Tormentante

4 Eletricidade


Acabaram por descobrir que o barulho de portas batendo não viera de Rosemary. Ela mesma disse quando Fred perguntou:

"Aquele barulho... foi você?" ela balançou a cabeça negativamente.

"Veio de lá" apontou o fim do corredor, de onde não se via nada além de outra escadaria comprida de mármore que os levaria de volta ao primeiro andar.

Rose andava com estranha leveza, como se seus pés mal tocassem o chão. Seu vestido de rendas fazia parecer que tinha vindo do passado. Isso, seu sotaque um tanto britânico, e o jeito como falava palavras compridas demais para alguém de sete anos de idade.

Fred tinha um cigarro no canto da boca, claramente menos preocupado com companhia. Mas Calie não estava menos assustada do que antes. De fato, estava ainda mais nervosa. Temos mais companhia, pensava, cruzando os braços para não deixar o ar fresco dos corredores entrar pelas mangas do suéter.

"Acha que os guardas resolveram entrar?" Hugo franziu o cenho enquanto ajeitava os óculos sobre o nariz. "Digo, imagino que tenham entrado..."

"Sim" disse Fred, antes de inspirar muita fumaça. Quando voltou a falar, a fumaça saiu junto de suas palavras: "Eu teria entrado se fosse eles."

"Vamos sair enquanto há tempo" sugeriu Calie. "Será pior se nos encontrarem. Vão saber que mexemos nos armários."

"Não mexemos nos armários. Apenas abrimos a porta da coordenação" corrigiu-a Fred. "Além do mais, esse prédio é enorme. Duvido que nos encontrem."

"Os seguranças não fazem rondas no interior dos prédios" Rose soou melancólica, como se aquilo a incomodasse por algum motivo.

"Você vive aqui?" Hugo indagou. Rose não respondeu "Vive?"

"Não a incomode, Hugo" repreendeu-o Fred. "Há certas coisas das quais não gostamos de falar."

"Só fiz uma pergunta, rainha do drama."

"Alô, 1, 2, 3, testando." Aquela voz pareceu entrar na cabeça de Calie como uma agulha de lobotomia. Todos se entreolhavam, os músculos enrijecidos pelo susto.

"Cala a boca, Eddie" respondeu uma voz mais grave. "Você vai estragar tudo."

"Conheço essa voz" Fred saiu correndo. "Vão para o saguão" gritou.

"Onde fica o maldito saguão?" Calie berrou para as costas do West.

"Descendo as escadas à esquerda" ele já subia à direita.

"Como ele pode ter certeza disso?" ela perguntou para o ar, mas foi Hugo quem respondeu.

"Ele sempre sabe das coisas. É um saco" o negro soprou com força e se pôs a andar desleixadamente na direção da escadaria.

"Alô, alô, amigos do escuro" vibravam as caixas de som espalhadas por todo o prédio. "Como vai sua noite de silêncio?"

"Nada bem, imagino" o outro falou. "Aqui vai uma música para alegrá-los..."

"Cala a boca, Eddie. Só eu falo!" a voz saiu abafada, provavelmente porque o rapaz afastou-se do microfone na esperança de não ser ouvido. Ele pigarreou: "Continuando, aqui vai uma música para alegrá-los..."

Uma versão antiga de House Of The Rising Sun começou a tocar, assustadoramente descoordenada, com vozes distorcidas e notas errôneas. A discussão entre os dois rapazes ainda podia ser ouvida ao fundo.

"Eu também quero falar!"

"Eu falo, você observa. Foi o combinado, Eddie."

"O combinado?"

Calie preocupava-se com Fred, queria segui-lo, mas sabia que se perderia, e não queria ficar sozinha.

"Vamos" Hugo a pegou pelo braço.

"Espere" Calie parou de súbito. "Onde está Rose?"

"A vadia desapareceu" Hugo levou as mãos à cabeça. "Merda."

"Você devia ter se preocupado com ela, não comigo, seu idiota."

"Ah, cale a boca. Você só se preocupa com o Fred."

"Algum problema com isso?"

"Pra mim? Não" ele sorriu. "Você que vai ter problemas."

O grandalhão seguiu pelo corredor, seus passos estavam pesados como âncoras, como se quisesse partir o piso de tanta ira. Por que está tão irritado?, perguntou-se Calie, confusa.

"Espere por mim" forçou-se a gritar e segui-lo. Hugo bufou de raiva e não disse mais nada enquanto ela o acompanhava.

Passavam por um banheiro quando Calie tomou um entre os mil sustos daquela noite. Uma garota saía esfregando os olhos.

"AHHHHHHHHHHHH" as duas gritaram ao mesmo tempo.

"Ahhhhh, caralho" Hugo levou a mão ao peito e então segurou Calie.

"Quem é você?" as palavras saíram ásperas, como se quisesse bater na garota. Ela devia ter uns dezoito anos, e um corpo cheio de curvas. Bonita demais, ainda mais se comparada à Calie, magricela como era. Seus lábios eram carnudos e avermelhados.

"Que porra é essa?" rebateu ela. "Quem são vocês?"

"Calma" Hugo se pôs entre as duas, percebendo a tensão do momento. "Sem mais gritos, ou vão me deixar surdo e acordar qualquer ser humano a milhas daqui."

"Cala a boca" as duas falaram juntas.

"Ok. Se matem então. Não me importo" ele levou a mão ao bolso e tirou um maço de cigarros.

"Não fume na minha presença" disse a garota. Calie sorriu automaticamente. Também odiava cigarros.

"Qual seu nome?"

"Emma Hoff, e o seu?" Emma estendeu a mão e as duas trocaram o sorriso mais contraditório do mundo.

"Calie Winters. Você estuda aqui?"

"Direito" ela revirou os olhos.

"Venha, fique conosco. Estamos indo ao saguão para esperar pelo Fred."

"Fred? O West?" a garota afastou-se instintivamente. Hugo deu um risinho.

"O quê? Algum problema com ele?"

"Eu disse" Hugo tirou um cigarro do bolso da jaqueta e o acendeu, ignorando completamente a antiga ordem das duas.

Quando já estavam sentados no chão, no centro do enorme hall de entrada do maior prédio da Universidade do Colorado, a barulheira havia parado. As caixas de som não mais funcionavam, mas ainda não se viam os dois rapazes ou Fred West. Enquanto Fred não aparecia, Emma contou sua história.

"Éramos muito próximos quando crianças. Melhores amigos. Fred era o único habitante da minha faixa etária naquela vizinhança" ela sorriu. "Mas é claro, as casas eram pouquíssimas e os idosos eram muitos." Ela se endireitou, como se o que viesse a seguir fosse incômodo. "E-eu não sei... Um dia, quando ele tinha onze anos e eu dez, ele ficou sozinho com minha mãe, e eles conversaram sobre alguma coisa (ela nunca quis me contar o quê). Tudo que sei é que depois daquele dia eu fui terminantemente proibida de entrar em contato com Fred West."

"Que estranho..." concluiu Hugo. "Sua mãe não deve ter gostado da arrogância dele."

"Fred não é arrogante" Calie defendeu-o.

"Você é cega" Hugo balançou a cabeça.

"Acho que minha mãe teme ao Fred" Emma parecia falar sozinha agora, encarando os azulejos de desenho floral do piso. "De um jeito doentio."

"Talvez sua mãe seja doente" Calie deu de ombros.

"Fala isso de novo e eu arranco seus dentes, garota."

"Uhh, não. Não briguem. Não de modo violento. Se forem só alguns puxões de cabelo e uns beijinhos eu não me intrometo."

"Cala a boca, pelo amor de deus" Calie sentia mais vontade de brigar com Hugo do que com Emma.

"E aí, pessoal?" a voz de Fred ecoou pelo salão principal. "Preparados para um pouco de eletricidade?" e assim que Fred terminou de falar, The Twist de Chubby Checker começou a tocar. Aquela foi, provavelmente, uma das maiores músicas da década de 60. Ninguém resistia ao Twist. "Levantem-se e destruam tudo em seus caminhos!" A música pareceu esfriar a cabeça de todos e esquentar seus corações. Hugo, Emma e Calie levantaram-se e começaram a correr pelo salão atirando coisas e gritando palavrões para os objetos.

"Diga a eles que devem parar com a música!" Rose apareceu de repente, berrando mais alto que a música. Calie segurava uma cadeira de plástico e pretendia atirá-la em uma janela, mas parou ao ouvir a voz da garotinha. "Se os guardas ouvirem essa maldita música todos vocês estarão fodidos."

"Olha essa boca, Rose. Você não tem idade para falar uma coisa dessas. Além disso, onde você esteve?" Calie largou a cadeira e pôs as mãos na cintura.

"Não é da sua conta. Agora faça o favor de mandar que parem com isso."

O som estrondoso de portas sendo abertas fez o coração de Calie saltar do peito.

"Corram" disse aos outros.

Notas finais
O que acontecerá conosco?