Traga-me Para A Vida
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O verão é escaldante em Nova York e não estamos falando de 28 ou 30 graus, falamos de 40, com sensação térmica de 45 graus. Um verdadeiro deserto no meio dos arranha-céus gigantescos. Se você estiver numa estação de metrô, então se prepare para conviver com 50 graus.
Não pense que é exagero, muitas pessoas morrem devido ao calor extremo, aliás, a palavra extremo tem tudo haver com as mudanças climáticas de Nova York. O extremo do frio e o extremo do calor.
Também podemos citar extremo quando falamos sobre Caldwell, tão perto, apenas 34 km da grande metrópole e tão longe, um mundo paralelo onde guerreiros vampiros travam uma guerra sangrenta e eterna pela sobrevivência de sua raça longe dos olhos humanos.
São aproximadamente 02h00min da madrugada, os guerreiros Phury e Rhage se materializam a esquerda do clube ZeroSum, onde a luz era mais fraca e ninguém notaria a súbita aparição. Enquanto caminham para entrar, sentiram o cheiro característico e repugnante de talco de bebê dos redutores. Olharam-se por um segundo e sem hesitar começaram a descer pela Rua Principal, seguindo o odor que a cada passo se tornava mais dominante e bestial.
Estavam em um beco, que por sinal tinha lixo acumulado por todos os lados. Eram quatro deles, todos muito pálidos, somente um dos redutores tinha os cabelos totalmente brancos. O que indicava que já fora recrutado há mais tempo.
Dois jovens, civis da raça, caídos com gargantas dilaceradas no chão ,jaziam inertes, um terceiro civil se espremia no meio de sacos de lixo tentando escapar de seu cruel destino.
Os redutores riam sarcasticamente, aquilo era um banquete e estavam prestes a degustá-lo por inteiro, extirpando seu último prato.
Raghe pulou por cima deles tentando ficar entre o civil e seus carrascos. Em sua mão direita já tinha a adaga posicionada, Phury bem atrás dele, desligava o celular com o qual pedia reforços.
Os redutores se posicionaram em um círculo e mesmo sabendo que a tática não era muito valiosa para a defesa, partiram para cima dos Irmãos como tratores. Dois deles foram golpeados ainda no ar com tiros certeiros no peito, o terceiro rolava sobre Phury trocando uma série de socos. Ouviu-se mais um tiro exatamente no momento em que Vishous adentrava ao beco.
V. ultimamente andava instável. É certo que ele nunca se interessou por amor ou por sentimentos, principalmente os seus. Mas agora estava pior. Não se importava se vivia ou morria e a revelação de ser filho da Virgem Escriba, a Criadora de sua raça só agravou a situação.
Ele tirou a luva que cobria aquela mão amaldiçoada, agarrou o redutor pelas costas e o queimou. Não podia terminar o serviço, ou seja, espetar a adaga no peito do morto vivo, porque esperava pela chegada de Butch para sugá-los.
Dirigindo o olhar para os outros que estavam caídos percebeu que um deles, o de cabelos brancos, estava fugindo e Phury corria atrás dele. Quanto a Raghe havia um enorme buraco de bala em seu ombro esquerdo. V. não soube distinguir a priori se o tiro tinha entrado ou saído pelas costas do Irmão.
– Ah... Que porra Raghe! O tira já está vindo com o carro. Vou fazer uma pressão pra conter o sangramento.
– Está tudo bem, posso andar.
– Tá, sei... você é durão, mas fique quieto.
– Vá checar o civil deitado nos sacos de lixo. Ele parece bem machucado.
O Escalade parou na entrada do beco e rapidamente os guerreiros se deslocaram juntos com o civil. Enquanto se acomodavam no carro, Butch não perdeu tempo. Parou na frente dos redutores, jogados ao chão. Seu rosto sério exibia as enormes presas, quando posicionou a boca perto do rosto esbranquiçado começou a sugar e uma névoa negra de pura maldade começou a ser transferida para o seu corpo. No fim só sobrariam cinzas. Fez esse ritual com todos eles. Quando terminou sentia o mal correndo por suas veias, caiu para o lado e tinha espasmos violentos, mesmo assim se levantou andou cambaleante em direção ao Escalade.
Vishous o ajudou a entrar e sentou-o no banco do passageiro ao seu lado.
– E aí tira? Como está?
– Noite dura, Hollywood. Cara... Mary vai pirar com isso aí. Não queria estar em sua pele, ela vai falar sobre segurança por uma semana.
– Vai mesmo, não é? Mas quer saber, ela fica linda até falando sobre segurança e como tenho que ser mais atento — disse ele com um sorriso doloroso nos lábios tentando arreganhar ainda mais os dentes — Olhando bem, você não está nem um pouco melhor que eu.
– Eu cuido dele, quando estivermos na clínica. — falou V., enquanto lia a mensagem recebida em seu celular: redutor fugiu, ainda estou procurando por ele, se precisar peço ajuda P.
– Ok, vamos levar o civil para o Havers e ver se ele consegue sobreviver a isso. E você, Raghe, também precisa de um médico. Pisa fundo V.!
Uma dúzia de minutos se passou, enquanto esperavam pelos curativos e procedimentos médicos em Raghe e no civil. Dirigiram-se para um quarto logo em frente que se encontrava vazio.
– Venha Butch, deite-se aqui. Você vai ter um colapso a qualquer momento. Posso sentir que está no limite.
Butch deixou seu corpo cair em cima da cama e logo V. deitou-se ao lado. Passou seu braço em torno do pescoço do amigo e o apoiou contra seu peito. Ele tirou a luva e revelou a mão coberta de tatuagens, naquele momento agradeceu por sua maldição e também por poder sentir o calor do corpo de seu grande amigo.
Aquele pensamento era ameaçador, não podia admitir que precisasse disso. Não podia admitir que queria Butch e que desejava estar com ele.
Cara, era um tremendo filho da puta, se não bastasse ser um pervertido sexual sadomasoquista, agora tinha atração por seu melhor amigo, a única pessoa que realmente confiava em todos os seus miseráveis 300 anos de vida.
Suas mãos se entrelaçaram fortemente, a cura havia começado. Permaneceram abraçados até que Butch respirou aliviado. O mal de Ômega já não existia mais dentro dele. Estava limpo.
– Você está bem? — perguntou Vishous com voz baixa.
– Sim. Não sinto mais a aura maligna dentro de mim. Obrigado meu amigo.
– Faz parte do meu trabalho. Cuidar de você, tira.
– E de você quem cuida? — Butch não podia conter a pergunta — Não me venha com respostas de que se vira sozinho. Anda muito calado está parecendo uma bomba prestes a explodir, o que está pegando V.?
– Sou filho da "grande" Virgem Escriba, não é sensacional?
– O quê? — de olhos arregalado, ele não compreendia a confissão — Como descobriu?
– Não descobri. Ela fez o favor de me procurar e contar a bela estória.
– Mas, eu não entendo...
– Nem eu. — Vishous se levantou da cama e tratou de colocar espaço entre eles — Escuta, vamos deixar isso pra depois. Vamos procurar Raghe. Quero dar o fora daqui.
Saíram do quarto e encontram Raghe, sentado no corredor. O guerreiro tinha um enorme curativo no ombro direito e o braço estava sendo suportado por uma tipóia. Juntaram-se a ele e esperaram por mais duas horas por notícias do civil.
Havers chamou os Irmãos.
– Ele está fraco, perdeu muito sangue e precisa se alimentar. Se quiserem falar com ele, por favor, sejam breves. E você Rhage, já deveria estar deitado e descansando em casa.
– Calma Doutor, vamos falar rapidamente com o macho e iremos embora e essa tipóia que você colocou está me matando — falou reclamando.
– Quanto á tipóia não é para ser retirada em menos de 8 horas e você deve permanecer de repouso por no mínimo dois dias, isso se não quiser que os ossos desse seu ombro cresçam tortos. Estamos entendidos ou você prefere ficar na clínica?
– Entendemos perfeitamente e ele vai obedecer. — disse Butch, encurtando o papo e se dirigindo ao quarto do civil — Vamos acabar logo com isso!
Quando os três Irmãos entraram no quarto, o ambiente pareceu ficar menor do que realmente era. O macho estava completamente pálido, seu rosto estava surrado e tinha gesso em um dos braços e soro com medicamentos no outro. Então V se aproximou.
– Consegue responder a algumas perguntas?
– Sim, pelos meus amigos que não tiveram a sorte de sobreviver. — tinha lágrimas caindo e uma grande dor expressa em seus olhos.
– Nos conte o que aconteceu e não se esqueça dos detalhes, tudo é importante.
– Foi tudo muito rápido. Só queríamos chegar ao ZeroSum para terminar a noite, beber alguma coisa. Não vi de onde surgiram. Quando estávamos no show, achei ter sentido cheiro de talco, mas tinha tanta gente, fiquei confuso por que...
– Oohh... calma aí. Estavam num show? — perguntou Raghe.
– Sei que parece loucura mas senti o cheiro deles no MSG, no show da Lisa Hendrix. Na hora procurei por algum sinal, mas meus amigos me disseram que era impossível distinguir qualquer cheiro no meio de milhares de humanos. Então relaxamos e quando terminou voltamos pra Caldwell. Assim que descemos do carro fomos atacados e encurralados naquele beco, o resto vocês... já sabem.
– Isso é suficiente! A sua família e a de seus amigos já foram avisadas, estão a caminho. Agora descanse.
Quando estavam prontos para sair do quarto, o civil soltou uma última pergunta.
– Eu estava certo, não é mesmo? Os redutores nos seguiram.
– Não é possível saber. Não se torture. Deixe que cuidemos do caso.
Falando isso Vishous. e os Irmãos saíram do quarto.
Dirigiram o Escalade rumo à mansão discutindo a probabilidade de se encontrar um redutor em um show no MSG e se isso aconteceu o que estariam fazendo lá, apenas diversão? Para aliviar um pouco o peso das dúvidas, Raghe brincou.
– Cara, apesar de odiar e querer todos os redutores mortos, no quesito celebridade eles tem bom gosto. Lisa Hendrix é sexy, que corpo... e como canta. — sentiu os olhos dos irmãos em cima dele com estranheza.
– Qual é... só fiz um comentário. Elogiar é pecado? — sua voz saía divertida — Aliás, em matéria de sexo posso afirmar que eu e minha shellan nos encaixamos perfeitamente, se é que me entendem.
Os risos ecoaram dentro do veículo e ele ouviu V. e Butch falando ao mesmo tempo:
– Sim,Hollywood... entendemos perfeitamente!
Não levou quinze minutos até a porta do complexo. Enquanto Butch levava Raghe para dentro, V. olhou ao redor para os carros estacionados no pátio. Todos estavam em casa e saindo pela porta, lá vinha Phury.
– Hei companheiro, já estou em casa. Não consegui seguir o redutor, o filho da mãe foi mais rápido do que eu desta vez.
Mas V. estava inquieto, alguma coisa estava errada, alguma coisa não se encaixava naquela noite, naquela estória, mas não sabia o que era.
Parados do lado de dentro estavam Mary, Beth e Wrath.
– Por Deus Raghe, o que houve? Quer me matar de susto, já não basta à espera? Você está bem? — Sua shellan o encheu de perguntas, estava ansiosa e agoniada.
– Minha Mary, venha aqui...
Butch soltou-lhe o corpo e ele abraçou Mary com carinho, acalmando-a.
– Estou bem. Havers já cuidou do meu ferimento, só preciso descansar um pouco e logo estarei novo em folha para você. — Ele mal terminou a frase e já estava com um risinho safado estampado no rosto.
– Mary, não é bem assim... — disse V. — Não quero ser estraga prazeres, mas o grandão aí, tem que ficar com essa tipóia por 8 horas, repousar por mais dois dias... e também precisa se alimentar.
Era nessas ocasiões que Mary se sentia frustrada por ser humana e não poder saciar seu macho com o sangue que tanto ele precisava para se curar. Ela teria que recorrer eternamente a uma das Escolhidas para alimentá-lo.
– Claro que sim. Vou chamar Layla agora mesmo e você Raghe vai entrar off e isso não é negociável e nem é um pedido.
– Falou muito bem Mary. Agora atenda ao pedido de sua shellan e vá se deitar um pouco.
Wrath, em toda Sua Majestade parecia aliviado por estar tudo bem com seus Irmãos.
– Irei assim que tivermos uma reunião com você, meu Senhor. Precisamos relatar alguns acontecimentos, no mínimo estranhos. Quem sabe o Rei não tem uma opinião mais clara sobre o ocorrido.
– Pois bem, vamos ao meu escritório. Mary, serei o mais breve possível, prometo — olhou para Beth, beijou-lhe o pescoço e subiu as escadas seguido por V, Bucht, Raghe e Phury.
Depois de detalharem tudo o que aconteceu, Wrath permaneceu em silêncio pensando profundamente. Não havia o porquê de um bando de redutores estarem assistindo a um show no MSG. Isso era totalmente anormal e fora dos padrões.
– Não sei o que pensar. Coincidência talvez, mas qual a razão de estarem na cidade, nossa guerra é aqui? A não ser que estejam ampliando seus negócios ilícitos.
– Precisam de mais dinheiro, isso quer dizer que podem estar se organizando, buscando por mais recrutas o custo é maior — não era difícil para V. supor tudo isso afinal ele era o mais inteligente dos Irmãos.
– Talvez. Mas é melhor ficar de olho. Temos três civis mortos e a glymera vai cair de pau. — acrescentou Phury já sentindo o peso dos últimos acontecimentos.
– A glymera não me preocupa. Não passam de um bando de esnobes prontos para correr como baratas para salvar única e exclusivamente a própria pele. — quando Wrath se levantou em sua onipotência, acrescentou — Procurem qualquer informação que acrescente algo a essa bagunça. Já que não temos as visões de V. para nos guiar vamos ter que cutucar por aí. Por hoje é só. Agora todos vocês sumam daqui, especialmente você Raghe.
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Amanheceu...
Os primeiros raios de sol já surgiam quando Lisa chegou em casa. Estava um caco, cansada e enojada por tudo que vira e escutara na grande festa organizada por Bob para celebrar seu sucesso.
– Obrigado, Nick. Agora vá descansar e tire o dia de folga.
Nick era seu segurança particular. Um negro alto, com ombros do tamanho de um guarda-roupa, cabelos raspados, ar ameaçador e extremamente forte. Ela não gostava de abusar daquela maneira. Droga, ele tinha uma vida e não era um escravo, como seu produtor pensava.
– Vou dormir depois que checar os alarmes e não vou tirar folga alguma, você tem compromissos mais tarde e estarei aqui.
– Nick... mais uma vez, obrigado! Acho que não o agradeço e nem o recompenso como você merece. Já passou de ser um empregado, sabe disso não é? Sabe que é um amigo pra mim.
– Sim, eu sei. Aliás, você tem poucos amigos. Posso até contar nos dedos de uma única mão. E sim... Você me agradece o suficiente e também é muito generosa, ou pensa que não tenho notado os "extras" que venho recebendo no contracheque?
Ela ficou contente, sorriu abertamente para ele e especulou:
– Também notei os ternos novos. Se tivesse mais tempo estaria arrasando corações por aí.
– Não se preocupe quanto a isso. Nas minhas folgas me viro muito bem, não tenho reclamações. — sorriu e seus dentes brancos e perfeitos brilharam como uma luz — Agora, já para cama moçinha! Não quero ver olheiras nesse rosto bonito.
– Então... Até mais tarde.
Lisa subiu as escadas que levavam aos quartos calmamente, perguntando-se qual era a finalidade de morar numa casa com sete suítes se usava apenas uma, talvez duas no máximo. Aquilo era um absurdo, mas Bob achava tudo necessário.
Seguiu direto para o banheiro, precisava tomar uma ducha e lavar toda a sujeira, mentiras e hipocrisias destiladas na boate. Permitiu ficar embaixo daquela água por mais de vinte minutos. Vestiu a camisola e se deitou.
Olhou ao redor e pensou em como gostava do seu quarto. Era aconchegante como um bom e velho cobertor, aquele que te envolve e permite que você durma aquecido e agasalhado no rigor do inverno. Espaçoso para comportar um sofá confortável onde podia ler seus livros favoritos e tinha cortinas pesadas que permitiam encobrir a claridade dos dias de verão, quando até isso a cansava.
E ela estava tão cansada. Sabia que dormir não resolvia, por que seu sono era revolto. Cheio de imagens que não compreendia e lugares que não conhecia. Um estranho habitava seus sonhos, ameaçador, perigoso, letal e assombrosamente tentador. Deixou-se levar por seus delírios mais profundos e perdeu-se em seus devaneios até adormecer profundamente.
Inverno... A noite se apresentava particularmente escura, ventava e folhas de jornais voavam a esmo. Tudo parecia se arrastar em câmara lenta... as pessoas, os carros, até o piscar das luzes de néon. Então, uma sombra irrompeu e ele surgiu. Calça de couro preto, jaqueta de motoqueiro, botas pesadas e muitas armas.
Estava péssimo, abalado. A palavra mais apropriada é destruído. Submerso e isolado em sua agonia. Não havia brilho em seus olhos. Segurava fortemente entre as mãos uma corrente com um medalhão. Estava encostado na parede de um prédio num beco e do lado direito brilhava um luminoso, era a saída lateral de algum bar.
Deixou cair o medalhão no chão e demorou alguns minutos para se abaixar e pegar a coisa. Agarrou o objeto, saiu do beco e entrou na Rua Trade. Podia sentir o sangue correr ferozmente em seu corpo e as batidas do seu coração lembravam o disparo de um canhão. Queria brigar, queria lutar, precisava matar e não demorou muito para encontrar o que estava procurando.
O homem era fantasmagórico, cabelos brancos, pele e olhos claros como talco. Mas ele não teve medo algum, pelo contrário avançou sobre o funesto e ali começou uma luta mortal. Quando se encontraram trocaram murros, chutes e golpes vorazes.
O fantasma era rápido e apesar de estar em desvantagem conseguiu acertar-lhe com uma faca logo abaixo da caixa torácica. Ele cambaleou, mas a dor o estimulou a terminar o serviço e com rapidez girou o pescoço do homem pálido até sentir seus ossos se partirem. Tirou uma das adagas da bainha, levantou os braços e enfiou no peito. O clarão iluminou todo o beco, tudo foi queimado, resumido a pó.
Por um breve momento recostou na parede, puxou o ar com força para os pulmões, estava ofegante e a dor tinha aumentado consideravelmente, procurou o celular para pedir ajuda...
Um tiro ecoou no ar.
Sentiu a pressão em seu peito, caiu ao chão, o sangue escorria por sua camisa, não conseguia se mexer. Tinha levado um tiro, um tiro no meio do peito.
– Não! – ogrito cortou o silêncio da noite.
Lisa acordou alucinada, seu corpo estava coberto de suor, o calor castigava sua pele apesar do ar condicionado estar ligado. Respirava em arcadas, seus olhos não reconheciam o local onde se encontrava, suas mãos tremiam desgovernadas, sentia-se febril, estava apavorada. Fez um esforço descomunal para mexer um dos braços e levar a mão sobre seu peito procurando o tiro que havia recebido... Foi aí que tudo mudou!
Aquele tiro não fora endereçado a ela, aquele disparo não a tinha acertado, não era seu destino. Chegando a essa conclusão seu terror irrompeu. Como era possível não estar confortada?
Deus, o que estava sentindo era muito pior... Semicerrou os olhos, ajoelhou-se e começou a rezar, não sabia dizer qual fora à última vez que teve tal atitude, mas e daí? Estava desvairada, seus pensamentos não faziam sentido. Mas não podia parar, agarrou-se a essa prece como um náufrago ao pedaço de madeira do navio tombado.
– Não permita... não deixe... tenha compaixão, não pode levá-lo Senhor... por favor... permita que sobreviva... que seja digno de sua clemência e misericórdia... perdão... sei que não o conheço, mas sei que ele é real... por favor, Deus... não o tire de mim. Não o tire de mim.
Uma avalanche de lágrimas cobria seu rosto, suas mãos agora estavam entrelaçadas e encostadas na altura da boca, balançava o corpo para frente e para trás intensamente.
Ele estava morrendo e morreria sozinho naquele beco, naquela noite fria... noite fria de inverno... Inverno?
Sim... era inverno... Claro, tudo aconteceu no inverno.
Mas não era inverno. Era verão... verão... verão.
Gargalhadas dementes e insensatas começaram a sair por seus lábios. É isso, havia uma chance. Poderia encontrá-lo e talvez mudar essa parte. Tinha alguns meses. Tinha alguns meses para salvar a vida do homem misterioso que habitava seus sonhos.
Sua idiota, sua grande idiota. Como pode se deixar levar dessa maneira, não consegue ter noção da realidade e do delírio! Falou em voz alta porque necessitava ouvir a própria voz, porque sua consciência estava alertando que algo em sua mente estava para se romper.
Merda... O cacete para a sua consciência! Que sua consciência fosse para a porra!
Não era louca e nem estava louca. Tinha há certeza de que ele era real. Depois desse pesadelo, possuía toda a certeza do mundo. ELE era REAL. Ele vivia em algum lugar, estava por aí. Podia senti-lo, sabia que se encontrava em estado de fúria e confuso e ela iria atrás dele. Mas por onde começar? Obvio, em um levante foi até a cômoda, pegou papel e caneta, anotou tudo que podia lembrar, enquanto os pequenos detalhes ainda fervilhavam em sua mente. Não queria esquecer de nada.
O primeiro detalhe?
Rua Trade! Não importa quantas ruas existam com esse nome. Começou a escrever, escrever e não parou mais.
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Notas:
Ômega: Figura mística e malígna, possui grandes poderes e quer a extinção dos vampiros.
Redutor: Membro da Sociedade Redutora. Humano sem alma, só morrem se forem apunhalados no peito. São imortais, não comem, não bebem e são impotentes. São iniciados por Ômega.
Shellan: Companheira, esposa.
Virgem Escriba: Força mística, habita em um reino atemporal e a criadora da raça dos vampiros.
St. Elizabeths Hospital, localizado em Washington D.C, é considerado o primeiro hospital psiquiátrico de grande porte dos Estados Unidos. Foi a habitação de milhares de pacientes até a metade do século XX. Desde então tem caído em desuso e está em grande parte abandonado, embora ainda abrigue alguns pacientes e áreas operacionais.
Double Seven – Boate de Nova York frequentada por modelos, empresários, rappers e atores famosos de Hollywood.
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