Tola
6 VI - O Mantra de Agony
O mantra de Agony era usado em momentos de angústia, de, como o nome sugere, pura agonia.
Começou com um grupo de crianças, as que estavam aprendendo a arte da malandragem em seus primeiros anos de vida, na época, eu tinha seis anos e uma língua presa.
Na época, achamos um gato preto em um campo vazio, despedaçado com suas vísceras de fora. Morto, provavelmente por um animal maior que caçou-o sem muito motivo se não puro entretenimento.
Me senti particularmente conectado com o animal sem motivo, nada de medo ou nojo, enquanto os outros gritavam e davam gritinhos por terem se encontrado com o cadáver do coitado, eu já me aproximava e começava á tocá-lo, virá-lo para os lados e observar seus ângulos, feições, sua falta de vida.
É claro que as outras crianças ficaram loucas, me enchendo de perguntas sobre a minha sanidade mental e as minhas morais, e eu respondi á todas elas com um outro questionamento, e um bem simples.
— Vocês sentem Agony? — A palavra saiu errada da minha boca, e foi o suficiente para que se tornasse mais do que um apelido. Se tornou um feitiço, um refúgio em momentos de terror.
O mantra funcionava da seguinte maneira: sempre que uma situação desespero, desconforto ou de perigo ocorria, bastava repetir o mantra várias vezes para que tudo se acalmasse.
Alguns acreditavam que ele dava boa sorte, outros acreditavam que ele afetava seus inimigos, e os adultos não entendiam nada do que estava acontecendo.
Comecei a ser conhecida como Agony, ou então, A Bruxa.
Não que isso me incomodasse, não podia mentir que incomodava, era algo que eu julgava verdadeiro. Pensava ser uma bruxa, pensava que tinha poderes, que podia mudar o mundo e enfeitiçar as pessoas, era uma sensação louca de superioridade sobre um poder que sequer existia.
E o mantra durou por anos, poucos ainda o repetiam baixinho, por causa de uma mania que havia ficado, ainda menos pessoas ainda acreditavam nele, e a maior porcentagem lembrava do ocorrido e ria.
E eu? Mal me lembrava dele até repetir o mantra.
~*~
— Você está louco!? — Não podia me conter, estava com raiva, indignada. Um teste? Aquilo era um teste? Machucaram aquele pobre guarda na minha frente por causa de um teste? Qual era o problema do príncipe? — O que fez para que eles concordassem com isso? Ofereceu dinheiro? Eles te odeiam! Todos eles! Por que concordariam em te ajudar? O que você deu á eles?
Ele sorriu, um sorriso discreto seguido de uma risada baixa e quase doce. Não resisti e lhe dei um tapa na bochecha, o que o calou.
Fiquei calada, com ele me observando e eu o observando. Ah, não, o que eu fiz? Ele era o príncipe! O príncipe! Podia acabar comigo em segundos se quisesse e eu o havia agredido.
E mesmo assim, ele não fez nada se não olhar para mim e se encolher um pouco. Não parecia chateado, e, de longe, não parecia com raiva.
— Não era um teste. — Revelou, e isso me deixou mais confusa que nunca. Se havia uma hora para fazer brincadeiras, não era essa. Qual seria o motivo pelo qual ele mentiria assim? Ou sequer brincaria? Era um príncipe e com certeza não foi encorajado á fazer isso.
Sem saber muito mais o que falar, resolvi me corrigir.
— É August. O meu nome. Agony é um apelido um tanto quanto estranho que eu tinha quando era mais novo, fiquei nervoso quando perguntaram meu nome e.. Me desculpe. Disse meu apelido. — Parecia convincente o suficiente para não causar questionamentos e nem mais problemas por um tempo.
Quantas pessoas já deviam ter ficado nervosas em sua presença? Com certeza, não eram poucas, e aquele comportamento que tinha já deixava claro que ele jamais se intimidava perto de ninguém, independente de quem fosse.
Talvez o poder lhe desse esse direito, ele seria o dono de terras e de vidas. Podia causar guerras, formar alianças e balançar a vida de várias pessoas como um brinquedo se quisesse.
Inclusive, e principalmente, a minha. Algo me dizia que já estava fazendo isso, preso comigo dentro de um quarto tão pequeno que poderia me causar falta de ar se chegássemos mais perto.
— August. — O príncipe repetiu, como se refletisse sobre o nome. Era incrível a suavidade com a qual ele conseguia fazer com que soasse. — ..Rupert. Meu nome é Rupert.
Me arrancou uma risada que tive que controlar para que não soasse muito fina, como se já não soubesse. Afinal de contas, ele era o príncipe.
— Eu sei quem você é, falaram o seu nome na cerimônia de abertura. Não entendo o porquê de estar se apresentando de novo.
— Eles disseram meu nome, não eu. Então, não, eu não estou me apresentando de novo.
Bem, era uma lógica justa. Se bem que lógica já me parecia algo que não deveria esperar vindo dele.
Se ajoelhou no chão, me puxando junto para que eu fizesse o mesmo e tirando a coroa que exibia de sua cabeça, a colocando ao seu lado. Parecia até acostumado, como se a coroa não fosse grande coisa e já fosse normal colocá-la no chão.
— Por que você está aqui? Sei que não é por minha causa. — Já foi se adiantando, e não era mesmo. Pensando assim, é triste ver uma multidão de pessoas e saber que poucas, ou quase ninguém, está nesse meio porque se importa. Querem o dinheiro dele, só isso, mas quem não iria querer? A verdade é que pessoas pobres são pessoas desesperadas. Não importa o quanto pareçam calmas.
— Você me pegou, não é. — Levantei minhas mãos no ar, fingindo surpresa, como se estivesse me preparando para ser levada até a masmorra por algum crime que cometi. — Eu preciso de moradia e comida.
— Mais uma? E eu pensando que você poderia me surpreender. — Pareceu desapontado com a minha confissão, não pude dizer ao certo se apenas estava sendo dramático ou se realmente esperava mais de mim. — Já estava preparado para quando inventasse uma história, sempre ouço histórias tão boas quando faço essa pergunta. Histórias de como me admiram, de como eu sou um bom herdeiro... Até agora, foi o primeiro que falou a verdade.
Eu falando a verdade, que irônico.
— Apenas não sou um grande fã de contos de fadas e também não vou querer insistir para que ache que eu me importe com você. — Era engraçado pensar que pessoas realmente tem a falsa esperança de que uma vantagem possa ser adquirida se fizerem com que o príncipe pense que ele é importante. Até porque, sejamos sinceros, ele sabe que é importante e sabe muito bem.
Deu de ombros, e logo começou á acariciar a bochecha e a resmungar baixinho, o que fez com que eu me sentisse um tanto satisfeita por saber que o treinamento realmente me ajudou em questões de força. Sei que deveria me sentir culpada, mas acho que tenho uma certa dificuldade quando se trata de sentir culpa.
— Dói muito? Se quiser, cuido disso pra você mais tarde. Fui eu quem te dei um tapa, no fim das contas. Seria legal se você explicasse direito o que você quis dizer com teste.
— Não foi um teste. — Repetiu, cogitei a possibilidade de estar mentindo para me fazer satisfeita ou controlar a minha raiva, mas por que faria isso? Não acho que ele se importaria com os sentimentos de um dos recrutados para sua proteção. Ainda mais se ainda estão em competição para que consigam o cargo.
— Não foi? Mas você disse que... — Me interrompeu, fazendo um sinal de silêncio com sua mão e me olhando de uma maneira quase aborrecida, como se estivesse óbvio o que pretendia fazer. Tinha o poder de criar e reverter situações de acordo com os seus comandos, e se estivesse se aproveitando desse poder que a monarquia lhe dava, então parecia fazer isso muito bem.
— Não foi um teste. — E, como se estivesse carimbando essas palavras de maneira definitiva em minha mente, concluiu toda a conversa e deu-lhe por encerrada.
Pouco depois, alguém abriu a porta. O susto foi tão grande que me levantei em um pulo e peguei a espada, já a apontando para o indivíduo. O meu ombro ensanguentado, que estava começando á esquecer por causa da pressão que a "presença real" da sala causava em meus nervos, começou á latejar novamente. A dor exagerada que provocava fez com que eu soltasse um gemido de dor ao me mexer de modo tão rápido.
Era um guarda, um guarda real baixinho e gordo que tremia e estava sujo com sangue. Parecia tão assustado quanto nós por se deparar com a realeza e o "vagabundo" confinados em um quartinho minúsculo no meio de um ataque. Devem ter ficado desesperados quando viram que eu saí correndo, praticamente arrastando o futuro rei junto comigo.
— Está tudo bem. — Rupert foi se adiantando e andou até mim, pegando com cuidado na espada e fazendo com que eu a abaixasse lentamente. O ato amaciava as minhas mãos e me deixava tentado á soltá-la por medo de machucar sua mão se a pressionasse com muita força contra a lâmina. — É só um guarda, príncipe encantado.
Mesmo que tenha sido um apelido sarcástico, não posso dizer que eu não gostei dele. Foi aí que a ficha caiu.
Eu salvei a vida do príncipe.
— Depois continuamos com nossa conversa. Já tomaram conta do imprevisto?
— Si-Sim senhor! — Gaguejou, tremendo mais do que um pobre em dias de neve e fazendo uma reverência rápida. Pelo visto, isso acontecia com todos quando diante dele pela primeira vez, até mesmo com os guardas que encaravam seu rosto diariamente.
— Certifiquem-se disso. Não quero mais problemas acontecendo por aqui. Você cuida da minha bochecha, eu cuido do seu ombro. Feito?
De certo modo, sentia que eu e Rupert iriamos nos dar bem.
— Feito.
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