Tola
5 V - O Dragão do Reino
Os nomes eram Sra. Claudette e Mina.
E eram mãe e filha, mas mal pareciam por causa da amizade entre as duas, eu mesma não notado quando me hospedei no humilde lugarzinho delas. Era uma intimidade que eu invejava não poder ter tido com a minha mãe sempre que via o quanto pareciam dividir bons momentos juntas.
Fui carinhosamente apelidada por elas de "gigolô do príncipe", mal nos falávamos, sequer se deram ao trabalho de perguntar qual era o meu nome. Provavelmente porque não queriam estar mais envolvidas do que já estavam com um candidato á Guarda do príncipe.
Certamente ele não tinha nem um pouco da simpatia do povo, e era fácil de notar pelas caras e bocas que faziam apenas de menciona-lo. Era ridicularizado por muitos, sempre com piadas sem graça e até mesmo ironias cruéis, e até seus simpatizantes acabavam por ter de provar um pouco do azedo daquele ódio que o cercava.
Agora eu entendia porque tiveram que apelar para os privilégios que vinham junto com o cargo, o príncipe rebelde era uma negação até mesmo para os mais novos.
E quanto aos mais novos, me deparei com outros candidatos, e a diversidade era maior do que eu havia imaginado.
A maioria dos que se candidatavam estavam desesperados, pessoas que passavam fome e judiados pela vida, crianças órfãs que mal conseguiam aguentar o peso de uma espada e até mesmo pessoas com deficiências mentais, arrastados por suas famílias para entrar na competição como um último recurso, um sinal claro de aflição.
Contudo, haviam os fortes. Homens com veias escapulindo de seus braços, grandes como gorilas e selvagens como seres das cavernas, eram quase não humanos, mal dava para acreditar que já sequer chegaram á se parecer com um. Eram do tipo que você tenta imaginar como teriam sido quando menores e acaba concluindo que talvez jamais tenham tido uma infância.
Uma coisa tínhamos em comum, o desprezo que todos pareciam ter por nós.
Era uma situação onde não se olhavam caras, só o crânio, e era extremamente incomum essa conexão com pessoas totalmente divergentes.
Inimizade em comum é a forma mais simples de juntar semelhantes.
O treinamento era quase exagerado, não podia mais poupar quaisquer esforços e não tinha nem ideia de como poderia atingir meus objetivos. Ás vezes, não tinha nem ideia de como ainda tinha esperanças de que eu fosse continuar viva, mas morrer pobre e miserável é o mesmo que nunca ter existido, e seria um consolo ter minha existência apagada caso saísse como perdedora.
Digo, não é como se eu tivesse outra escolha, é? A morte era certa, dividir o pão e a água sem ganhar nada em troca é como sacrifício para os daqui, que tanto passam para conseguir.
É a generosidade que pregam mas nunca colocam em prática, e, apesar disso, amo e odeio Deus.
Amo Deus por poupar a minha vida, odeio-o por ter tirado a dos meus pais, mas não posso deixar de sentir orgulho por minha fé ter prevalecido, a diferença é que eu acredito que, sim, Deus erra. E errou feio ao arranca-los de mim tão cedo.
Sei que precisariam partir um dia, só esperava que eu pudesse ter mais tempo com eles ao meu lado, já lhes causei muitos problemas quando menor.
E acho que ver que o príncipe, aquele que tem tudo, perdeu sua fé mesmo sendo ele mesmo um todo poderoso para a pátria é o que mais me intriga nele.
A cruz e a espada, a igreja e a monarquia, elas sempre pareceram governar juntas. A igreja com as crenças e a monarquia com sua força, e imaginar um mundo onde essas duas coisas estão separadas me estranha. Não por parecer absurdo, mas por sempre parecer que elas se esbarram mesmo sem querer.
E se é assim, por que ele está desafiando a cruz? Pura revolta? Ele é louco? Agora apenas gostar dele virou um motivo para ser visto como um herege.
A rotina se consolidou e depois de essa semana dura de treinamento, eu estava preparada para o encarar. Encarar seu rosto, seu jeito, encarar tudo o que ele podia ser ou não podia em minha cabeça.
Só não sabia se seria como eu imaginava ou não.
Os cavaleiros entravam enfileirados, marchando de uma maneira desigual e agitada. Ninguém havia ensaiado essa entrada, é claro, até porque não são muitas as situações em uma vida em que seja necessário marchar. Uns tropeçavam em seus próprios pés e outros acabavam trombando com cavaleiros maiores e ficando pra trás.
Quando a marcha acabou, todos se viraram. O público parecia estar por toda parte, e a entrada do castelo fazia estremecer qualquer um que a encarasse.
Era de tirar o fôlego, um castelo tão grande que fazia questionar se existiriam obras maiores do que aquela. O castelo era puro ouro, com torres altas e charmosas bandeiras que marcavam o símbolo do reino: um dragão. Vermelho e majestoso, cuspindo fogo azul de sua boca.
A realeza continha tantas riquezas que imaginar o que poderia haver dentro daquele lugar era um desafio maior do que conseguir a posição de guarda costas em si.
Talvez houvesse um chão pintado de céu, flores em vasos caros e candelabros em cada sala, a pintura de um cavaleiro e sua espada e a glória em seu olhar após derrotar seus inimigos com um golpe apenas. Minha imaginação voava, flertava com desejos que só podiam ser revelados em profundidades de minha mente, mas eu sabia que não seria bem assim, por mais que eu quisesse que fosse.
E a porta do castelo se abriu, fazendo com que eu desse um saltinho desajeitado por causa do susto e com que risadas fossem ouvidas por causa da minha reação. Humilhante, no mínimo, e logo fiquei corada.
Mas não corada pela humilhação, e muito menos por causa das risadas, o príncipe descia as escadas devagar com um cavaleiro de cada lado.
Seu manto escarlate arrastava-se pelo chão á cada pequeno passo dado, suas roupas eram dignas de sua elegância, azul com detalhes dourados. Ele tinha escamas.
Ao menos, as sardas se pareciam escamas. Eram muitas, por todo o seu corpo, como se ele fosse uma árvore no outono ou tivesse sido nascido da casca de uma.
E se seu cabelo era outono, os olhos eram inverno.
Ele era o dragão do reino.
— Vossa majestade, Rupert III! — E as pessoas fizeram, todas juntas, uma reverência. Eu também a fiz, de um modo desajeitado e um pouco mais atrasado do que o resto.
Minha garganta secou, e eu comecei á suar. Não conseguia prestar atenção em nada, muito menos pensar em como me sentia ao ver a pessoa que eu teria de colocar a vida antes da minha, e mesmo que não fosse o objetivo principal por eu estar aqui, não podia mais ignora-lo.
— Senhor? Senhor? — E fui acordada do transe, com um velho magro e alto que olhava diretamente para mim, esperando que eu dissesse algo. Abri a boca e a fechei, sem entender bem o que ele queria, eu nem lembrava qual havia sido sua pergunta. — Seu nome, por favor.
Nome? Merda. De todas as coisas importantes para se fazer, eu não fiz a mais importante. Não havia pensado em um nome, isso sequer havia se passado por minha cabeça! E agora, todos estavam olhando para mim e esperando que eu pudesse me apresentar, inclusive o príncipe, que parecia zombar de mim com o olhar e que provavelmente deveria pensar que eu era burra.
— Agony. — Sussurrei, e depois falei um pouco mais alto, sem me dar conta do que isso significava. — Agony.
— Senhor... Agony? — O homem perguntou, parecendo estranhar o nome. Só aí percebi o que havia feito.
Agony?
Eu realmente tinha acabado de usar o mantra de Agony?
E, assim que o fiz, um dos guardas foi atacado por trás por um camponês que estava armado com uma grande espada. Mal isso aconteceu e um ataque aos guardas começou, inclusive por parte de alguns dos cavaleiros perto de mim.
No impulso, agarrei o braço do príncipe e comecei a correr, peguei minha espada, defendendo-me de um dos ataques de um dos moradores da vila e machucando seu braço. Desviei de um guarda, acertando sua perna, e mesmo que fosse errado eu não me importava.
O que eu queria fazer era sair dali, agora.
Ele tropeçava, fazia gestos para que os outros guardas se afastassem e logo estávamos dentro do castelo.
Á partir daí, começamos á correr juntos, ele me guiando pelo caminho enquanto resmungava por causa da dor que sentia em meu ombro. Apenas depois eu perceberia o corte que estava lá, mas com a adrenalina em meus nervos, nem me passou pela mente a possibilidade de estar machucada.
Finalmente, chegamos até uma sala pequena. Provavelmente um dos quartos de hóspedes, fechei a porta e me encostei nela, tentando recuperar o ar perdido no meio da rápida ação. Suava, mas estava viva, e por agora isso já bastava.
E também estava com Rupert, sozinha, em uma sala apertada e pequena. Olhando-o sem saber o que fazer, se deveria falar ou se a minha respiração o irritava.
Analisava o manto com cuidado, quando se virou para mim e me lançou um olhar calmo e azul, seus olhos eram grandes.
— Parabéns, você passou em uma prova.
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