Notas iniciais
Olá Meninas, espero que tenham tido um ótimo feriadão.
Eu trabalhei e aproveitei para escrever, já que nesses dias tudo é mais calmo... então tenho mais tempo.
Tenho alguns agradecimentos:
Claudinha Obrigado pelo link e por seu apoio incondicional.
Milla não sei se lembra, mas você foi meu primeiro review. A primeira palavra de incentivo.
Vivi também estava presente no primeiro capítulo e me segue até hoje como prometeu.
Beatriz eu fiz o convite e você aceitou de pronto e está comigo até hoje.
Dark Angel me deixa preocupada por ler meus capítulos em sala de aula, mas eu adoro saber disso.
Cris, Mayara, Daiane, Amando, Aku Chan, Lylian sempre antenadas em todos os pormenores e principalmente nas especulações sempre divertidas.
Barbara, Naty e Andress as mais novas do time e já tão queridas.
Se esqueci de alguém por favor me lembre. Faço questão de dar o devido crédito a todas vocês.
Agora... chega!
Porque sei que vocês estão ansiosas pelo próximo capítulo e aqui está ele!
Boa leitura.....

A porta se fechou atrás deles, deixando todo o planeta do lado de fora. E lá estava a sala que ela conhecia dos seus sonhos, com a mesa de pebolim ao centro e bem no canto uma parafernália de monitores, teclados e brinquedinhos eletrônicos. Os eficientes computadores de Vishous.


A grande televisão de plasma pegava quase toda a parede, abaixo dela uma potente aparelhagem de som e englobado nesse cenário o sofá de couro negro. Como poderia não notá-lo? Aproximando-se do móvel ela instintivamente correu seus dedos vagarosamente sobre ele.


Tudo em seu sonho era real, então o possível envolvimento e a proximidade daqueles dois machos também. V. estava ligado a seu amigo de uma forma profunda, uma amizade sólida que com o tempo transformou-se em desejo e provavelmente amor, pelo menos da parte que dizia respeito ao homem que ela tanto cobiçava possuir.


Lisa tinha tantas interrogações dentro da sua mente doentia além, é claro, da grande quantidade de vodca em que mergulhou seus neurônios sem um pingo de compaixão. As piores indagações eram: Como Vishous poderia se sentir atraído por ela, se ela não era o tipo de sexo que ele gostava? Quanto tempo ainda tinha de vida? Se tudo não passasse de uma ilusão fantasiosa que nunca se realizaria, como poderia viver sem a presença daquele vampiro em sua vida?


Tentando arrumar forças para não desmoronar ela fixou seu olhar na letra “V” tatuada em seu pulso e apagou seus pensamentos, puxando conversa com o vampiro.


– Conheço esta sala.


V. abria mais uma garrafa de Goose e sem perguntar serviu dois copos.


– Dos sonhos, imagino.


Ele esticou a mão e ofereceu a Lisa que não recusou.


– Sim. A mesa de pebolim e o sofá são marcantes, então fáceis de reconhecer.


V. sabia qual seria a resposta, mas mesmo assim perguntou. Queria ouvir as palavras pronunciadas pela boca dela. Cara... ele não passava de um sadomasoquista mesmo! Então se encheu de cinismo e fez a tal pergunta com voz jocosa e crueldade.


– Sonhou comigo e meu amigo jogando pebolim?


A pergunta chegou a Lisa como um teste e o olhar vazio e gelado que emanava de Vishous comprovava o que ela tinha certeza. Ele queria a verdade, mesmo que provocasse dor. Queria saber como ela se sentia. Queria saber se ela teria coragem suficiente para encarar o assunto e lidar com ele. Se aquilo era uma prova, então sua nota seria dez e com louvor. Não era de seu feitio se esconder nas meias palavras... bem... contanto que o assunto não fosse sua MÃE.


Ela rodeou o sofá e sentou-se nele. Cruzou as pernas com elegância como se estivesse em um tribunal e respondeu a maldita pergunta olhando compenetradamente dentro daqueles olhos diamantados.


– Não... a ação foi outra! Você estava sentado neste sofá, exatamente no local onde estou e seu amigo Butch recostado sobre o seu corpo. Seu peito roçava contra as costas de seu amigo e quando você o envolveu com seus braços, foi ele quem retirou a luva carinhosamente. Sua mão brilhante repousava sobre o dorso de Butch e a mão dele repousava sobre a sua. A outra você entrelaçou nos cabelos dele. Seu amigo parecia se aconchegar no seu calor e quanto mais ele necessitava dessa energia, mais você cedia, sem hesitar. Uma luz suave emanava de seus corpos. Tudo se desenrolava com uma grande carga de intimidade e era intenso demais. Até que acabou. Depois ele virou o rosto na sua direção e quase tocou seus lábios quando pronunciou a palavra “obrigada”.


Ela tinha descrito detalhadamente com que sonhara, mas em nenhum momento deu sua opinião. Vishous esperou por esse comentário, mas Lisa permaneceu calada sem desviar o olhar.


– E o que pensa sobre isso?


Momentos antes da resposta de Lisa notaram que Butch encontrava-se encostado no batente da porta do seu quarto escutando a tudo imóvel. Porém, ela não se intimidou com a presença dele.


– Penso que ele, seu amigo Butch... é a melhor coisa que já existiu na sua vida Vishous.


V. não pressupunha aquela resposta simples. Foi direta como uma flecha certeira lançada em seu alvo pelo caçador experiente. Não havia nenhum tipo de cobrança e Lisa não parecia achar tudo aquilo o grande absurdo que era. Mas que droga, ele era um pervertido e desejava que ela tivesse lhe dito isso. Seu desejo e necessidade por Butch eram explícitos e todos da Irmandade sabiam e conviviam bem com a situação. Porém para Vishous aquilo era a morte, era a prova de que ele não passava de uma aberração.


Nenhum dos dois machos comentou absolutamente nada. Só o silêncio preenchia a sala do Buraco. Mas Lisa não era mulher de deixar as coisas no ar e se V. havia começado o assunto, agora ela ia terminá-lo.


– Porque estão surpresos? Acham que sou o quê? Uma puritana ignorante, frequentadora dos cultos de domingo que prega a castidade e que mede o caráter de uma pessoa baseando-se apenas em com quem ela se deita?


– Somos amigos – Disse Butch secamente aproximando-se de Lisa e tirando o copo de vodca das mãos dela. Com um único gole ele ingeriu todo o conteúdo. Fazendo uma careta.


– Hei! Que...


– Chega por hoje, Superstar. Já bebeu demais. Você é apenas uma humana e seu fígado não aguenta o tranco. Vai se sentir péssima amanhã.


– Bom, se isso diminui sua preocupação e serve de consolo me sinto péssima todos os dias e você deveria se preocupar e cuidar de sua fêmea.


– Eu já fiz isso como um bom e honrado macho. Agora vou cuidar de você já que não tem um macho que cuide.


Um rosnado ameaçador, um instinto de ataque. V. mostrava as grandes presas. Um odor marcante de especiarias foi sentido no ar. Estava com os pés fortemente plantados no chão e em posição de ataque.


“Minha”!


– Ela tem! Agora se afaste tira.


– E se eu não me afastar? O que vai acontecer?


– Não me provoque, não vai gostar de sentir todos os ossos quebrados!


– Vai me atacar? Por ela?


– Não ouse tocá-la e afaste-se.


– Então se comporte como o tal macho que ela precisa. Cuide de Lisa e não lhe dê mais bebida. No momento ela precisa é de um banho e uma boa noite se sono.


Mas afinal o que é que eu estou fazendo? Merda... devo ter perdido a pouca razão que ainda me resta. Pensou V. tentando se conter.


– Esse odor não é meu Vishous, então só pode ser seu. Seu corpo está gritando por ela. E você é tão estúpido que não consegue enxergar o que está embaixo do seu nariz.


– Está me dizendo...


– Sim. Estou dizendo que você é um completo idiota. Mas faça o que quiser afinal o que você gosta mesmo é de sentir e proporcionar dor.


Falando isso, Butch afastou-se e entrou em seu quarto.


– Uau... isso foi por minha causa?


– Cale-se Lisa, nem mais uma palavra. Não consigo falar sobre isso. Não agora.


Sentiu-se intimidada com a dureza das palavras, mas mesmo com o álcool pulsando em seu cérebro compreendeu que o melhor a fazer seria deixar pra lá.


Vishous caminhou até seu quarto e entrou. Não olhou para trás e não a chamou. Estava confuso e enlouquecendo. Tirou a jaqueta e desarmou-se por completo, colocando suas armas nos devidos lugares. Não era possível, ele não podia estar se vinculando a ela. Nada daquilo soava racional... mas ele era totalmente racional, então qual foi a parte que havia perdido? Não procedia explicação lógica, tudo era puro instinto.


O enérgico instinto da posse do macho vinculado. A lógica de querer por alguns segundos matar Butch e não tolerar sequer que seu amigo colocasse as mãos nela. A necessidade gritante de protegê-la e a objetividade de levá-la para o seu quarto, para sua cama, quando Vishous sabia que o quarto destinado a ela era bem mais próximo do salão de jogos do que o Buraco.


Não existia mais raciocínio. Ponderação. Ele tinha que marcá-la, possuí-la. Sua mente lhe dizia o contrário, mas seu corpo não suportava mais tamanha carga. Estava clamando, exigindo. Reclamava por aquela fêmea como um miserável faminto reclamava por comida.


Olhando à sua volta notou que mesmo a porta do seu quarto permanecendo aberta, Lisa não tinha entrado, ela não o seguiu. Exausto mentalmente pela conclusão que acabara de chegar queria apenas descansar, mas seu corpo se ergueu prontamente de onde se encontrava sentado e voltou para sala.


E lá estava ela. No sofá. Recostada e demonstrando sono.


Linda, totalmente deslumbrante... e Minha!


– Lisa, porque não entrou no quarto?


– Achei que precisava de um tempo e eu posso dormir aqui, esse sofá é bem confortável.


Presa, sequestrada por uma raça diferente da sua, passando por uma mutação e ainda assim se preocupando comigo. Cara... faça alguma coisa AGORA, seu tolo estúpido.


– Não. Eu estou bem. – Ele a segurou pelos braços, puxando-a para que se levantasse – agora venha se deitar.


Entraram no quarto. Ele fechou a porta com a força de seu pensamento. Ela não percebeu. Olhava com curiosidade, porém não conseguia assimilar mais nada além do delicioso cheiro de tabaco, o álcool estava vencendo os seus sentidos.


– Posso tomar um banho antes de me deitar?


– Sim – V. caminhou até o banheiro e acendeu a luz – Ah... você precisa de ajuda?


– Não, mas não vou trancar a porta, sabe... por causa da vodca, pode ser que eu caia feito uma fruta que despenca do pé e aí você terá que me salvar.


Pela primeira vez, sorriram juntos.



– E quando irá se encontrar com ele?


– Amanhã, o encontro será no escritório. Vou com um conhecido que está cuidando da tal promoção, dos prêmios.


– Excelente Paul!


– Obrigado Sr.H. Também vou levar duas garotas comigo, pelo que sei esse tal Bob é metido a “comedor”, gosta de carne fresca. E quanto mais rápido eu agradá-lo, mais informações terei sobre o nosso alvo.


– Perfeito. É assim que se faz. Eu tinha certeza que não precisaria lhe ensinar muitas coisas. Você é esperto, pensa rápido. Gosto disso, à maioria dos recrutas não passa de boçais lentos e retardados.


– Também tenho uma proposta para lhe fazer Sr.H. Com todo o respeito e consideração.


– Fale e seja direto.


– Como já lhe disse, com todo respeito Senhor, sei que deve ter apreço por onde mora e pelo carro que dirige, mas sinceramente penso que é merecedor de mais que isso.


– Sei... e você está disposto a me proporcionar tal prazer.


O Sr.H, não era ingênuo, sabia que Paul estava lhe fazendo tal proposta para comprar seu apreço e firmar definitivamente uma ligação maior entre eles. Selando tal pacto a pirâmide ficaria Sr.D, Sr.H e Paul.


Até que era uma boa ideia ter um monstro matador preso a numa coleira, logo se livraria do Sr.D e passado algum tempo, Paul seria o próximo a ter a jugular cortada por ele.


– Tenho um apartamento em Florham Park que está finamente mobiliado, meus pais o usavam somente de vez em quando, mas os criados ainda cuidam dele como se o casal de babacas pudesse levantar dos caixões. Quanto ao carro tomei a liberdade de comprar um BMW Gran Turismo na cor preta que se encontra na garagem, caso o Senhor me dê à honra de aceitar tal presente.


– O que espera com isso Paul?


– Nada Sr.H, só quero demonstrar minha gratidão por me deixar participar de algo grande dentro da Sociedade. Aqueles bichos que se diziam meus pais não me aceitavam, mas o Senhor me compreende. Sabe que gosto de matar, de estripar e não me recrimina. Para mim isso é o que interessa.


– Então farei a sua vontade, Paul. Aceitarei o presente, mas guardaremos isso para nós, nada de chegar aos ouvidos do Sr.D.


– É claro que não. Será que depois de experimentar e brincar com Lisa Hendrix poderia me deixaria cuidar dele também, Sr.H.?

– Não. Nem pensar. Ele é meu!


– E esta noite? Depois que eu voltar do encontro com o produtor, o Senhor permitiria que eu saísse para matar alguns vampiros ordinários?


– Não é essa sua função no momento. Sabe muito bem.


– Por favor, Senhor. Acabarei enlouquecendo se não saciar minha fome de sangue. Prometo que tomarei cuidado e não deixarei pistas.


– Certo, mas seja breve e volte com um relatório minucioso. Preciso apresentá-lo ao Sr.D.


– Obrigado, muito obrigado Sr.H.



Passados vinte minutos, Lisa saiu do banheiro com uma toalha enrolada no seu corpo, o cabelo estava preso em um coque alto e sua pele estava rosada por causa do calor da água. Vishous pode sentir nitidamente o cheiro dela. Neroli (flor de laranjeira) com um leve toque de amêndoas adocicadas, aquilo era excepcional e totalmente afrodisíaco para o seu corpo.


Ele pensou que nunca tinha contemplado visão mais perfeita em toda a sua vida e que também nunca passara tanto tempo ereto como nos últimos dias, mesmo praticando a raivosa masturbação solitária. O melhor a fazer era sair daquele quarto o mais rápido possível, caso contrário, gozaria somente pelo prazer que seus sentidos estavam lhe proporcionando.


– Você me disse que pegou algumas roupas em minha casa.


– Sim, claro... elas estão aqui.


Ele lhe entregou a pequena mala que tinha arrumado e que continham peças essenciais.


– Trouxe também meu MP3, que ótima surpresa.


Ela sorriu.


– Trouxe... apesar de ter muita porcaria.


O clima estava leve e agradável.


– Porcaria? São os clássicos do Rock in Roll, baby... – disse isso fazendo o gesto dos “chifrinhos” com a mão, característico entre os adeptos do metal pesado.


– Você gosta mesmo... heim!


– Gosto e obrigada por isso.


– Não tem de quê.


– Só preciso de uma camisola ou um pijam...


– Merda... me esqueci dessa parte. Falou V. totalmente sem jeito, sentindo-se ineficiente.


– Tudo bem...


– Me dê um minuto, pedirei a Fritz que...


– Não, não se incomode... eu dormiria muito bem se você me emprestasse uma de suas camisetas.


Instantaneamente a ereção de V. pulsou sob sua calça de couro, seu sangue corria atropeladamente, não havia como conter sua excitação. Ela vestida com sua roupa, na sua cama... É claro que ele lhe emprestaria a camiseta. Com toda a sinceridade ele estava a fim de lhe emprestar seu corpo, seu desejo e toda a sua luxúria.


Foi até o closet e pegou a malha, entregando-a rapidamente. Quando Lisa a vestiu retirando a toalha que tinha por baixo. Vishous se deu conta de como ela era pequena perto dele. O sentimento que ocupava seu peito naquele momento o envolvia estranhamente, porém era agradável de sentir.


– Ficou perfeita – Lisa deu uma voltinha e abriu os braços. Brincando com o tamanho e soltando os cabelos que caíram sobre seu corpo sensualmente conforme balançava a cabeça.


– Preciso tomar um banho. Porque não deita e dorme?


Se ele tivesse se desmaterializado não teria chegado tão rápido dentro do banheiro. Trancou a porta e percebeu que estava ofegante como se estivesse correndo na esteira da academia por horas. Encontrava-se perigosamente perto do orgasmo, mas com Lisa, ali tão perto, no cômodo ao lado, não iria se masturbar. Nem que para isso tivesse que cortar as próprias mãos, não seria correto. Estavam tendo um diálogo pela primeira vez e ele não estragaria tudo.


Chaveou o chuveiro, abriu a água no máximo que lhe era permitido e mergulhou na cascata fria, tentando se acalmar. Encostado com as duas mãos na parede e olhando para o chão, se concentrou apenas no escoamento do ralo, fingindo não ver a tremenda ereção que seu órgão apresentava. Não se tocou nem com o sabonete, esperou pelo serenar de seu corpo. Demorou... mas a calmaria chegou!


Quando finalmente saiu do banheiro, vestiu um pijama de calça comprida e sentou na poltrona, perto de seus inúmeros livros para apreciar a paisagem que se encontrava diante de seus olhos. Apagou todas as luzes, deixando apenas uma vela acesa.


Ela dormia na cama dele, no meio dos lençóis negros de cetim. Tinha a cabeça afundada em um dos travesseiros e seus cabelos estavam graciosamente espalhados.


Era perfeito. Lisa estava onde sempre deveria ter estado. Aquilo era o correto, aquilo era o certo e Vishous se lembrou do quanto da sua vida ele passou sozinho.


– V.?


– Estou aqui – Com a mente ele acendeu as luzes.


A claridade atingiu os olhos de Lisa em cheio, então ela colocou as mãos protegendo-os da luz, mas pôde distinguir o vulto do vampiro sentado ao canto.


– Não vai se deitar? Não está com sono?


– Estou bem, durma.


– Por favor, deite-se. Não é justo que você ceda sua cama e passe a noite numa poltrona.


– Shhhhh... está tudo bem... eu...


Ela tentou se levantar, mas cambaleou ao apoiar os braços. Então Vishous notou que algo estava errado. Indo ao encontro de Lisa e colocando a mão sobre o rosto dela percebeu que a febre havia retornado.


– Deus... você está ardendo em febre... e está tremendo.


– Estou com frio, mas não se preocupe tem sido assim ultimamente, daqui a pouco passa.


– Espere vou pegar uma coberta.


Voltou ao closet e pegou um edredom típico de inverno.


– Pronto, assim está melhor – Disse V. enquanto o arrumava em cima da cama e cobria o corpo de Lisa – agora vou buscar um antitérmico.


– Não, a única coisa que eu gostaria é... que você se deitasse e ficasse comigo pelo menos até que a febre... sabe... até eu melhorar um pouquinho.


Vishous não respondeu, apenas deitou na cama ao lado dela. Com um gesto que o surpreendeu Lisa se aconchegou encostando seu rosto no peito dele e sua mão também.


– É só um minutinho, só tempo suficiente para que eu pare de tremer.


A voz dela saia picada por causa do tremor. Quanto a V., bem, ele sabia o que tinha que responder, mas a frase era difícil de ser pronunciada, então optou por ser direto.


– Pode ficar.


Apesar de gostar da sensação, ele não se sentia a vontade. Não estava acostumado a ser tocado daquela forma por fêmeas. Durante o tipo de sexo que praticava em seu apartamento não admitia que elas sequer olhassem pra ele, pra quanto mais que o tocassem. Tudo que acontecia era porque ele ordenava, portanto V. sempre sabia o que ia transcorrer e nunca era pego de surpresa.


– Obrigado Vishous.


– Se precisar de algo, peça.


– Eu queria lhe fazer uma pergunta, mas não precisa responder se o assunto... enfim... se lhe incomodar.


– Ok. O que quer saber?


Ele sentiu o corpo dela estremecer, então conseguiu mais uma vez ler seus pensamentos. Droga, como falaria com ela sobre aquilo. Como ela não perguntou Vishous começou a responder, mesmo sem ter certeza de que terminaria toda a história. Só com Butch tinha conseguido falar sobre o ocorrido.


– O que você sonhou aconteceu no acampamento de meu pai. Eu ganhei a primeira luta depois de minha transição e para o perdedor o castigo era... ser possuído na frente de todos.


– Foi sua primeira vez, não é?


– Sim.


– E você não queria ter feito aquilo.


– Não, mas precisei fazer.


Lisa não demonstrou qualquer sinal de compaixão ou dor por ele. Só começou a falar.


– Depois da morte de Adamo voltei para o orfanato. Permaneci naquele lugar por seis meses e depois consegui fugir. Não tinha para onde ir e também não tinha dinheiro. Então fui para a rodoviária de Chicago com esperança de arrumar trabalho como garçonete. Nos três primeiros dias não consegui nada. Pra minha sorte a faxineira do Bar Thirteen sumiu e como eles precisavam de tudo limpo, arranjei trabalho pelo menos para comer. Eu dormia do lado de fora... no gramado da Rodoviária onde podia me esconder da polícia.


– Mesmo? Pensei que tivesse vindo para Nova York. – Ele perguntou calmamente com medo que ela parasse de falar.


– Não isso aconteceu três anos depois.


Lisa fez uma pausa e seu suspiro foi como uma confissão. Estava reunindo forças para continuar.


– O fluxo de pessoas era muito grande e eu me acostumei a não ser notada. O que era bom. Passei dois meses naquele lugar. Uma noite conheci Meg por acaso. Ela passou mal por causa da ingestão de cocaína e vomitou por todo o banheiro do bar e já que a minha função era limpar, me chamaram. Quando eu entrei, ela ainda estava sentada do lado da bacia. Peguei uma cadeira do salão, coloquei-a sentada de modo que pudesse se escorar no lavatório e comecei a limpeza. Eu não fui interrompida e ela teve um tempo para se recompor graças ao aviso que coloquei na porta “WC em Manutenção”.


– Quantos anos você tinha, Lisa?


– Quatorze, quase quinze. Mas, vamos voltar ao que interessa... depois que Meg deixou o banheiro é que eu soube que ela era uma das várias amantes de Tommy, o dono do bar. Você nem imagina a fúria daquele homem quando ele descobriu que foi ela que estava mal no banheiro. Enfim... eu a defendi e ele me expulsou e ainda por cima não pagou o que me devia. Acho que ele pensou que tal atitude me serviria de lição para que eu nunca mais me metesse em assuntos que não me diziam respeito. Voltei a estaca zero, ou seja, perambular pela Rodoviária.


– Que desgraçado!


– Meg ficou com pena de mim e sentiu-se culpada também, por isso me chamou para morar com ela por um tempo e prometeu que arranjaria algo em que eu pudesse trabalhar. O lugar era bem mobilhado, mas tudo estava muito sujo, acredito que era por causa da droga. Meg não se importava com a casa e como eu não podia ajudar financeiramente a única coisa que me restava era limpar. Na primeira semana tudo correu bem, ela elogiava a organização e limpeza do apartamento, mas depois... começou a chegar acompanhada todas as noites e precisava que sua casa fosse um local privativo. Naturalmente... eu saía. Sentava nas escadarias do prédio e retornava somente quando ouvia o barulho da porta do apartamento se abrindo. Esperava o sujeito pegar o elevador e só então entrava. A visão era sempre a mesma, afinal qualquer um pode imaginar. Meg nua, totalmente drogada deitada na cama, ou no tapete da sala ou no chão do banheiro e os resquícios do sexo pago por todo lado.


– Que coisa para se viver quando se tem apenas quatorze anos.


– Não é? Por outro lado qual era a opção?


Não havia opção.


V. se remexeu na cama e tomou coragem para envolvê-la com um de seus braços. Não foi nada invasivo, apenas comprometimento. Talvez a palavra mais correta fosse cumplicidade. O fato é que sua mão acariciava suavemente o ombro direito dela.


Lisa notou, mas não fez nenhum comentário e prosseguiu a narrativa confortada.


– Em uma manhã qualquer, depois que Meg havia acordado e tomado um café bem forte, ela me chamou e disse que tinha arranjado algo pra mim e que eu deveria ir com ela até o seu trabalho naquela noite, me emprestou roupas e eu fui. Era uma boate de strip... e Meg me levou para conversar com o gerente do local. O chamavam por suas iniciais JT. O escritório era luxuoso com móveis de madeira maciça e seguranças na porta de entrada. Só passava quem estava autorizado ou quem ele mandava chamar. O que era o meu caso. Ele mandou que eu me sentasse e pediu para Meg sair. Ela obedeceu e ele foi direto ao ponto.


A cena aflorou diante de seus olhos e Lisa começou a contá-la minuciosamente.

– Qual seu nome, garota?

– Lisa Barcley, Senhor.

– E quantos anos têm?

– Tenho quatorze, vou fazer quinze daqui três meses.

– Ótimo. Me diga uma coisa filha... você é virgem?

– Como... eu ...

– Só responda a pergunta. É sim ou não. Nem precisa ser inteligente, portanto não precisa pensar.

O que fazer agora? Porque Meg não lhe falou sobre o que aconteceria? Provavelmente seria estuprada, mas se falasse a verdade o homem poderia poupá-la.

– Sim.

– Devo entender que você ainda tem seu hímen intacto?

– Sim.

– Excelente. Vamos à proposta. Meg me disse que você está completamente fudida. Mora de favor, não tem roupas e sem nenhuma grana. Isso é verdade?

– Sim.

– Sabe Lisa... no mercado negro do sexo existem homens dispostos a pagarem muito pela virgindade de uma garota. Sabia disso?

– Não.

Ela tinha vontade de chorar porque já sabia aonde tudo aquilo iria a levar.

– Tenho contatos e posso lhe oferecer uma boa grana pela única coisa que você tem em sua vidinha miserável...

– Não.

– Poderia começar alugando um apto modesto, pelo menos não dividiria seu espaço com uma drogada como Meg que pode surtar e lhe colocar pra fora a qualquer momento... e se isso acontecer. Você sabe... viver nas ruas é muito perigoso e de uma forma ou de outra vai perder o que tem no meio das pernas, então, porque não ganhar algum dinheiro com isso?

As lágrimas começaram a correr por seu rosto e ela soluçou baixinho tentando disfarçar seu desalente e covardia.

– Não...

– O que é isso garota. Eu lhe pago... pagar é uma palavra muito forte, afinal você não é uma prostituta, é mais uma vítima do sistema americano. Não ter pai e nem mãe deve ser péssimo... agora não ter ninguém deve ser assustador.

Ela não respondeu e nem levantou o seu rosto. Olhava fixamente para suas mãos que estavam cruzadas sobre a calça emprestada que pegara de Meg.

JT soube que tinha atingido a ferida de Lisa e era exercendo a pressão psicológica que arrancaria dela o que tanto desejava.

– Deixe-me começar novamente. Eu lhe darei três mil dólares e prometo que o homem será gentil. Ninguém ficará sabendo, providenciarei novos documentos com idade suficiente para que a polícia lhe deixe em paz e ainda poderá trabalhar pra mim como garçonete... tudo isso porque sei que você é honesta e só está passando por uma provação terrível.

– Mas eu... sonhava...

– Três mil dólares e independência Lisa. Não se deixe levar pelo romantismo. Se não acredita em mim, pergunte a sua amiga Meg. Ela vai lhe contar uma estória bem sórdida.

– Quem é ele?

– Isso agora não interessa, não é mesmo. O que interessa é que receberá em notinhas verdes e todas de uma vez, assim que tudo terminar.

– E os documentos?

– Posso pedi-los agora mesmo se desejar e tem minha palavra sobre o emprego.

– Quando será?

– Logo, eu lhe avisarei.

– Tá.

– Isso é um sim?

– É.

– Temos um acordo?

– Sim.

– Ótimo, agora abaixe suas calças que eu vou fazer o exame. Não posso me arriscar. Minha clientela é selecionada e eu não entro em barca furada.

Ela parou de falar. A mão que estava sobre o peito de Vishous moveu-se procurando o braço dele, quando encontrou apertou-o fortemente e cravou suas unhas arranhando-o quase ao ponto de sangrar.


As revelações e o depoimento, tudo tão vivo e claro que V. ao sentir a pequena dor que lhe era imposta por ela teve a triste certeza de que Lisa havia sido roubada de parte de sua vida no momento daquele acordo, o horror daquele exame ele jamais poderia supor.


Mesmo não demonstrando, o ódio corria por todo o seu corpo. Sua vontade era se materializar em Chicago e matar todos que a induziram a leiloar sua pureza. Porém não era a hora de mostrar a Lisa o quanto ele era sanguinário, selvagem e brutal. Aquele era o tipo de morte que V. gostava de praticar. Olho por olho!


– Não precisa dizer mais nada.


– Vou terminar... eu necessito, nunca contei isso a ninguém... posso continuar?


– Não irei a lugar algum, Lisa. Permanecerei neste quarto e nesta cama com você o tempo que for necessário, continue! Preciso ouvir tanto quanto você precisa falar.


Ela respirou profundamente e começou de novo.


– Depois de três dias JT me ligou e pediu para que eu fosse até o seu escritório. Chegando lá me levou para o que chamam hoje de “Dia no Spa”... me arrumaram e depois me colocaram em um lindo vestido azul eu parecia uma deusa... nem sequer sabia o quanto eu podia ficar bonita. Por um momento eu esqueci o porquê de tudo aquilo... mas é claro que durou pouco... minutos depois eu estava dentro de um carro onde fui vendada e levada para o meu... meu... Jesus... não sei até hoje como chamá-lo.


Vishous não se conteve

.

– Que tal grandessíssimo filho da puta!


Ela sentiu o quanto V. estava agoniado e sofrendo. Mas ela tinha que chegar ao fundo do poço. Seria libertador para ela e para ele também.


– O fato é que ele entrou no quarto e tirou a minha venda, não disse nenhuma palavra por cerca de quinze minutos. Só ficou me olhando. Passado esse silêncio ele pediu que eu tirasse toda a roupa, enquanto tirava a dele também e me fez algumas perguntas como seu eu já tinha tido um namorado e se alguém já havia tocado em meu corpo. Quando respondi que não... ele teve seu primeiro orgasmo.


Vishous ardia de dentro para fora, seu coração acelerou mesmo demonstrando uma calma física que não existia.


Lisa levantou o rosto do peito dele e sentou-se na cama. Instintivamente ele fez a mesma coisa apoiando suas costas na cabeceira. Ela contaria o final olhando diretamente dentro daqueles profundos olhos diamantados. Antes de começar segurou a mão enluvada de V. com força, agarrando-se a ela como se estivesse à beira de um penhasco.


– Me mandou andar, sentar, desfilar, dançar, colocar e tirar vagarosamente várias vezes o vestido. E conforme eu o obedecia ele não conseguia controlar seu corpo e gozava ensandecidamente. Essa tortura durou mais de duas horas. Quando percebeu que não expelia quase mais nada em seu ápice e que estava demorando mais para chegar ao clímax. Ele me possuiu. Primeiro colocou um dedo para se certificar da virgindade, depois... eu... – Ela puxou o ar fortemente – depois ele tomou para si o que tinha pagado. Quando tudo terminou ele pegou o lençol manchado com o meu sangue e dobrou-o cuidadosamente, me agradeceu e saiu carregando seu troféu.


Transtornado, totalmente fora do controle... necessitava de tabaco e de muita vodca. Silvava pelo impacto do testemunho dela e pela maneira como ela sustentava o olhar para ele. Era isso mesmo? Será possível? Ela queria que ele a julgasse? Que dissesse que foi errado e hediondo o que fez a seu próprio corpo? Que sua dignidade valia mais do que os malditos três mil dólares que recebeu? E que... sim, ela não passava de uma vadia.


Jamais... nunca!


– Diga-me. Você sabe o que estou pensando agora. Posso ver em seu rosto. – Lisa tinha a voz entrecortada, porém firme – Diga-me Vishous.


V. balançou a cabeça e cerrou as mãos, transformando-as em punhos fortes. Esse movimento fez com que os músculos de seus ombros flexionassem, mostrando a ela uma pequena parte do imenso horror que sentia. Ele não hesitou ao falar.


– Não devia se culpar Lisa, fez isso por sobrevivência. Não passava de uma menina ingênua e solitária. Estava com raiva e perdida. Esqueça... deixe o passado no passado. Não pode mudá-lo.


– Acha mesmo isso? Ela perguntou duramente.


– Sim, você precisou fazer o que fez.


Lisa estendeu os braços e colocou suas mãos uma de cada lado do rosto de Vishous enquanto montava sobre seu corpo em um movimento rápido. Ficou praticamente sentada em cima das pernas dele e não se permitiu desviar o olhar.


– Se pode me perdoar, então porque não se perdoa?


A pergunta foi tão direta que ele bateu a cabeça na cabeceira da cama tentando evitar a inquisição que ela lhe impunha. Estava momentaneamente surpreso e tentando absorver o que acabara de escutar.


– Você era tão ingênuo e sozinho no acampamento de seu pai quanto eu nas ruas de Chicago. Se não tivesse possuído aquele macho, ele o subjugaria, Vishous e o teria estuprado na frente de todos e mais... ele teria gostado de domar você.


– Não quero falar...


– Seu principal motivo foi provar que não era um covarde, nem vulnerável e muito menos fraco. Você estava possuído pela raiva, pelo ódio, pela frustração e cansado de ser envergonhado e humilhado na frente de todos.


Lisa soltou o rosto dele e apoiou as mãos sobre seus ombros, empurrando-os para trás. Como se ela tivesse força para segurá-lo.


– Porque diabos pensa que mereço o perdão e você não? Tente olhar a situação de outra forma, permita-se refletir. Será que não percebe? Você era a vítima. O sexo que pratica é para provar a si mesmo que jamais será dominado... Não pense que comigo é diferente, meus amantes são anônimos, não faço questão nenhuma de saber seus nomes, assim como não sei o nome do sujeito que pagou por minha virgindade. A verdade é que pouco me importo se estou na cama com homens, mulheres ou com os dois ao mesmo tempo. Tudo se resume no prazer do momento e esquecer o dia-a-dia vazio e totalmente sem graça.



Um longo silêncio. Era isso. Assim terminaria?


Ela começou a se afastar e baixou o olhar, não mais entendendo o propósito de seu desabafo.


– Não acredito no que acabei de dizer e de lhe contar... Eu não queria lhe ofender.


– Não me ofendeu.


– Só imaginei que assim como eu, você deve ter em sua alma caixas lacradas com um monte de lixo dentro.


– Sim, tenho pilhas delas.


– Me desculpe Vishous. Não passo de uma intrusa em seu mundo.


– Não, pare! Você tem razão, tem toda a razão. Eu afasto as pessoas de mim e até algumas horas atrás queria afastar você também. Sou eu que lhe devo desculpas... desculpas pelas agressões físicas e pelo modo como falo e trato você. Não passo de uma aberração.


Lisa não precisava escutar mais nada. Ele tinha dado o primeiro passo. Estava admitindo que havia errado e pedia-lhe desculpas, para ela isso era o suficiente.


Aproximou sua boca da dele e sem autorização beijou-o demonstrando o quanto o queria. Vishous correspondeu desembaraçadamente. Rolou por cima dela e com suas mãos começou a tocar o corpo que ele tão ardentemente desejava.


– Vishous, Vishous... Lisa está com você? Preciso falar com ela. É urgente.


Era Raghe que batia na porta do quarto exatamente quando as persianas começaram a se fechar.



Notas finais
O que acharam sobre o longo papo entre Lisa e V.? Ela conseguiu quebrar um pouco do gelado coração do Guerreiro? Ele vai se abrir? Vai se apaixonar?
Era isso que vocês estavam esperando?
Comentem... porque vocês sabem que eu AMO essa parte!!!!
Bjs.