Traga-me Para A Vida
46 Capítulo 45
Notas iniciais
Primeiro quero me desculpar, só que desta vez não é pelo atraso do capítulo e sim por não ter respondido a nenhum comentário que vocês carinhosamente postaram no capítulo anterior.
Eu não tive tempo. Houve um problema em minha casa que me tirou o chão e fiquei por dias, chateada. Agora, quando finalmente a poeira começou a baixar, minha mãe (novamente) encontra-se em uma crise de depressão/síndrome do pânico.
Sinceramente não sei se essas palavras que estou digitando agora (13/03) em meu notebook, na sala da casa de minha mãe, enquanto ela dorme sobre efeito de calmantes serão postadas ainda hoje... provavelmente não.
Por favor, me perdoem.
Eu já disse que eu espero ansiosa todos os comentários, que eles são a minha motivação e minha alegria e não é justo deixar de responder a nenhuma de vocês. Não é justo e nem bonito, pelo contrário me sinto como se tivesse desprezado a todas. Porém, não foi isso que aconteceu... eu me perdi em executar tantas tarefas e administrar o tempo para escrever. Terminei o capítulo nesta madrugada de quarta-feira e até agora não consegui disponibilizá-los porque fui para hospital, depois exames, consultas...
Desculpem-me. Se alguém se sentiu magoada (eu posso entender), afinal eu também espero a resposta do autor que estou acompanhando.
Mas se eu for responder agora a todos os comentários, vou atrasar ainda mais para postar este capítulo. Então, priorizando o respeito que tenho com todas as minhas leitoras... prefiro postar e evitar mais atrasos.
Prometo me esforçar o máximo para que isso não aconteça mais. Por favor, não me abandonem, vocês são muito importantes para essa humilde escritora. Mais uma vez peço perdão!
Um grande beijo e aproveitem o capítulo (se não gostarem podem dizer, sejam francas), eu mesma não sei se saiu à altura de minhas fiéis e queridas leitoras.
Fênix
Havia sempre um surpreendente assombro ao se entrar na mansão da Irmandade. O Hall amplo com seu teto alto pintado com esplendor, dignificando o corajoso cavaleiro estampado em uma de suas paredes. As obras de artes, quadros magníficos que adornavam com luxo o ambiente espaçoso e a apresentação da magnífica escadaria era um composto de se encher os olhos.
Naquele final de tarde, porém, tudo parecia envolto por uma névoa cítrica e espinhosa. O lugar estava carregado, talvez porque a indignação de Vishous teve tempo suficiente de se espalhar por todo o Complexo, dominando e se emaranhando com perfeição a raiz dos instintos primitivos de seus Irmãos, guerreiros vinculados que apoiavam o seu descontentamento quanto ao comportamento irresponsável da fêmea.
Lisa não se lembrava de algum dia ter ficado tão embaraçada com a cena, as shellans esperavam por ela. Beth e Mary estavam praticamente em frente à porta de entrada e Marissa surgia pelo corredor que dava acesso ao Buraco.
– Está tudo bem? – perguntou a Rainha.
– Estávamos preocupadas – continuou Mary.
– Sim, claro. Tudo bem... é que eu precisei ir a um certo lugar – respondeu Lisa, ainda sem jeito.
– É, e esse lugar deve ser de grande importância mesmo. – disse Marissa – Você demorou pra voltar.
– Afinal, o que está acontecendo aqui? – perguntou Lisa nervosa – Porque vieram me receber na entrada?
Elas se olharam, quem falaria primeiro?
– Você conseguiu desestabilizar esta casa, querida! – Bella descia as escadas sorrindo de um jeito divertido – Vishous está possesso. Usando as palavras de Zsadist ele está “perdendo a cabeça”, então se eu fosse você... pegava leve.
– Nossa... é tão ruim assim. – falou Julia assustada.
– Calma Julia. Está tudo bem – disse Lisa
– Ah, não está não! – Marissa falou aproximando-se de Lisa – Não estaria falando isso se tivesse presenciado a conversa de todos os machos vinculados dessa casa na sala do Buraco... inclusive o Rei.
– Mas ela pode explicar – Julia começou a defender Lisa imediatamente. – Ela precisou ir até...
– Explicar? Eu não tenho nada para explicar, não fiz nada. Do jeito que estão falando, parece que desobedeci à alguma lei. – a voz de Lisa saiu indignada.
– Contra a lei, não. Claro que não! Mas todos se preocuparam com sua segurança – Beth argumentou – Por um acaso passou por sua cabeça que pudesse ser sequestrada novamente?
Houve um momento de silêncio. A cabeça de Lisa começou a trabalhar nesse sentido. Será que poderia ter sido precipitada ou pior ainda... impulsiva?
Sentia os olhares em cima dela como se fossem abelhas cobiçando açúcar, todas, sem exceção esperavam uma explicação detalhada de onde fora e porque saíra apressada, sozinha e assemelhando-se a uma verdadeira fugitiva no meio da manhã, e tendo plena consciência de que vivia agora no meio de vampiros e que eles não toleravam a luz do sol, pelo menos os machos. Os que podiam sair, Beth e Mary, por exemplo, jamais sairiam da mansão desacompanhadas, colocando a vida em risco.
– Se me derem licença, vou procurar por V.. Conversamos mais tarde.
Lisa se virou em direção ao corredor e dando uma última olhada para Julia disse:
– Conte tudo o que aconteceu a elas.
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O corredor nunca lhe pareceu tão comprido...
Finalmente avistou a porta do Buraco e encontrava-se aberta, na realidade escancarada. Demonstrando nitidamente a idéia de que o fluxo de pessoas a passar por ela foi intenso o bastante para que não fosse sequer fechada.
Respire. Apenas respire e tente manter a calma.
Entrou sem vacilar se preparando para o olhar frio e mortificante de um vampiro irritado e enraivecido. Porém Vishous não estava na sala, somente Butch jogado no sofá. Quase deitado com a cabeça apoiada sobre almofadas, uma perna esticada e a outra pendendo para o chão. Uma garrafa de whisky Lagavulin sobre a mesa e um copo nas mãos, ele não se deu ao trabalho de olhar para Lisa e ela foi direto para o quarto.
Ele também não estava lá. Tudo quieto. Olhou no banheiro e no closet só para cumprir um ritual, porque não havia ninguém. Droga, ele a estava evitando.
Merda! O corpo de Lisa estremeceu perante sua irritação, por dentro inflamava segundo a segundo... mansamente como uma panela de pressão que por mau uso estava prestes a explodir e essa exacerbação a fez enxergar o que se passava ao seu redor com uma nitidez surpreendente.
Todos estavam julgando suas atitudes...
Não! Não era isso. Todos já haviam proferido suas sentenças e ela foi condenada. Marissa tinha sido clara em seu discurso: um macho vinculado não atura tal rebeldia, não tolera que sua mulher não lhe preste satisfações e saia sozinha para um mundo perigoso. Mesmo que buscasse por respostas e essas respostas fossem essenciais para se reencontrar com si mesma.
A pergunta bateu em seu cérebro como se fosse o badalar de um sino:
– Eu sou a mulher de Vishous? Eu sou sua fêmea? Nunca falamos sobre viver juntos... e essa gravidez aconteceu inconscientemente. Eu sou responsabilidade dele? Desde quando?
Lisa voltou para a sala e mais uma vez Butch não olhou para ela.
– Cadê ele? – perguntou rangendo os dentes.
Um sorriso sarcástico preencheu o rosto do tira e finalmente os olhares se encontraram. Lisa sentiu a intensidade do olhar, podia queimá-la... mas não chegava a ser como o de Vishous e se ela podia lidar com o de V., com certeza podia lidar com o do macho a sua frente.
– Agora você quer saber onde ele está. Será que tem noção do quanto está atrasada para lhe dar satisfações sobre o seu passeio por Manhattan?
– Espera que eu discuta sobre isso com você? – Lisa retribuiu o sarcasmo devolvendo-lhe o sorriso – Eu não tenho que lhe dar explicações. Não sou Marissa.
– Nem se quisesse ser... conseguiria. – rosnou indignado.
Foi à gota d’àgua. Se é que houve um diálogo entre eles, acabou ali.
– Vá se fuder, seu cretino.
O movimento corporal do tira foi tão rápido que Lisa se assustou quando ele fechou a porta do Buraco e postou-se a sua frente com ar ameaçador, agarrando-lhe o braço e impedindo a passagem.
– Não tem idéia do quanto Vishous sofreu por você – o tom de voz era alto e forte e o intuito era intimidá-la. – Ele quase morreu e não estou falando sobre os ferimentos que o deixaram por dias, inconsciente.
– Eu também sofri. – gritou Lisa mais alto do que Butch – Mas é claro que o meu sofrimento não lhe interessa.
– Ele é meu melhor amigo, mais que um Irmão para mim e não permitirei que o destrua. Ou você o trata com o respeito que V. merece ou...
– Ou o quê? – Era como se o mundo tivesse ficando com um gosto amargo, ela levantou o queixo demonstrando coragem – Está me fazendo ameaças?
– Entenda como quiser – a frase saiu gélida e o ambiente a cada segundo ficava mais pesado.
– Deixe eu lhe dizer algo que você ainda não sabe – ela fez força para não afastar o olhar e tentar conter as lágrimas que se formavam, porém perdeu o senso e gritou alto para quem quisesse ouvir – Se eu sobrevivi a Paul, posso sobreviver a qualquer coisa. Se eu sobrevivi a fazer sexo com aquele imundo e fingir que gostava do que ele fazia comigo para proteger o filho de Vishous... eu posso sobreviver a você, entendeu Butch?... Você me entendeu?
O gesto estúpido que Lisa fez com o braço, permitiu se desvencilhar das mãos do tira e ela deu um passo para trás, batendo com as costas na porta fechada.
A única coisa presente era o silêncio.
Era claro que ambos pensavam sobre o que acontecia naquela sala. Sem dúvida tinham passado dos limites do bom senso. Mas quem é que estava ligando para isso?
Por mais que Butch soasse ameaçador ele jamais encostaria a mão em Lisa, não era de seu feitio agredir mulheres, pelo contrário, ele sempre fez justiça com as próprias mãos quando era esse o caso, enquanto ainda trabalhava como detetive na polícia de Caldwell. Porém, foi difícil assumir o erro da situação, pensar sobre o contraste que estava vivendo naquele instante fez com que a sua razão falasse mais alto do que a emoção. Recuou e voltou ao lugar que estava anteriormente, sentando-se no sofá de couro, atormentado com sua reação extrema.
– Ele deveria ter continuado a ter sentimentos somente por você. – os ombros de Lisa estavam enrijecidos e seu peito subia e descia tentando alcançar algum tipo de discernimento, tentando controlar toda a sua frustração – Ele deveria ter me matado quanto à oportunidade surgiu, quando me viu pela primeira vez. Você não precisa me dizer que não sou boa o bastante para ele... sei disso mais do que ninguém.
– As coisas não são...
– As coisas são simples assim. – E o fitou de maneira estranha, a raiva desaparecendo e a consternação vindo à tona – Vishous perdeu, eu perdi minha vida, minha identidade e agora... acabei de saber que Anne perdeu Nick, ou seja, eu fiz um grande estrago. Sou a bola de boliche que foi capaz de derrubar todos os pinos em uma única jogada. Que ótimo.
– Não é bem assim.
Que Lisa concluísse o que bem entendesse dessas palavras, a verdade é que o tira já tentava se desculpar pelas palavras duras que tinha dito.
– O quê? – perguntou incrédula – Mas acabou de dizer...
- Você me tirou fora do sério, ok? – ele passou as mãos pelo cabelo – Santo Deus, não sei explicar o que deu em mim. Será que pode fazer um esforço para entender o que Vishous sentiu a se ver preso nessas paredes sabendo que sua fêmea estava por aí, talvez correndo perigo? Porra, os machos dessa casa quase enlouqueceram... e você ainda não entende? Caralho.
– Me prometa que vai cuidar dele. – a aspereza da voz de Lisa foi substituída por tristeza – Está tudo errado e... bem, você tem razão. Eu irei destruí-lo. Eu tentei ir embora, mas não é justo. – ela levou as mãos à barriga – Nosso filho... ele tem direitos como pai.
– Lisa, do que é que você está falando? Ele te ama. – afirmou confuso com as palavras dela.
Ela caminhou até Butch e sentou no sofá ao lado dele, parecia cansada e vencida. Esfregou as mãos num gesto apreensivo.
– Eu não sou o suficiente. Eu não sou o que ele gosta e nem o que precisa. E agora está preso a mim por causa de uma gravidez...
– Jesus Cristo... e eu que pensava que Vishous era o pirado por aqui... vocês são iguais. – o tira balançou a cabeça negativamente desaprovando tal opinião – Quando se trata de autopunição, flagelamento e baixa estima vocês dois são imbatíveis, admiráveis.
– É verdade. – ela ignorou o comentário, falando baixinho – Eu vi Selena.
– Selena?
– Ahh, por favor... eu sei que você sabe, sei que não existem segredos entre vocês. Até eu percebi, assim que pus os olhos em cima dela como... como ela é... é... submissa.
Butch levou alguns segundos para assimilar qual era o verdadeiro teor da conversa e das dúvidas de Lisa.
– Eu posso entender tudo que rola entre vocês dois. – Olhou profundamente nos olhos do tira expressando uma sinceridade brutal – Talvez ache até estranho o que vou dizer, mas eu... eu seria capaz de dividi-lo com você. Só com você. Eu sinto essa proximidade, essa intimidade, essa necessidade de estarem juntos, e eu compreendo, eu aceito o que vocês tem. Mas Selena... ela é o que eu jamais serei e isso me assusta. Porque um dia Vishous vai se cansar do que eu posso lhe proporcionar em prazer e vai procurar...
– Nunca houve esse tipo de lance entre eu e ele. Nós nunca...
– Só porque você não quis. Mas eu já disse que isso não me incomoda, pode acreditar. Já Selena... Deus, eu perco o estabilidade só de pensar.
– Ele precisa beber dela é só para isso que a Escolhida é convocada.
– Beber?
– Ahhh Lisa, todo esse drama por nada – desabafou estarrecido e recostando a cabeça no encosto do sofá – Cara, vocês dois precisam conversar. Precisam sentar e colocar tudo o que esperam um do outro para fora, não dá pra viver assim.
– Você fala como se fosse tão fácil – Ela sorriu levemente – Não dá. Acho que temos tanta raiva dentro de nós que não conseguimos dizer coisa com coisa.
– Me escute – Butch segurou as mãos dela fortemente – Selena vem aqui porque V. precisa se alimentar. Ele toma do sangue dela. Isso é a nossa alimentação, precisamos beber do sexo oposto, das fêmeas de nossa raça, para continuarmos vivos. Antes ele fazia isso com as subm... com as parceiras que mantinha em sua cobertura...
– E o que Selena é? – Lisa continha o choro, não queria demonstrar sua fraqueza ou seu ciúme – Eu conversei com Gaya sobre isso e ela me disse que a alimentação pode envolver sexo e...
– Nem sempre é assim.
– E você espera que Vishous fique sem sexo até quando? – perguntou furiosa e também desesperada – Olhe para ele. Já são quase seis meses. Porra... não posso. Não estou pronta... eu me sinto suja. Eu estou tão suja... tão suja...
Droga! Aquilo foi o bastante para Butch envolve-la em seus braços e lhe dar um abraço consolador e amigo. Ele ouviu os soluços logo em seguida, mas fingiu que nada estava acontecendo, dessa forma Lisa manteria sua dignidade acima de tudo e ele não estava ali para julgá-la, apesar de já ter feito isso. Ele apenas se lembrou de como ficou confuso no início de seu relacionamento, de seus questionamentos com Marissa e de ter se escondido entre arbustos só pelo prazer de observá-la de longe.
– Merda. Vocês precisam conversar. – foi à única coisa que disse enquanto ela continuava chorando em seus braços solidários.
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O rap alto composto pelos acordes poderosos da batida de “Fifteen Cent” preenchia a enorme academia do Centro de Treinamento, ali estavam V. e Raghe. Não havia conversa entre eles, apenas um treinamento físico mais que intenso e pesado, porém essa atitude já demonstrava companheirismo suficiente. Não era necessária maior confraternização e nem mesmo as palavras.
Os aparelhos e os pesos eram usados para afastar o inconformismo e a raiva. E pelos poros dos poderosos corpos masculinos além do suor, a decepção também transpirava.
Raghe corria na esteira e Vishous levantava pesos tentando se esgotar. O cérebro de V. trabalhava sem parar para entender o que é que havia de errado, onde foi que ele tinha falhado com Lisa e em que momento do caminho sinuoso ela se afastara.
Depois de tanta espera, agonia e sofrimento tudo, enfim, tinha saído errado e era uma questão de tempo para que se separassem definitivamente. Cheio de pensamentos indignados V. tinha plena certeza de que isso aconteceria logo após o nascimento do bebê.
O bebê? O bebê que Lisa sequer considerou quando pegou o Escalade e saiu sozinha. Não havia como negar que foi uma tremenda burrice. Um ato de total imprudência e de uma leviandade que beirava a loucura vindo de uma fêmea que foi sequestrada e passou mais três meses em cativeiro.
Sim, ele tinha que ter paciência e compreensão é bem verdade. Contudo, no momento Vishous só queria poder se acalmar e esquecer que era um macho vinculado. Não suportava sentir o que estava sentindo e ninguém desejava vê-lo explodir. Emoções e sentimentos intensos nunca fora seu forte.
A música soava tão alta que podia ser ouvida antes mesmo de se abrirem às portas, Lisa a escutava perfeitamente enquanto caminhava pelo corredor com uma dúvida em sua consciência: V. seria capaz de entender o porquê da sua saída? No seu íntimo ela já entendera que tinha pisado na bola e estava arrependida. Não por ter saído, mas por não ter contado a ele o que iria fazer e onde precisava ir.
Não tendo razões para adiar mais o confronto, abriu as portas e entrou.
Instintivamente Raghe bateu a mão no botão de “stop” da esteira, parando-a de repente. A sala continha uma masculinidade única. A testosterona preenchia o ambiente. O olhar fulminante que Vishous deu para Lisa era como se um milhão de insetos rastejassem sobre a sua pele, ela estremeceu.
– Quero falar com você. – disse calmamente, escolhendo as palavras – É possível?
- Já terminei por hoje – afirmou Hollywood e olhou para V. – Posso ir?
– Não vejo ninguém lhe segurando – rosnou o macho irritado – Faça o que quiser, porra.
– Ok – pigarreou pegando uma garrafa de água e saiu encarando Lisa bem nos olhos. O recado de descontentamento estava expresso naquele ato.
Ouviu-se o fechar das portas e os passos se distanciando pelo corredor, V. continuou com sua série de exercícios. O peso de ferro que tinha em uma das mãos era de trinta quilos e ele o levantava quase que sem esforço algum.
Confusa, furiosa e culpada, Lisa esperou que ele pelo menos parasse de malhar e lhe desse alguma atenção, mas isso não aconteceu. Zangada foi até o aparelho de som e o desligou, querendo com isso confrontá-lo. Virou novamente o olhar para V. e ficou rendida com a assombrosa imagem sexy e deslumbrante.
Enquanto o olhava executar seus exercícios se pegou ofegando. Ele era de se admirar. Um macho bruto de músculos poderosos, abdômen perfeito, corpo bronzeado. Os cabelos negros molhados lhe caiam sobre a testa e também sobre os olhos, transparecendo uma displicência natural. Seu rosto expressava uma fria e poderosa beleza masculina. Gotas de suor pingavam no chão espalhando seu cheiro incomparável pelo ambiente. Ele era espetacular, um exemplar perfeito da mãe natureza.
Esperou por dois minutos intermináveis, tempo que ele levou para terminar sua série de braço, parecia uma dolorosa eternidade e ela permaneceu em pé, calada, esperando. A instabilidade crescia pouco a pouco em seu íntimo e Lisa não acreditava no que estava acontecendo. Uma indignação instalou-se em seu subconsciente e a questão era: ela realmente estava à disposição dele, para ficar como uma estátua esperando que V. quisesse conversar?
Era claro o humor do macho, via-se uma severidade férrea cravada por todo o seu rosto, o maxilar e os dentes estavam travados, transmitindo uma tensão quase que insuportável. Sem aguentar mais tal situação, Lisa recuou um passo preparando-se para sair da academia.
– Parada – ordenou ríspido.
Lisa congelou no lugar.
– Então você quer falar. Pois eu tenho uma pergunta – disse com voz baixa e ameaçadora – Eu gostaria de saber que diabos deu em você para sair sozinha como uma louca sem dar qualquer satisfação a ninguém?
– Precisava ir até...
– Até o cemitério – o olhar lançado a ela era gélido e sufocante – E depois foi para a casa de Anne. O carro tem GPS, portanto eu sei exatamente por onde passou.
Ele trocou o peso de mão.
– Se você sabe, também deve saber que não corri nenhum tipo de perigo – respondeu afrontando-o com voz presunçosa. – E eu não sou louca.
– Porém se comporta como tal – V. sabia plenamente o significado de citar loucura, sabia que ela imediatamente remeteria o adjetivo à situação trágica vivida pela mãe no Sanatório – O pior é que não ponderou em momento algum a segurança do nosso filho. Agiu como uma “pop star” arrogante e egoísta que só consegue enxergar os seus desejos e suas prioridades.
As palavras a atingiram com um golpe e Lisa não conseguiu suportar o impacto que lhe causaram.
– Você está me acusando de ser negligente? Com o meu bebê? – perguntou enraivecida – Não seja ridículo. Você não tem idéia do que eu tive que suportar para garantir a sobrevivência dessa criança.
– Se você falasse comigo, eu saberia. – rosnou atormentado.
– Ainda bem que não falei. A julgar por essa sua atitude arbitrária, eu estaria muuuuito arrependida. Afinal você é um exemplo a ser seguido, não é mesmo Senhor Normal e Perfeito? – o sarcasmo preenchia a voz de Lisa.
O peso de trinta quilos foi arremessado contra a parede com tamanha força que além de produzir um buraco no concreto, ocasionou uma rachadura. O estrondo do ferro caindo no chão não era nada comparado aos ferimentos profundos que ambos infligiam as suas almas.
Ninguém falava com Vishous daquela maneira... não se quisesse continuar vivo.
– Poupe-me do seu sermão sobre moralidade – ele grunhiu por entre os dentes enquanto se aproximava de Lisa – Apesar, que você nunca seria a mais indicada das mulheres para começar um. Nem sonhando.
– Ah, perfeito! Eu...
– Quem fez merda aqui foi você, Lisa – disse sibilando, cortando-a imediatamente e destilando todo o seu desprezo e sua revolta – Quem colocou tudo a perder foi você. Quem se fechou e excluiu a tudo e a todos do seu mundo foi você. Quem não quis compartilhar a dor foi você. Portanto não me venha com desculpas idiotas. E sim... eu realmente acho que você é uma mulher egoísta.
Com aquele olhar adiamantado indecifrável e gélido, agarrou-a pelos braços e a fez olhar diretamente para ele.
– Para mim chega. Não estou a sua disposição, não estou aos seus pés. Permanecerá nesta casa até a criança nascer e depois seguirá para um lugar por mim pré-escolhido e aprovado onde possa viver em segurança. – as ordens eram proferidas naturalmente, apesar de expressarem uma fúria mortal – De hoje em diante eu fico no Buraco, sozinho e você em qualquer outro quarto desta mansão. Não me interessa se gosta ou não das minhas escolhas. Se não pode se proteger de si mesma... eu farei isso por você. Se tiver que sair, sairá comigo ou com alguém que possa lhe manter segura. Caso contrário ficará aqui.
– Ah, meu Deus... agora a culpa é toda minha? – perguntou com voz embargada.
– É exatamente o que eu penso, a culpa é toda sua. Foi isso que plantou e agora está colhendo os frutos, então aproveite para saboreá-los.
– Eu perdi tudo! – gritou desnorteada – Tudo!
– Deixe-me refrescar a sua memória doçura – mais uma vez o desprezo escarneceu na voz pétria e soou uníssono e doloroso – Você mesma me disse que sua vida não tinha nada que valesse a pena. Era apenas uma mistura de drogas e sexo anônimo. Não tente me convencer de que era feliz, porque eu me lembro, como se fosse hoje, como eu lhe tirei daquela maldita boate. Semi-nua e num estado deplorável.
Mais uma vez as palavras doeram mais do que um tapa a ser deferido no rosto de Lisa. Não era possível, era? Seu mundo estava novamente desmoronando. O que sobraria depois de tamanha discussão?
Um filho. Pensou ela desesperançada.
– Então – sussurrou tristemente – Deve se envergonhar da mãe de seu filho. Santo Deus, como você pode ser tão cruel?
– Não sou cruel Lisa – ele balançou a cabeça e soltou-lhe os braços – Sou realista e agora acredito que para nós não existe futuro.
– E acredita nisso porque não avisei a você que ia sair? Acredita nisso porque não sou como suas submissas que acatam suas ordens sem discutir?
– Você sempre foi mais do que isso. Se tem alguém aqui que mudou... foi você.
– O que eu passei faria qualquer um mudar. – sibilou vagarosamente.
– Basta. Não perderei mais tempo discutindo com você. Não vamos chegar a lugar algum.
– Ótimo. Gaste seu precioso tempo com Selena, ela é bem o seu tipo.
– O quê? – perguntou incrédulo.
– Bebeu dela. O que mais você fez? Ou melhor, o que mais vocês fizeram? – Ela ergueu a cabeça encarando-o arrogantemente, seus olhos ardiam em chamas – Me acusa de não falar, mas...
– O que você quer ouvir Lisa? – retrucou furioso – Que você é importante pra mim? Que é “minha” e de mais ninguém? Que eu a desejo mais do que posso suportar? Pois bem, tudo isso é verdade. Só que como macho vinculado, não posso aceitar suas atitudes infantis e infundadas que causam consequências para todos ao seu redor. Aqui somos uma família, as shellans se preocuparam com você, meus Irmãos também. Cuidamos uns dos outros é isso que nos mantêm fortes e vivos... e você desprezou tudo isso.
– Eu...
– Calada, ainda não terminei. – atormentado se aproximou ameaçador e curvou-se sobre ela, até suas bocas quase se tocarem – Para uma fêmea tão preocupada com minhas submissas e principalmente se Selena ocupa ou não espaço em minha cama, sua postura deveria ser outra, pelo menos com relação a mim. Portanto estou me afastando, assim terá tempo suficiente para pensar o que realmente deseja em seu futuro. Só me procure se for de extrema importância ou se a criança estiver nascendo caso contrário é certo que encontrará nessa casa alguém disposto a ouvir suas queixas e lamentações.
Lisa estava anestesiada pelo brado de todas aquelas palavras. Uma dor de cabeça começava a infiltrar-se sombriamente, intensificando seus sentimentos mais secretos e seu corpo começou a tremer pela rejeição clara de Vishous. Ele a estava deixando, não definitivamente, mas era só uma questão de tempo.
- Acho que nossas questões pessoais já estão resolvidas. – disse Lisa tentando manter o orgulho – Entendi tudo perfeitamente.
Sem esperar Vishous avançou pra frente, agarrando-lhe a boca com brutalidade e uma fome insistente, forçando os lábios a se abrirem. Entrelaçou as mãos nos longos cabelos de Lisa e molhou-a com seu suor.
Lisa tentou resistir, chegou a se debater, porém V. foi implacável e logo suas línguas se encontraram em um misto de sensualidade e luxúria. O beijo foi insolente, possessivo e dominador. Uma explosão de desejo preencheu intensamente o corpo de Lisa e ela percebeu que Vishous a acompanhava, pois sentiu o volume de seu prazer no meio de suas pernas, sob o short de ginástica. Sem pensar em mais nada arqueou-se sobre o membro duro que lhe roçava as coxas e passou seus braços pelo grosso pescoço do macho que fazia com que seu corpo pegasse fogo. Gemeu profundamente e então, ele descolou os lábios e lançou um olhar duro e cortante.
– Vai ter que implorar por mim Lisa... caso contrário nunca mais me terá – ele não acreditava nem um pouco nessa frase, mas estava jogando e não podia se dar ao luxo de perder o prêmio.
Soltou-a e fraca, ainda sob o efeito arrebatador do desejo que corria pelo seu corpo, Lisa fez que não com a cabeça, no mesmo instante que estendia o braço para procurar apoio na parede ao lado. Tinha convicção de que suas pernas estavam prestes a se dobrarem por causa do desejo intenso que lhe açoitava implacável. Se isso acontecesse desmentiria sua frágil negação e seria motivo de piada.
– Odeio ferir seu ego, mas é isso que vai ser fêmea! – sussurrou-lhe autoritário afastando-se.
Vishous saiu impressionantemente excitado pelas portas da academia, porém não olhou para trás.
Notas finais
Hoje é 14/03 Dia da Poesia e Graças a Deus, para mim, foi um dia menos corrido. Quem sabe com sorte tudo melhore até o final de semana e minha mãe esteja melhor.
E então? O que acharam? A reação de Vishous já era esperada por todas que eu sei, mas ele foi duro demais ou está certo em tudo o que disse para Lisa?
E agora o que esperar?
Apesar da minha enorme mancada com vocês... por favor comentem.
Um grande beijo.
Fênix
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