Traga-me Para A Vida
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Eram aproximadamente 5:00h da manhã quando os Guerreiros começaram a se materializar as portas da mansão. Um a um foram chegando. Wrath foi o primeiro, seguido por Zsadist e Raghe, logo depois foi à vez de V. e Butch e por final Phury.
As contendas com a Sociedade Redutora continuavam lentas. Os combates tinham diminuídos e alguns, como Phury, achavam que eles estavam se fortalecendo e convocando novos “talentos”, devido às inúmeras baixas que tinham sofrido depois dos últimos ataques aos três civis. A Irmandade não tinha descartado nenhuma informação e foi esse o motivo que os levou a exterminarem tantos redutores em poucos dias.
– Estou morrendo de fome.
– Não me diga Raghe. Até parece que isso é uma novidade — disse Butch atravessando as grandes portas.
– O que será que tem para o jantar?
– E isso faz alguma diferença? Você come de tudo.
As risadas se multiplicaram pelo grande salão e as brincadeiras continuaram entre eles, enquanto caminharam em direção aos seus quartos. O Rei se dirigiu para o segundo andar, Raghe, Z e Phury pelo corredor das estátuas. V. e Butch desceram para o Buraco. Assim que abriram a porta avistaram Marissa. Encontrava-se na sala elegantemente vestida com sua beleza extraordinária, estava sentada no sofá de couro preto com um livro nas mãos. Quando levantou o olhar e viu seu hellren, um sorriso luminoso surgiu em seu belo rosto, realmente ela era uma loira magnífica.
– Como foi à noite, grandão? — a voz da fêmea saiu baixa e rouca.
– Muito calma.
– Então posso deduzir que foi tudo sem graça.
– Até agora sem graça... — os olhos de Butch brilharam com luxúria — Mas tenho certeza que daqui para frente, tudo vai mudar.
– Será? — o sorriso de Marissa estava acompanhado de um olhar de provocação.
O odor de acasalamento começava a preencher todo o ambiente e a loira continuou a provocar seu macho. Um pouco mais, atiçando-o, fazendo seu sangue ferver antes de se entregar totalmente.
– Tenho certeza, shellan! Se tiver um tempinho lhe explicarei o porquê no banho e se não entender com palavras... posso demonstrar minuciosamente.
– Acho que posso entender perfeitamente com palavras, querido — ela sorria petulante — Sendo assim, pode falar Butch.
O corpo de Butch já começava a queimar e seu olhar para a fêmea era tão intenso que ele se esqueceu completamente que V. também estava na sala, observando tudo. No momento só existia Marissa.
– Mas querida... eu prefiro a opção "mi-nu-ci-o-sa-men-te" se não se importa — a voz saiu rouca e pesada, ela correu os olhos pelo corpo masculino e deliciou-se com a ereção explícita e poderosa contida sob as calças de couro. No entanto, a provocação continuou.
– Não sei se disponho de tempo suficiente para longas demonstrações, minha leitura está boa demais — e levantou o livro, acenando.
– Marissa, por favor... ele vai chegar ao ponto de se humilhar, dentro de alguns segundos estará de joelhos. Não o torture dessa maneira — disse V. tirando sua jaqueta.
– Provavelmente sim — ela sorriu alegremente — Mas não deixarei que isso aconteça na sua frente, vou poupar-lhe dessa visão.
– Obrigada, eu sempre soube que sua educação baseava-se no bom senso.
Butch avançou na direção de sua fêmea sem pensar em mais nada. Beijou-a ardentemente, metendo a língua profundamente em sua boca, enquanto a levantava pelos quadris e a carregava para o quarto.
O último ruído que V. ouviu foi um gemido, um ronronar de puro prazer exalado por seu amigo. Não podia deixar de se sentir incompleto, frustrado. Só tinha a Butch, era seu melhor amigo e ele queria que fosse mais. Naquele minuto sua mente o levou de volta ao passado, o levou a frente das câmeras da clínica de Ravers...
O tira estava com Marissa na cama, estava montado em cima dela mexendo-se, ondulando suas costas largas. Vishous lembrava-se nitidamente de como ele esfregava sua ereção no corpo daquela fêmea, de como tudo era erótico e intenso e de não conseguir desviar o olhar do monitor.
Ele era um depravado, não queria sentir o que sentia por Butch, mesmo porque o tira era totalmente apaixonado por Marissa e um heterossexual legítimo. Por outro lado a felicidade de seu amigo vinha primeiro que a necessidade dele, então era um alívio saber que o cara era feliz e isso melhorava um pouco o seu humor, mesmo sabendo que aquela felicidade não era ele que proporcionava.
Droga, V. pensou... se não fosse tão tarde ligaria para uma ou duas de suas “servas”, suas submissas.
Sim, era isso que ele precisava, necessitava para esquecer todas essa merda que habitava seu cérebro. A noite e seu estado de espírito clamavam por duas fêmeas e ele exigiria a presença imediata delas em sua cobertura. Tomaria tudo que precisava e desejava para acalmar seu monstro interior. Porém, logo chegaria o amanhecer e a ideia morreu instantanemanete, afinal Wrath não permitiria sua saída. O jeito era tomar um banho frio e bloquear os pensamentos.
O banho seria demorado, muito demorado.
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Todos já estavam sentados em redor da grande mesa quando V. finalmente chegou. O jantar transcorreu animado e as risadas aumentavam quando alguém conseguia arrancar de Nalla gargalhadas engraçadinhas. Ela era a estrela da casa, a garotinha de todos. Conversaram sobre coisas à toa e comuns, nada de especial, mas as shellans, apesar de não demonstrarem, esperavam pelo momento certo para abordar “um certo" assunto delicado. A deliciosa sobremesa, torta de morangos com chantilly, veio para fechar o jantar e quando todos terminaram, Phury desafiou Beth.
– Que tal, Beth me dar o prazer de uma revanche pela última partida de sinuca que tivemos?
– Posso lhe dar quantas revanches queira. Mas não vai me vencer. Você sabe disso, não é?
Wrath adorou o tom de certeza na voz de sua fêmea e passou as mãos pelos cabelos de sua shellan pensando que linda e inteligente Rainha ela era.
– O único que pode ganhar dela, sou eu Phury, por isso não perca o seu tempo- gabou-se o tira.
.- É... mas já faz meses que isso não acontece, não é Butch? — Beth divertia-se com a ideia de quase sempre ganhar as partidas daqueles homens enormes, cheios de testosterona.
– O que estamos esperando? Vamos todos assistir a Rainha humilhá-los mais uma vez na sinuca.
Wrath se levantou e todos o seguiram pelos corredores, até o salão de jogos, para assistir a mais um massacre. Com exceção de Tohr. Apesar de estar mais sociável, ainda sofria terrivelmente a perda de Wellsie, como ele não foi confraternizar com os outros, Lassiter preferiu ficar ao seu lado.
O Rei foi se acomodando em um dos grandes sofás preto de couro que circundavam a mesa de sinuca. Já sentado confortavelmente sinalizou para Z. que lhe entregasse Nalla. Agora era a vez do Soberano de mimar aquela garotinha de lindos olhos amarelados.
Phury arrumava as bolas da partida enquanto V. ligava o telão no canal de esportes.
Em um canto Mary ,Bella e Beth tentavam descobrir qual seria o melhor momento para citar o assunto do “videoclipe”. Elas trocaram olhares por todo o jantar e não chegaram a decidir quando falar. Já se tornava sufocante a situação, requerer mais preliminares era dispensável. Mary tomou coragem e se pronunciou.
– Que droga meninas... é agora! — quando sentiu a aprovação nos olhos de suas companheiras e suas cabeças balançaram afirmativamente, continuou.
– Temos algo importante e no mínimo estranho para falar a vocês membros da Irmandade. Então peço a atenção de todos, isso é, se o momento for oportuno para o nosso Rei. — Bella e Beth se posicionaram uma de cada lado da amiga.
– O que foi shellan? — perguntou Hollywood — Porque esse tom de voz?
– Já vamos explicar, Raghe. Se o Rei permitir.
– Sabe do que se trata, minha Rainha?
– Sim. Estava esperando o melhor momento para tocar no assunto, Wrath.
– Então fale. Não estou gostando do tom sério.
O ar ficou pesado, todos sentiram a temperatura cair expressivamente e os corpos resetaram.
– Acho que é melhor mostrar — respondeu cautelosa — V. pode procurar pelos programas gravados na TV?
– Claro Beth, só me diga o que estou procurando — ele pegou o controle remoto e começou a vasculhar os arquivos
– Aí, pare... é exatamente isso.
– O novo videoclipe da Lisa Hendrix? Isso é outra piada? — Vishous encarava como uma nova gozação pelo que tinha acontecido no Commodore.
– Solte V., deixe rodar.
A imagem surgiu clara, perfeita, límpida. A música preencheu todo o ambiente e lá estava Lisa Hendrix, cantando num clipe para um homem parecido com Vishous. Ela sabia sobre ele, sua letra estava lá. Na conjuntura bizarra criada sob os olhares incrédulos, ninguém ousou falar nada, todos permaneceram estáticos.
http://www.youtube.com/watch?v=laomqfk5N2k
A bomba explodiu, fragmentos foram lançados. Só que não se tratava de uma coisa física, era mental, uma perturbação, uma anarquia de ideias destorcidas, manchadas e confusas. Por fim as imagens do telão cessaram e todos colocaram os olhos em cima de V. Ele havia puxado o gatilho, detonado o dispositivo... e agora, devido as circunstâncias tinha se transformado na atração. Ocorreu um minuto de silêncio. Aquilo realmente estava acontecendo?
– Mas que porra é essa? — Raghe passava a mãos pelo rosto descrente.
– Poderiam me deixar assistir novamente? Acredito que acabo de ter uma alucinação.
– Você não teve merda de alucinação nenhuma, Phury — falou Zsadist já perdendo a calma, seus olhos tornaram-se negros como um buraco sem fundo.
O Rei levantou-se, entregou Nalla calmamente para Marissa que estava sentada ao seu lado completamente atordoada com o que acabara de ver e caminhou diretamente para V. Sua aparência era mortífera, seu olhar implacável, com os punhos fechados e uma voz gutural ele disse:
– Pode me explicar o que foi isso que acabamos de assistir?
A sala ficou fria como o inverno, a temperatura tinha baixado no mínimo vinte graus. Vishous não sabia o que dizer, não sabia o que pensar. Era realmente ele, ali, naquilo? Permaneceu mudo, tentando processar as informações em seu cérebro buscando uma resposta lógica.
– Caralho, V. me responda, não perguntarei novamente! Desta vez a voz de Wrath saiu estridente.
Nalla começou a chorar alto com o susto. Como não houve resposta prontamente, Wrath não parou, ia direto pra cima do Guerreiro e lhe arrancaria a resposta de qualquer maneira.
Butch e Raghe imediatamente colocaram-se em seu caminho e plantaram seus pés fortemente no chão. Não deixariam que o Rei tomasse qualquer atitude precipitada que depois pudesse se arrepender, principalmente na frente das fêmeas. Wrath era a fúria encarnada e o pior dos pesadelos naquele momento.
– Meu Senhor, permita que as shellans saiam para podermos conversar em particular, por favor — Raghe tentava conter, pelo menos por um instante, o ímpeto mortal de seu Rei.
– Sim, saiam. Mas antes tenho uma pergunta — sua voz era gelada e distante — Minha Rainha, quando foi que você e as outras shellans assistiram a isso?
– Há algumas horas, antes de retornarem da ronda. Hoje foi o lançamento mundial desse clipe.
Ele fez um sinal afirmativo e elas saíram levando Nalla que chorava exasperadamente.
Z. e Phury se posicionaram do lado esquerdo e Raghe e Butch ao lado direito de Vishous. Butch apoiou sua mão no ombro direito de V. passando benevolência. Todos esperavam por sua resposta.
– Não sei droga nenhuma sobre isso — disse tentando manter a calma.
– O que? Vai negar que tem um cara igual a você nesse filme? Até eu que tenho uma visão de merda pude enxergar perfeitamente as semelhanças — seu tom de voz continuava alto.
– Não há uma explicação. Estou tão perplexo quanto qualquer um de vocês.
– O cacete que está V. Não tenho nada com sua maldita vida sexual ou perversões, mas não pode expor a Irmandade dessa forma. Nossa raça está desabando e você fica por aí transando com celebridades? Trepe com quem quiser, onde quiser não me interessa, mas fez um juramento de honrar seus Irmãos.
Wrath respirou fundo, se colocou em posição de combate e deixou as presas à mostra. Era uma fera pronta para atacar.
– Vou repetir, porque acredito que não tenha me entendido perfeitamente, meu Rei. Não sei de nada, não coloquei as mãos nessa humana. Nunca sequer há vi.
– Não me provoque Irmão! Está ultrapassando limites perigosos. Sei que tem sérios problemas com autoridade, mas hoje vou ensiná-lo a obedecer.
V. avançou, aproximando-se tanto de Wrath que seus peitorais se tocaram.
– Estou sendo sincero, juro por minha honra. Se isso não for suficiente vá em frente, mas não pense que vou apanhar. Quando terminarmos você também estará sangrando no chão.
– As coisas não funcionam assim V. Não me obrigue...
– Então faça um favor a todos nós, fareje-me.
Wrath pensou por um momento e depois absorveu todo o odor que exalava do Guerreiro agoniado e só conseguiu captar ódio, abomínio e desalento. Exalava um cheiro ácido, avinagrado e fétido que ardia nas narinas, mas não encontrou nem ansiedade e nem mentira em seus sentimentos.
Todos os outros observavam atentamente e esperavam seu parecer. Foi V. quem desdenhosamente começou a falar.
– Meu Senhor, meu Soberano, fale o que farejou.
– Por Deus V., se me chamar assim novamente vai engolir suas palavras. Não estou aqui para aturar seu cinismo e sua arrogância.
– Pela Virgem o que farejou Wrath? — perguntou Zsadist obstinado em sua agonia.
– Ele não está mentindo, posso sentir. Porém não há sentindo algum no que acabamos de ver. Quero respostas!
Houve uma comoção na sala provocada pelo alívio da verdade e também pelas inúmeras questões instauradas e que estavam longe de serem respondidas. Tanto V. como Wrath se esforçaram para encontrar um pouco de calma e discernimento para prosseguirem conversando e não terminarem em um confronto desastroso. Respirando profundamente V. foi o primeiro a falar com racionalidade.
– Descobrirei tudo sobre essa humana, Wrath.
– Acredito que sim.
–Se for possível vou rastreá-la via satélite. Não deixarei passar nada. Não entendo com fui parar nesse maldito vídeo, mas descobrirei. A vagabunda não perde por esperar.
– Use seus computadores, sei que é bom nisso. E quando essa investigação render frutos quero ser informado imediatamente. Quero um relatório em minha mesa antes do cair da noite. Afinal não precisamos desse tipo de publicidade.
Wrath sentiu a chegada de uma enorme dor de cabeça e levou as mãos até a testa, como se isso fosse ajudá-lo.
– Eu jamais faria isso com a Irmandade. Nunca colocaria o seu reino, a nossa raça e meus Irmãos expostos dessa maneira. Seria traição.
– Sei disso V. , mas preciso de respostas para entender que porra é essa que está acontecendo.
– Assim que descobrir o endereço dessa vadia me avise vou lhe fazer uma visitinha pessoalmente — disse mortalmente o tira.
– Calma Butch — disse Z. — Não sabe o que irá encontrar. Pode ser uma armadinha.
– Exatamente. E é por esse motivo que eu vou com você, tira — acrescentou Raghe com tranqüilidade.
– Quem irá atrás dela sou eu e mais ninguém.
Os olhos de V. cintilavam violência pura, estava tomado pelo ódio e pelo total desprezo por aquela humana banal e insignificante. Sua conduta exemplar nas batalhas era um mérito que tinha conseguido com o passar dos séculos. A tortura imposta aos seus inimigos sempre fora para salvar e resguardar sua raça, mas com a tal Lisa Hendrix seria diferente. Já podia ouvi-la gritar, implorar por clemência. Encontrava-se com seus dias contados, ela morreria por suas mãos lentamente caso se negasse a falar. É claro que havia outra opção, ela falava tudo que sabia e morria rapidamente com apenas um toque da sua mão brilhante.
– Você não anda sozinho, não sai sozinho. Já esqueceu dessa ordem? — Wrath não tirava os olhos dele. Podia sentira morte dentro do Irmão.
– Ela vai falar de um jeito ou de outro, vai dizer tudo que eu preciso saber, inclusive onde conseguiu essas informações. É uma promessa que eu lhe faço.
– Não vai matá-la entendeu? Vamos apagar sua memória, torrar seu cérebro se for necessário, mas matar não é uma boa saída, ela é muito visada, muito conhecida!
– Wrath, só há uma explicação pra toda essa merda. Ela está ligada aos nossos inimigos, só assim poderia saber tanto. E a morte é a melhor opção, posso fazer parecer um acidente?
– Se chegar a esse ponto V, quero ser informado antes que aconteça, entendeu? E tem outra coisa... Butch irá com você. A partir de agora ele será a sua sombra. Não importa aonde vá ou o que faça, ele ficará com você 24 horas por dia. Estamos entendidos, Butch?
– Sim, meu Rei. Completamente, escutou, não é V?
– Ele já é um macho vinculado. Sua companheira é Marissa, não acredito que ela vai gostar dessa ordem patética. Onde vou dormir? Na mesma cama que eles?
– É melhor para com as brincadeiras! Não me interessa o que gostam ou não gostam nesse momento. Até descobrirmos o que se passa será do meu jeito. E me faça um favor V., guarde suas ironias. Não me irrite mais do que já estou, porque sou capaz de triturar todos os seus ossos sem nenhum remorso. Se você estava procurando pelo inferno, quero lhe informar que acabou de achar.
Wrath não se deu ao trabalho de sair andando com passos pesados da sala de sinuca, apenas se desmaterializou e sumiu no ar.
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– Pelo amor de Deus... Lisa, quer parar de andar de um lado para o outro. Está me deixando louca.
– Não posso, vou ter um treco a qualquer minuto, meu coração está na boca.
– Bem-vinda ao mundo da ansiedade.
Anne aproximou-se dela com uma xícara de chá e a levou para se sentar no sofá do seu quarto.
– Começou à hora da verdade, não é?
– É, parece que sim.
– Eu espero por isso à quase dois anos.
– Tanto tempo assim?
Por um momento Lisa hesitou. Em seu cérebro havia tantas lembranças, ou seriam cenas, fragmentos de sonhos. O que mais lhe assustava é que as vezes não pareciam apenas sonhos, parecia que estava vivendo e presenciando cada uma delas. Mesmo que indiretamente.
– Aham... sei tantas coisas sobre ele, algumas tão pessoais que nunca ousaria comentar com ninguém, nem mesmo com você. Me desculpe... mas é como se os segredos de sua vida fossem meus também. Sou sua cúmplice e ele não sabe que existo.
– Por pouco tempo. Aposto que está descobrindo que você existe...
– Será que Ele já viu o clipe?
– Quem sabe? Talvez sim, talvez não... talvez ele goste apenas do canal de esporte.
– Mas se ele assistiu, será que gostou?
– Não... — Anne sorriu sombriamente balançando a cabeça negativamente — Não deve ter gostado nem um pouco.
Ela estava se divertindo com tudo aquilo, a ansiedade de Lisa, a surpresa do Guerreiro, a espera do próximo acontecimento, resumindo estava excitada com a situação, mas no fundo de seu íntimo o pavor a dominava, e se nada saísse do jeito que elas tinham imaginado? E se ele fosse um traficante internacional de armas e resolvesse acabar com Lisa? Tinha todas essas questões em sua cabeça, mas isso ela jamais admitiria para sua amiga.
– É tem razão... Aparecer em um clipe e não saber por que está lá deve ser no mínimo chocante e tratando-se de um homem como ele, posso arriscar dizer que é mordaz.
– Se eu pudesse descrever em palavras os olhares daqueles quatro homens que estavam no ZeroSum, eu diria que não gostaria de estar na sua pele nesse momento.
– Obrigada, Anne. Realmente esse comentário foi muito útil. Me sinto bem melhor.
– Não agradeça, eu faço o que posso! Para falar a verdade também estou apreensiva como você.
– Eu sei... percebi por causa do chá. Você não toma chá, Anne e trouxe uma caneca para mim e outra pra você. Se eu não a conhecesse tão bem, poderia jurar que está com medo por mim. É isso, não é ? Está com medo?
– Não, claro que não — mentiu prontamente — O que pode acontecer? Nada, não vai acontecer nada. Você está cercada de seguranças, sua casa é monitorada por um sistema de alta tecnologia. Está supondo errado. Ele virá até você com curiosidade, coisa bem normal, não acha?
– Se você diz, tentarei acreditar.
– Quanto ao chá... bem... na verdade esse já é o segundo. Não fechei os olhos esta noite, estou no modo zumbi. É a expectativa pelo sucesso do videoclipe.
– Tubo bem, Anne. Já entendi. Você não sabe mentir... E por falar em não dormir, junte-se ao clube, porque eu toquei violão, corri na esteira, tomei banho, toquei violão, voltei para a esteira, tomei outro banho, até o raiar do sol.
– Droga, que droga.
– Sabe, você está certa... ele deve estar irado, principalmente por fazer parte de algo misterioso. Sei lá... tem alguma coisa faltando, como uma peça do quebra-cabeça. Em alguns dos meus sonhos penso que ele pertence a outro mundo, como um universo paralelo.
– Quando eu era criança acreditava em duendes.
Anne começou a gargalhar após ter dito tal atrocidade.
– O quê? Mas o que isso tem haver com o que estou dizendo? Anne?
O riso era constrangedor e cativante. Quanto mais ela se esforçada para parar, mais ela ria. E algumas lágrimas já se pronunciavam em seu olhos, aquele riso era de extremo pavor. Sua boca escancarada exibia todos os seus dentes brancos e perfeitos.
– Outro mundo... seres diferent... — ela não conseguia sequer terminar a frase. E aquilo começou a contagiar Lisa também.
– Sua tonta... você está falando sobre seres mitológicos. Não é nada disso...
– Me desculpe, Lisa. Mas é que imaginei o seu salvador vestido de duende.
As gargalhadas se espalharam pelo ambiente e as duas amigas riram juntas, porém o incerto apertava seus corações. Ambas sabiam que se o homem misterioso fosse tão mortal quanto aparentava ser, tanto nos sonhos ou como seus amigos que estavam naquele bar, ele seria muito perigoso e elas tinham a certeza de que o perigo estava a caminho era apenas uma questão de horas.
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No buraco só o som dos dedos de V. no teclado retumbavam pelas paredes. Em frente de seus computadores caçava tudo relacionado aquela mulher que o havia exposto tão absurdamente. Conforme as horas passavam um dossiê se formava em seu cérebro. Algumas informações não passavam de mitos sobre uma estrela do show business. Fãs escreviam muitas tolices e fantasiavam com seus ídolos e os sites de celebridade procuravam por fofocas, overdose de drogas e romances tórridos e escandalosos. Tudo isso V. descartou prontamente. Queria saber sobre sua verdadeira vida, quem Lisa Hendrix era realmente e com sua experiência estava quase lá. Vasculhava tudo que era substancial e chegou a dois nomes Rachell Barclay e Adamo Smith. Uma era a mãe e o outro um homem que há tirou do orfanato sem nenhum documento ou autorização. Aquilo era estranho demais era fogo em palha.
Por longos momentos ficou pesquisando e praguejando baixinho. Outra situação que estava lhe incomodando tanto como a mulher “celebridade” era o fato de Butch estar dormindo no sofá atrás dele desde que havia se sentado em frente àquele maldito teclado. O cara não ia amolecer sobre a ordem de Wrath. Merda, não era mais dono de suas ações, sempre vigiado como se fosse um psicopata pronto para matar . Não tinha a mínima ideia de quanto mais suportaria aquela carga sobre ele. Tentou voltar e concentrar-se no assunto principal chamado Lisa Hendrix, ou melhor, Lisa Helygor Barclay, seu nome verdadeiro.
Assistiu ao clipe novamente e de novo e mais uma vez... não conseguia assimilar tal fato. Como aquela mulher atrevia-se supor que eles poderiam fazer sexo e ainda com amor, amor? Era isso! Ali estava a prova de que realmente ela não o conhecia. Não passava de uma vadia prepotente e exibicionista. Mas ele lhe aplicaria o castigo merecido. Não havia uma única célula em seu corpo que pudesse sentir amor, carinho ou qualquer sentimento que não fosse ligado ao desprezo por tal mulher. Vishous quase sorriu ao imaginá-la sem vida no chão.
Mas ele não poderia matá-la, Wrath deixou isso bem claro. Ele havia ordenado e por mais puto que V. estivesse, não desobedeceria seu Rei.
Voltou para a sua pesquisa. Olhou fotos da cantora em vários momentos de sua carreira, estudou sua história de vida e encontrou uma grande dor pelo seu caminho. Aquela humana desprezível tinha sofrido com a doença mental incurável de sua mãe. Mas e daí? Milhões de pessoas sofrem todos os dias, isso é a vida. Seus olhos já doíam devido à exposição e fixação de horas sobre o monitor e não tinha mais posição para ficar sentado, quando finalmente encontrou a ponta do iceberg. Aquilo era surpreendente e também dantesco.
Nunca poderia supor tal teoria, esfregou os olhos na esperança vã de que os relatos ali descritos estivessem errados. Ele havia encontrado o relatório médico do primeiro surto psicótico de Rachell Barclay, em Chicago. Os psiquiatras humanos entenderam como rabiscos, mas na realidade eram palavras escritas no antigo idioma, ou melhor, uma frase:
Trevas, a maligna vive.
Imediatamente seus dedos correram desesperados e ávidos pelo teclado, atrás de mais hipóteses sobre a suposta loucura da mulher. Os fatos chegavam com uma tempestade, um tornado de proporções gigantescas e desastrosas. Eclodiam às centenas em forma de palavras, símbolos místicos, arabescos extintos, sinais a muito esquecidos e lendas humanas sem sentido. Até que irrompeu na tela Hospital St. Elizabeths e a realidade imutável revelou-se fria e lancinante diante de seus olhos.
Desenhos datados de 2003 rabiscados insanamente escondiam um homem de rosto tatuado empunhando uma adaga e do seu lado um animal, um dragão. Fotos de um caderno brochura totalmente preenchido com uma única frase repetitiva e incessante foram à gota d´água.
O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28.
Totalmente atordoado, como se tivesse sido acometido de uma convulsão cerebral, Vishous virou-se para trás e chamou por Butch.
– Veja isto.
Enquanto passava por inúmeras páginas pesquisadas e mostrava o que tinha descoberto, a cor no rosto de Butch sumia vagarosamente. Era tudo real, o mundo deles estava exposto naqueles papéis. O bom era que os humanos não tinham ideia do que se tratava. O mal é que seus inimigos, sim!
– Butch, vá até Wrath, diga que o esperaremos em seu escritório, eu convocarei o resto dos Irmãos. Precisamos nos reunir agora!
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