Tola
11 XI - Palavras são Veneno
Notas iniciais
Era como se ele fosse uma pessoa completamente diferente, mais uma das várias faces de Rupert que aparecia para me surpreender.
Estava vermelho de raiva, a cor dos cabelos parecia se misturar com a da face, antes era tão tranquila que eu tive que tirar um momento para ter certeza de que era com ele mesmo que eu estava falando.
Pegou meu pulso e o apertou, fiquei com receio de que fosse me bater, mas logo percebi que esse não era o seu objetivo. Estava tentando me tirar de perto do quarto antes que o pai saísse dele.
Andava apressado, e eu não tinha outra opção se não seguir, mas consegui ver o rei de relance.
Tinha uma postura bruta, bem diferente da postura de Rupert, o cabelo possuía um loiro mais escuro e os olhos eram verdes.
A expressão clara de desgosto fez minha espinha gelar.
Quando finalmente saímos de lá, entramos no primeiro quarto que vimos pela frente. Um quarto de hóspedes comum, apesar de praticamente tudo aqui ser chique e nada poder ser chamado de comum.
— Estava ouvindo a minha conversa? — A acusação me fez engolir em seco, eu tinha que pensar em uma desculpa rápida para explicar porque estava ali. Admitir que eu estava perdida era simplesmente humilhante.
— Não. Juro que não ouvi nada de mais, estava te procurando, queria pedir desculpas por ter quebrado o que era seu na escada. Deveria ter cogitado que não era uma boa ideia pegar nada sem a sua permissão. — Era uma meia-verdade, eu realmente queria me desculpar pelas esferas. — Pelo visto seu pai não gosta muito de mim.
Me soltou devagar, deixando uma marca avermelhada no local, o que já era esperado, pareço um fantasma por causa da pele exageradamente branca.
— Não. Sinto muito que tenha de ter ouvido aquilo. Você é pequeno e magro, mas acredito que é forte. — Era engraçado pensar que eles ainda não tinham percebido, talvez pensassem que eu fosse mais jovem do que realmente sou. — Na próxima, saia, se não terei que puni-lo por meter o nariz aonde não foi chamado. Torça para que o meu pai não tenha te visto.
— As esferas que eu quebrei, o que eram? — Fez cara feia, nem precisou falar nada para que eu realizasse que não era um assunto que ele pretendia discutir comigo. Eu teria de insistir, mas insistir com o príncipe é algo perigoso.
— Que parte de meter o nariz aonde não foi chamado você não entendeu? — Foi grosseiro, provavelmente o efeito da briga que teve com o pai não tinha passado, ele não era uma pessoa brava. Ao menos achava que não, mesmo que o relato de Alexander o tivesse parecer uma. — Acredite, August, quanto menos você souber, melhor.
— Por favor, se eu vencer, terei que passar os meus dias ao seu lado. E eu garanto que vou vencer, confie em mim. — Eu sabia que era loucura, quase tinha perdido no primeiro desafio que fiz, os machucados estavam em minha pele para me lembrar disso. — Se isso acontecer, não sei como segredos entre nós existiriam.
Isso era perigosamente irônico.
— Há coisas que são melhores enterradas. Cave muito fundo e só vai perceber que acabou de fazer uma cova quando for tarde de mais. — Não era uma ameaça, era um aviso e eu sabia disso, mas de algum modo aquela frase tinha um significado a mais do que apenas isso. — Por favor, não faça isso consigo mesmo e pare de cavar.
Sair sem respostas era frustrante, e esse sentimento estava estampado no meu rosto. Ele se sentou na cama do quarto, olhando para a parede branca do quarto e deixando que o ambiente ficasse quieto.
— É importante ao ponto de minha vida ser considerada uma ameaça se eu souber? Você jamais me machucaria, e por mais que eu não te conheça tanto quanto queria conhecer, sinto isso. Você é uma boa pessoa, Rupert, você... — Um soluço me interrompeu.
Ele estava chorando?
Tirou a coroa da cabeça e a deixou cair no chão, rolando até meus pés, como se ela fosse pesada de mais para ser carregada.
— Rupert? — Minha voz mal saiu, ele estava chorando. Nem fazia barulho quando chorava, era um choro quieto ao ponto de dar a impressão de que as lágrimas poderiam ser ouvidas colidindo com o chão.
Não me olhou, ele nem ouviu o que eu tinha falado, continuou olhando para a parede. O que se passava na mente dele?
— Rupert? — Tive que repetir, um pouco mais alto, dessa vez ele me ouviu. Só se eu o trabalho de me olhar pelo canto do olho. Talvez tivesse esperanças de que eu tenha percebido, mas como eu não perceberia?
— Talvez seja a hora de você sair. — Podia imaginar as palavras arranhando a garganta dele, isso acontece com todos nós sempre que choramos. Garotos não choram, mas vê-lo chorando assim só me deu mais certeza de que ele era um homem, por mais que isso pudesse soar totalmente sem sentido.
Foi complicado sair do quarto, como se esse fosse um desafio, fechar a porta mais ainda. Não queria o deixar sozinho, e olhei pelo vão da porta pelo máximo de tempo que podia antes de ter a coragem necessária para fechá-la.
Mesmo quando o fiz, algo me fazia querer ficar.
Me sentei ao lado da porta, abraçando meus joelhos e olhando para o nada. Vez ou outra um guarda passava por mim, me olhando com desconfiança. Não sabia direito quanto tempo tinha se passado antes de Alexander chegar.
— Ele está chorando? — O tom que ele usou foi estranho, algo entre uma pergunta e uma afirmação, e como resposta não pude fazer muito mais do que concordar com um aceno de cabeça.
E então se sentou no meu lado, deitando a minha cabeça em seu ombro e me abraçando de um jeito completamente desajeitado, sem saber se isso iria me incomodar ou não. A resposta veio quando o abracei com mais força e escondi o meu rosto no ombro, o cheiro dele era bom.
Deixou a situação um pouquinho melhor.
~*~
O barulho da porta se abrindo foi o suficiente para que nós nos separássemos, Alexander se levantou de prontidão, enquanto eu demorava um pouco para processar a ação e me acostumar com a falta do abraço.
Quando finalmente saiu do quarto, não chorava mais e nem tinha sinais de ter chorado. Parou por um tempo quando viu Alexander lá, um olhar longo e intenso se sustentou entre os dois, como se tivessem se encontrado depois de anos.
— Alex. — Um cumprimento frio, parecia querer ter certeza que era realmente ele quem estava lá. O ar ficou difícil de respirar e a situação se tornava mais tensa a cada minuto que se passava.
— Rupert. — Devolveu o cumprimento, antes de sair do caminho para que ele pudesse passar.
Aquilo me fez duvidar da história que tinha ouvido, pelo visto haviam mais coisas naquele meio que Alex não tinha me contado.
Me levantei, disparando um olhar desconfiado para que ficasse claro que eu tinha percebido e estava desconfiada com as coisas que tinha ouvido dele. A única resposta que recebi foi um dar de ombros, nada satisfatório.
— Ele estava chorando. — Disse mais para mim do que para ele, digerindo a situação com cuidado e satisfação. Quanto mais convivia com o príncipe, mais as lendas e a imagem grandiosa que construíram para ele se desfaziam em minha mente.
— Não se surpreenda tanto. Ele sempre chora quando fica nervoso. — A culpa me beliscou, o deixei nervoso. Aonde estava com a cabeça? Já tinha brigado com o pai, a última coisa que precisava era de uma intrometida, a razão da briga, enchendo o seu saco para que lhe contasse algo que não queria. — É mais sensível do que parece, confie em mim.
— Está pedindo para que eu não me surpreenda depois de ter visto um dos homens mais poderosos do mundo chorar na minha frente? — Um homem com um reino enorme, e eu fazia parte desse reino.
— É poderoso sim, mas continua sendo um homem. — Deixou que eu o usasse como apoio para andar. Um alívio, pelo menos as chances de cair no chão seriam menores. — É um chorão.
— Diz isso porque não é você que carrega o peso da coroa. — A coroa que o vi jogar no chão duas vezes. Era tão estranho, por mais que o pai tivesse enfatizado que deveria estar agradecido pelo trono, agia como se estivesse em uma posição insuportável.
— É, não carrego. — Parecia pensar o mesmo que eu, e com motivos. Acompanhou toda a trajetória de Rupert, provavelmente sabia mais sobre ele do que o próprio rei. — Nem tenho certeza se ele queria o trono. Acho que tudo parece melhor nas mãos dos outros, e não nas nossas.
— Se quer mesmo entendê-lo, tem que entender que ele não é apenas o príncipe. — Fez uma expressão de pesar, quase como se tivesse sido machucado. — Ele é um pássaro, e essa coroa que ele usa na cabeça é a gaiola.
Talvez fosse por isso que tinha a jogado no chão quando nos falamos pela primeira vez.
Seguimos para o jantar juntos, falávamos pouco, sobre assuntos bobos já que não tínhamos tanto sobre o que falar. Talvez nem fosse isso, talvez eu apenas não quisesse, nunca pensei que me sentiria tão mal por lágrimas que nem eram minhas, e isso era estranho.
Será que me importava mais do que era seguro para mim?
Eu já sabia a resposta, e não era nem um pouco boa.
Enquanto ia até minha cadeira, ele conseguiu um lugar em pé junto dos criados que estavam ali, ás vezes esquecia que trabalhava no castelo. Quase cometi a gafe de pedir para que se sentasse perto de mais.
O príncipe já parecia recuperado, ele sabia disfarçar estranhamente bem, se não olhassem com cuidado os olhos levemente inchados por causa do choro podiam muito bem passar batido.
Parecia. Falava pouco, e apenas quando a palavra lhe era dirigida, normalmente por algum criado que perguntava se ele queria que mais alguma coisa lhe fosse servida.
Cheirosa, a comida parecia muito apetitosa naquele dia, carne bovina com vinho. Estava ansiosa para finalmente sentir o gosto em minha boca quando uma mão agarrou o meu ombro e me puxou para longe dela.
Era Margot, de pé, e todos os olhos estavam direcionados para ela.
— Precisamos conversar. — Foi uma ordem. Quando vossa realeza ia comer, ela se levantou e atrapalhou tudo como se não fosse nada.
Deveria, e eu esperava que fosse, algo muito importante.
Tentei comer antes de me levantar, mas ela pegou o prato de comida e o jogou no chão. Estavam todos alertas e tensos, aguardando uma briga.
Admito ter considerado a possibilidade de ter vindo até ali para brigar, não podia esperar que fosse boa comigo depois do que eu tinha feito. Dei as costas para ela, fria, egoísta, lidando com a ideia de que talvez nunca mais fôssemos nos encontrar novamente.
Essa era a verdade, eu a abandonei, e podia dar o mundo para ela que não seria o suficiente para que eu fosse perdoada e tratada da mesma maneira que antes.
Só que ela não ia me bater, ao invés disso, fez um gesto com a mão para que eu a seguisse, percebi o olhar do príncipe me perfurando as costas, tinha se levantado e estava preocupado, e tombei a cabeça para o lado indicando que estava tudo bem.
Atravessei um corredor longo, sem saída.
Foi o que eu pensei, até que a mão pequena empurrasse um tijolo e abrisse a parede revelando uma passagem secreta.
Escuro, fui puxada para a escuridão sem tempo para absorver tudo o que estava acontecendo no momento, me assustando quando a passagem se fechou com um estrondo intimidador.
Uma vela se acendeu, o rosto gentil iluminado com a luz do fogo e banhado de ansiedade, conseguia saber muito bem quando estava nervosa.
— Sei quem a quer morta. — A revelação foi repentina, sem hesitação alguma. — E vão conseguir que seja se você não contribuir para os nossos objetivos.
Nossos.
Era uma deles, e já tinha consciência da tentativa de assassinato desde antes que acontecesse. Um pensamento sombrio pousou em minha mente.
— Minha carne. Você envenenou a minha comida? — Percebi que evitava olhar para mim, era o suficiente para que as minhas suspeitas fossem confirmadas. Por mais que uma vontade avassaladora de gritar com ela tentasse tomar meu autocontrole, respirei fundo. Ouvir primeiro, brigar depois.
— Não quero que morra, "Agony". Por mais desprezíveis que as coisas que fez tenham sido. — O apelido foi digo com um tom de voz irônico, mas fez com que a raiva se tornasse mais suportável, a verdade é que se não tivesse impedido a primeira mordida poderia estar morta no dia seguinte. — Eu posso te ajudar, eu posso te salvar se puder se aliar conosco para vencer essa competição. Haverão recompensas por isso, te garanto.
Só uma pessoa poderia ser a vencedora, isso era um fato, mas as riquezas que ficariam em minha mercê seriam o suficiente para alimentar um vilarejo todo durante toda a minha existência se eu quisesse.
As pessoas naquela competição estavam arriscando suas vidas, e o único motivo que conseguia encontrar para que aquilo estivesse ocorrendo era o dinheiro, até perceber a malícia daquele sorriso. Era mais do que aquilo.
— Margot, o que está pensando em fazer? — O sorriso sumiu, um sussurro, como se as paredes tivessem ouvidos. Uma frase em forma de espada, essa espada perfurou meu peito e me deixou sem ar.
Um eco em minha cabeça.
— Vamos matar o príncipe, e você, minha querida, vai ser a maneira como faremos isso.
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