Touched By Angels - Interativa
4 Ethan, Luana & Andrew
Notas iniciais
Cortava os legumes com agilidade enquanto aproveitava a doce brisa que entrava por sua janela.
Durante anos Luana havia passado o Dia do Silêncio sozinha, e não havia nada que gostasse mais. A independência, falta de preocupações alheias e todo o tempo do mundo para si mesmo realmente haviam a revigorado.
Tinha construído uma pequena casinha no sul da Irlanda, com algumas galinhas e duas vacas leiteiras, era a vida normal que queria ter.
Cantarolava baixinho uma música do não tão famoso na época, Mozart, enquanto abstinha-se do mundo ao seu redor. Jogou para trás os cabelos cor de seiva nova, abrindo um sorriso ao ver o delicioso aspecto que sua refeição começava a tomar.
Jogou os tomates, cenouras e batatas cuidadosamente picados em uma panela de ferro velha que ficava sobre um fogão à lenha simplório. Virou-se enquanto limpava as mãos no avental e gritou de susto ao ver um velho amigo ali parado.
– Ethan? – ela perguntou, tentando reconhecê-lo. O tempo havia o mudado. Os cabelos de um liso-ondulado batiam nos ombros, âmbares. Os olhos fortes e amarelos permaneciam os mesmos, e a barba havia crescido o bastante para ser notada.
– Querem você de volta. – curto e direto. – Hoje.
– Do que está falando? Não vou voltar!
– Precisa voltar. Lucy chegou hoje pela manhã, e fontes me informam que Tauren está quase lá. Todos tem que estar juntos, haverá um congresso.
– Para que?
– Sabe para que. Sussurros escorregam por toda parte, blefes e boatos são tudo o que temos. Os lados se erguerão novamente, depois dessa noite. É o Dia do Silêncio, mas logo tudo que verá serão batalhas, genocídios e banhos de sague que os livros de história terão vergonha de falar sobre.
– Nunca tive parte na primeira guerra para que me queiram assim.
– Toda ajuda é ajuda. – suas sobrancelhas tornaram-se uma linha quando ele terminou de falar.
Lua suspirou. Olhou para seus próprios pés, mãos e roupas. Tudo que conhecia era paz e tranquilidade. Não sabia o que estaria por vir junto a uma guerra.
– Você disse que Lucy e Taure voltaram?
– Lucy já está em Gales. Tauren ainda não.
– Jonathan?
– Como sempre, do lado direito. Nunca foi embora, na verdade.
– E vejo que você também não.
Ethan sorriu. Era como ver uma velha cicatriz ser aberta novamente.
– Sabe que não.
– Querem quanto tempo para que voltemos? – ela suspirou. Não acreditava no que estava prestes a fazer.
– De imediato. Nada de transportes humanos. Eles estão mais atentos.
Desamarrou seu avental, o jogando sobre uma cadeira de madeira que ela mesma havia construído tempos atrás.
– Gales, é? – cruzou os braços, avançando um passo. – É uma longa viagem. Vamos logo. Quanto antes acabarmos com isso, melhor.
***
Chegaram em Conwy antes do meio-dia. O grande castelo se erguia sobre a vista, imponente e exuberante do País de Gales. Andavam pelas ruas chuvosas sobre cavalos, enquanto ela reparava que não havia absolutamente ninguém nas ruas.
Então é assim um Dia do Silêncio em uma cidade... Sua mente protestou. Os cascos sobre as pedras era o único som que se sobressaía a chuva nos telhados e bueiros.
Subiram uma longa rampa até o castelo, onde a reunião ocorria. Ataram os animais em um poste curto de madeira, entrando no pátio exterior do castelo. Uma aglomeração de pessoas começava de fora para dentro, a maioria em dupla, mas um ou outro sozinho.
Entraram no primeiro corredor que se mantinha aceso por tochas, aquecido pelas mesmas. Andaram lado a lado até um grande salão. Ali, grande parte das pessoas era conhecida. Tauren foi a primeira que viu. Costumavam nutrir uma amizade antiga, e vê-la novamente foi a prova de que aquilo não havia acabado.
– Lua! – a loura sorriu ao encontrá-la, e ambas trocaram um abraço. – Anos desde a última vez que te vi! Mudou tanto!
– Olha quem fala! Você está ótima! A única tristeza é que voltemos a nos encontrar em tempos tão aflitos.
– É verdade. Mas agora as coisas irão melhorar. Com fé, tudo o que dizem será mentira e poderemos voltar a viver nossas vidas como antigamente. – Taure sorriu calorosamente, fazendo com que Luana não pudesse evitar um sorriso também.
Olhou ao redor da sala para ver quem mais conhecia.
Viu Lucy sentada sobre uma janela, a cabeça ruiva escorada na parede, olhar distante. Ethan aproximou-se dela, falando alguma coisa que arrancou um sorriso radiante desta. Uma pontada a atingiu sem razão, e ela sentiu seu próprio humor esvair-se um pouco. Continuou a seguir Ethan com os olhos, o vendo subir escadas para o canto palestrante da sala, e o silêncio reinar logo então.
– Todos sabem porque estamos aqui – sua voz retumbou com voracidade e aqueles que refugiavam-se nos corredores entraram para ouvir o que tinha a dizer – o Dia do Silêncio foi feito para passar com seus semelhantes, para refletirmos no sacrifício há muito feito, e o que vemos fazendo para manter a paz alcançada. E agora, refletiremos; o que vemos fazendo?
– Nunca entramos em briga com os humanos! – um homem no fundo da plateia se manifestou.
– Mas não existem apenas humanos lá fora. Nesse exato momento, demônios também estão em seu próprio congresso. Acha que eles têm respeito por seus caídos? Improvável. – pronunciou-se. – Mas chega de falar. Porque não ouvem alguém que realmente sabe o que diz?
Ethan desceu as escadas na mesma velocidade que um homem as subiu. Lua tentou identificá-lo, mas demorou um pouco. Andrew. Fazia muitas décadas desde a última vez que havia sequer ouvido seu nome. Não havia mudado nem um fio de cabelo.
Jogou as franjas onduladas para o lado ao subir no andar de pedra. Olhou para todos ali, como se tentasse adivinhar o que cada um pensava naquele instante.
– É tudo verdade. – sua voz saiu simples e ele não parecia querer fazer um estardalhaço desnecessário. Seu trabalho era dar informações, mas ela conseguia ver o quão desapontado ele estava – Várias facções já planejaram ataques, atentados, tudo.
– E como você sabe disso tudo?! – uma garota com cabelo curto perguntou, mais a frente da plateia.
– Vim agindo como espião por muitos anos. Tudo o que eu digo é de trabalho e anotações, memórias bem elaboradas.
– E como você sabe que eles não te fizeram de idiota? – um cara baixinho com rosto achatado levantou a mão antes de perguntar.
Andrew sorriu. Tinha um sorriso encantador.
– Palpite. É um risco ocupacional. Não podemos deixar que nossa própria ignorância seja nossa derrota. Digo que comecemos a nos preparar agora. Cacemos antes que sejamos caçados.
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