Tormentante
5 Fred "evil" West

"Acha mesmo que não seremos encontrados aqui?" Calie perguntou a Fred.
"Shhhh, relaxa. Vai ficar tudo bem."
Rose havia desaparecido outra vez. Hugo havia sumido também. Emma e os outros estavam sabe-se lá onde. Restavam apenas ela e Fred numa sala úmida e cheia de sujeira onde os materiais de limpeza eram guardados.
O barulho de sapatos tapeando o chão pelo corredor a deixou tensa, e ela não conseguiu conter o impulso de apertar o abdômen de Fred. Ele gemeu de dor, mas sorriu logo depois.
"Desculpa" sussurrou. Mas tudo o que Fred fez foi chegar mais perto. O armário de materiais de limpeza era pequeno, mas não tanto. Ele chegou mais perto porque queria chegar mais perto. Aquilo fez o coração de Calie lembrá-la de sua existência, e seus pulmões se fingiam de mortos. Queria poder respirar, mas sentia que se puxasse o ar que necessitava naquele momento ia acabar com o oxigênio do cômodo. Fred sorriu. O sonho acabou.
Deu por si acordando em uma sala sem janelas, escura como o inferno. Não sabia em que parte do prédio estava, não sabia com quem estava. Provavelmente sozinha. Não queria se mexer. Não podia ter certeza de nada, mas voltava a ouvir passos. Os sons de passos do sonho provavelmente eram a única coisa real, pensou, ao lembrar-se do dia em que Fred contou que eventos exteriores podiam influir em nossos sonhos.
"Olá?" sussurrou, mas não houve resposta. Tentou levantar, mas sentiu uma dor excruciante na perna. "Mas que merda" resmungou.
Fez o esforço que pôde para andar até a porta, e, chegando lá, percebeu que as luzes do banheiro no corredor estavam acesas. Aquele corredor não lhe era estranho, o que a fazia pensar que era uma das luzes que Fred havia apagado. Podia sentir uma presença. Havia alguém lá. Era um banheiro feminino, logo, não poderiam ser os guardas.
"Emma?" chamou.
"Ora, vamos, me chupe" a mesma voz grave das caixas de som vinha de dentro do banheiro. Calie colou seu corpo contra a parede, chocada.
"Não quero" respondeu Emma.
"E o que você quer?"
"Destruir o patriarcado."
O rapaz gargalhou.
"Faça esse favor a você mesma. Eu sei que você quer."
"Está bem. Abaixe as calças."
"Quê?" ele soou assustado. "E-eu não..."
"Isso mesmo, me deixa chupar essa rola, garanhão" dizia Emma. "Não era isso que você queria?"
Calie aproximou-se mais do banheiro a fim de ouvir melhor a conversa. O barulho de alguma coisa se chocando contra a parede a fez recuar.
"Não, por favor" ele choramingava. "Eu não quero."
"Não quer?" Emma parecia ameaçá-lo. Tenho que entrar, Calie dizia a si mesma. Alguma coisa terrível podia estar acontecendo. Mas suas pernas a impediam de continuar.
Um urro masculino, um grito estridente. Barulhos de luta, e então Emma saía do banheiro com uma mão no flanco direito coberta de sangue. Calie quis gritar, mas cobriu a própria boca antes que pudesse fazê-lo. Seu coração parou de bater antes de acelerar desmedidamente.
"Não se aproxime" gritou, mas Emma parecia fora de si, andando com dificuldade, como se não estivesse lá de verdade.
"So-corro" ela ofegava.
As luzes do banheiro se apagaram e alguma coisa puxou Emma para o breu pelos pés, fazendo sua cabeça bater no chão com força. Calie teve vontade de gritar outra vez, mas conteve seus impulsos. Se pôs a correr, esquecendo-se completamente da dor nas pernas.
Subiu por uma escadaria e então outra, e então correu por um corredor cheio de janelas, e só agora percebia que todas as janelas daquele maldito prédio tinham grades.
"Vamos, vamos logo" Fred apareceu e começou a acompanhá-la pelos corredores. Já quase não sentia dor nas pernas, provavelmente tomada pela adrenalina. Corria sem saber para onde, querendo apenas ir para longe daquilo tudo.
"Para onde vamos?"
"Longe."
Queria chorar, queria poder ser fraca, mas não podia. Não agora. Percebeu que se encaminhavam para a enfermaria, e aquilo a fez sentir dor novamente. O sangue que escorria pelo lado de sua cabeça era notado apenas agora, que já havia secado.
Já na enfermaria, Fred limpou seus ferimentos e fez curativos. Teria ficado nervosa com tantos toques dele se não estivesse tonta demais e tomada por dores e cansaço. Poderia dormir naquela maca.
"O que você disse à mãe de Emma?" perguntou. Fred respirou fundo, pegando um cigarro e sentando-se a seu lado.
"É complicado..."
"Mas você disse alguma coisa, não disse?" pressionou-o.
"Calie, você tem que entender que a mãe dela é esquizofrênica, e há uma grande chance de que a Emma também seja..."
"Diga" insistiu, falando com firmeza.
"Disse que um dia fugiria com Emma, e que ela não poderia fazer nada a respeito." Fred olhou pela janela. Calie seguiu seu campo de visão para observar a mesma árvore gigantesca que se balançava ao vento do lado de fora. A lua era cheia e amarelada naquele dia.
"Vocês..?"
"Nós planejávamos uma vida juntos, mas a mãe dela me odiava. Dizia que eu era um pagão, um desperdício de espaço. Um dia, numa reunião da escola, ela disse a todos os pais que tomassem cuidado comigo, que protegessem seus filhos de Fred "capeta" West. As outras crianças começaram a me ignorar. Foi realmente como estar no inferno. Ela tirou tudo de mim. Meus amigos, minha infância, Emma..."
Calie não sabia o que dizer. Seu silêncio era puro embaraço. Pegou a mão de Fred e disse:
"Me desculpe por desconfiar de você."
Fred virou-se para ela. Estavam agora a poucos centímetros de distância.
"Está tudo bem" ele analisou seu rosto de cima a baixo rapidamente, parando nos lábios por mais tempo. Agora, pensou. Faça isso. Mas Fred se pôs de pé num pulo e estendeu as mãos, oferecendo ajuda a ela para descer.
"O que faremos agora?"
"Vamos tentar sair."
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