Calie esperava pel'O Idiota, pensando que talvez a Idiota fosse ela. Ele sempre a fazia de idiota, sempre a fazia sentir como uma idiota. Idiota, pensou ela, ainda sem saber a quem dirigia o xingamento.

O inverno ainda não havia chegado por completo, mas o lago já dava a impressão de estar congelado; completamente petrificado, com apenas algumas pequenas ondas que mais pareciam ondas de som, de tão suaves. Dois cães corriam pelo gramado, provavelmente para esquentar seus corpos.

Fred não tardou a chegar. Ele tinha o mesmo andar calmo e postura de militar de sempre. Tudo nele era tão certo. Desde a pele macia e sem barba do rosto até o físico, magro, sem excessos, e, ainda assim, tão cheio de poder. Mas talvez só ela visse aquilo. Para os outros Fred era apenas o garoto magricela e esquisito que perdeu a mãe num trágico acidente e morava sozinho.

"Está atrasado, idiota" ela o repreendeu assim que Fred sentou. Ele a encarou com seriedade e respondeu:

"Estive fazendo coisas importantes."

Fred tirou um maço de cigarros do bolso interior da jaqueta de couro e ofereceu um para ela. Calie recusou, mas manteve os olhos vidrados nele enquanto ele acendia o bastãozinho cheio de nicotina. Era uma das coisas mais interessantes do mundo: ver Fred West inalar e soprar fumaça. Era como se o sofrimento finalmente lhe chegasse aos músculos do rosto, e então sumisse, e lá estava de novo a expressão vazia, com um meio sorriso de mentira. Ele puxou a mochila e fez menção de pegar um livro.

"Vai mesmo fazer aquilo?" perguntou ela num tom divertido.

"Sozinho não. Você também vai."

"Não. Vá sozinho e depois me conte como foi" insistiu ela.

"Não, sozinho não. Não quero ser preso sozinho."

"Nem é pra tanto" ela revirou os olhos.

"Não. Então esquece" disse ele em tom definitivo.

"Por favor, vai ser uma história incrível um dia."

"Não se passa por nada realmente incrível sozinho. Pode ser marcante, pode aparecer no jornal; mas quem o fez não vai sentir nada além de orgulho, e orgulho é uma coisa horrível."

"Ok, eu vou. Idiota" ele havia vencido outra vez, e tinha um sorriso brotando no canto de seus lábios.

[cut]

Os dois atravessavam toda a extensão da Universidade do Colorado para chegar aos arredores do prédio principal. Hugo Poller, um amigo de Fred, os esperava lá. Vestia sua camisa azul-marinho com o símbolo da empresa Transpol, uma das maiores companhias de transporte público do estado. Negro e alto, Hugo nunca sorria, mas seus óculos estragavam toda a concepção de mau elemento que ele tentava impor.

"Hoje é o dia" ele falou assim que Calie e Fred sentaram-se a seu lado no banco.

"Mal posso esperar" Fred já acendia mais um cigarro.

"Achei que fôssemos só nós dois" Calie não planejava dizer aquilo em voz alta; muito menos soar tão arrogante, mas, uma vez que disse, não voltou atrás.

"Você não vai deixar de ir por isso, vai?" perguntou Fred estreitando os olhos.

"Ah, foda-se. Vou mesmo assim".

"Sendo assim tudo bem" Fred deu de ombros. "Então, Hugo, você trouxe?"

"Trouxe. Mas o que você pretende fazer a respeito dos guardas? Eles fazem ronda à meia-noite."

"Não na casa do zelador" ele soprou a fumaça e jogou a cabeça para trás como se estivesse deitando-se em nuvens, e não no encosto do banco de madeira.

[cut]

Hugo, Fred e Calie estavam agachados no meio de arbustos ao lado de um casebre de madeira mal iluminado e completamente deserto. O frio fazia com que vapor saísse de suas bocas quando falavam, e uma névoa se formava nas proximidades do lago. Atrás deles, a Floresta de Varlogne se espalhava para todos os lados, completamente escura.

Lanternas vibravam de um lado a outro enquanto os dois guardas noturnos faziam a vistoria.

"Não na casa do zelador" Calie imitou Fred. "E o que é isso então, seu idiota?"

"A chance perfeita" disse Fred, levantando-se de súbito. "Sigam-me".

"Mas..." pensou em dizer alguma coisa, mas ele já se afastava demais e logo seria impossível enxergá-lo. "Esse desgraçado sempre me mete em problemas".

"E você adora" zombou Hugo, ultrapassando-a.

Notas finais
O que Fred West deseja?