Tormentante
6 Modus Operandi
Não importava o que acontecesse, depois de tudo, Fred West sempre voltava a seu jeito despreocupado. Sua postura podia parecer a de um militar, mas o jeito como falava e levava o cigarro ao canto da boca era o de um garoto encrenqueiro que se divertia fazendo a coisa errada.
"Então você viu Emma Hoff sendo morta?" ele engoliu a informação como veneno.
"Sim" sentiu-se desconfortável ao lembrar-se de como algo a havia puxado para o escuro.
Os corredores escuros já a pareciam todos familiares, e, por mais que soubesse que não havia cruzado todos os cantos do prédio ainda, sentia que o tinha feito. Cansados de correr e fugir, agora andavam calmamente enquanto procuravam por Hugo ou outra alma viva.
Sentiu uma onda de ar gelado que cortou a calmaria. Apertou os dedos contra as palmas das mãos, atemorizada.
"De onde veio isso?"
"Não quero assustá-la," disse Fred "mas dizem que a presença de espíritos malignos vem com um frio como esse."
Teve vontade de bater em Fred por dizer uma coisa como aquela, mas se limitou a olhar feio para ele esperando pelo riso e pelo "Estou brincando" habitual; mas ele não o fez. Ele falava sério.
"Vamos voltar" Calie pediu, encolhendo-se de frio.
"Não. Temos que descobrir o que é isso."
"E se for um espírito, Fred? Você quer morrer?"
Ele olhou para ela com todo o desdém do mundo.
"Por favor, Calie, não dê ideia aos fantasmas."
"Você acredita ou não em espíritos?"
"Sim, mas duvido que eles sejam capazes de matar alguém" ele foi à frente. Calie olhou para trás antes de apressar o passo para acompanhá-lo. "Vamos Calie. Não quero ter de enfrentá-lo sozinho."
Quando chegaram à porta de uma das salas de aula encontraram Hugo boquiaberto. Fred entrou e Calie seguiu-o. Hugo tinha uma faca na mão direita, e, enforcado, estava um dos guardas. Calie recuou assim que percebeu que o homem estava morto e, pior do que isto, com o rosto desfigurado por diversas perfurações. Sangue escorria por seu corpo e pingava enquanto ele se balançava vagarosamente com o vento que vinha das janelas.
"Fred" Hugo pareceu acordar de um transe. "Finalmente encontrei vocês."
"Saia de perto de mim" Fred pôs uma mesa entre eles.
"Não, eu não fiz isso..." tentou explicar.
"Fred, vamos" Calie puxou-o pelo braço. Hugo tentou avançar na direção deles, mas Fred arremessou uma mesa contra a cabeça do amigo antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Como que por precaução, chutou-o algumas vezes no mesmo lugar que havia atingido até ter certeza de que estava desacordado.
"Já chega, Fred. Vamos embora daqui."
"Nós precisamos trancar essa porta" ele olhou ao redor.
"Eu só quero sair daqui" Calie sentia como se estivesse prestes a desmoronar. Aquela noite ficava pior a cada instante.
"Nós temos que ter certeza de que ele não vai sair daqui, ok?"
"Vamos matá-lo então" disse Calie, pegando a faca que antes estava com Hugo. Pôde ver os músculos do lado do rosto de Fred se comprimindo, como se considerasse a ideia tentadora. Ele tirou a faca da mão de Calie e enfiou-a no peito de seu amigo uma, duas, três vezes. Calie assistiu aquilo horrorizada. Não esperava que ele concordasse com algo que ela disse num impulso. Respirando ofegantemente, ela o ajudou a levantar e eles saíram da sala.
Fred não chorava nem dizia coisa alguma. Calie podia apenas imaginar a dor que ele escondia, o sofrimento que guardava dentro de si. Seu pai estava preso, sua mãe estava morta, sua melhor amiga de infância também, e tivera de fazer uma das piores coisas do mundo: matar um de seus melhores amigos. Queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem, mas não queria correr o risco de mentir.
"Nós vamos sair daqui, eu juro" ele prometeu, cortando seus pensamentos. Ela se forçou a sorrir e anuir.
"Eu sei."
"Entre" ele disse quando passavam pelo laboratório de anatomia. Calie não entendeu, mas fez como ele disse. Fred parecia diferente. Ele a pegou pela cintura e colocou sobre uma das mesas onde os cadáveres normalmente eram estudados. Ela teria sentido nojo se tivesse tempo, mas ele a beijou antes que pensasse em qualquer coisa. Sentiu as mãos passando vagarosamente pelos lados de seu corpo. Quando ele parou, foi como se ela tivesse acordado de uma longa noite de sono. Não conseguiu segurar um sorriso, mesmo após tanta aflição.
"Tivemos toda a noite e você esperou até agora para fazer isso" caçoou, jogando os braços sobre os ombros dele.
"Antes tarde do que nunca" ele sorriu de volta. "Agora vá para o outro lado da mesa." Assim que ele virou-se para a porta, Eddie Nimmos apareceu com uma faca de cozinha em mãos. Calie correu para o outro lado da mesa como Fred disse.
"Desgraçado" Eddie rangia os dentes ao falar. "Você o matou!"
"Quem exatamente?" Fred segurou uma cadeira em frente ao corpo.
"Paul, e não se faça de sonso."
"Eu não matei Paul."
"Ora, como se não fosse o bastante bater em nós dois, você tinha que enforcá-lo, não é?"
"De que porra você está falando?"
"Eu ouvi" intrometeu-se Calie. "Quem quer que tenha matado Emma também matou Paul."
Fred estreitou os olhos, pensativo.
"Por mais que odeie o racista e homofóbico que ele é, ou costumava ser, eu não o matei."
"Ele era meu namorado!" berrou Eddie, correndo na direção de Fred com a faca erguida sobre a cabeça. Antes que ele pudesse se aproximar o bastante, Fred ergueu a cadeira e lançou-a na direção de seu rosto como se fosse um soco, derrubando-o. Eddie tentou levantar-se, mas antes que o fizesse, Fred arrancou a faca de suas mãos e enfiou em sua cabeça uma, duas, tantas vezes que as feições do rosto de Eddie começaram a sumir diante dos olhos de Calie. Ela vomitou, em choque, e começou a tremer enquanto se encolhia no canto do laboratório.
Fred atirou a faca ao chão e abriu os braços, oferecendo o calor humano de que Calie tanto precisava naquele momento. Ela deu alguns passos em sua direção, hesitante, mas havia algo a prendendo para trás. Aquele não podia ser Fred. Fred não teria feito aquilo.
"Venha" ele voltou a dizer. Enfim, Calie correu para os braços de seu herói.
"Eu fiquei com tanto medo" disse, enquanto afundava o rosto no peito de Fred.
"Ficaremos bem."
Ouviu o som de sirenes vindo do lado de fora. Os dois correram para a janela mais próxima no fim do corredor e viram cinco viaturas pintando os arredores de azul e vermelho.
"Vamos" ele a puxou pela mão. Calie parou abruptamente.
"Eles vão descobrir que você os matou."
"Foi autodefesa" ele encolheu os ombros. "E eu tenho você como testemunha."
Ela aceitou. Quando já estavam enrolados em cobertores e bebendo chocolate quente escorados na parte de trás de uma das viaturas pôde ouvir uma conversa entre dois policiais.
"Cinco dos cadáveres foram encontrados enforcados e com seus rostos desfigurados, senhor."
"E o sexto?"
"Foi decapitado. A cabeça ainda não foi encontrada..."
Calie olhou para Fred, que sorria encarando alguma coisa ao longo da extensão do prédio. Quando seguiu a visão dele foi como se seu coração despencasse dentro de si. A cabeça de Hugo estava presa à grade de uma das janelas, e, ao lado, estava Rosemary. A garotinha estava debruçada sobre o parapeito com um sorriso esquisito brincando nos lábios.
Quando voltou a olhar para Fred ele sorria daquele mesmo jeito. O West pôs o indicador em frente aos lábios mais uma vez.
"Shhh."
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