Tormentante
3 Entrance

"A porta está aberta" ressaltou Calie, assustada. "Está aberta..."
"Eu sei que está aberta" disse Fred aproximando-se. "Queria saber porquê."
Hugo observava tudo, claramente perdendo a calma. Olhou no relógio algumas vezes, mesmo que não tivesse passado nem um minuto.
"Entrem de uma vez" exclamou ele finalmente. Fred deu um sorriso e um rápido erguer de sobrancelhas na direção de Calie, e ela não pôde deixar de sorrir de volta.
As coisas iam bem demais. Tinha quase certeza de que encontrar a porta aberta não estava nos planos de Fred, mas sabia que facilitava o processo. Entretanto, pôde notar que havia certa seriedade na preocupação demonstrada por West. Os guardas não esqueceriam a porta aberta, refletiu. Então, haviam apenas duas opções: a primeira, era de que alguém havia entrado no prédio; a segunda, era de que alguém havia escapado do prédio. Mas quem?
Já nos corredores, Calie percebia que o interior do prédio principal não era menos frio do que as proximidades do lago. De fato, parecia que os corredores, escuros e nefastos, estavam parcialmente encobertos de névoa gelada, que entrava pelas mangas do suéter e apertava os ossos. E Fred seguia, despretensioso, buscando sabe-se lá o quê.
Acendeu uma luz do corredor, e os olhos negros de Fred caíram sobre ela na mesma hora. Percebendo que não devia ter feito aquilo, apagou-a e voltou a segui-lo.
"Por quê?" quis saber.
"Acender as luzes pelo caminho seria dar uma bússola de como nos encontrar a quem quer que esteja aqui dentro" Fred sempre sabia como agir. Aquilo a irritava e a surpreendia ao mesmo tempo.
Passaram por centenas de salas, subindo e descendo escadarias. Algumas lâmpadas de dentro das salas piscavam, fracas, devolvendo a escuridão logo depois. Os únicos lugares em que as luzes estavam acesas eram os banheiros, mas Fred apagava até aquelas.
"Onde estamos indo?" perguntou ela, ansiosa. "E por que está apagando até as lâmpadas dos banheiros?"
"Para o saguão principal, ou onde quer que se possa encontrar o invasor. Estou apagando as luzes porque não queremos ser vistos. Agora fique quieta."
Calie franziu o cenho e disparou:
"E como sabe que alguém entrou? Até onde sabemos alguém pode ter saído..."
"A fechadura tinha arranhões profundos do lado de fora, e nem um mísero arranhão do lado de dentro. Faça os cálculos."
Aquilo fez os tecidos de seu estômago se comprimirem. Arranhões?, pensou. O que diabos nos espera? Mais do que nunca, o frio penetrava seus poros e fazia parecer que estava entrando num lago de gelo.
"Vamos embora" ela pediu, deixando-se vencer pelo medo. Hugo a encarou com desdém.
"Shhhhhh" Fred pôs um dedo em frente aos lábios. "Você está comigo, nada de ruim vai acontecer."
Queria dizer que estava com frio, pedir sua jaqueta, mas imaginava que Fred a olharia de cima a baixo com aquele sorriso maldoso estampado. Melhor deixar como estava. Pelo que sabia do prédio, imaginava que estavam chegando ao saguão principal, mas era difícil ter noções de geografia dentro de um prédio com cinco andares de altura e a extensão de três campos de futebol. Àquela altura já deviam estar completamente perdidos, se é que estavam no primeiro andar.
[cut]
"Você esqueceu a porta aberta, Gustav" resmungou Rudolf. O jovem sempre se esquecia de coisas importantes.
"Esqueci nada!" ele aproximou-se de olhos arregalados. A lanterna ainda acesa atingiu Rudolf em cheio nos olhos. O mais velho protegeu-se da claridade com uma mão calejada pelo tempo.
"Está tudo bem, fique calmo," ele apagou a lanterna de Gustav e pôs a mão em seu ombro "não vou denunciá-lo."
"Olha só..." Gustav aproximou-se da porta "arranhões, severos arranhões..."
Rudolf resfolegou e tirou as chaves do cinto.
"Por favor, Gustav, já chega. Você sempre insiste nisso."
"Mas é sério!" gritou o rapaz. "Eu vi sombras na floresta, e uma delas era enorme."
Rudolf afastou Gustav da porta e trancou-a.
"Vê? Assim que se tranca uma porta" voltou a prender o molho no cinto. "Tente seguir meus passos da próxima vez. Ou precisa de um tutorial?"
"Eu havia trancado," insistiu o rapaz "eu juro. Não negue, você também viu aquela coisa..." mas Rudolf já estava longe, perdido em devaneios sobre o calor que fazia perto da lareira de sua casa.
[cut]
Fred empurrava o lado do corpo contra a porta da sala da Coordenadoria de Psicologia enquanto enfiava dois grampos de cabelo no buraco da fechadura e torcia, sem resultado. Calie, apreensiva, já começava a sofrer dos primeiros sintomas da ansiedade: taquicardia, tensão muscular, enjoo, falta de ar, e, principalmente, aquela sensação de que o piso ia sumir a qualquer momento e seu corpo aterrissaria no nada, caindo para sempre no vazio.
"Fred, para. Esquece isso" ela repetia pela centésima vez.
"Preciso disso" ele também havia dito aquilo cem vezes. "A nota que tirei nessa prova pode mudar totalmente minha vida."
"Que prova?" perguntou Hugo por pura curiosidade. Estava sentado no chão, escorando o lado da cabeça em um armário.
"A prova do semestre de morfofisiologia," a porta se abriu e Fred deu um riso frouxo de autoaprovação "ela define se perco ou não a bolsa. Se eu tirar mais de sete, permaneço; caso contrário..."
"E você só me diz isso agora?!" Calie o tirou do caminho e entrou na sala obstinada a encontrar o documento, onde quer que estivesse.
"Vá com calma, estressadinha" Hugo a pegou pelos braços e afastou dos armários de metal com calma, quase erguendo-a do chão. A diferença de altura entre os dois era gritante.
"Hugo, fica de vigia" ordenou Fred. "Vou tentar abrir..."
BUM, ouviu-se o barulho de portas batendo, e então passos acelerados ecoaram pelos corredores. Os três se encararam instantaneamente, cada um mais assustado do que o outro. Fred guardou os grampos e andou até a porta tentando não fazer barulho.
"Cuidado" sussurrou Calie. Sua voz foi quase um sopro, meio engasgada pelo medo. Agora seu coração batia rápido de verdade, as náuseas e as dores abdominais a faziam ter vontade de se contorcer.
Fred saiu da sala, e ela percebeu aquilo apenas pelo cheiro, pois sua visão, que já não era das melhores, estava ainda pior naquele breu. Podia ouvir os pequenos claques da sola do sapato de Fred tapeando o piso do corredor, e então... AUUUUUUUUUU. Um uivo inundou o prédio, deixando-a estarrecida. Fred, foi tudo no que conseguiu pensar enquanto corria até ele com Hugo atrás de si. Quando chegaram lá, Fred segurava a barriga enquanto gargalhava.
"Não acredito que caíram nisso."
Estava furiosa, mas perplexa demais para dizer qualquer coisa. Começou a esbofeteá-lo imediatamente, e só então as palavras jorraram de sua boca:
"Idiota, idiota, idiota, idiota."
"Você é mesmo um idiota" constatou Hugo ajeitando os óculos sobre o nariz. "Mas de onde veio o outro barulho?"
Fred mudou de expressão imediatamente ao ouvir a pergunta, como se sentisse vergonha de algo. Balançou a cabeça negativamente.
"Não sei. Tudo parece certo aqui" disse ele com seriedade. Calie já havia parado de agredi-lo, e agora examinava os arredores à procura de alguma pista. Havia uma escadaria a alguns metros de distância que levava ao segundo andar, mas ela estava escura demais.
"Será que..?" não precisou formular toda a frase.
"Vamos" Fred foi à frente, destemido como sempre. Calie não queria ir, mas não esperava que Hugo se sentisse do mesmo jeito. O grandalhão engoliu em seco e piscou algumas vezes antes de dar passos cautelosos e um tanto trêmulos na direção de Fred. Ele fingiu que sim, mas seu corpo gritava não.
"Não consigo ver nada" Fred forçava-se a enxergar na completa escuridão entre um lance de escadas e outro.
"Imagine então como nós nos sentimos" comentou Hugo num tom temperado de sarcasmo.
Nas sombras, sem enxergar nada, Calie segurou a mão do West. Era quente e ossuda, firme demais para alguém de aparência tão frágil. Ele imediatamente apertou, como se quisesse dizer alguma coisa.
"Eu estou com medo" ela admitiu.
"Vamos ficar bem" ele falava a sério.
Seguiram por um corredor com janelas enormes por onde a luminosidade da lua entrava. Calie se sentia muito melhor agora, e quase se esquecia de que procuravam por alguém ou por algo. Mas estava tudo bem, pois Fred segurava sua mão com força.
CLAP, um estouro veio do lado direito. Calie gelou, apertando a mão de Fred e prendendo a respiração. Ele se desvencilhou gentilmente e andou em direção ao enorme armário de madeira rústica e portas cheias de frestas. Ouvia-se um gemido abafado e uma respiração ofegante de dentro da mobília, e Fred parou por um instante. Quando ele avançou, o que quer que estivesse lá dentro se atirou para fora numa fuga descoordenada pelo corredor. Hugo seguiu imediatamente o que Calie percebia agora se tratar de uma criança.
Respirou aliviada quando ele pegou a garotinha pelos braços e arrastou-a até junto deles. Fred tinha no rosto um sorriso largo que não parecia prestes a ir embora. O rapaz agachou-se para ficar da mesma altura da garotinha e fitá-la olho-no-olho. Ela mal mexia os músculos do rosto, petrificada, segura por Hugo.
"Não precisa fugir," Fred falou "nós não vamos machucá-la."
"É o que todos dizem" ela rebateu numa voz monocórdia. Sua pele era pálida como a neve e seus braços finos como gravetos. Ela tinha poucas sardas espalhadas pelas bochechas e cabelos num tom rubro que quase chegava a ser negro de tão escuro. Sob a luz do luar, ela parecia um fantasma vestido em roupas antiquadas e surradas.
"Como você se chama?" Calie aproximou-se também, tentando dar seu sorriso mais caloroso.
"Rose... Rosemary Letts."
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