Tola

7 VII - Carma


Notas iniciais
Eu atrasei, atrasei muito. Quatro letras, um pesadelo: ENEM.

O jantar que aconteceu seguido dos ataques foi um desastre, não pelos seus acontecimentos mas pelo que eu sabia que iria acontecer depois dele.

Sentei-me ao lado de Rupert com o ombro enfaixado, enquanto ele passava gelo em sua bochecha para se livrar da ardência do tapa. Com certeza ficaria marcado por um bom tempo, mas mesmo isso não iria arruinar a aparência dele. Era difícil deixar Rupert parecendo feio, quase impossível.

Os olhares de todos ficaram fixos em mim, de meus competidores e também de mordomos que eu presumia não gostarem muito dele, mas dava para perceber que, de agora em diante, eu iria ser vista como uma ameaça. Isso não era bom.

Não que eu não tivesse ficado feliz por ter sido capaz de salvar a vida dele, eu fiquei, mas as consequências começavam á tomar peso em minhas costas. Só esperava que elas não me derrubassem.

Eu sei que eles pensavam que eu tinha alguma vantagem por ter ajudado-o naquele momento, mas não tinha. Ao menos, esperava que não tivesse.

— Alguns dos quartos foram danificados. Terão de dormir no celeiro hoje. — e quando isso foi anunciado, um dos meus concorrentes, um de cabelos pretos e cara de valentão acabou olhando para o príncipe como se ele estivesse falando em outra língua.

— Vossa majestade, me desculpe, mas, não foram apenas metade deles? — sua voz saiu suave, um suave forçado, ele não devia estar acostumado á abaixa-la pra qualquer um.

— Foram. E por isso, vocês dormirão no celeiro.

— Perdoe a minha intromissão, mas não seria mais eficiente se dividíssemos os quartos? — Não posso mentir que, quando anunciou sua decisão, também foi algo que também me veio à mente. Não que dormir no feno fosse necessariamente horrível, mas dormir junto com cavalos não traria nenhum conforto para nenhum de nós, celeiros costumam á ter um cheiro de merda.

— Estão em um número ímpar, alguém ficaria sozinho. — Soou impaciente, quase nervoso. Era como se estivesse explicando á uma criança que deveria comer usando talheres ao invés das mãos depois de ter cometido o mesmo erro várias vezes.

— Mas... — E bateu na mesa, um gesto para que o "cavalheiro" se calasse. Todos o olhavam, uma certa mistura de desprezo e medo. Ele era inconveniente, talvez até o considerassem uma vergonha por estar questionando uma ordem real. Como não questionar? Metade de nós se constituía em homens mimados de famílias ricas que querem o melhor que podem ter da experiência, e que não aceitam menos do que o luxo disponível.

Outra metade de nós era constituída por homens pobres, miseráveis, que viajaram para morrer ou viver. Desesperados que querem desfrutar de últimos possíveis dias e de privilégios que estavam ao seu alcance, já que agora não estavam mais no lixo. Nenhum dos lados se portava bem.

E eu, mais voltada pro segundo tipo, mas não sou um homem.

As safiras que tinha no rosto, quase não humanas, olhavam para todos do salão, examinando um por um antes da pergunta sarcástica e mau humorada sair dos lábios da realeza.

— Mais alguma reclamação? — e todos mexeram a cabeça em um sinal de negação, inclusive eu. Era engraçado como alguns faziam isso com exagero, e ao olhar de relance pra ele percebi que achava a mesma coisa. — Ótimo. O responsável pelos cavalos reais virá mostrar-lhes seus "aposentos" temporários.

Levantou da mesa, com aquele complexo de grandeza o rodeando como se não fosse grande coisa. Talvez ele nem percebesse. Ás vezes parecia que já havia assumido o trono, e não que estava sendo preparado para fazê-lo.

Estalou os dedos e o responsável entrou, meu coração quase saiu pela boca.

Lá estava ele, o garoto de quem roubei as roupas. Com um pedaço de trigo na boca e uniformizado com elegância para que seus deveres pudessem ser cumpridos, como lavar as celas dos cavalos e realizar partos de éguas grávidas.

— Este é Alexander, ele vai fazer o máximo para que se sintam confortáveis passando á noite com os cavalos. Qualquer problema que tenham, senhores, procurem-no. Estou certo de que arrumará um jeito de resolvê-lo.

Estava branco, acho que tão branco quanto eu. Um olhar de confusão e de reconhecimento repentino, era como se não acreditasse no que via. De certa forma, eu não acreditava que ele estava vendo.

— Prazer. — demorou para falar, depois de um longo tempo calado. Era um silêncio embaraçoso, que fez com que todos se calassem. Mordi o lábio inferior como um sinal para que ele ficasse calado, e ele suspirou, preocupado com a situação que estava prestes á encarar. — Já terminaram? Podemos ir?

Sem jeito, todo mundo balançou a cabeça em afirmativo. A maioria já tinha terminado de comer, e os que não tinham terminado simplesmente deixaram seus pratos para lá com um certo pesar por estarem abandonado restos de comida dos quais, normalmente, não tinham acesso.

Alexander me encarava enquanto andávamos, e mesmo que não encarasse de volta podia sentir o peso de seu olhar me fazendo milhares de perguntas sem usar nenhuma palavra.

"O que você está fazendo aqui?"

"Por isso você roubou minhas roupas?"

"Você realmente acha que tem a capacidade para um trabalho grande assim sendo que semanas atrás nem tinha o que vestir?"

Não acho, tenho certeza que tenho.

Me preparei para isso, e se quiserem arrancar os meus objetivos de mim vão precisar usar mais do que unhas e dentes.

O celeiro real tinha uma variação de cavalos incrível, todos grandes e com cores variadas. Uns pareciam mais dóceis, outros mais intimidadores, mas todos cumprindo o papel que tinham naquele lugar: serem cavalos da nobreza, cavalos nobres.

Tudo na realeza parecia tão impecável que me dava vontade de vomitar, não que eu odiasse, eu não odiava nada daquilo, mas era enjoativo.

— Bem, senhores — e olhou diretamente para mim, me provocando. — enquanto as devidas providências são tomadas para que os quartos de hóspedes sejam mobiliados e devidamente arrumados, já que sofreram prejuízos após o ataque ontem, vocês terão de se hospedar aqui.

Enquanto os outros concorrentes pareciam observar o local com cuidado, o adentrando e reclamando do mau cheiro (que era esperado, estamos falando de um celeiro), a vítima de meu roubo balançou a cabeça para mim em um gesto que indicava que eu deveria segui-lo.

Fomos andando até a parte de trás do celeiro, nos afastando o máximo que era permitido dele, já que não podíamos ser perdidos de vista. Ele olhava para os lados garantindo que não estávamos sendo seguidos, daquela maneira parecia até mesmo ser paranóico, mas como não ficar preocupado em uma situação dessas? Se me descobrissem, as coisas ficariam feias para o meu lado, e eu apenas podia torcer para que ele não resolvesse contar.

— O que diabos uma garota está fazendo aqui? — Pisquei uma, duas, três vezes. Sério? Admito, me senti burra por não ter previsto essa pergunta, mas de todas as perguntas que ele podia fazer, é, essa foi a mais burra.

— Competindo pela guarda do príncipe. Achei que já estava bem claro. — Respondi, seca, cruzando os braços e fuzilando-o com o meu melhor olhar.

— Você não tem ideia do perigo que esta se metendo, não é? O príncipe pode testar vocês do jeito que bem entender, e você pode muito bem perder a vida e, no mínimo, acabar muito machucada. — Parecia genuinamente preocupado, parecia não entender bem que, se eu consegui chegar até aqui, podia ir muito mais longe do que já estava. — Isso sem contar que está quebrando ordens reais.

— É machucadO. — Corrigi, botando bastante ênfase no "o". Aqui dentro, eu era um ele, e não ela. — Todos nós podemos perder a vida e acabar machucados. Nessa competição ou fora, e se essa é a melhor desculpa que tem para me impedir de participar então precisa de alguma nova.

— Que tal o fato de que vossa alteza pode ordenar sua morte se descobrir que você está contrariando suas vontades? — E ergueu uma sobrancelha, como se tivesse o suficiente para me convencer. Mal parecia saber que essa era a minha última esperança, eu já não tenho nada á perder.

— Você fala como se eu nunca tivesse pensado na possibilidade. Aliás, não vejo motivos para você se preocupar comigo. — Retruquei, cansada dele falando como se tivesse a obrigação de cuidar de mim. Pareceu ser o suficiente para que ele se desse por vencido, suspirando pesadamente e desviando o olhar até o chão.

— E você é mais cabeça dura do que pareceu quando roubou minhas roupas. Estão largas em você. — Bem, estavam mesmo um pouco grandes, mas eu precisava que estivessem. Tinha que disfarçar o meu corpo, e roupas grandes eram uma das melhores maneiras de se fazer isso. — Me dê algum motivo para que eu não a dedure.

— Não tenho, só posso pedir para que não faça isso. — Apesar da resposta ousada, ele pareceu satisfeito ao ouvir isso. Não podia mentir, estava tentando não fraquejar. Eu queria aquilo, queria muito, e cheguei longe o suficiente para não suportar ter tudo arrancado de mim.

— O que você acha, então, de um trato? — Sugeriu, e por um momento, eu fiquei com medo do que ele iria pedir para que eu fizesse, mas não foi o que aconteceu. — Você fica me devendo um favor.

— Que tipo de favor? — E, como se pra me irritar, deu de ombros. Não gostava muito de mistérios e nem de surpresas, mas Alexander parecia capaz de trazer os dois para a minha vida.

— Um favor. — Repetiu, como se fosse óbvio que ele não soubesse de que favor estávamos falando. — Isso eu vou decidir depois, dependendo do que preciso. Só que você não poderá dizer não.

— Como posso saber que você não vai tirar vantagem de mim? — Levantei uma sobrancelha, e não podia nem acreditar que estava pensando na possibilidade. Era uma área perigosa, eu sabia disso, mas não podia arriscar ser dedurada e mandada de volta para a casa de Margot. Não depois do que fiz com ela. Minha consciência já começava á pesar pelos meus erros.

— Não tem como. Você só pode confiar em mim. — Disse isso na minha tonalidade de voz, me imitando. Gostava de fazer graça, isso era óbvio. — Bem, vamos começar de novo então, "senhorito". Você é...

— Agony. August, mas me chame de Agony. — E franziu o cenho, claramente decepcionado com o meu gosto para nomes. Só que, para um nome escolhido ás pressas, não podia dizer que eu não gostava dele.

— Céus, esse nome nem parece masculino. — E não era, mas o que eu podia fazer? O que estava dito estava dito, e eu não tinha paciência nenhuma para explicar que estava brincando com um gato morto quando menor e, por causa disso, virei um mantra.

— Agony é um apelido. Usar um nome com o qual eu não estou acostumada á ser chamada seria burrice. — Era uma desculpa boba, mas ao menos fazia o nome parecer ter um significado maior.

— Bem, não é nada intimidador. E por aqui é preciso ser intimidador. — Era verdade, não podia negar. Eles se esforçavam para isso, todos eles. Meus concorrentes andavam de peito estufado, nariz empinado e testa franzida. Era um ato desesperado, muitos deles sabiam que lhe faltavam habilidades de combate, então é claro que não poupariam forças para se tornarem fontes de medo, tirarem das pessoas o pior delas para ver se, com isso, conseguiriam a vitória.

— Garanto para você que continuo assustando os meus concorrentes. — Depois de salvar o príncipe tinha começado á assustar todo mundo.

— Se você diz. — Duvidava de mim, aquilo era óbvio. Eu mostraria para ele que estava errado, mostraria para todos eles. Mesmo que isso significasse que tinha que fingir ser um garoto pelo resto da minha vida.

Barulhos altos começaram á vir do celeiro, berros. Aquilo fez com que ambos ficássemos em estado de alerta, correndo para lá com a esperança de ver o que diabos estava acontecendo.

E quando vimos, desejamos não ter tido essa esperança.

Um homem, no chão, sangrava horrores. Estava vivo, ao menos parecia estar. Outro homem, por cima dele, enchia seu rosto de porrada. Ele era muito maior, muito mais forte do que o magrelo no chão, a cena havia me deixado sem reação.

O magrelo vomitou uma mistura estranha de alimentos recém digeridos, e Alexander logo se pois á correr para socorre-lo antes que acabasse morto pelas mãos do brutamontes.

Foi uma sensação estranha, como se meu corpo mandasse e meus pés não obedecessem. Cai, de joelhos, e senti a comida que eu havia comido voltando para a minha boca. Alexander segurou meus ombros, enquanto tentava conter a tremedeira e olhavam para mim.

Eu sabia que a vista os agradava. Reagir de uma maneira tão intensa á um simples ato de violência era um sinal de que seria mais fácil se livrar de mim do que imaginavam que poderia ser.

— Ele roubou a minha comida! — Gritou o gigante de cima, enfurecido. Era sobre isso que se tratava tudo aquilo? Restos de comida do jantar real? Não era motivo para briga. Não era motivo para levantar a mão na direção de ninguém.

Não era o que me deixava sem palavras. Nem chegava perto.

A pessoa que ele estava esmagando...

...A pessoa que ele estava esmagando era Margot.