Notas iniciais
Sejam bem vindos os que mandaram suas fichas! Boa leitura!

A lua sobre Ferrara era amarelada e de aspecto esponjoso. Todas as casas estavam fechadas às sete chaves, e não se via uma alma nas ruas. Bem, quase.

O som estático de algo robusto caindo no chão fez com que o sorriso brotasse com ainda mais perspicácia em seu rosto. Dimitri abaixou-se com cuidado, apenas para ter certeza que não estava presenciando nenhum fingimento.

O corpo do homem estava começando a gelar-se e endurecer-se aos poucos, à medida que a vida esvaía-se aos montes.

Tirou o pouco dinheiro que pesava nos bolsos do recém-defunto e colocou nos seus próprios. O fatiou como se fosse presunto, sem poupar ossos e roupas. Encaixou os pedaços decorativamente sobre o chão, fazendo a cruz de Cristo, posicionando com zelo a cabeça no centro da escultura humana.

– Três horas. O que ainda está fazendo aqui? – a voz de um velho amigo-inimigo fez com que acordasse de seus devaneios sobre a obra de arte.

– O que adoramos fazer. Bagunça. – ele se levantou e virou-se com um sorriso pomposo no rosto. Mas Leon não sorriu de volta. Sua expressão era austera e neutra.

– Não é hora de fazer essas brincadeiras. Temos que nos reunir com o resto, passar o Dia do Silêncio com eles. – a voz saiu rouca e baixa, mas Dimitri o ouviu bem.

– Nunca passamos juntos. Por que agora? Tenho coisa melhor pra fazer, você bem sabe.

– Esquartejar mendigos não é exatamente coisa melhor para fazer.

– Não acredito no que eles dizem.

– Sabe que é a verdade. – Leon bateu o pé com força, erguendo a voz. Não é como se o mais novo fosse levar a sério de qualquer jeito. – A Guerra vai voltar.

– Que volte! Pareço preocupado? Meu único arrependimento é não ter presenciado a primeira.

– Não sabe o que está dizendo. Acha que sua idade te trás experiência, mas não é assim. Nasci das cinzas daqueles que se sacrificaram por nossa raça e dou valor ao que eu tenho. Você só se faz de palhacinho o tempo todo.

– Dou muito valor ao que tenho. Olhe para mim! Quem suspeitaria de mim sobre qualquer assassinato, qualquer roubo ou vandalismo. Sou um burguês que vive a vida como ela deve ser vivida.

– Então aproveite o que ainda tem. – Leon recuou um passo, olhando por entre as paredes de pedra das ruas de Ferrara, procurando pela lua. Sua posição já havia mudado, quase desaparecendo entre as casas. – Duas horas. E então teremos outro Dia do Silêncio.

– E outra Guerra.

Um barulho de telhas se chocando fez com que a atenção se voltasse para o teto de um edifício pequeno e curto. Sobre suas cabeças, um par de asas pálido se destacava sobre o luar e então perceberam o que estava acontecendo. Alguém estava ouvindo toda a conversa.

Num impulso, as asas brancas ergueram-se e começaram a voar de imediato. Leon e Dimitri trocaram olhares antes de liberarem as suas próprias. O tecido das roupas rasgou-se quando dois pares de asas acinzentadas e afiadas saltaram das omoplatas, começando a voar imediatamente.

Um tufão espalhou-se sobre todo o chão levantando poeira, quando esses também voavam atrás do espião.

Sobre a cidade, não viam muito. O sol nascente ofuscava a visão, e achar um anjo naquela cidade seria um problema, considerando todos os erros com as estátuas e gárgulas de catedrais.

Leon se sentia um idiota. Como havia deixado um anjo chegar tão perto, ouvindo toda a conversa? Apenas sentia-se aliviado em não ter revelado nada que pudesse comprometer sua localização ou de seu grupo.

Já Dimitri, não estava realmente incomodado. Era só um anjo, e se quisesse encrenca, teria mostrado as caras ao invés de voar para longe.

Pairaram sobre a cidade por alguns instantes, mas quando a luz do sol estava clara o suficiente para que humanos pudessem vê-los, foi melhor um pouso distante nas florestas.

Taure respirou aliviada. Estava se escondendo em um beco escuro, coberto por entulhos de uma construção. Se aqueles demônios a encontrassem, estaria em um problema e tanto.

Tirou a toga branca assim que as asas se esconderam por baixo da pele, jogando os cabelos louros para trás. Nua, entrou pelas portas dos fundos de uma casa vazia.

Subiu as escadas simples para um quarto que devia pertencer a um casal, tirando de um armário um vestido amadeirado e sem mangas, propício para o clima italiano.

Penteou as madeixas douradas, prendendo-as em um coque luxuoso logo depois. Tinha que ter cuidado para que não fosse reconhecida, e se afastar o máximo que podia da cidade.

Uma longa viagem a aguardava.

Saiu da casa quando reconheceu seguro, andando com os olhos baixos e pernas apressadas.

Desceu as escadas que levavam para o porto, atravessando uma praça que abrigava uma feira alimentícia e grupo artístico. Fora dos muros de Ferrara, procurou algum dono de barco ou navio que pudesse levá-la para seu destino.

Um homem decerto velho e com uma barba que chegava a suas clavículas sentava-se imponente sobre um barril, enquanto uma tripulação levava carregamentos para um navio.

– O que uma princesinha como essa faz no cais? – sua voz era grossa e retumbou áspera. Taure tirou de seus bolsos uma pequena bolsinha de couro marrom, cheia de moedas de outro puro e algumas jóias de pequeno porte.

– Será que isso seria o bastante para que me levasse aonde preciso ir?

Notas finais
Gostaram? Espero que sim! Caso queira mandar uma ficha, o padrão encontra-se no capítulo 1