Notas iniciais
Gente, esse capítulo está se passando no mesmo tempo que o anterior, só que do POV dos demônios. Boa leitura!

Nunca achou que veria algo que o deixasse realmente desconfortável, e ainda assim lá estava.

A casa era um labirinto. O som amargo dos corvos piando aos seus ouvidos era detestável e ele tentava imaginar alguém que conseguisse viver daquela maneira todo dia por milênios.

Driblava gaiolas, mesas de madeiras sujas com conteúdos duvidáveis, e o cheiro não era dos melhores.

A mansão parecia vezes menor do lado de fora, e por dentro era impossível saber onde ela estava.

Matt passou por cima de um ninho feito de gravetos, pedras e grama que continha três ovos brancos com manchas cinza sobre a casca, passando para a escada em espiral e seguindo para uma grande sala com a maior concentração de corvos.

Os piados eram repetitivos, agudos e com a entonação exatamente igual. As aves se apoiavam sobre as vigas amadeiradas, sofás, janelas de vitrais coloridos e até mesmo no chão, indiscriminadamente.

E aí ele a encontrou. As madeixas brancas caíam com ternura sobre o busto seguindo para os quadris. O olhar gélido e vermelho mantinha-se estável e indiferente, sem mostrar a mínima surpresa. As vestes anis eram sofisticadas e rendadas, fazendo jus à postura extremamente nobre.

Alice estava sentada sobre uma grande poltrona sobre um altar na sala, como uma rainha admirando seu reino. Pernas cruzadas e mãos formalmente pousadas sobre o colo, praticamente não parecia tê-lo visto ali.

Um sorriso de pura perspicácia nasceu no rosto de Matt, e ele fez uma reverência irônica.

– Vossa graça.

– Não me lembro de tê-lo convidado. – sua voz nasceu em um tom baixo e doce, fazendo com que os corvos se calassem e o silêncio reinasse em toda a casa.

Matt se aproximou devagar, fingindo chutar uma pedra invisível.

– Faz muito tempo, é verdade – o sorriso espichou-se e Alice estreitou os olhos. – ainda têm seus bichinhos, pelo visto.

– Não me faça ter que expulsá-lo. Não sou tão paciente como costumava ser.

– Não é nada como costumava ser. Mas é essa a tal função do tempo. Nos mudar. Mas – ele continuou antes que ela o interrompesse – algumas coisas permanecerão as mesmas para sempre.

– Se está insinuando que tenho algum dever com o Dia do Silêncio – ela respirou fundo enquanto uma das menores aves voou para seu colo, pousando ousadamente enquanto a mulher começava a acariciá-la – perde seu tempo. Não quero voltar. Não preciso voltar. Não irei voltar.

– Mas precisa. Nunca foi burra, Alice. Sabe que tudo vai acontecer de novo.

– Parece que me importo?

O sorriso petulante enfraqueceu-se um pouco, mas não desapareceu por completo.

– Somos um dos poucos que esteve lá da primeira vez e sobrevivemos para contar a história. Precisam de nós, e nós do que eles podem nos dar.

Ela levantou-se da enorme poltrona, andando até a beira das pequenas escadas. O som do salto sobre a madeira fazia um grande clima de tensão dentro da casa.

– Fama? Dinheiro? – ela o olhou de cima a baixo, estreitando os olhos avermelhados. – Prazer? Não é como se eu precisasse disso.

Um olhar raposo estabeleceu-se sobre Matt, quando ele se aproximou dramaticamente, ficando heroicamente de joelhos aos pés de Alice. Tomou sua mão e beijou as costas pálidas.

– Pelos velhos tempos.

***

Subiram as escadas para dentro do coliseu de Roma. O clima sobre suas cabeças era nublado, mas não chuvoso. Passaram por entre corredores populosos, e Matt reparou que, por onde pisavam, o silêncio em respeito reinava. Respeito e medo. Era como se Alice fosse...

– Uma lenda. – ela cortou a sua linha de pensamento, soltando um sorriso de lado que há muito não era visto. Também não durou muito.

Atravessaram por baixo do portão para dentro da arena de areia, onde apenas os grandes generais da antiga Guerra se encontravam. A multidão que chegava começava a se instalar nos assentos na plateia. Alice e Matt, juntos aos outros, esperaram que todos estivessem em seus lugares antes de começar a falar.

Quando o silêncio reinou no coliseu romano, Matt foi o primeiro a pronunciar-se.

– Todos vocês – sua voz retumbou, rasgando o silêncio em pequenos pedaços não mais existentes – sabem o motivo de estarmos aqui hoje. Não viemos honrar os mortos. O que está morto está morto, e não está aqui para nos ajudar. E é ajuda que precisamos. Alianças, recursos, posses. Ninguém aqui é estúpido para achar que a paz reinaria por muito mais tempo. Os sobreviventes das três raças estão por aí, e já planejam seus ataques. E nós, como uma democracia, o que faremos?

Alguém na plateia se levantou. Era Leon, com os cabelos e olhos negros brilhando e a mesma expressão austera e ao mesmo tempo sofisticada que carregava por anos.

– Como pretende começar essa Guerra? Quebrando o silêncio dedicado aos caídos? Do que estamos falando aqui, batalhas em campos ou Guerras indiretas?

– O que trouxer a vitória mais rápido. – Alice mal precisou falar alto. – A não ser que tenha uma ideia melhor.

– Planejamento. Porque acha que falhamos na primeira vez? Agir como bestas irracionais que só pensam em sexo e fama nos trouxe para uma quase extinção! Podemos aprender com nossos erros ou errar novamente.

– São idiotas?! – uma nova voz denunciou-se no meio da multidão. Paralelo à Leon, um garoto de aspecto jovem levantou-se, claramente indignado. – O que acha que essa Guerra trará? Temos escolhas melhores!

O silêncio fez-se por alguns instantes. Matt andou na direção da arquibancada em que ele estava, parando à uns dez metros de distância. Fitou o garoto bronzeado com cabelos escuros, tentando achar medo ou vacilância.

– Qual seu nome?

– Addam.

– Addam? Certo – Matt cruzou os braços, fitando naquela direção com olhos crus. – nunca esteve num campo de batalha antes, não é Addam?

Balançou a cabeça negativamente, sem mostrar vergonha.

– Então é porque não sabe de que são feitas as guerras. E porque são feitas. Se fosse pela carnificina, não precisaríamos dela. Mas é sobre títulos. Títulos que devem pertencer ao mais forte, e esta é a nossa raça. Somos fortes. Não quero ver anjinhos virgens e humanos idiotas tomando um título que é nosso por direito! Aqueles que vieram antes de você sabiam disso, nós sabemos disso! O que vamos fazer?

– Lutar! – a voz de todos no coliseu ecoou como uma só, fazendo chão e paredes estremecerem por um instante.

– E com isso, iremos?! – dessa vez, Matt ergueu a voz, como um general falando com soldados. Olhou para todo o coliseu quando a resposta retumbou com fúria de volta.

– Ganhar!

Esperou que se fizesse silêncio novamente, para que voltasse a falar.

– É isso Addam. Não tem meio termo. É ganhar ou ganhar.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim!