Traga-me Para A Vida
36 Capítulo 35
Notas iniciais
Peço desculpas pelo enorme atraso, mas infelizmente tive um problema e não pude postar antes. Minha mãe sofre de depressão e síndrome do pânico e teve uma crise terrível... por esse motivo não pude estar aqui com vocês. Mas agora ela está estável e aqui vai mais um capítulo.
Por favor, me perdoem.
Não vou me estender muito nas minhas palavras por sei que estão ansiosas para a leitura.
Então, aproveitem e saibam que eu nunca vou abandonar essa história.
Um beijo,
Fênix
– Sim, eu acredito que Lisa está viva.
O escritório de Wrath parecia pequeno diante de tantas informações, Julia não parava de falar. Tinha tanto o que dizer desde que saiu de Praga ao lado de Évora. Não é necessário citar que os vampiros ficaram completamente surpresos e chocados quando ela lhes contou sobre Wrath, ou melhor, sobre o pai de Wrath e o bebê de Évora, tendo como pai: Ômega.
Agora as coisas ganhavam outro sentido. O quebra-cabeça passava para uma nova etapa.
– Sei que o que vou dizer agora vai soar como loucura, mas... alguém precisa ir até o mausoléu onde o suposto corpo de Lisa está enterrado e abrir aquele caixão.
– Olhe, não quero parecer cético – começou Phury – mas sabe o que está dizendo? Até cerca de duas horas você estava em coma e...
– Eu sei o que estou falando! – afirmou Julia com segurança – Eu vi Évora invocar esse feitiço. Foi como saí do reformatório. Ela trouxe um dedo da mão de uma mulher e um corpo igual ao meu se formou em questão de minutos... só precisou de uma mecha dos meus cabelos. Por favor, sei que não acreditam em mim... mas, é por esse motivo que devem ir ao cemitério e verem com seus próprios olhos.
Vozes ecoaram os mesmo tempo. Todos queriam dar suas opiniões. Os únicos totalmente calados eram Vishous e o Rei.
– Eu posso ouvi-lá. Não sei o quanto, mas já ouvi discussões entre Lisa e Évora e também...
– Você estava inconsciente Julia, como bem disse Phury – falou Thor – Tem certeza que essa parte não é fruto da sua imaginação? Veja... sei que tudo isso é difícil, mas não quero que dê esperanças para meu Irmão.
Ele olhou para Vishous e ajeitou-se na poltrona, continuando a expor seu ponto de vista.
– V. já sofreu demais, não seria justo ter que passar tudo novamente para depois constatar que nada era real e eu sei que isso que estou dizendo, você pode entender. Não é que não temos esperança é só cautela.
Como ela poderia explicar àqueles vampiros enormes que estava dizendo a verdade? Quando começou a escutar as vozes... ela também não acreditou, precisou de um tempo para compreender o que realmente estava se passando.
Mas ali, naquela sala, havia um vampiro que poderia lhe dar crédito. Poderia acreditar piamente em tudo que dizia. Então o melhor a fazer era deixar o incômodo e a vergonha de lado e começar a descrever minuciosamente.
– O ambiente era praticamente todo vermelho – por um segundo hesitou, mas quando seu olhar cruzou com o olhar do vampiro que do outro lado do escritório permanecia calado, porém atento dentro de sua agonia. Julia foi tomada por coragem e continuou – havia um vaso de cristal e rosas negras sobre uma mesa redonda ao lado da cama. Lisa pensou que as mãos que subiam pelo seu corpo eram de um homem pálido...
Ela continuou olhando para V., mas ele não disse nada. Somente a encarava passivo com um olhar indecifrável.
– Consegui sentir a alegria quando ela percebeu que estava enganada. Quando olhou e viu a luva de couro preto. A mesma que você está usando agora.
Naquele momento Julia não falava com uma adolescente. Era uma mulher sofrida, tentando provar mais uma vez que não era louca ou transtornada como todos as pessoas que passaram por sua vida tentaram lhe fazer acreditar.
– Quer que eu continue? – perguntou com uma voz arrogante, porém totalmente firme – Porque posso descrever seu corpo perfeitamente... todas as tatuagens e também dizer como Lisa se sente com sua possessividade e dominação, ou talvez você prefira que eu repita uma das frase que ela pronunciou enquanto você estava com a boca no meio...
– Já chega! Eu acredito! Pode parar por aí – Vishous retirou o gorro e passou as mãos pelos cabelos, balançando a cabeça negativamente inconformado. Só faltava mais essa. – O que é isso, agora? Sou um livro aberto que pode ser lido por todos? Caralho.
Sem graça baixou o olhar, mas antes encarou Butch. O tira estava tão perplexo quanto ele.
– Todos? Você quer dizer “todas” no feminino, não é? – Lassiter não podia deixar o momento passar – Que coisa interessante. Primeiro Lisa e agora é Julia sonhando... bom, resumindo a história... Julia acordou porque viu você pelado.
Enquanto V. se levantava e rosnava seguindo em direção ao anjo, dessa vez ele iria socá-lo, Wrath não pode se conter e gargalhou.
– Meu Deus, isso é motivo para desmaiar e não acordar – provocou Raghe rindo, olhando para V. ele passou a mão pelo seu forte peitoral – Se ainda fosse o meu corpo... não tinha o que discutir, mas o seu?
Todos de alguma forma sorriram e Julia os acompanhou no momento “besteirol”. Quando V. passou por ela para conseguir chegar a Lassiter, ela estendeu a mão e tocou-lhe o braço com delicadeza.
– Eu não sou louca.
Antes que ele pudesse responder, o Rei falou.
– Sabemos que não é louca e peço desculpas por esse bando. – O sorriso desapareceu, ele arrumou os óculos escuros e sua fisionomia voltou a ser assustadora e séria. – Esta noite iremos até o cemitério, temos um corpo para exumar. E se não for Lisa Hendrix...
Wrath se levantou, saiu de trás da mesa e colocou suas mãos em cima dos ombros de Vishous, uma de cada lado.
– Se não for Lisa Hendrix, então teremos um grande motivo para seguir em frente. Teremos esperança de dias melhores... com ela aqui... vivendo conosco.
– Sábias palavras – disse Lassiter aplaudindo, enquanto murmúrios de aprovação eram pronunciados a revelia.
– Você? Pai? – ela riu descrente.
– Isso mesmo. Fique longe dela Évora, não pedirei novamente.
– Não é possível.
– Porque que não é possível? – Paul pegou-a pelos antebraços e apertou com tanto força que sentiu o estremecimento se espalhar pelo corpo da bruxa.
– Ela está mentindo, o filho não é seu. É daquele vampiro que morreu. Eu já sabia e...
O tapa foi tão forte, dado com tamanha violência que Évora se chocou contra a parede e o espelho pendurado caiu em cima dela estilhaçando-se em mil pedaços, provocando cortes, alguns profundos, enquanto tentava se levantar do chão.
– Sua cadela nojenta. – o redutor estava completamente fora de si, parecia possuído por algo tão maligno que era difícil descrever – Nunca mais repita isso. Acha que sou idiota?
Tomado por uma raiva monstruosa ele começou a chutá-la. Envolveu os cabelos de Évora em uma das mãos, enrolando-os. Puxou a cabeça para cima e então com a ponta do seu sapato deferiu chutes potentes sobre seu estômago e pelo baixo ventre. Não parava... não se cansava.
– Pensa que acredito que se você soubesse que Lisa estava grávida quando chegou aqui, não teria me contado? – ele estava ofegante e gritava – não me tire como um imbecil, vadia!
É correto afirmar que Évora sempre foi uma feiticeira poderosa, mas todos os seres mortais ou imortais cediam quando estavam sendo surrados violentamente e ela cedeu. Talvez tenha sido a surpresa do momento. Não é possível dizer se foi pelo choque da notícia da gravidez de Lisa ou se pela manobra esperta e tão bem elaborada sobre a mentira de quem realmente era o pai da criança. Paul acredita naquilo cegamente.
– Vai aprender a me respeitar – Ele começou a caminhar para a cozinha, arrastando-a pelos cabelos – Hoje você entenderá quem é que manda nessa porra. Vaca imunda.
Abriu o alçapão que era a passagem para o porão e continuou a puxá-la sem qualquer arrependimento. O corpo de Évora batia nos degraus duramente, castigando-a. Quando chegou ao lado da sua mesa de tortura ele a puxou, ainda agarrado aos cabelos longos, e rapidamente imobilizou-a. Amarrando os tornozelos e os pulsos com correias de couro.
Só que isso não era suficiente para Paul, e tão pouco para Évora. Ela era esperta e uma bruxa impiedosa, sabia que não podia ser descuidado. Um passo em falso e ela o mataria. Para impor mais dor, ele foi até seus “brinquedos”. pegou um rolo de arame farpado e começou a envolver a mesa juntamente com o corpo da feiticeira. Apertando fortemente, viu o arame abrindo cortes por todo o corpo da mulher e o sangue começava a escorrer com facilidade.
O vestido amarelo claro que usava, já começava a mudar de cor. Vermelho vivo, vermelho sangue. Quanto mais voltas ele dava, mais queria dar. Continuava obcecado, prendendo-a desvairadamente. Com as mãos também cortadas e com o fim do rolo de vinte metros. Paul parou.
– Assinou sua sentença de morte. – cuspiu Évora com ódio.
Ele não respondeu. Voltou aos “brinquedos” pegou uma mordaça de bola totalmente em couro e... seus olhos avistaram uma determinada máscara. Ela também era em couro, só que totalmente rústica, lembrava couro de boi. Cobria os olhos e também tinha uma mordaça igual a que ele havia escolhido anteriormente.
– Perfeito. – disse sorrindo, seu corpo tremeu.
– Não quero mais ouvir suas mentiras, vagabunda – ele colocou a máscara e prendeu com força – Quem é o todo-poderoso? Quem é que manda?
Afastando-se dela caminhou em direção as escadas, mas antes de começar a subir proferiu a seguinte frase.
– Eu voltarei... antes que você apodreça, não se preocupe! Agora se me der licença... vou ver minha mulher.
Gaya estava sentada na biblioteca. Descobriu que tinha verdadeira paixão por livros e os devorava ansiosamente e feliz. Mas naquele dia em especial, não conseguia se concentrar, tinha um problema.
Alimentação!
Encontrava-se sedenta por sangue, precisava de Raghe. No limite... era assim que o seu corpo anunciava, clamava. Quanto mais fome sentia mais afoita se tornava pela leitura. No momento o livro aberto em suas mãos era “A dama das Camélias”, um romance. A linda e triste história de um amor impossível... uma linda cortesã francesa, uma mulher mantida para dar prazer ao belo burguês que pudesse pagar e sustentar seus luxos, porém ela escolheu o amor... e tem uma morte solitária, assim como é toda a sua vida, nas páginas que Gaya lê com tanta intensidade.
Por que a Virgem Escriba nunca nos falou sobre esse sentimento? Ele é tão poderoso, único, completo. Por que tratá-lo como se não existisse?
Em meio aos seus questionamentos Gaya sente-se vazia. O único macho que teve uma certa aproximação foi Raghe e apenas para cumprir sua função, a continuidade da raça.
Não! Não é certo pensar dessa maneira. Ele se sacrifica todas as noites, lutando para... para...
Pare de pensar! Pare agora! Adverte sua consciência, no entanto o esforço é inútil.
Ele tem para quem voltar no final da batalha... Mary, sua linda Mary.
E para quem Gaya vai voltar quando cumprir seu papel com o bebê nascido e alimentado? Lágrimas caem por seu rosto e a tristeza impressa nas folhas daquele maravilhoso livro, que ela segura avidamente, a envolve formando uma bolha.
Ela não vai pedir que Raghe a alimente. Vai esperar até que ele se lembre ou perceba que ela precisa ser alimentada.
Não faça isso Gaya. Ele é um macho honrado, digno e ele está vinculado a Mary por toda a eternidade. Não se deixe levar por um sentimento que você desconhece. A vida real não é assim. O amor verdadeiro é difícil de ser encontrado. Lá está sua consciência novamente cantando sábios conselhos, a verdade!
Gaya sabe, porém quer mais. Ela quer o que vê todos os dias em Raghe e Mary, Zsadith e Bella, Butch e Marissa e até em seu Rei e sua Rainha.
Sem poder conter a avalanche de lágrimas, ela desaba em seu mundo solitário e confuso. A realidade é que não tem nada a sua espera além do Santuário das Escolhidas.
– Gaya? Jesus Cristo! Gaya, você está bem?
Curvando-se sobre ela e segurando suas mãos Bella olha com preocupação.
– Responda. O que houve?
Como se Bella fosse sua tábua de salvação, Gaya se abraça a ela e deixa que seu choro venha à tona sem nenhum tipo de constrangimento. Os soluços preenchem o ar.
– Gaya fale comigo – Bella insiste – Meu Deus, o que está acontecendo. Alguém lhe ofendeu, foi...
– Não... – no meio do choro, ela tenta balbuciar as palavras – A culpa... é minha.
– Do que está falando, querida? Não estou entendendo.
Porém antes que Gaya responda Bella sente sua fome. É devastadora.
– Deus do Céu, você está faminta! Quando foi a última vez que se alimentou?
– Não é isso...
– Raghe, sabe que...
– Não! Por favor, deixe-o fora disso – Gaya segura fortemente as mãos de Bella, quase que implorando – Eu não quero que ele saiba que estou chorando.
– Ele fez ou disse alguma coisa que lhe ofendeu? – Bella pergunta com cautela, mas com determinação – Não esconda nada de mim.
– Não! – Gaya arregala os olhos em choque – Ele não fez nada, o problema sou eu. Eu sou indigna de carregar o filho de tal guerreiro.
– O quê? Indigna? – ela se surpreende com a resposta. Afinal as Escolhidas são símbolo de pureza e dedicação. – Gaya, eu não entendo porque se sente indigna e porque não o solicitou para sua alimentação? Você espera um filho não pode passar tanto tempo sem tomar de uma veia, pode prejudicar o bebê. O que está acontecendo? Diga-me eu sei guardar um segredo. Por favor, estou preocupada com você.
O silêncio se faz presente, mas Bella espera pacientemente. Seja lá o que está afligindo Gaya é bem maior do que a Escolhida pode suportar. As lágrimas secam e os soluços param.
– Sou indigna do que carrego em meu ventre por que... – a voz é apenas um sussurro, baixo e contido – por que... me dei conta que estou apaixonada por Raghe!
De todas as suposições possíveis e imaginárias, essa foi a mais surpreendente. Bella não sabia o que dizer àquela fêmea linda, ingênua e totalmente despreparada para a vida que se encontrava a sua frente.
– Eu... eu sinto muito Gaya. Não há esperança nesse caso, porque Raghe, ele... ele está vinculado a Mary e...
– Eu sei. Sei disso perfeitamente. Posso sentir o amor em seus olhos quando ela está por perto... eu pedi a Virgem Escriba que me concedesse a providência de gerar meu filho do Outro Lado, em paz e sozinha, mas ela disse que as regras foram acertadas de comum acordo com o Guerreiro e que assim será.
– Entendo.
– Eu não quero que ele saiba o que eu sinto, nem sua shellan.
– Não falarei nada. Pode confiar em mim.
– Obrigada.
– Mas isso agora, não é a prioridade. Você precisa se alimentar e...
– Será que você poderia ficar comigo quando eu... – ela engasga pelo horror do ato – tomar do sangue dele?
– Meu Deus... não sei como posso... – Bella é pega se surpresa com tal pedido – Mary ela vai estar presente, talvez a minha presença seja demais.
– Sim – Gaya baixa a cabeça resignada – Você tem razão.
Bella é capaz de sentir a dor, o tormento e sua solidariedade é dedicada totalmente a Gaya nesse momento, assim como é também a Mary. Ela sabe, Mary lhe disse e as palavras da shellan de Raghe explodem em sua cabeça:
– Não é como quando Raghe se alimenta de Layla... é mais, muito mais. Eu não sei como lidar com isso. Vai ser intenso e muito íntimo e sinceramente não sei se estou pronta para assistir... por mais que seja importante para Raghe. Ele esteve com ela, ele gerou um filho e ela o carrega com orgulho e eu... eu estou cega pelo ciúme e por minha agonia de não conseguir dar a ele o que ele precisa.
Ah... a vida as vezes é tão cruel, tão complicada. Realmente não é fácil ser uma shellan ou estar apaixonada por um dos Guerreiros da Irmandade. Após esse pensamento Bella retorna seu foco novamente para Gaya. O que fazer? Como ajudar?
Bem... diante das perspectivas apresentadas. Só uma pessoa pode assistir o ato da alimentação imparcialmente: o Rei.
Pela primeira vez no cativeiro, Lisa ouve uma música ecoar pela casa. É assim que é despertada para o mundo real. Já está acordada a horas, aproveitando o momento, pensando... depois do sonho com Vishous seu humor é glorioso e ela realmente se sente como se tivesse feito amor com ele, em todo o seu esplendor... a sensação vívida é maravilhosa, ainda está úmida entre as pernas, ainda sente o toque de seu macho amado e desejado. Um bálsamo em seu calvário.
Sua força interna está renovada e ela está pronta para enfrentar o que ainda está por vir. Manter-se a salvo e preservar a vida de seu filho está acima de tudo. E ela fará TUDO o que for necessário para que isso aconteça. Nada dura para sempre e sua prisão também não durará. É essa convicção que Lisa armazenou no fundo de sua alma e que seguirá fielmente.
Paul abre a porta com um sorriso radiante.
– Oi meu amor.
Ele se aproxima e a beija delicadamente nos lábios, mas o que realmente deixa Lisa chocada é que ele está abrindo os grilhões que lhe a mantém presa as correntes chumbadas na parede.
– Vou lhe dar um presente. – o sorriso continua em seu rosto pálido – Você merece.
– O que é? – pergunta desconfiada.
– Vou levar você para a sala. Poderá se sentar no sofá, assistir um pouco de TV, ouvir música ao meu lado e comer na mesa de jantar.
Os olhos do redutor brilham de alegria. Ele está completamente atordoado e feliz com a notícia de ser pai.
– Obrigada, Paul – diz Lisa tentando ser ingênua e agradecida, e parece que consegue.
– Venha.
Quando ela se levanta do chão, Paul mostra-lhe um vestido que estava jogado sobre os seus ombros. Ele é azul claro, muito delicado, com rendas na parte de baixo da saia e extremamente primaveril.
– Quero vestir isso em você. Chega de você nua... não que eu não goste de ver seu corpo – sua voz se torna quente e expressa todo o desejo que sente por ela – De hoje em diante você é a senhora desta casa. Quero vê-la bem vestida e bem arrumada.
Imediatamente ele coloca o vestido e fica admirado com a mudança. Lisa está simplesmente linda e seus olhos completam o quadro arrasador.
– É claro que não confio em você totalmente... – ele estreita o olhar sombrio e fala duramente – por isso vai usar essa corrente presa em seus dois tornozelos. Elas restringem o tamanho da sua passada e impedem você de correr.
– Paul, eu...
– Quieta! Eu ainda não terminei. – continua austero.
Interpretando seu mais novo personagem, Lisa abaixa a cabeça em submissão, rendendo-se a ele.
– Oh, Deus... eu sempre sonhei com você desse jeito. Obediente a mim.
Mais uma vez seu tom de voz muda. Lá está o Paul apaixonado e deslumbrado novamente.
– Do que é que eu estava falando? – Ele a abraça pela cintura – Você tira totalmente a minha concentração. Ah... sim, agora me lembro. As portas ficam sempre trancadas. Noite e dia. Não há como fugir.
– Eu não quero fugir. – Ela continua com o olhar baixo.
– Não quer? – Pergunta desconfiado – Olhe pra mim.
– Não. – Lisa levanta o olhar e olha diretamente nos olhos de seu inimigo – Para onde eu iria? Eu morri para o mundo e agora... agora eu tenho um motivo para ficar.
– Sim... um bebê!
– Não Paul. É mais do que isso – Lisa coloca suas mãos apoiadas nos ombros dele, uma de cada lado – Agora eu terei uma família, a família que eu nunca tive. Estou feliz e essa felicidade é você que me deu. Eu estava errada.
Totalmente envolvido pelo momento, Paul para de racionalizar e o lado escuro e malévolo de Lisa preenche o ambiente em que eles se encontram enredando o redutor perfeitamente, como uma mosca que fica presa na perfeita teia de uma aranha.
– Eu deveria ter escolhido você na boate – suas palavras ficam mais baixas, saem suspiradas – Você sempre foi o melhor pra mim, você ainda se lembra do beijo? Eu me lembro.
Paul suspira em êxtase. Ele não pode ter uma ereção sem a ajuda de Évora, mas as palavras que acabou de escutar lhe levam para um lugar bem próximo do paraíso onde mora o orgasmo. Ele a pega no colo e sai do quarto.
Gentilmente ele a deposita cuidadosamente sobre o sofá. Arruma as almofadas para que ela fique bem acomodada e se afasta.
– Fique onde está. Quero que você escute uma coisa.
Ele se aproxima de um aparelho de som e coloca uma música para tocar.
– Essa música diz tudo o que eu sinto por você. Preste atenção Lisa. Você me salvou... você é o meu anjo.
Enquanto os primeiros acordes ressoavam, Paul se sentou bem ao lado no sofá. Jon Secada começou a cantar e Lisa foi tomada por um desespero crescente e uma tristeza imensurável.
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As palavras eram como um pedido de perdão, um desabafo amoroso, um arrependimento por escolhas erradas, Ele queria uma vida, uma eternidade ao lado da mulher que ele amava com agonia... ele queria ser um homem comum e normal.
Apesar de ser um animal psicótico e sem alma... ele a amava com unhas e dentes, de uma maneira que soava errada aos ouvidos dos pobres mortais, mas era impossível negar que uma alma negra e sem esperança tinha cedido ao poder do amor.
O momento era tão irreal e ao mesmo tempo tão profundo que Lisa desabou dentro de seu emocional. Ela leu a mente de Paul e pode ver o que ele tinha feito com Évora. A discussão, o aprisionamento.
Porra! Tudo estava errado. Como conseguiria continuar com tamanha mentira? Lisa se sentiu impotente, pequena, imunda... e chorou.
– Não, não... meu amor! Está tudo bem – disse Paul delicadamente – Não chore. A luz dos seus olhos faz com que eu sinta meu coração bater dentro do peito... mesmo não tendo um! Eu amo você, Lisa Hendrix e amarei para sempre.
Ela não conseguiu parar de chorar e rezou para que Vishous não se esquecesse dela, que seu amor fosse maior que a morte... sim, a morte. Porque Lisa sabia que todos que um dia a amaram, agora sentiam apenas uma cruel e devastadora saudade, afinal ela estava morta para o mundo.
– O quarto é lindo. Obrigado.
– Você ficará bem aqui. Se precisar...
– Vishous, eu não sei como encontrá-la – disse Julia tristemente – mas eu sei que ela está viva. Posso sentir.
Ele passou as mãos pelos cabelos e fechou os olhos.
– Tenho esperança que pelos sonhos eu descubra onde Lisa está presa. Às vezes... eu escuto ela me chamando perfeitamente... ela me pede ajuda.
– Com o quê você já sonhou? O que você já viu?
Apesar de estar completamente arrasado, V. mostrava-se inflexível e de certo modo, duro demais.
– Quer mesmo saber?
– Acredite-me... se eu não quisesse não estaria lhe fazendo tal pergunta. Poucas coisas são importantes pra mim. Não sou do tipo sentimental.
Com tal resposta Julia se sentiu intimidada. Era visível que aquele vampiro não tinha muita consideração por nada e era muito, muito sombrio... mas no sonho, naquele sonho ele amava Lisa com veneração.
– Sei que ela está acorrentada. Vejo Évora e um homem loiro... bem pálido. Não faz muito tempo Lisa foi... foi... chicoteada.
A expressão de Vishous mudou. Agora Julia estava com medo dele.
– Tem certeza? – rosnou por entre os dentes.
– Sim, eu vi quando Évora tentou lhe dar remédios e ela recusou... então só fez os curativos, suas costas estavam...
– Chega. Não preciso ouvir isso, se não posso fazer nada. – ele levantou a mão num gesto que sugeria silêncio, transtornado V. foi curto e grosso – Trate de achar um maldito jeito de encontrá-la. Não interessa o que tenha que ser feito, não interessa que tenhamos que ir até o inferno. Você também é uma feiticeira... então desempenhe seu papel. E faça isso logo.
Ele se virou e começou a sair do quarto que um dia também foi habitado de Lisa, porém antes de ultrapassar os batentes ouviu Julia pronunciar uma última frase.
– Eu não sei o que fazer... onde procurar, estou tão perdida quanto você.
Notas finais
Quanto a Paul... o que pensar?
Um grande beijo e bom final de semana.
Comentem!
Fênix
Queria agradecer de coração a Leeh-Swan e Suzanaa pela recomendação. Não sei como agradecer as palavras de carinho e os elogios. Muito obrigado, podem ter certeza de que isso me ajudou muito nessa fase que atravessei com a minha mãe. Um beijos grande e até o próximo capítulo.
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