Traga-me Para A Vida
41 Capítulo 40
Notas iniciais
Apesar de ter sido criticada, xingada... de ter recebido inúmeras palavras de revolta pelo modo como terminei o capítulo anterior, quero dizer que não estou triste com vocês e nem um pouco arrependida também! Afinal eu adorei deixá-las morrendo de curiosidade e ansiosas...
Sim... então eu confesso... SOU CULPADA!!!! kkkkkk
Mas por hora é só!
Não vou mais ficar escrevendo e empatando todas vocês.
Divirtam-se e boa leitura!
bjs.
Fênix
Legassa buscava por caminhos tortuosos chegar ao seu destino. Rondando no limbo pegajoso onde as almas não sabiam exatamente se estavam vivas ou mortas, particularidades sensíveis lhe chamavam a atenção. Sabia que sua tarefa não era fácil, mas estava determinada a cumpri-la custe o que custasse. Devia favores a Eligor, não, devia mais que favores... devia sua vida.
Um dia, num passado distante quando ninguém lhe teve piedade, enquanto se contorcia sob os maus tratos, punições e humilhações – que verdade ela bem mereceu – aquele demônio foi o único que se importou. Não sabia explicar o porquê, mas ele era diferente, ele parecia entender e para um dos Reis do Inferno aquilo era inacreditável, beirava a clemência.
Não demorou muito para se tornarem amantes... e que amantes. O sexo sempre perfeito, o desejo sempre ardente, o prazer sempre tórrido e eles sempre se saciavam mutuamente em total igualdade de gozo e satisfação, porém sem qualquer tipo de ligação emocional que não fosse amizade, lealdade e respeito. Ambos sabiam o que não queriam e isso era resumido a total liberdade. Podiam trepar onde, quando e quanto quisessem, mas nunca misturavam prazer com trabalho. Era essa evidente separação que os tornava tão poderosos e temidos. Ele era seu Mestre e ela sua fiel Guerreira... e para completar com chave de ouro essa cumplicidade Legassa sofreu junto com Eligor, em silêncio, mas presente, quando finalmente ele se deu conta que perderia para sempre Rachell, a mãe de Lisa.
Por todos esses motivos Legassa reverenciava Eligor, apesar de tudo ele tinha honra. Deixando os pensamentos de lado concentrou-se novamente em sua busca. Não conseguia ver coisa alguma diante de um véu de poeira que se erguia a sua frente, porém escutava lamurias e choro de criança... e não era apenas uma. Um coro sofria profundamente.
Usando sua sensibilidade demoníaca para detectar o mal que lhe alimentava o ser, logo percebeu que se travava de várias crianças e também mulheres que não deveriam estar naquele local há muito tempo. Esforçando-se mentalmente, tentou estabelecer um contato com as almas sofredoras. No primeiro momento não teve resposta alguma.
Porra! Pensou furiosa. Não tinha tempo a perder com o padecimento e atormentação alheia. Ela não era um anjo, portanto não tinha que consolar a amenizar sofrimentos. Só tinha que resolver o seu problema. Portanto a única coisa a ser feita era começar a falar já que não podia ser vista por nenhum daqueles fantasminhas idiotas e chorões.
Empunhando o seu machado ela abriu um pequeno corte na névoa espessa, a massa pegajosa pareceu retrair-se começando a sangrar. Legassa usou do único subterfúgio que poderia surtir efeito sobre àqueles espíritos atormentados: a mentira da salvação eterna.
– Escutem todos – falou em alto e bom tom, com voz angelical e redentora – Estou aqui com o propósito de libertar suas almas sofredoras em troca de um único favor. Quero saber se dentro deste invólucro amaldiçoado existe alguém que possa me levar onde está conjurado o feitiço de estagnação da Feiticeira Évora?
Ouviram-se murmúrios e depois gritos sobrepostos. Uma comoção impiedosa onde todas as vozes soavam ao mesmo tempo e a compreensão tornava-se impossível.
Se Legassa não fosse um demônio provavelmente teria agradecido aos céus por não ter visto a cena. Sempre a mesma coisa. Pessoas sombrias e corrompidas, com débitos pendentes, missões incompletas, tarefas abandonadas, que sofriam da mesma dor e que na primeira oportunidade de salvação se apunhalavam para sair do seu umbral coletivo.
Humanos, não passam de fracassados! É por isso que são facilmente dominados por NÓS.
Não demorou muito para um lamurio em especial chamar sua atenção.
– Quero sua palavra que me libertará. – disse a mulher – Caso contrário à informação ficará só para mim.
– Fale agora! Se a informação for verdadeira eu a libertarei. Tem minha palavra.
– E desde quando acredito em promessas feitas por demônios? – a risada sarcástica ecoou – Nada disso. Ou me leva com você agora para averiguar se a informação é realmente verdadeira ou esqueça e continue a vagar sem rumo.
Merda, um anjo!
Legassa hesitou. Não era do tipo que sabia lidar com seres brilhantes, de asas brancas e que se achavam superiores e magnânimos, principalmente os que estavam caídos e perdidos nas várias camadas infernais. Todavia não podia falhar com Eligor.
– Que seja. Mas grave minhas palavras: Se estiver mentindo eu a matarei e aprisionarei sua alma no reino de meu Amo e Senhor.
– É justo.
Assim que o trato foi aceito a fêmea solidificou-se em frente à Legassa. Estava imunda, cheirava mal, suas asas encolhidas pareciam quebradas, curvadas ao chão e seus cabelos eram um emaranhado seboso e embaraçado, cheios de nós. O ego e a satisfação pela decadência expressavam o rosto de Legassa. Ela realmente estava apreciando o estado em que seu inimigo se encontrava.
– Mostre o lugar.
Não demorou muito para as duas estarem em frente a um tipo de parede de gelatina fosca e logo a Guerreira infernal percebeu que seu machado afiado e seus poderes demoníacos em nada afetavam o estranho “muro”.
Parada e totalmente incapaz de romper tal estrutura ela perguntou ao seu inimigo.
– Você consegue enxergar o que tem aí dentro?
– Sim. – porém o anjo não fez a oferta. Claro que não, anjos são prepotentes. Esperou o pedido.
– E?
– E o quê?
– Você está brincando comigo? – Uma coisa que Legassa não tinha era paciência – Talvez prefira voltar para o buraco em que se encontrava? Se for isso...
– Não, não é isso. Só que se você quiser ver o que eu estou vendo... vai ter que fazer um pedido e terá que ser bem educado.
Cutucar uma onça com vara curta não é uma boa idéia. Citando o ditado popular.
Legassa agarrou o pescoço angelical do anjo fedorento com as duas mãos e começou a apertar sem piedade cortando o ar, mas com muita satisfação. Seus olhos se tornaram vermelhos e brilhavam em êxtase.
– Tenho um trabalho a cumprir, sua piranha, filha da puta – falou apreciando as palavras e o momento glorioso – E vou cumprir. Você já me trouxe até o lugar que eu precisava. A única diferença de me mostrar o que tem aí dentro ou não é a quantidade de tempo que permanecerá ao meu lado viva. Se estiver dizendo a verdade estará livre, mas se estiver mentindo eu farei com que me leve ao lugar certo e depois matarei você separando sua coluna vertical do seu corpo enquanto ainda respira.
A gelatina tornou-se transparente e o cenário foi desnudado. O lugar estava correto. Legassa pode ver perfeitamente as almas das quatro meninas atreladas ao sofrimento das estacas cravadas sobre seus corpos que apodreciam enterrados no chão. Das quatro crianças sacrificadas, três já tinham perdido totalmente a consciência, só medo e desespero habitava seus míseros pensamentos. Porém uma delas, a que estava no ponto sul da casa olhou-a assustada.
– Quem está na casa? – perguntou sem perder tempo.
– Você pode me ver? Quem é você? – Hosana não acredita no que estava diante de seus olhos – Isso nunca aconteceu antes.
– Vim para ajudar. Agora responda.
O relógio continuava a correr sem demora. Qualquer minuto era precioso demais para ser desperdiçado com apresentações e blá-blá-blá.
– Não sei se posso confiar em...
– Exatamente! Não sabe, portanto responda. – Legassa foi dura e ameaçadora, a criança tremeu.
– Paul e... Lisa. Évora está... está amarrada no porão.
– Consegue puxar a estaca que está presa ao seu corpo?
– Não.
– Merda.
Não havia mais nada que Legassa pudesse fazer a não ser esperar. Sendo assim ela guardou seu machado e empunhou um ferro, parecido com aqueles de marcação de “gado”. Só que na sua ponta em vez de uma letra, o formato do pentagrama saltava aos olhos.
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Vishous foi o primeiro a materializar-se junto à porteira do Rancho Montanna. Logo a Irmandade foi surgindo um por um, atrás dele, totalmente armados.
O Escalade chegou após dez minutos com Butch, Wrath e Eligor. Assim que o demônio desceu do carro, seu fiel amigo tornou-se visível e curvou-se perante seu Amo.
– Nenhum movimento, Meu Senhor – disse Ádamo – Ninguém entrou ou saiu do lugar.
– Não temos escolha... temos que esperar, contar com Legassa.
Apesar de a única opção ser amargosa, infelizmente também era a única coisa que tinham. E ainda bem que não sabiam que Legassa também estava de mãos atadas, sem poder fazer absolutamente nada.
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Coragem!
Lisa tremia ao ponto de achar que ia desmaiar, a força depositada em seus braços era tudo que sobrara em seu corpo fragilizado. O golpe tinha atingido o lado esquerdo da cabeça e rosto de Paul, rasgando a orelha, pegando-o de surpresa e deixando-o momentaneamente atordoado.
Ainda montada sobre o redutor e abrigando-o no interior de seu sexo, ela segurava a base do abajur com as duas mãos para obter segurança, sem oscilar ela proferiu outro golpe. Desta vez acertou o meio da testa e o nariz que começou a sangrar, ouviu um gemido e sentiu os braços de Paul tentando afastá-la.
A demência tinha se sobreposto, tinha vencido a batalha. A alma de Lisa partia-se ao meio, estava quebrada. Em sua mente transtornada pelo presente e assombrada pelo passado ela misturou as situações e começou a golpear sem nenhuma piedade.
Outro golpe. Mais um. Novamente... Golpeie, golpeie... não pare, não pare, não pare!
Agora Lisa não era mais a mulher prisioneira que foi violentada e espancada até o seu limite, transformou-se, voltou a ser a garotinha de seis anos que finalmente conseguiu subjugar sua mãe doente, louca, insensata e principalmente negligente.
A alucinação era tão real que podia enxergar nos cabelos brancos de Paul, os longos cabelos castanhos da sua mãe... tudo estava transformado e Lisa começou a se sentir bem com o que estava fazendo. Uma maldade de proporções gigantescas exalava pelos seus poros como se fosse suor, transpiração... a hora havia chegado e ela estava punindo inconscientemente todos que um dia ousaram entrar em seu caminho e tratá-la como lixo.
Outro golpe e a mandíbula de Paul foi quebrada. O horroroso estalo do osso se partindo ecoou no cérebro de Lisa, o barulho puxou-a de volta a realidade. Ela percebeu que o redutor estava desacordado e o sangue negro escorria por todo o seu rosto. Com movimentos rápidos ela saiu de cima dele e procurou pelas algemas e pelas correntes dos tornozelos.
Depois de imobilizá-lo e se certificar de que estavam bem fechadas, jogou o vestido azul que Paul havia comprado para ela por cima de seu corpo nu e saiu do quarto correndo em direção a porta de saída que se encontrava aberta, exatamente como se lembrava e como ele havia se esquecido.
Saiu porta a fora rumo à escuridão da noite. Sabia que era sua única chance de liberdade. Seus olhos a princípio correram por todo o jardim, como se sondasse o local até que avistou a placa que balançava com a força do vento e... viu o macho parado, esperando.
Vishous... ele estava lá. Ele estava lá... e a Irmandade também. Lisa se preparou para correr em sua direção com o coração aos pulos.
– Fique parada! – o grito da mulher que fez estancar.
Lisa olhou para sua esquerda e seus olhares se encontraram. Um demônio... uma mulher... tinha chifres na testa, cabelos longos, asas disformes e negras, além de uma aparência ameaçadora. De jeito nenhum esperaria mais um minuto sequer para sair daquele inferno. Muito menos tento aquela criatura tão próxima. Só podia ser coisa de Évora... um truque para tornar suas idéias confusas, novamente ela se preparou para correr.
– Não faça isso. Se cruzar a linha imaginária antes de retirar uma das estacas estará amaldiçoada para todo o sempre.
– Não... não, você está com Évora. É um demônio. Não serei enganada...
Legassa por um momento sentiu pena de Lisa. A humana aparentava estar exausta e doente. Muito pálida, tinha marcas profundas de desespero em seu rosto, olheiras escuras circundavam seus olhos, exibia vários hematomas nos braços e nas pernas e suas mãos tremiam sem parar.
– Me escute e tenha calma – A voz de Legassa tornou-se baixa quase uma prece. – Eu também não posso transpor a linha que foi criada pelo feitiço. Eu não sou sua inimiga. Você está me entendendo?
Lisa não respondeu. Mantinha os olhos fixados em Vishous.
– Lisa... Lisa... você precisa me ouvir...
Mas nada fazia sentido a não ser correr ao encontro do homem que ela tanto amava e foi isso que ela fez, começou a correr.
– Nãããããããão! – Foi Hosana que acreditando em Legassa jogou-se sobre Lisa e por um milagre conseguiu solidificar-se, saindo de sua forma etérea e caindo com Lisa ao chão, como uma pedra, bem ao lado da estaca que estava cravada sobre o seu corpo – Por Deus, você tem que escutá-la, não sei como, mas... por favor...
O fantasma fazia força para segurar Lisa, enquanto ela se debatia furiosamente. Ao fundo escutava os gritos de Legassa:
– Puxe a estaca, tire-a do chão. Puxe a estava, puxe a estaca!
Legassa tentava transpor a gelatina, mas sabia que era impossível. O feitiço conjurado impedia sua entrada e a única solução era gritar exauridamente, despejando seu ódio na mulher estúpida que se negava a ouvi-la. Perdendo o controle de si mesma e sem nada a fazer, ela derramou sua ira contra Lisa.
– Você não passa de uma humana burra e idiota, sua desgraçada! Sua vadia nojenta. – gritava o mais alto que podia – Vai estragar a única chance que tem e eu serei punida por não ter feito nada. – ela esmurrava a parede transparente, porém nada acontecia – Você vai se matar e depois aquele macho para quem está olhando e que tanto ama... sabe o que ele vai fazer? Vai meter uma bala na cabeça por ter chego tão perto de salvá-la e ter falhado. Você vai conseguir se matar e vai matar ele também. Isso é o que você quer? É o que espera...
A voz de Legassa falhou, começou a tossir, engasgando. Tentando se recompor percebeu o silêncio. Lisa não se debatia, estava imóvel.
– Como você sabe que...
– Eu sou um demônio... meu nome é Legassa. – Ela ainda tossia e tentava se acalmar – Eu estive na mansão, falei com o Rei... conheço os lugares mais sombrios de uma alma e Vishous... Olhe para mim Lisa. Porra, olhe pra mim enquanto falo com você.
Mesmo cheia de dúvidas Lisa se permitiu ouvir. Hosana saiu de cima dela e ajudou-a a ficar de pé. Quando estava sobre suas pernas olhou diretamente para Legassa.
– Vishous pensa nisso o tempo todo. Apertar o gatilho e acabar com tudo.
Ao mesmo tempo em que as mãos embalaram seu ventre, as lágrimas rolaram de seus olhos e nesse momento sua mente a levou de volta ao sonho estranho e libertador, onde somente uma frase habitava todo o espaço:
– Arranque uma das estacas. Puxe uma das estacas do chão e poderemos encontrar você!
– Arranque uma das estacas. Puxe uma das estacas do chão e poderemos encontrar você!
Coragem! Esse era o momento. Havia por fim entendido.
– É só puxar a estaca? – Lisa ergueu as costas tentando se mostrar firme e forte, apesar de interiormente estar ruindo.
– Sim.
A afirmativa foi dita por Legassa e também por Hosana, junta em uníssono.
Ela se aproximou, agarrou a madeira com ambas as mãos e puxou. A estaca não se moveu. Posicionou-se melhor fincando os pés no chão com mais propriedade e impôs mais força no segundo puxão... mas nada aconteceu.
– Não consigo – o olhar assustado determinava a incerteza de seu futuro – Não sai.
– Merda. Que merda... estamos ficando sem tempo. – procurando por uma alternativa que não existia Legassa não tinha o que fazer.
– O porão. Deve ter alguma coisa lá que eu possa usar para cavar.
– Mas Évora está lá – disse Hosana.
– Mas está presa...
– Vá Lisa, vá! Não perca tempo.
– Sim.
Ela se virou e correu para o interior da casa. Passando rapidamente pela sala, ouviu o chacoalhar das correntes. Paul!
Estava acordado, tinha despertado. Olhou pela fresta da porta com cuidado e viu quando ele lutava para se soltar, o sangue negro corria por seus pulsos algemados na cabeceira da cama, mandíbula estava torta, solta. Ela precisava ser rápida. Como se captasse sua presença o redutor virou seu rosto espancado na direção de sua presa e sorriu maleficamente.
– Vou matar você, assim que conseguir me soltar.
Com o pavor dominando seu corpo, Lisa fechou a porta a olhou ao redor. Pousou seu olhar sobre um móvel grande que guardava louça e prataria e começou a arrastá-lo. Tinha que conseguir colocar a peça de modo que travasse a porta e assim pudesse ganhar mais tempo.
Ela sentiu uma pontada por baixo, em sua bexiga... mas continuou, não podia parar. Não por qualquer coisa. Não quando Vishous estava tão perto.
Quando finalmente conseguiu colocá-lo em frente à porta, mesmo cansada ela correu para a cozinha, abriu o alçapão que dava para o porão e desceu as escadas. Lá estava Évora, amarrada como um dia ela também tinha ficado.
Não tinha tempo a perder. Pisando no último degrau ela ao mesmo tempo corria o olhar por tudo, por todo o arsenal procurando... sabe-se lá Deus o quê.
Não tinha a menor convicção de encontrar uma pá no meio de objetos de tortura e brinquedos sádicos sexuais, era assim que aquilo se chamava? Ela também não sabia responder a essa pergunta.
– Lisa! – a risada ecoou no ambiente nimboso – Está livre... eu sabia que Paul ia fazer alguma coisa patética. O amor é mesmo uma grande merda.
Abrindo várias gavetas e se surpreendendo ao encontrar instrumentos cirúrgicos, Lisa não se deu ao trabalho de argumentar. Foco. Seu foco era encontrar algo parecido com uma pá.
– Sabe que não pode escapar. É impossível. – mais uma risada mórbida – Você vai morrer dentro desta casa. Você e o imbecil do Paul, tudo o que eu faço...
– Cale essa boca! – o som do chicote resvalou no ar e morreu no rosto de Évora, marcando-a, porém a terrível feiticeira não demonstrou sua enorme surpresa ao ver que Lisa carregava uma áurea de maldade e que estava disposta a castigá-la por tudo que havia passado.
– Você matou Paul?
A súbita pergunta puxou Lisa para a realidade. Por mais que quisesse e precisasse surrar Évora, ela sabia que se Paul se soltasse tudo estaria perdido. A sua vingança precisava esperar. Ela já tinha encontrado algo que ia lhe ajudar a cavar, apesar de sinceramente não querer saber para que aquele instrumento ou seja lá o que fosse aquilo, que era semelhante a uma grande colher... servia. Largou o chicote e correu subindo os degraus rapidamente.
Droga... o móvel colocado em frente a porta do quarto balançava. Paul lutava para sair. É claro que se Lisa tinha conseguido empurrar... a qualquer minuto o redutor também conseguiria.
– Você jamais voltará a ser a mesma mulher que era antes de eu te possuir!
Ela continuou a correr, mas ouviu bem as palavras proferidas por Paul e sabia que era verdade... logo, estava novamente ao lado da estaca.
– Isso! – disse Legassa visivelmente feliz – Rápido Lisa. Você tem que fazer isso rápido. Cave.
Com o coração batendo descompassado e o terror lhe açoitando a mente, Lisa começou a cavar. Seu tempo estava se esgotando muito rápido. Os segundos que ela levava para remexer a terra pareciam não serem os mesmos segundos que Paul tinha para afastar o móvel. Os dela voavam... os dele se arrastavam.
Deus! Estava a ponto de acreditar que não conseguiria, então ouviu Legassa falando ao fundo.
– Não pare, mas preste atenção no que tenho para dizer. Quando tirar a estaca do chão, eu terei que marcar suas costas a ferro.
– O quê? – Lisa levantou a cabeça e viu o ferro com a ponta já em brasa nas mãos de Legassa.
– Não pare, continue cavando! – ordenou a demônia e Lisa voltou ao trabalho – Se eu não fizer isso, seu sacrifício pela liberdade será em vão. Você precisa confiar em mim. Você precisa ter a marca do pentagrama no seu corpo.
Que diferença fazia um pouco mais de dor ou sofrimento contanto que depois estivesse livre? Com esse pensamento, ajoelhada ao chão Lisa cavava, cavava, até que repentinamente a estaca oscilou.
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Tão perto e tão longe...
Paul sentiu que perdia tudo. Tudo? Mas ele nunca tivera nada. A mulher que ele tanto amava, idolatrava e reverenciava apenas contou-lhe mentiras, enganando-o e ele, como uma criança ingênua construiu seu castelo em volta de promessas falsas e hipócritas. Para ele não restava nada a não ser matar. Matar tudo e todos que entrasse no seu caminho.
Totalmente transtornado pegou o celular ligou para o Sr.H.
– Estou com Lisa Hendrix, siga pela Rota 22, tem um acesso secundário após a saída principal. Rancho Montanna. Traga reforços e avise Ômega.
O destino estava traçado. Todos morreriam.
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– Porque a demora? – perguntou Vishous não suportando a espera, aquilo sim era tortura.
– Confie em Legassa, ela nunca desiste.
Eligor pronunciou as palavras tentando acreditar nelas também. Mas a verdade é que já fazia um bom tempo que todos estavam parados sob aquela maldita placa e nada tinha acontecido.
As coisas possivelmente eram piores do que se imaginava e sua fiel Guerreira tinha encontrado sérios obstáculos pelo caminho. Era a única explicação para a falta de notícias e a interminável espera.
Lassiter surgiu carregando alguns pacotes de batatas chips e caminhando como se viesse para um pic-nic.
– Alguém como fome?
O único a estender as mãos foi Raghe. Que dúvida!
– Valeu cara. Ficar aqui sem fazer nada é um tédio.
– E o seu tédio vai ser quebrado só porque você vai mastigar Hollywood? – perguntou Z. visivelmente contrariado.
– Deixe que ele coma Zsadist. É melhor Raghe comendo do que usando a boca para falar as bobagens sem sentido que ele insiste em compartilhar com todos nós.
A frase espirituosa de Phury tentou aliviar a tensão, mas falhou devido ao comentário sarcástico de Eligor.
– Sabe vampiro não o conheço muito bem – disse olhando para Phury – Mas sou capaz de colocar minhas mãos no fogo por essa sua sensata afirmação. Ele realmente fala bobagens demais.
Hollywood rosnou enquanto suas presas alongavam-se. O conflito entre eles era uma questão de tempo e todos sabiam que não demoraria muito.
– Ok, ok... vamos nos acalmar. – interferiu Wrath com autoridade – Aqui não é hora e nem lugar para isso.
– Não mesmo! Temos companhia. – disse Butch virando-se para a estrada, enquanto sentia a chegada dos inimigos.
– Quantos? – perguntou Wrath.
– Muitos... meu Senhor.
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Uma fração de segundo. Tudo ocorreu nesse mísero espaço no tempo. Alguns pensadores eruditos afirmam que as decisões que são tomadas nesse momento sempre revelam a verdadeira natureza humana e se ela é boa ou ruim.
Também pode mostrar como o eterno é ínfimo, como a força transforma-se em fraqueza, como a vitória vira derrota, como a esperança é subjugada pela tristeza.
Com o corpo e mente tomado pela consternação, Lisa puxou novamente a estaca com as duas mãos... e ela conseguiu. A estaca saiu e imediatamente centenas de vermes emergiram do buraco. Gritos infantis horrorosos multiplicavam-se cada vez mais altos. Os sacrifícios pareciam que estavam acontecendo naquele momento.
Subitamente uma dor lacerante atingiu seu ombro direito. O cheiro de queimado subiu até suas narinas, uma fraqueza momentânea envolveu seus terminais nervosos e Lisa sentiu como se garras a segurassem pela cintura, evitando sua queda... Legassa.
O demônio estava cumprindo sua promessa, porém uma névoa escura e densa a envolveu e ela desapareceu no ar. O corpo de Lisa desabou ao chão, no entanto mesmo sem força, sua consciência dizia a ela para prosseguir e foi o que ela fez... tentou rastejar pelo chão, enquanto um sorriso nascia em seu rosto castigado.
Paul emergiu de dentro da casa, saindo pelas portas e correu ao encontro de sua presa. Com rapidez virou-a de frente e sentou-se sobre Lisa imobilizando-a, enquanto pegava a estaca para cravá-la em seu coração.
– Ele está vivo? – a pergunta carregava toda a surpresa da situação – Mas você não vai ficar com ele.
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Quatro carros se aproximaram rapidamente. No primeiro, três redutores armados disparavam para todos os lados.
– Hora do show. – Afirmou Butch.
Toda a Irmandade se preparou para o confronto. Porém antes que os carros pudessem parar e que parte da Sociedade Redutora pudesse descer dos veículos, a cortina se abriu.
A suntuosa casa apareceu diante dos olhos de todos e a cena que se via parecia ter sido tirada de um filme de ficção científica misturado com terror.
Lisa estava sendo amparada por Legassa que desaparecia magicamente enquanto a humana caía ao chão tentanado rastejar.
– Lisa. – Gritou V.
Apesar da distância seus olhares se encontraram e Vishous pôde vislumbrar um pequeno sorriso, mas antes que seu cérebro assimilasse a felicidade por vê-la viva, um redutor saiu de dentro da casa e pulou sobre sua fêmea.
– Agora Vishous – gritou Wrath.
Deixando seu ódio implacável fluir V. se desmaterializou para no segundo seguinte estar diante de Paul, tão rápido que pode ouvir a frase que o desprezível pronunciava para Lisa.
– Ele está vivo?... Mas você não vai ficar com ele.
A estaca já estava baixando em direção ao peito de Lisa quando Vishous pulou sobre o redutor, com suas presas expostas e um ódio que subrepuljava tudo e todos. O macho vinculado nele gritava por vingança. Os dois rolaram pelo chão distanciando-se dois ou três metros dela.
Totalmente desestabilizada e no limite de sua razão, Lisa tentou se levantar. Foi então que sentiu uma grande pontada em seu ventre, tão forte que fez com que se curvasse e se encolhesse, enquanto levava as mãos à barriga. Ela não tinha a mínima condição para fazer mais nada que não fosse olhar para V.
Sentindo que algo estava errada com sua fêmea, V. hesitou perante Paul e olhou na direção dela, foi suficiente para entender que ela não se encontrava nada bem, ela chegava ao limite de sua resistência, ou pior, poderia estar à beira da morte. Quando o vampiro afrouxou a pegada para soltar o redutor e socorrer sua fêmea, ele escutou-a dizer.
– Mate-o! – sussurou em meio a dor.
Com a boca expressando uma mistura de rugido e rosnado Vishous desmembrou do corpo um dos braços do redutor. O grito de agonia explodiu no ar, assim como o jorrar do sangue negro.
Ahhhhh... aquilo soava como música. Foi tão bom que V. logo em seguida arrancou o outro. A enorme poça de sangue fétido manchava o chão e se misturava aos milhares de vermes que insistiam em continuar saindo do buraco em que anteriormente a estaca estava fincada.
Ao longe, bem distante do desejo de vingança e de estar cumprindo-o plenamente, V. escutava os tiros, a cena era caótica. Uma guerra acontecia ao seu redor, porém nada daquilo tinha o poder de desviá-lo de seu objetivo. Como Guerreiro Vishous era mortal... como macho vinculado ele era indestrutível.
Não havia a mínima possibilidade de Paul conseguir qualquer reação debaixo do corpo de seu algoz, sem braços e sangrando como um porco sua única arma eram as palavras que podia cuspir pra cima do vampiro que detinha todo o amor da única mulher que ele amara.
– Ela fez amor comigo... e gostou e gozou.
Desta vez foi a lâmina da adaga precisa e afiada de V. que fez o trabalho. Rasgou o peito e desceu pelo abdômen e pela barriga do redutor, num único golpe, deixando-o aberto como se fosse acontecer uma autópsia. Paul se contorcia, gritava e tinha plena consciência de que seu fim tinha chegado, seus pulmões queimavam pelo esforço em respirar, logo retornaria para Ômega e passaria a eternidade sendo punido por ter mentido, escondido, cobiçado e amado a humana de seu Criador. Mas ele suportaria o pior porque tinha certeza de que sua afirmação tinha atingido seu objetivo de alguma forma. Mesmo que o vampiro não confiasse no que dizia, ele sabia, podia apostar que Lisa não suportaria carregar a culpa por ter que se passar por uma dissimulada qualquer ao ponto de fingir fazer sexo glorioso com ele. Reunindo suas últimas forças ele pronunciou:
– Se não acredita, pergunte a Lisa.
Vishous ergueu sua adaga negra sob o peito do redutor e preparou o golpe.
– Ela está gr...
A lâmina desceu direta, certeira cravando-se profundamente no peito do redutor. O rosto de V. foi a última coisa que Paul viu em sua torpe e indigna existência. Seu grito ecoou repugnante e cheio de horror. Sabia que estava indo para Òmega e que era uma viagem sem volta. Logo após um lampejo de luz iluminou a noite.
A situação, porém ainda era caótica. A Irmandade travava uma guerra paralela com o restante dos redutores que teimavam em não parar de aparecer. Mas aquilo no momento não era o mais importante, pelo menos para V.
– Lisa... estou aqui. – disse ele olhando-a atentamente procurando por ferimentos mais graves – Fique calma, você está ferida?
– Vishous... é você! Você me encontrou – debilitada e exausta ela tentava juntar as palavras, enquanto sorria – Você veio... você não me esqueceu.
– Nunca, jamais lellan. Agora vou tirar você daqui.
Debruçando-se sobre sua fêmea ele a ergueu com cuidado em seu colo, tomando-a em seus braços, Foi então que notou que o vestido de Lisa tinha uma mancha de sangue um pouco abaixo de onde as mãos delas insistiam pressionar, em seu baixo ventre.
Vishous não era um macho que sentia medo. Essa palavra não fazia parte da sua vida, mas olhando minuciosamente para sua fêmea ele entendeu que havia algo muito errado. Não era só a hemorragia, era o todo. Ela aparentava uma debilidade grave e moribunda.
– Vamos sair daqui agora.
– Não tão rápido vampiro. – disse Évora – Daqui ela não sairá viva.
Num segundo Évora estava à frente de Vishous empunhando uma das pistolas automáticas de Paul diretamente para o rosto de Lisa, no outro foi atirada ao chão, batendo a cabeça fortemente em um baque poderoso.
Desnorteada, sentiu mãos fortes a agarrando e virando-a para que ficasse posicionada com o rosto voltado para baixo, de encontro ao solo onde os vermes rastejavam. Quando tentou erguer a cabeça uma bota prensou-lhe a face sem piedade alguma a apertando de encontro ao chão.
– Pra que tanta pressa Évora? – Com a bota ele esfregava o rosto dela de um lado para o outro – Você não vai a lugar algum que não seja para o Inferno e pode ter certeza que eu lhe proporcionarei uma eternidade torturante e extremamente penosa.
Seu pior pesadelo tinha nome: Eligor!
Notas finais
Comentem, façam a sua parte.
O que esperam? O que acham que vai acontecer quando V. descobrir sobre a gravidez depois da terrível frase de Paul? Isso pode mudar alguma coisa?
Me contem.
Um grande beijo e um ótimo final de semana!
Fênix
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