Tola
12 XII - Entre a Cruz e a Espada
Notas iniciais
Todos.
Todos naquele lugar estavam juntos pela causa.
Guardas, cozinheiros, serviçais, todos queriam a cabeça do príncipe, uma minoria não tinha sido recrutada, e esses poucos eram eliminados devagar. Um por um.
Margot tinha me deixado bem claro que Alexander não era um deles, provavelmente por ver que tínhamos uma certa intimidade, tentar convencê-lo a se tornar um deles seria burrice, ele e o príncipe tinham um passado. Um passado triste, mas que ele não esqueceria.
— Escute, você não deverá revelar nossos objetivos. Saiba que temos fontes e saberemos se você o fizer, se tentar, não fará nenhum bem além de fazer com que tenhamos que iniciar nosso ataque mais cedo. — Mesmo que Margot tivesse sido uma amiga leal um dia, eu sabia que tinha estragado essa lealdade que tínhamos. Não reconhecia mais o olhar que ela tinha em seu rosto, mas não podia negar que, se não fosse por ela, eu não estaria viva. — Ele só está vivo pelas informações que pode oferecer, não há motivos além desse.
Só que agora me sinto culpada por estar viva, ainda mais sabendo que para continuar assim terei que tirar a vida de um homem. Quão irônico aquilo podia ser? Tinha vindo aqui para protegê-lo e agora tenho que matá-lo se quiser continuar vivendo.
Os passos que ecoavam das escadas em que descíamos eram agonizantes, de início não tinha compreendido bem para onde iríamos até sentir o cheiro de carne em decomposição.
O calabouço.
Já tinha ouvido falar desse lugar, era um nome era mencionado sempre em canções e em histórias para crianças pobres dormirem, os males do roubo resumidos em apenas nove letras.
Seja uma criança má educada e você irá para o calabouço, reclame do que seus pais lutam para lhe dar e você irá para o calabouço, apodrecer com os outros. Pobre e preso.
— Eu não entendo, por que está me levando para o calabouço? — Pareceu surpresa por eu ter percebido para onde estávamos indo, uma reação estranha já que o fedor do lugar parecia já ter deixado o destino claro.
— Você conhecerá o nosso líder, e é melhor que seja obediente, ele não gosta de meninas más. — O rangido feito pela porta provocou um calafrio que percorreu todos os meus ossos.
Várias celas, muitas vazias, instrumentos de tortura dentro de muitas, mas nenhuma cama ou sinal de um lugar onde pudessem fazer as suas necessidades.
Andamos, passando por uma ou outra cela com um cadáver, algo do qual eu já estava acostumada a encarar. Os mortos de fome e de doenças normalmente não eram enterrados. Alguns ficavam no chão até que a natureza fizesse o seu trabalho, outros sumiam, e não gosto de imaginar o que deve acontecer com os desaparecidos.
Paramos na frente de uma cela, e lá estava ele.
O albino daquele dia.
Estava sentado, com correntes em suas mãos e pés, preso em uma cadeira feita de metal. Um cadáver estava aos seus pés, e ele brincava com a cabeça separada do corpo, chutando-a até onde conseguisse alcançar.
Quando percebeu nossa presença, ele a chutou com toda a sua força, e ela bateu nas grades da cela fazendo um estrondo. Ficou presa entre elas, pedaços de carne podre, o crânio já começava a aparecer.
— Olhe quem é! A mulher da vez! — Soltou uma risada escandalosa, tossindo e se recompondo com rapidez. — E uma companhia! Margot, minha querida, pensei que me avisaria sempre que fosse trazer suas amigas para brincar.
"Mulher", por algum motivo a ideia de que ele já soubesse não tinha passado pela minha cabeça. Depois de tanto tempo, era estranho ser vista como uma mulher.
— Perdoe-me, foi uma emergência. Juliett gostaria de se juntar a nossa causa. — Não deu nenhum sinal de aquele tinha sido um convite dela, me fazendo perceber que estava se arriscando para que eu pudesse continuar respirando.
— É mesmo? Como "Agony" descobriu sobre a nossa causa, por acaso? — Olhou para mim, indicando que queria ouvir a história de minha boca, mas de uma coisa ele não sabe: ninguém sabe mentir como eu.
— Ouvi vocês conversando na floresta no dia em que parti, e mesmo que essa não fosse a minha intenção, estavam tendo uma conversa bastante interessante, não acham? — Vi que os ombros de Margot relaxaram com a minha mentira bem contada, pelo visto tinha ficado nervosa com a explicação que daria para o homem de olhos vermelhos naquela cadeira, um deslize com ele deve custar caro.
Olhando mais perto, ele podia parecer um rato, mas os seus olhos eram idênticos aos olhos de uma serpente venenosa.
— Já te disseram que é uma coisa feia ouvir as conversas dos outros sem permissão? — Arqueou uma única sobrancelha, mexendo as correntes da cadeira e sentando de uma maneira mais confortável nela.
— Já. Só que pelo visto eu não sou a única pessoa que tem feito coisas feias, não é mesmo? — Recebi um beliscão em meu braço, um pedido silencioso para que eu tomasse cuidado com as minhas palavras, mas ele riu, estava adorando aquilo, não parava de rir.
— Não posso negar. — E olhou para as correntes com um orgulho estranho, como se estar preso ali não fosse nada mais do que um motivo para ser respeitado. — Que bom poder ouvir notícias boas como estas! Farão com que eu tenha certeza de que faça as honras!
— Fazer as honras de que? — Margot interrompeu, cautelosa até mesmo com o seu tom de voz.
— De que possa enfiar a faca no pescoço dele! Quais mais? — E abriu aquele mesmo sorriso macabro de orelha a orelha. — Ele gosta de você, não é mesmo?
Talvez nunca o entendesse, mas esperava que não gostasse, seria difícil fazer o que me pediam se gostasse.
— Que bonitinho, o xodó do príncipe. — Sua voz parecia afiada como uma lança. — Como saberei se posso confiar em você? Pensei que era a vadia dele.
Teria de lhe dar provas, já sabia de muito e tinha consciência o suficiente para entender que não me deixaria sair desse lugar sem uma prova.
Foi com um estranho pesar que tirei o papel que carregava comigo de seu esconderijo e estendi para ele, sem pensar muito nas consequências do que eu estava prestes a fazer. Para mim, palavras nunca tiveram poder, as mentiras não passavam de um faz-de-contas e as coisas que eu diria jamais machucariam ninguém.
Aquela ação faria com que eu descobrisse que estava errada.
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."
Se levantou da cadeira, colocando as correntes de lado. De início, me surpreendi, mas não demorou muito para que me lembrasse que, naquele lugar, ele era o chefe e o resto eram seus lacaios. Por algum motivo, se curvavam aos pés dele.
Tinha conseguido convencer um a um de dentro daquela cela?
Tudo indicava que sim.
— Parece que alguém já veio preparada. — Tirou o papel de mim com certa violência, chegando a arranhar as minhas mãos, ele tinha unhas enormes. Se afastou, talvez com o receio de que eu mudasse de ideia e tentasse tirá-lo dele, mesmo que soubesse que poderia me matar se eu tentasse. — Está me conquistando desse jeito, coisa difícil, se sinta orgulhosa de si mesma.
A falta do papel me fez apertar as mãos, procurar algo no ar para segurar, nada.
Examinou-o com cuidado, bem rápido, antes de o esconder em suas costas efazer um gesto para que Margot se afastasse de nós, já tinha até me esquecido que ela estava ali.
— Quero que vença, e quando você fizer isso, se aproxime dele. — Segurou as grades da cela, chegando mais perto. — Se torne a pessoa pela qual ele sangraria, eu quero que você tome a alma dele para você, Juliett. Custe o que custar, sacrifique o que for preciso para que isso aconteça, se você falhar, sabe o que vai acontecer. E eu e você sabemos que sempre vai se colocar antes dos outros, não é?
Por mais que sentisse vontade de negar o que tinha acabado de ouvir, não consegui, uma afirmação tímida foi o máximo que dei conta de lhe entregar.
Passou as mãos pelas barras, segurou as minhas juntas, as apertando com força suficiente para que eu pudesse sentir a minha circulação falhando.
Margot chegou por trás, levantou minha vestimenta e deixou que o vento batesse em minhas costas nuas, antes que pudesse reclamar, eu senti.
Senti um punhal entrar em minhas costas, o corte se estendendo durante toda a pele de minhas costas, saindo e entrando de novo, dessa vez para outro corte na horizontal.
Não consegui berrar, nem mesmo fazer barulho, nada saiu.
— Bem-vinda à Cruz, Juliett.
~*~
Uma cruz, os dois cortes formavam, juntos, uma cruz.
Margot tinha me levado até a enfermaria por um caminho alternativo, evitando a possibilidade de esbarrar com curiosos, me deixando aos cuidados de algumas das enfermeiras simpatizantes com a causa. Depois de tantos machucados em um só dia, eu não tinha mais certeza de como tinha me mantido viva até agora.
— Teve sorte, ele está de bom humor hoje. Se alguém tivesse reportado os acontecimentos antes que chegássemos, não tenho dúvidas de que ele teria acabado com você assim que tivesse atravessado aquela porta.
— Podiam ter me avisado que estava sendo marcada. — Recebi uma detestável revirada de olhos, seguida por uma expressão de clara impaciência.
— E acha que ficaria quieta se eu te avisasse? Por favor. Reclamaria até perder a voz por já estar machucada e não ter tido a brilhante ideia de passar por aqui antes. — Bem, agora minhas orelhas também estavam doendo por causa dos sermões que foi obrigada a ouvir, e pensei genuinamente que não iria conseguir sobreviver.
— Sim, eu tive essa ideia, mas ignorei. Você não é a única com um cérebro aqui, por mais surreal que essa informação possa parecer. — Soltei mais um uivo de dor ao sentir os remédios ardentes em minhas feridas, será mesmo que acham que coisas assim são para aliviar o meu corpo?
— Pelo visto sou, você não conseguia ficar quieta enquanto estávamos andando! O seu amiguinho loiro quase teve um ataque cardíaco por causa dos berros que você soltou depois que saímos do trono de Shiro! — Isso era verdade, o que eu podia fazer? O corte poderia não ser profundo o suficiente para provocar uma morte rápida, mas doíam como o inferno, e pude ouvir Alexander correr e gritar meu nome com um desespero desconhecido.
Depois, alguns socos e mais barulhos, acho que fiz com que Rupert e ele brigassem.
Rupert não o puniria se um dos dois ainda estivesse consciente, provavelmente.
— Chama aquilo de trono? — Arqueei uma sobrancelha, e ela pareceu mais irritada ainda pelo meu pouco caso. Ela realmente esperava que eu engolisse que um calabouço é visto como um trono?
— Não espero que você entenda. — Respondeu, cruzando os braços e me lançando aquele olhar. O olhar que ela sempre lançava quando estava irritada por causa de alguma coisa, por menor que ela fosse. Senti saudades daquele olhar.
Sinto saudades de quando ela me via como uma pessoa importante.
— Sobre aquele dia... — Antes que eu pudesse tocar no assunto, tive um de meus machucados pressionados pelas pequenas mãos dela.
— Você nem pensou duas vezes antes de sair, pensou? — Sussurrou, bem baixo, para que ninguém além de mim pudesse encarar as palavras. — Estou aqui pelas escolhas que você fez, e se eu precisar te arrastar para esse inferno para que possa pagar, eu vou.
Me lembrei da hesitação que ela tinha apresentado na floresta, o medo escondido na voz com as propostas que estava recebendo.
Então ela estava aqui por minha culpa, por mais que fosse ela quem tinha decidido o que fazer, tinha feito a decisão que fez por minha causa.
— Se acha que estou feliz por saber que você vai ser "aquela pessoa", a pessoa da minha vida na qual penso quando ouço sobre arrependimento ou decepção, eu não estou. De todas, acho que você era a única que nunca considerei que preencheria esse papel, mas você é, todo mundo tem essa pessoa e você é a minha. Estou triste por isso, Juliett, mas a culpa é sua. — E apertava mais e mais forte, até que uma das curandeiras segurasse seu ombro e ela relaxasse, me deixando livre e suando.
— Podemos resolver isso. — Busquei uma afirmação, qualquer coisa que podia me dizer que ela acreditasse que fosse possível, porque eu estava querendo acreditar. Sempre tentava disfarçar o carinho que sentia por ela, evitar o assunto, mas por algum motivo a expressão tinha me enfraquecido. Sobrancelhas franzidas, a boca torta, o nariz contraído.
— Não temos nada para resolver. — E antes que eu pudesse implorar ou dizer qualquer coisa, ela se foi.
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