será minha.

– Ela não vai morrer, Mary – disse Beth se aproximando da amiga – Vai dar tudo certo. Confie.

As portas da sala de cirurgia se abriram no momento em que Raghe chegava, sangrando. Trazia um corte enorme no ombro direito.

– Gaya está bem – Manny olhou para Hollywood – Acho que precisa de uns pontos, grandão... Mas isso pode esperar, pelo menos, até você conhecer seu filho. É um menino.

– Obrigado Virgem Escriba – murmurou o Guerreiro.

Depois se aproximou de Mary e a abraçou calorosamente. Ela chorava de emoção.

– Conseguimos – sussurrou no ouvido dela – Nosso filho acaba de nascer.

– Gaya quer falar com vocês dois – avisou o doutor – Podem entrar agora, se quiserem. Ela está bem. Para falar a verdade foi surpreendente o parto ter sido tão fácil, mediante as histórias que ouvi.

Raghe deixou que Mary decidisse, não queria pressioná-la, porém quando ela deu um passo à frente, ele entendeu que não havia o porquê adiar, continuava corajosa.

O casal entrou no quarto. Gaya estava recostada sobre dois travesseiros, parecia confortável e tinha a fisionomia tranquila, olhando para o bebê em seus braços.

Aproveitando aqueles últimos segundos, ela passou os dedos suavemente sobre o pequeno nariz e depois circulou o rostinho. Estava maravilhada.

Então, levantou o olhar para Raghe e estendeu o bebê em sua direção.

– Pegue-o, Guerreiro. Ele é seu – sua voz saía calma e livre de qualquer censura ou cobrança – Entregue-o a sua shellan e tenham uma vida abençoada.

Não era isso que eles esperavam, pelo menos não Mary. Deveria haver algum apego, uma dificuldade para se afastar da criança. Por mais que aquilo pudesse lhe fazer sofrer, a mãe era Gaya.

– Eu lhe agradeço, Raghe filho de Tohrture, por ter me agraciado com a dádiva da procriação e como não podia ser diferente, estou feliz por ter desempenhado meu papel honradamente com você e também com a nossa Raça.

Ele aceitou a criança humildemente e ajoelhou-se ao lado da cama da Escolhida, com seu filho nos braços.

– Sou eu quem deve agradecer, Gaya e não somente por meu filho. Eu lhe agradeço por tudo que teve que suportar e lhe peço perdão por minhas atitudes e...

– Não fez nada de errado, Guerreiro. Minha escolha, naquele momento, era inapropriada e poderia ter me levado a manchar a honra de todas as Escolhidas.

Raghe se levantou e foi ao encontro de sua shellan que permanecia calada, como se assistisse a um filme.

– A partir deste momento não há qualquer laço entre nós e eu pretendo deixar esta casa o mais rápido possível – Gaya olhou para Mary com carinho e continuou – Tenho certeza que você será uma ótima mãe, é de sua natureza. A bondade e a coragem são dons da sua alma. Posso ver em seus olhos que você já ama essa criança como seu próprio filho e esse é mais um motivo pelo qual me sinto honrada.

– Obrigada, Gaya – Mary chegou mais perto da cama – Posso lhe dar um abraço?

– É claro – e abriu os braços.

Depois que as fêmeas se afastaram, Raghe passou a criança para os braços de Mary.

– Vai voltar para o Outro Lado ou prefere ficar na casa com as outras Escolhidas, Cormia e o Primaz? – perguntou ele, realmente interessado com o futuro da vampira – Aqui, na mansão você será sempre bem-vinda e sabe que pode ficar o tempo que quizer.

– Eu já me decidi – ela sorriu amavelmente – Nunca se esqueçam de que estou realmente feliz por vocês. Repito, foi uma honra. Que a Virgem Escriba agracie vosso filho com inúmeras dádivas.

Um silêncio desconcertante tomou posse do quarto e foi nessa hora que o médico resolveu aparecer.

– Ei, Raghe. Que tal, agora, cuidarmos desse ombro? – perguntou sorrindo — Você é grande, mas não é dois.

– É uma boa idéia, Manny.

– Venha, a sala ao lado está desocupada e eu já peguei tudo que vou precisar.

Quando todos estavam saindo, Gaya perguntou:

– Doutor, onde está Ehlena?

– Eu pedi que descansasse um pouco, mas estará de volta em duas horas. Precisa de alguma coisa?

– Não. Não é nada – respondeu com um pequeno sorriso – E quanto a descansar... é uma boa idéia.



–----------------------------------------------------------.



Gaya esperou pacientemente até não ouvir nenhum tipo de barulho do lado de fora. Ela recebeu algumas visitas, como de Lisa e Beth, porém se manteve distante alegando que estava cansada.



Pensando sobre o futuro que escolhia para si, ela se lembrou de um texto que leu em uma revista qualquer intitulado: A Roda do Destino.

Recordava-se de não entender o significado de tal expressão... agora, no entanto, tudo se encaixava. O que estava em baixo, podia subir e o que estava em cima, descia na mesma proporção.

Interessante os caminhos que eram percorridos no decorrer de uma vida, por causa das escolhas traçadas. Gaya, todavia, nos seus cento e sessenta e quatro anos de existência, não havia feito nenhuma escolha.

Nenhuma... até agora!

O mais assustador era que a tal escolha era uma incógnita melancólica e desconcertante que não permitia volta.

Ela se levantou da cama e foi procurar por Manny, encontrou-o lendo, em sua sala. Imediatamente seguiu para o lado oposto entrando em outra sala, onde eram guardados todos os medicamentos.

Sabia exatamente o que procurava e assim que pousou a mão nas cartelas de tranquilizantes, foi surpreendida pelo doutor.

– O que está fazendo, Gaya? – perguntou franzindo a testa e tentando supor o que viria a seguir – Você não pode entrar aqui.

Com um movimento rápido ela se virou e tocou-lhe a testa.

– Nada de que você vá se lembrar no futuro, meu bom médico – respondeu e saiu deixando Manny para trás sem saber o que estava procurando.

Ela retornou para o quarto da enfermaria onde supostamente deveria estar descansando. Ainda tinha uma hora antes que Ehlena voltasse.

Sentiu a necessidade de arrumar seus cabelos. Ela sempre gostou deles. Prendeu-os em um coque alto, tomando o cuidado de deixar alguns cachos soltos, tirou o avental hospitalar que vestia e deitou nua na cama, cobrindo-se com o lençol branco.

Lentamente, como se aproveitasse seus últimos minutos de vida soltou os comprimidos dos invólucros aluminizados, saboreando a estranha sensação e começou a contar: um, dois... cinco, seis... nove... doze.

Doze pílulas... mais que o suficiente. – Pensou enquanto as engolia.

Estava feito. A roda do destino fora acionada. Gaya estava deixando para trás todo a sua essência, tudo que conhecia. Com essa decisão não alcançaria o “Fade”, jamais cruzaria suas portas para viver em esplendor eterno junto dos seus e tão pouco, se por acaso, se arrependesse do ato monstruoso que praticava, receberia o perdão da Mãe da Raça.

Um relaxamento pesado começou a dominar todo o seu corpo, deixando-a com frio. Gaya ainda tentou puxar, para cima, o lençol, mas seus braços não responderam. Ela não tentou novamente, não lutou.

Ela só esperou que o sono da morte a envolvesse por completo.



–---------------------------------------------------------.



O suicídio mergulhou a mansão em uma situação de agonia e principalmente impotência. Os mais afetados eram Phury, Raghe e Manny. Cada um deles com suas razões particulares e distintas.



– E pensar que eu poderia tê-la impedido – desolado o médico balançava a cabeça, incrédulo.

– Ela apagou sua memória – argumentou Vishous racionalmente – Você é humano. Não há como lutar contra isso.

Hollywood não tinha palavras, suas emoções se resumiam a um sentimento de culpa do tamanho do mundo. A alegria do nascimento de seu filho acabou se transformando em uma tragédia sem precedentes e para aumentar seu desespero a Virgem Escriba, quando procurada pelo Rei, manteve-se distante e imparcial. Alegando que a fêmea tinha feito sua escolha.

– Tudo estava premeditado – afirmou Wrath.

– Onde foi que eu errei? – indagou Phury com tristeza – De certa forma a decisão já estava tomada a bastante tempo, desde que Gaya se isolou em seu quarto. Eu deveria ter notado, deveria...

Lisa entrou no escritório em um rompante com Legassa e Lassiter ao seu lado.

– Sinto muito interromper, Wrath – disse indo ao encontro de Vishous – Mas, todos vocês precisam escutar o que Legassa acabou de me dizer. Conte a eles.

– Bem... – começou o demônio – Todos nós sabemos o porquê da atitude de Gaya. Eligor foi sua motivação e é claro que ela pensa em encontrá-lo quando adentrar no inferno.

– Ele já sabe? – perguntou Raghe – Ele é...

– Não. E por enquanto é melhor que não saiba – respondeu Lisa e olhou para Legassa – Continue, por favor.

Ela inspirou profundamente demonstrando o quanto estava incomodada com a situação, nem ao menos sabia se poderia estar falando sobre o que se passava no submundo. Merda!

– O Vale dos Suicidas é domínio de Eligor, assim como os Exércitos Demoníacos. O problema é que o vale é imenso e na maioria das vezes, ele não sabe e nem se importa com o que se passa lá dentro e muito menos com as almas que estão lá, desde que seus soldados mantenham o lugar sob controle e que as torturas ocorram regularmente, como punição pelo ato cometido.

Algumas vozes praguejaram misturando-se entre si.

– Mas, o pior de tudo – continuou Legassa – É que isso tem uma razão para acontecer. Tirar a própria vida é considerado o pior dos pecados. Um ato de desprezo a Deus, é a mesma coisa que lhe virar as costas, que renegá-lo e é por esse motivo que o suicida não se lembra de nada.

Houve um momento de silêncio.

– Quando Gaya despertar... quando Caronte, o barqueiro da morte, deixá-la no vale, ela não saberá mais quem é e nem o porque de estar no inferno. Ela sequer se lembrará de seu amor por Eligor e com o passar do tempo sua alma se tornará tão vazia e sem sentimentos ao pornto de se transformar em um demônio.



–----------------------------------------------------------.



– Desça – ordenou a figura esquelética monstruosa – Este é o seu destino.


Foi a única vez que Gaya ouviu a voz rouca e lancinante do monstro.

Que lugar era aquele? O que tinha feito para ter recebido tal castigo?

O vale a sua frente era um platô escuro e infinito ao seu olhar. Descomunal em sua anomalia, gritos horrendos despontavam por todos os lados e sombras disformes sobrepunham-se a vultos que pareciam seres deformados e pavorosos.

O medo apoderou-se de seu corpo, transformando-a em uma escrava. Vestida com seu traje branco, ela parecia possuir luz própria o que atraiu olhares malignos de todas as direções. Aos poucos ela notou a aproximação de “coisas” que ela não se dignava a sequer nomear.

Totalmente apavorada, ela tentou se esconder, correndo até uma enorme árvore seca e retorcida. De costas para o tronco, buscando uma insignificante proteção, Gaya se ajoelhou e circundou com os braços o próprio corpo.

Quem ela era? Porque não se lembrava de nada?

Seu tempo estava se esgotando.



–----------------------------------------------------------.



– Wrath – a voz de Eligor soou forte, porém respeitosa, sob o batente da porta do escritório – O que aconteceu?



– Pai – disse Lisa sobressaltada – O que está fazendo aqui?

Wrath deu um sinal com a cabeça para que ele entrasse, o demônio estreitou os olhos e começou a interpretar os rostos dispostos a sua frente.

– O que aconteceu, Legassa? Porque você está aqui, nessa reunião? – perguntou duramente – E não me diga que é por causa desse anjo. Se fosse esse o motivo eu também teria sido convocado e é claro que do jeito que as coisas andam, você gostaria é de estar no quarto dele e não perdendo tempo nesse escritório.

Lassiter não gostou nada do tom de voz proferido. Ele deu um passo à frente em direção a Eligor, porém quem respondeu a pergunta e evitou o terrível confronto foi Wrath.

– Gaya está morta.

– O quê? Como... – o demônio não conseguiu terminar o raciocínio.

– Ela se matou após dar a luz. Tomou tranquilizantes.

Uma agonia se esparramou pelo ambiente. Amargura e desesperação emanavam de Eligor em ondas contagiando a todos.

– Você, vampiro – ele olhou diretamente para o Primaz, ensandecido – comece a rezar. Se algo de ruim acontecer a Gaya ou se ela nunca mais se lembrar de mim... voltarei aqui e esfolarei você vivo.

– Não tenho medo de você – rosnou Phury – Não pense que estou feliz como o que aconteceu, ela era minha responsabilidade.

– Responsabilidade que você foi incapaz de assumir – gritou Eligor – Se existe um culpado aqui, esse culpado sou EU. Por não tê-la levado comigo quando tive oportunidade, quando ela me pediu e principalmente por ter acreditado que você desempenharia seu papel para com Gaya e não, somente para com a sua Raça.

– Você não sabe absolutamente nada sobre minha Raça e nossos costumes – respondeu friamente o Primaz – Eu não lhe devo explicações.

– Se eu perder minha mulher – ameaçou o demônio malignamente – Você também perderá a sua.

Em meio à fúria Eligor desapareceu no ar e Legassa o seguiu imediatamente, ainda que lançando um olhar explicativo para Lassiter. O que restou no escritório do Rei foi uma situação pior do que a anterior.

A Irmandade defenderia o Primaz, o Guerreiro e o Irmão com todas as suas forças, sem falar que Vishous, em particular, possuía uma dívida eterna com Phury por ele ter aceitado o cargo em seu lugar.

Lisa se sentou em uma das poltronas, arrasada e parecia adivinhar os pensamentos de V. e de toda a Irmandade. Se o pior acontecesse, seu pai agiria como um demônio deveria agir e no seu íntimo, ela sabia, que as chances de Phury eram mínimas. Levou as mãos ao rosto tentando esconder seu sofrimento.

– Eu sei, lelaan – disse V aproximando-se e em um gesto de consolação esfregou as mãos carinhosamente em suas costas – Eu sei.



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O tempo é medido diferente no inferno, tudo passa em dolorosa lentidão, só o medo e o desespero é que chegam alucinadamente sem piedade, destruindo o pouco da ínfima essência que a alma carrega.


Gaya não tinha noção de quanto tempo estava encostada naquele tronco de árvore seca. Agora estava totalmente encolhida, em posição fetal, deitada no chão duro.

Os olhos que a espreitavam silenciosamente continuavam lá, atrás de arbustos, parcialmente escondidos e demonstravam estar aterrorizados tanto quanto ela. Era como se puxassem um cabo de guerra. De um lado a mulher vestida de branco e sem memória, do outro, assombrações sem rostos ou formas.

Muitas horas talvez tenham se passado e as perguntas fervilhavam em sua mente vazia. Quem sou eu? O que é esse lugar? Porque não me lembro de nada? E porque acredito que estou onde eu deveria estar?...

Apesar das labaredas que ardiam sem parar provocando incêndios que transformavam tudo em cinzas, dos exasperados gritos cortantes e ensandecidos e principalmente das criaturas deformadas que passavam a sua frente sem saber o que fazer ou para onde ir, exatamente como Gaya se sentia, ela ainda acreditava que ali era o seu lugar.

Como um lugar sem esperança, sem paz, sem expectativas, poderia exercer a eminente percepção de que ela pertencia a ele? De que, apesar de sombrio e inóspito era ali... exatamente... indiscutivelmente... que queria e precisava estar. Era essa constatação que a estava levando a loucura. Porque não conseguia lembrar já que era tão importante? Ela apertou ainda mais forte, os braços em torno de seu corpo sentindo-se solitária e infeliz.

Um vulto negro aproximando-se e a colocou em alerta mais uma vez. Gaya não queria ser notada, pelo menos, não até se lembrar de quem era. Moveu a cabeça lentamente para que seus olhos registrassem o que se aproximava. O que viu trouxe sua memória de volta como um relâmpago clareando a noite.

A Mãe da Raça pairava soberana diante de Gaya.

– Virgem Escriba – imediatamente Gaya se levantou e curvou-se em uma saudação respeitosa.

– Por que se curva, Escolhida? – questionou indignada – Sua saudação não condiz com o ato que praticou em vida. Renegou a mim e a nossa Raça optando pela morte.

Gaya abaixou a cabeça, não respondeu, só chorou. Estava envergonhada.

– Prefere isto ao Fade? Olhe ao seu redor.

Obedecendo, ela correu os olhos pelo vale ermo e dizimado.

– Este lugar não é digno de você, porém desprezando a vida é aqui que terminará sua existência.

– Me perdoe – suplicou Gaya – Minha intenção nunca foi ofendê-la.

–Duvido muito sobre isso e nunca terá meu perdão.

– Eu não tirei minha vida para apreciar a morte – de repente Gaya se sentiu corajosa e continuou com respeito – Eu morri para viver plenamente o amor que se encontra em meu coração. Eu deixei tudo para trás e optei pelo desconhecido com esperança de encontrar o homem que amo. Eu cumpri meu papel de Escolhida, mas sei que não foi como a Senhora merece e é por isso que peço seu perdão. Porém, também sei que Raghe, filho de Tohrture está feliz ao lado de sua shellan e de seu filho. Apesar de meu sofrimento o nascimento da criança me deixou honrada ao ponto de compreender o quanto fui importante e... eu jamais deixarei de me curvar perante vós, pois tudo que sou, eu devo a você, Virgem Escriba.

Silêncio.

– Você ama um demônio e não um homem. E até alguns minutos atrás não passava de um espectro sem memória. Tem consciência da gravidade de sua escolha? Quando esta conversa terminar, você esquecerá que eu estive aqui e não lhe restará nada.

Mais uma vez Gaya chorou. O que mais poderia dizer ou argumentar? Ela não queria voltar, preferia o inferno e a total alienação a ter que suportar viver sem Eligor.

– Vejo que já fez sua escolha.

A mãe da Raça começou a se afastar. Ela não olhou para trás, nem se despediu de Gaya. Ela apenas disse antes de sumir:

– Eu lhe devolvo a memória e também seu corpo para que viva em plenitude no lugar que escolheu. E sim, você cumpriu seu papel dignamente.

Foi então, que Gaya percebeu que sentia seu corpo como se estivesse viva, seu coração batia e suas lembranças estavam intactas, o presente que recebeu chegou junto com soluços indomáveis de felicidade e de incertezas. O que aconteceria agora? Para onde ir?

O som de passos se aproximando lhe assustou.

– Gaya...

Ela tentou conter o choro para responder.

– Aqui – gritou alto – Estou aqui.

E Eligor despontou na escuridão. Forte e soberano, trazia o olhar aflito e perturbado.

– Eu achei você – disse ele a agarrando em seus braços fortemente.

– Eligor... eu sabia... eu sabia que você me encontraria – Gaya o abraçou, encostando seu rosto no peito musculoso – Meu amor. Meu querido. Eu não poderia viver sem você... nunca.

– Você se lembra – reconheceu desnorteado dando um passo para trás – E seu corpo, como é possível?

– Um presente da Virgem Escriba. Ela estava aqui, comigo.

Eligor fechou os olhos. Sua amada era especial e não pertencia ao inferno. Em seu íntimo ele tinha a certeza de que Gaya era o tipo de mulher que nunca seria condenada a uma vida de sofrimento. Pura demais, não pertencia a aquele lugar.

– Você pode voltar? – perguntou abruptamente.

– Não me quer? – com olhos arregalados ela esperou a rejeição – Você não me ama?

Como poderia responder que não a amava? Ele a amou desde a primeira vez que a viu na mansão quando saiu do escritório de Wrath e bateu de encontro a ela. Os cabelos longos dourados, os olhos azuis de brilho intenso, a boca carnuda...

– Olhe este lugar? – argumentou sério – Tem ideia do que se passa aqui? Sabe o que isso significa?

– Sim – Gaya se aproximou e passou seus braços pelo pescoço dele, entrelaçando os dedos em seus cabelos negros – Significa que eu estou em casa. Significa que fiz minha escolha, significa que não posso voltar porque sou uma suicida e significa que se você, ainda me quiser, passarei a eternidade ao seu lado. Diga que me quer e depois me beije.

– Eu quero você, Gaya... Quero você para todo o sempre.

E a beijou profundamente.



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Bônus



Esta cena se passa em um momento qualquer depois do atentado sofrido por Wrath, comandado pelo Bando de Bastardos, quando foi à casa de Assail.


O Rei já está completamente recuperado e a Irmandade espera que Xhex possa encontrar a arma que disparou o tiro para ter uma prova concreta do ato de traição.



O laboratório de Lisa fica ao lado da oficina de seu hellren. É possível ouvir as batidas do martelo quando Vishous trabalha forjando o aço na fabricação das adagas mortais.



Debruçada sobre um livro antigo, ela estuda concentrada. Na verdade, o laboratório consiste em uma sala cheia de prateleiras que começam no chão e terminam no teto. O lugar já está quase todo tomado por pilhas de livro, muitos deles provavelmente, nunca cairão nas mãos de humanos comuns, e também existem os objetos. Objetos de todos os tipos, origens e tamanhos, sendo que alguns tão sombrios e arrepiantes, que Lisa fez questão de não perguntar a seu pai como ele os conseguiu.

Ela estudou poções e feitiços arduamente. Primeiro para conseguir sucesso no seu objetivo e segundo para se proteger. Ser uma feiticeira branca poderosa requer dedicação, humildade e treino. Muitas vezes perdeu a noção da hora e quem a tirava de lá era Vishous quando chegava, ao amanhecer, da Guerra.

Com o passar do tempo tornou-se uma mãe dedicada e menos atrapalhada, seguindo os conselhos de Bella. Aprendeu a fazer pequenos truques e por fim, quando as pequenas crianças ficavam juntas, ela dava vida aos brinquedos, como se fosse magia, transformando tudo em festa e gargalhadas. Até os adultos se divertiam ao ver aquilo. Principalmente quando um bicho de pelúcia representando um personagem fofinho da Disney saia correndo atrás de Boo ou Guardyan.

Porém, ao anoitecer daquele dia, Lisa pretendia mudar o curso da história e as únicas pessoas que sabiam o que estava por acontecer era Vishous e Beth.

As batalhas nas ruas de Caldwell se tornavam cada vez mais sangrentas e às vezes, para desanuviar a sobrecarga da luta a Irmandade tinha uma folga extra. Era o que esta noite, em especial, significava.

Lisa fechou o livro e suspirou...

Os machos rodeavam a mesa de bilhar e como sempre, Phury estava “apanhando” de Butch e ouvindo muitas gozações. A batida do rap de “Jay Z” vibrava no ambiente, Beth estava sentada no colo de Wrath no sofá e as shellans conversavam animadas do outro lado da sala. Quando o olhar da Rainha encontrou o de Lisa, ambas souberam que o momento havia chegado.

A feiticeira largou a conversa com as fêmeas, fez um sinal para V. e foi em direção a Wrath. Tinha que dar certo... isso se ele não a estrangulasse primeiro. O humor do Rei andava inconstante nos últimos dias e não era para menos.

– Oi – que coisa estranha para se dizer já que jantaram todos juntos. Desse jeito não iria funcionar.

– Oi – respondeu Wrath sério – O que quer, Lisa? Fale logo, para que minha shellan possa relaxar.

Beth suspirou profundamente.

– Não escapa nada de você, não é Wrath? – perguntou a feiticeira sem jeito.

– Sou cego, Lisa e não idiota.

– Ok. Tudo bem – intercedeu Vishous – Vamos começar do zero.

– Veja só. Você também sabe do que se trata. – não foi uma pergunta – Desembucha V., é uma ordem.

A tacada final de Butch foi ovacionada por Tohr, John, Qhuinn e Z. Todos distraídos da discussão que emergia ao lado, enquanto soltavam seus comentários. Só que isso acabou com a colocação de Lisa:

– Quero tentar curar sua cegueira e se permitir farei isso, agora.

Tudo ficou em câmera lenta e o silêncio chegou desconfortável. Alguns minutos se passaram, mas nem as respirações eram ouvidas.

– Não. – respondeu Wrath.

– Mas...

– Não e não se fala mais nesse assunto – ele se levantou, tirando Beth de seu colo.

– Wrath, por favor, escute o que Lisa tem a dizer – pediu a Rainha.

Ele virou o rosto na direção dela como se pudesse enxergar.

– Você deveria ter me dito que o assunto eram as minhas limitações.

Beth levou uma das mãos à boca, completamente aturdida com o comentário. Por acaso estava pensando que ela o achava fraco por causa da falta de visão? Será que já não tinha dado provas suficientes de seu amor e companheirismo?

– Não faça isso – calmamente Lisa se aproximou de Wrath e tocou seu ombro – Não jogue em cima de Beth esse fardo. Fui eu que a procurei e disse que tinha encontrado um feitiço que poderia dar certo. Desculpe-me. É que às vezes me esqueço que você é Rei, com todo o respeito – alguns murmúrios foram ouvidos nessa hora – e apenas, me concentro no amigo que está a minha frente.

Como argumentar com tais palavras? A mansão com seus habitantes compunham uma enorme família e apesar de todos os problemas, responsabilidades e tensões que pairavam sobre eles, a amizade e o amor sempre estavam presentes. Eles se ajudavam e em inúmeros momentos, dividiram suas amarguras e frustrações.

– Por favor... permita que eu tente – Lisa escorregou a mão pelo braço de Wrath, consolando-o – Você não tem nada a perder. Não ficará pior do que está e se der certo...

– Enxergarei. O. Lindo. Rosto. De. Beth. Perfeitamente. – concluiu ele quase sussurrando as palavras lentamente.

A emoção atingiu a todos enquanto Wrath permanecia pensativo. Ele não disse nenhuma palavra, apenas voltou e sentou ao sofá. Aquilo queria dizer “sim”.

Vishous se aproximou de Lisa e ela colocou-se a frente do Rei, em pé a princípio.

– Você sabe o que tem que fazer, não é V.? – perguntou a feiticeira ao seu amado.

– Sim – afirmou convicto – Não se preocupe comigo.

– Pois bem – Lisa tornou a se virar para Wrath e começou a explicar – Vai ser rápido, porém exigirá contato físico. Vou ter que encostar a minha testa na sua.

Ela mal acabou de pronunciar a frase e discretamente olhou em direção a mesa de bilhar... Raghe e Z. compreenderam e logo estavam ao lado de Vishous. Desta vez, foi V. que olhou perplexo para sua shellan.

– Isso é necessário? – perguntou irritado.

– Eles estão acostumados a segurar você. Não será a primeira vez.

Lisa respondeu contendo um sorriso, coisa que não aconteceu com Wrath.

– Se me atacar – brincou o Rei – só a pena de morte restará para você, meu Irmão.

Apesar dos risos a situação era tensa e o melhor era acabar logo com a agonia.

– Vou precisar que tire os óculos – pediu ela e se posicionou em frente à Wrath que continuava sentado – E por favor afaste os joelhos para que eu possa me aproximar um pouco mais.

Ele obedeceu tirando os óculos escuros, mas permaneceu com os olhos fechados. Enquanto isso, Lisa pegou um elástico no bolso de sua calça jeans e prendeu seus cabelos em um rabo de cavalo.

– Agora vou me inclinar sobre você, preciso colocar uma das mãos em seu ombro para eu ter apoio, a outra, depois que encostarmos nossas testas, estará em sua nuca.

V. soltou a respiração, enquanto que Lisa fazia exatamente o que tinha dito que faria. Não havia praticamente espaço entre os rostos, quando as testas se encontraram, colando uma na outra.

– Abra os olhos e olhe para mim como se pudesse enxergar dentro dos meus olhos, dentro da minha alma – a voz fluía baixa, hipnótica e macia.

Os olhares se encontraram: o olhar brilhante de um verde inigualável do Rei com o olhar azul esverdeado de Lisa, ela deslizou sua mão para a nuca dele e a segurou firmemente.

– Vai arder e depois virá a dor – murmurou alertando-o – E Wrath... confie em mim. Eu preciso que você confie em mim.

Em toda sua majestade e altivez ele sorriu tranquilizando a fêmea.

– Eu confio.

Os segundos foram correndo e nada parecia estar acontecendo, até que Lisa começou a respirar pesadamente e pronunciou o feitiço:

A limine

Desde o início


Ab imo pectore


Do fundo do meu coração


Altiora semper petens


Buscando sempre o mais alto


Lumina curand


Espalhar a luz da cura.


Seu corpo se enrijeceu, a respiração cada vez mais carregada, o coração disparou e ela gemeu baixo. A ardência em seus olhos se espalhou por todo o seu sistema nervoso e a que a dor dilacerante explodiu em suas têmporas fazendo gemer.


Temendo interromper o contato, Lisa fechou as mãos fortemente sobre Wrath. O Rei ao perceber o estado da fêmea tentou afastá-la.

– Não – sussurrou a beira do desfalecimento – Só mais um pouco.

– Não posso deixar que continue...

– Por favor, Wrath... me dê só mais alguns segundos.

– Lisa...

– Feche os olhos, me ajude a terminar.

Ele fechou os olhos e a sustentou em seus braços, tinha a sensação de estar lhe sugando todas as forças, sentia-se mal com tamanha generosidade. Os segundos se transformaram em horas até que, finalmente, o corpo dela parou de tremer e Lisa deixou pender a cabeça sobre os ombros de Wrath. Havia terminado.

Sem aviso, com o pensamento V. apagou as luzes, deixando apenas um dos abajures acesos, mergulhando o salão de jogos na penumbra.

– Vishous – Lisa pronunciou seu nome e ele se aproximou – Preciso do seu toque.

– Tudo bem, lelaan. Já vai passar – respondeu enquanto a erguia do colo de Wrath, percebendo que ela estava completamente esgotada.

Que orgulho era ser vinculado com uma fêmea de tal valor, pensava Vishous enquanto a acomodava no outro sofá, envolvendo-a em seus braços e tirando a luva. Quando o contado da mão brilhante com a pele dela se fez... ele notou o alívio de imediato e ela abriu os olhos, como se estivesse ressurgindo das sombras.

– Ele ainda está com os olhos fechados – afirmou Lisa mesmo sem olhar para o Rei – Wrath, abra os olhos.

Porém o Rei não o fez. Continuou imóvel.

Todos sabiam que ele travava uma batalha interna. Se o feitiço não tivesse dado certo, seria como receber novamente a notícia de que nunca mais voltaria a enxergar.

– Enquanto você não abrir seus olhos... – continuou Lisa com a voz embargada – Eu também não enxergarei. Acho que deu certo, meu amigo. Abra... e me diga.

E foi isso que ele fez!

Primeiro um pequeno clarão, um borrão e nada mais. Depois parecia uma cortina se abrindo. Os objetos começaram a entrar em foco, as formas ficaram mais acentuadas, as cores vibraram e diante dele o lindo rosto de sua companheira surgiu nítido – sua Rainha... seu mundo, chorava emocionada.

– Beth, eu consigo enxergar seu rosto com perfeição – e a abraçou com força, no conseguindo conter suas próprias lágrimas.

A Irmandade se aproximou, os Guerreiros que lhe eram fiéis também traziam os olhos marejados e em uma demonstração de alegria e felicidade se ajoelharam aos pés de seu Rei.

– Obrigada, Lisa. Não há palavras que possam expressar minha gratidão. Não haverá em minha vida momento igual a este.

Ela apenas sorriu largamente, enquanto o barulho de um champagne estourando ecoou. Era Fritz, também emocionado, proporcionando a bebida e as taças para a comemoração histórica.

Lisa abraçou V., ainda mais apertado, depois o beijou com amor e murmurou baixinho em seu ouvido para ninguém mais ouvir.

– Isso é o que ele pensa! – ela sorriu – É só uma questão de tempo, pouco tempo.

– Do que está falando, lelaan?

– Eu já o vi, em meus sonhos, Vishous – ela depositou mais um beijo carinhoso nos lábios dele e acrescentou – Eu vi o Rei boquiaberto enquanto olhava seu pequeno filho dormir.

Desta vez foi Vishous quem sorriu imaginando a cena e o desespero de Wrath com a notícia da gestação de Beth.

– Acho que por enquanto é melhor você não contar nada a ele, Lisa. É muita informação, poupe o coitado.

– Você tem toda razão, hellren – e continuou sorrindo – Quem não deve ser poupado é você... já eu também sonhei com você segurando uma linda menininha de olhos adiamantados.


FIM


Notas finais
Gostaram do vídeo? Vocês mereciam mais...
Foi um presente! Uma forma de presentear por estarem sempre comigo!
E também é a forma como eu imaginei Lisa cantando seu amor por Vishous. Cada palavra dessa canção expressa a totalidade desta história.
O meu humilde pedido é: Deixe seu comentário, escreva qualquer coisa, nem que seja apenas gostei ou não gostei...
Meus leitores são muito importantes e me dão muitas alegrias. Nossa... eu estou com vontade de chorar. Espero que na próxima Fic eu encontre algumas de vocês por lá.
Fiquem com Deus e muuuuuuito obrigado por lerem.
Aqui deixo uma parte do meu coração!
Fênix.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!