Todos os Segredos da Rua Cornélia
7 Capítulo 7 - O Zelador de Sonhos
Ludovico tinha um método infalível de estar a par de todas as situações que rondavam a Rua Cornélia: oferecia bons doces e uma conversa descompromissada, cheia de arapucas verbais silenciosas, que levavam qualquer um a morder a isca e soltar alguma verdade cabeluda. Ele havia feito isso comigo no dia que me conheceu, e o fazia com todos os habitantes da rua, sem que eles percebessem. Mas, na segunda vez que ele tentou seu artifício ardil, me entregando umas rosquinhas de amendoim e inocentemente comentando do “estranho barulho” que havia ouvido noutro dia, nos fundos da casa dos Padilha, justo quando Léo retornou, percebi algo estranho na sua aura, o que me fez comer as doçuras com certa desconfiança.
Já estava na terceira ou quarta rosquinha, quando a pulga atrás da minha orelha mordeu tão forte que minha cabeça chegou a doer; ergui uma sobrancelha, desconfiado daquela conversinha mansa e despretensiosa, e me limitei a falar meias palavras que não revelavam nada, mas atiçavam piamente a curiosidade do baixinho.
— Sabe que eu não sei? Ouvi dizer que aqui na rua às vezes tem uns barulhos estranhos mesmo — Ludovico coçou o bigodão preto, meio ansioso, batendo um pé no chão freneticamente.
— Bom, eu já ouvi algumas coisas estranhas mesmo, mas nada alarmante. A maioria dos barulhos são os gatos que fazem — ele respondeu, me servindo mais algumas rosquinhas — Mas sobre o som na casa da Dona Ana… Pareciam até uns gritos, sabe?
— Sério? Eu não ouvi nada. Talvez seja… — fiz uma pausa pensativa e olhei os arredores, forçando uma expressão de confusão, o que atiçou ainda mais a curiosidade de Ludo — Não, acho que não.
— O que?
A expressão de Ludovico estava quase desesperada de tão curiosa, com o rosto avermelhado feito um pimentão, o que me fez dar um meio sorriso irônico. Ele havia mordido a isca, no fim, e provaria do próprio veneno.
— Dona Ana comentou comigo sobre uns tais segredos da rua, sabe? Talvez seja um deles — afirmei. Ludo engoliu seco, pensativo, e pigarrou. — Ela disse que tinha um, sobre um moço que ficou tão chocado com um segredo que lhe foi contado que nunca mais conversou normal: só sabia falar aos gritos.
— Não é bem assim — ele afirmou, convicto — Não foi o segredo que o fez gritar, foi o susto. Ele se assustou com algo tão chocante que nunca mais conseguiu falar baixo. O nome dele era Dirceu. Dirceu Ananias. Ele entregava leite de porta em porta, por toda Rua Cornélia. Uma das portas que ele abriu encontrou alguma coisa tão assustadora que nunca mais foi normal.
Dei um sorrisinho simpático e me agraciei por ter conseguido arrancar mais um retalho da colcha de histórias que era a rua Cornélia.
— E o que será que ele viu de tão assustador? — questionei. Ludovico suspirou e deu de ombros.
— Ninguém sabe, só ele. Por isso é um segredo. A gente só sabe o que o povo conta, o que aconteceu mesmo… — ele respondeu. Peguei mais uma rosquinha de Ludovico, apertei seu ombro e agradeci sinceramente pelas informações e pelos doces antes de deixar sua presença e ir para o ponto de ônibus.
Houve um instante de luz inesperado que me acometeu assim que botei o primeiro pé para fora da rua Cornélia, oficialmente, como um clarão instantâneo que não dura mais que o suficiente para ser percebido. Uma mente distraída, como a minha, não teria se dado conta do acontecimento, não fosse o fato de que, justo naquele fatídico dia, havia esquecido os fones em casa, então minha atenção estava redobrada, buscando por resquícios de sons em qualquer lugar, a fim de fugir do silêncio da noite.
Foi como um clique, tão rápido quanto o acender de uma lâmpada, por um instante a noite se tornou dia e tudo se clareou, e voltou a escuridão soturna da noite de verão, repleta de nuvens que prediziam chuva. Olhei para trás e a rua Cornélia se estendia atrás de mim, com os jacarandás farfalhando com o vento, bambuzais se dobrando no extremo distante e algumas poucas estrelas se iluminando no céu, onde havia buracos entre as nuvens. Naquele momento, uma fumaça branca surgiu por trás das árvores, distante e em constante movimento, contornando a extensão da mata e atravessando ao redor das casas, acompanhada de um inconfundível e assustador som de aço se arrastando. Engoli seco, pensativo, e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da fumaça em movimento.
— Um trem? Essas horas? — Lady Sienna questionou assim que surgiu às minhas costas. Ela me encarou, com um olhar curioso — Você não está pensando em ir até lá, não é, Gustav? Seu ônibus está a caminho.
— Não sei porquê, Sienna, mas algo me diz que eu tenho que encontrar esse trem. Não consegui ver nem a linha ainda. Não tem um caminho por dentro da mata que leve até os trilhos — respondi, pensativo. Geni surgiu do outro lado, tocando meu ombro.
— Deve ter uma razão boa para isso, oras! Carpial, me ajude! Que ideia mais insidiosa! — ela exclamou, irritada.
— Detesto concordar com a perua, mas ela tem razão, Gustavo. Essa fumaça é branca demais para um trem e tem uma energia muito da estranha — ele respondeu, convicto.
— Ouça o carpial, Gustav, ele já trabalhou nessa ferrovia! Tem propriedade no que está falando — ela exclamou. Ergui a sobrancelhas, surpreso, e observei Geni, curioso.
— É sério? — ele assentiu — E você já passou por aqui?
— Por essa mata? Nunca. Esses trilhos têm mais de cem anos, meu pai trabalhou na construção deles. Pra chegar aqui nesses lados era só pela rodovia, que ainda era estrada de terra. — ele exclamou e, pensativo, observou algo no horizonte distante, e apontou para oeste da rua Cornélia — Ali tem um viaduto e logo depois a garagem do trem. É onde termina os trilhos onde eu lembro — exclamou.
Ergui as sobrancelhas, surpreso.
— Então ele termina ali e se teletransporta para a rua Cornélia? — questionei. Os fantasmas se entreolharam, confusos, e nada disseram. Engoli seco, pensativo e irritado — Esse tanto de mistério já tá começando a me deixar puto — exclamei. No instante seguinte, o ônibus chegou, pontual como sempre, e me acordou das divagações dos pensamentos relativos ao trem.
No caminho, com o rosto colado no vidro da janela, observei, ao longe, a fumaça branca contornando a rua Cornélia, e o som do aço se arrastando ir se diluindo até desaparecer por completo.
Acordei abruptamente no meio da madrugada, com alguns sons de sussurros ao meu redor e a sensação de estar sendo tocado no rosto. Estava pingando de suor. Lá fora às nuvens espessas deram origem a um temporal tormentoso, que se desdobrava em rajadas violentas de chuva e alguns pedaços de granizo. Corri para fechar a janela antes que as águas invadissem meu quarto e observei, do lado de fora, sob a luz amarelada do poste, um homem estranho, baixo, careca, usando um macacão jeans e luvas brancas. Ele estava de costas para minha janela, mas foi só me aproximar para fechá-lá que ele se virou, imediatamente, me encarou e acenou. Daquela altura e distância, escurecido pela noite e pela tormenta verônica, seria impossível ser percebido por alguém, mas, por alguma razão, ele me viu e não parou de acenar enquanto não acenei em resposta.
Ao baixar sua mão, voltou a dar as costas para minha janela e continuou a contemplar a rua, tomado pela chuva que caía sobre seu corpo e parecia não lhe causar incômodo. Engoli seco, meio apreensivo, fechei a janela do quarto e bocejei. Eram por volta de três da manhã; ouvi o chiado da televisão na sala, onde encontrei Karina dormindo, com uma expressão nada confortável. Ao seu lado, no sofá, o mesmo homem que estava sob a luz do poste se encontrava, sentado, assistindo televisão com a mesma atenção que contemplava a chuva.
Ele olhou para mim e acenou. Engoli seco.
— Quem é você? — mas ele não respondeu e continuou acenando. — O que tá fazendo aqui? — e continuou em silêncio, mexendo a mão para lá e pra cá. Suspirei profundamente e acenei de volta. O homem sorriu, amigavelmente, e apontou para minha irmã.
— Ela não está tendo bons sonhos — ele disse, convicto — Precisa acordá-la.
— Como você sabe disso? — questionei. Ele sorriu.
— Eu sempre sei. Eu sou o Zelador dos sonhos, Zózimo — aquela afirmação tão convicta encheu meu coração de uma inesperada surpresa. Engoli seco, confuso, e observei o relógio sobre a porta da cozinha. Não havia passado sequer um segundo desde que me levantei e olhei pela primeira vez. Ouvi uma risada aguda ressoando pelos meus ouvidos e, quando olhei novamente para o homem, ele havia desaparecido. Karina continuava dormindo, com sua expressão de desconforto, sobre o sofá.
Antes que tivesse qualquer reação, um par de mãos brancas como leite surgiu diante do meu rosto, advindas da escuridão da sala de estar, e aplaudiram duas vezes, rapidamente, o que me fez dar um sobressalto assustado, arregalando os olhos e dando um pulo surpreso para trás. Então eu acordei, pulando da cama, molhado de água da chuva que entrava pela janela aberta e era empurrado pelo vento violento de verão.
Do outro lado da janela, rente ao poste de luz, não havia ninguém além da rua vazia. No relógio já passavam das quatro. Suspirei. Quando cheguei à sala, encontrei Karina, com a mesmíssima expressão de desconforto, suando frio e se contorcendo no mais profundo de seus sonhos. Sempre foi tarefa impossível acordá-la de seus sonhos longos, o sono de Karina era incólume, não importava o que se passasse ao seu redor, ela sempre dormia profundamente, e só acordava quando seu corpo estava pronto. Vê-la naquela situação, atormentada no mundo onírico do seu subconsciente, me desesperou. Engoli seco, assustado, e pensei por alguns segundos. Tentei acordá-la na maneira convencional, chacoalhei-a, abri seus olhos, chamei seu nome, mas nada. Então, diante do fracasso iminente, agi impulsionado por meus próprios sonhos, e bati palmas duas vezes diante do seu rosto, tal qual as mãos brancas fizeram comigo, e pude ver Karina saltando do sofá, assustada, desperta do seus pesadelos.
Ela me encarou, com olhos profundos e convexos, ofegou continuamente, me envolveu num abraço apertado e desandou a chorar, tão tormentosa e tão molhada quanto a chuva que acontecia lá fora. Olhei para a janela do meu quarto mais uma vez antes de dormir, mas não havia nada além do poste de luz na rua, vazia e solitária.
Dona Dita me convidou para ajudá-la na preparação do almoço, já que me viu descansando entre o intervalo da organização dos livros e cuidados do jardim. Léo nos observou atentamente de cima da escada, onde havia se tornado seu local frequente, observando toda a casa e seus curiosos moradores com olhos atentos e enigmáticos, enquanto fuxicava na sua coleção de selos ou lia algum livro qualquer, e sorriu, me mandando um aceno carismático.
Enquanto a velha senhora mexia nas enormes panelas de barro, com um lenço vermelho enrolado na cabeça e um avental cheio de colheres e prendedores, me incubiu de ir a dispensa e trazer algumas verduras e legumes para o jantar, mas pediu cuidado excessivo ao transportar as mandiocas porque (Nas suas próprias palavras): “mandioca se cai amarga que vira puro fel”. A dispensa ficava aos fundos da cozinha, ao lado da porta que dava para o quintal norte do casarão, onde se estendia a porção virgem de mata, intocada e inflexível, de onde, em outros tempos, Léo surgiu, trazendo consigo muitas dúvidas e certa comoção. Sua volta a casa provocou um verdadeiro revestrés no dia a dia dos Padilha: demoraram-se a acostumar com sua presença, sempre ácida e irônica, trazendo um lado mais “vilanesco” aos dias excessivamente bons na rua Cornélia, o que, em vez de atrapalhar, só acentuou a excentricidade da experiência de se trabalhar e viver ali. A constância de Léo nos dias de Dona Ana só foi um problema incômodo nos primeiros dias, pois, com o passar do tempo, a matriarca já estava procurando-o quando precisava de um favor que só ele podia resolver, ou perguntando de seu paradeiro na hora do jantar, quando ele não se encontrava à mesa. Élio, por outro lado, parecia evitar o primo com a mesma ferocidade que ele costumava me evitar no começo. Só estava onde Léo não estivesse e, quando juntos, empurrava a fechava a cara, calando-se por completo e se fechando nos próprios pensamentos, o que parecia divertir Léo em demasia, já que estava sempre rindo das expressões do primo.
Eu acabava ficando no meio dessas disputas familiares incessantes. Nunca soube como reagir quando eles começavam a brigar e arguir argumentos e questões pessoais, que não me diziam respeito (Mas que eram bem interessantes). Dia desses ouvi dona Ana e Léo, trancados na biblioteca, discutindo tão alto que os quadros das paredes estavam tremendo com os gritos:
— Ele não pode tomar meu lugar, tia. Não é assim que as coisas funcionam, a senhora sabe.
— Você foi embora Léo, o que esperava? Essa casa precisa de um Élio. É o que a mantém viva, você sabe — ela exclamou, convicta — Demorou muito para o Henrique se acostumar e se tornar quem ele é hoje, não é justo com seu primo você chegar aqui exigindo um posto que há muito você abdicou. Não é como se tivéssemos simplesmente ignorado você. Não! Você foi embora.
— Porque isso faz parte de mim, tal qual ser um Élio — ele respondeu, com um tom choroso acentuado na voz — Eu nasci para conhecer o mundo, não para ficar enfurnado na rua Cornélia pro resto da minha vida, vivendo como um fantasma, enclausurado numa casa cheia de lembranças.
— É? Não duvido disso. Você é o que você é, mas, então, porque está fazendo tanta questão disso? Aceite que Henrique é o novo Élio e você agora pode ser o Léonardo — ouvi o som de algo sendo jogado contra a parede, o que me surpreendeu e fez, por um instante involuntário, correr em direção à biblioteca, pronto para separar alguma coisa mais séria, mas me contive quando vi Léo abrindo a porta. Seu rosto estava vermelho, cheio de lágrimas, e as mãos trêmulas. A camisa de botões estava meio aberta e pela fresta surgia um brilho azulado, que girava em si mesmo sobre o peito de Léo, como uma roda constante, movida à energia.
— Não é sobre ser um Élio, tia. É sobre nunca ter significado nada para essa família e ser trocado na menor das inconveniências. Ah mim não importa deixar de ser algo que eu nunca quis ser, pra começo de conversa, mas sim por ter sido tão rápido… e tão fácil para vocês — Léo abriu um sorriso forçado e encarou dona Ana dentro da biblioteca, com o rosto completamente marejado — Quem eu sou para essa família, agora? Ninguém. Não consigo nem reivindicar o posto que eu tenho direito.
Ouvi um suspiro profundo e, por um instante, foi como se uma garrafa de perfume de lavanda tivesse sido liberada pela casa, com um cheiro tão doce e tão profundo que enjoava e embrulhava o estômago.
— O que você quer, Léonardo Élio?
— Eu quero ser quem eu nasci pra ser, mas também quem eu desejo ser.
Dona Ana riu.
— E eu quero que faça frio, mas também que faça calor — disse, ironicamente — Essas coisas não se completam: ou você quer ser o Élio ou quer ir embora para conhecer o mundo.
Antes que Léo pudesse responder, ele observou, de canto de olho, minha presença ao lado da escada. Abriu um sorriso apagado e deu as costas a mim e a dona Ana, sem maiores delongas, desaparecendo pelos corredores do casarão tão rápido quanto possível. A matriarca da família apareceu à porta, me cumprimentou, pediu licença e fechou.
Guardei a mandioca e as batatas na enorme mesa de madeira da cozinha, onde dona Dita dipos suas panelas de barro, utensílios gerais e um cesto cheio de cebolas e cabeças de alho. Sobre nossas cabeças havia um cacho de bananas-verdes, preso à viga do telhado, e alguns paios avermelhados que enchiam a cozinha de um agradável aroma de defumado. A senhorinha de olhos escuros me entregou uma faca e uma bandeja e pediu que picasse as batatas para o cozido.
— Ouvi o trem hoje de manhã — afirmei, tentando puxar assunto, enquanto descascava as batatas. Dona Dita estava de costas pra mim, concentrada no seu adorável fogão à lenha, onde seus caldeirões de feiticeira e suas panelas de cozinheira se encontravam no melhor dos dois mundos. Borbulhas saíam de uma enorme panela de ferro preta como ébano, com um cheiro doce caramelizado — Ele tem passado todos os dias essa semana. É sempre assim?
Dona Dita tirou a colher de pau do cozido na panela de barro, colocou na palma da mão, provou e fez uma careta pensativa.
— Sal — e, no mesmo instante, virou uma colherada de sal na panela — É, é assim mesmo. Ele só passa quando tem precisão dele passar — ela afirmou, convicta — Deve estar esperando alguém — e com um olhar aturdido, juntou as mãos em prece e fez o sinal da cruz — Deus ajude que não seja o meu menino. Ele já esteve longe por tempo demais.
— Esperando alguém? Isso não me parece fazer muito sentido — respondi. Dona Dita riu em ironia.
— Se alguém fica rondando sua casa e batendo palma no portão — ela me encarou, convicta — Com certeza é porque esperam que você saia, não é?
— Tem razão.
Dona Dita deu uma risada, meio de bruxa, meio de velha, e voltou aos seus cozidos e poções. Pensativo, tornei a cortar as batatas, mas com minha atenção voltada ao trem e a sua continuidade na rua Cornélia.
— Quem será que ele está procurando? — questionei. Ela suspirou.
— Não sei se tão procurando. Acho que estão só esperando — ela respondeu — Quem que for pegar o trem, sabe bem desse destino — ela se virou para mim, com uma expressão desgostosa — Agora pode picar as batatas, por favor? Fico o dia inteiro esquentando o umbigo no fogão e não consigo nem sequer uma ajuda que não fique me atazanando!! — exclamou, amarga. Dona Dita ficava tão engraçada irritada que não importava o despeito que ela falasse, seria sempre razão para que eu risse. Voltei-me à tarefa, picando as batatas e com os pensamentos além daquela cozinha na rua Cornélia.
Zózimo estava entre Zoroastra e Adalgisa nos livros alfabeticamente catalogados de Dona Ana. “Zózimo, o zelador dos sonhos”, era o título do calhamaço de capa vermelha, com desenhos de chaves em alto relevo dourado por todos os lados. Estava tão empoeirado que quando abri parecia que havia trazido o Saara para dentro da biblioteca, tornando até mesmo o clima mais seco que o habitual. Não era um livro informativo, mas sim um compilado de historietas assinadas por (E nada surpreendentemente saber desse fato) José Élio Padilha, sob o pseudônimo nada discreto de “O Sonhador”. Chacoalhei a cabeça, em desdém, com a comicidade daquele fato, e comecei a folhear o livro, passando rapidamente os olhos pelas histórias do grande herói alcunhado Zózimo, outrora um mero zelador de um hospital, que acabou entrando nos sonhos de uma garota em coma, por razão de uma feiticeira que usava mangas esvoaçantes e jóias de ouro. Seu nome era engraçado, marcante e extravagante, algo como…
— Nazira Bartuli. Era o nome da diva e da megera. Era uma mulher com classe, mas muito ranzinza, de olhos vermelhos como tal é o diabo, tão má e tão cunhosa quanto o senhor do inferno — por fruto de puro despeito de Nazira, que gostava de fazer malvadezas por fazer, Zózimo foi sugado para dentro dos sonhos da jovem, que detinha um antigo e misterioso poder de controlar o mundo onírico ao seu redor, também vindo da feiticeira, que se compadeceu ao conhecê-la e saber que ela viveria para sempre no mundo da própria mente, alheia a própria vontade — Nazira Bartuli não era só má, era caótica. Fazia bondades travestidas de maldade. Convenceu a si mesma que dar a jovem o controle total dos sonhos seria uma boa azaração e tormenta dos seus dias, mas conseguiu mesmo foi fazer com que ela pudesse viver uma vida nos próprios devaneios, consciente e feliz. Só que com o tempo Nazira ficou entediada e atraiu para a órbita onírica da garota o zelador do hospital, que teve todo seu corpo transformado em pura matéria de sonhos e devaneios. Zózimo e a jovem tornaram-se excelentes amigos, passavam o tempo jogando xadrez e contando boas histórias, mas um dia ela se cansou de sonhar e decidiu que ia se desprender do próprio dom. Foi então que, na ausência da moça, Zózimo ascendeu como patrono dos sonhos, e, como não havia corpo físico que o prendesse dentro da própria mente, passou a poder viajar entre os devaneios de qualquer pessoa, fazendo uso das próprias chaves que em outros tempos trancaram e abriam o sanatório, e das luvas brancas que compunham seu visual exótico e lhe permitiam despertar qualquer pessoa.
— Adoro essa história — Élio disse, surgindo entre as prateleiras inesperadamente — Zózimo era um homem sozinho e Ela lhe deu uma amiga, se convencendo de que estava lhe atormentando. Essa dualidade dela é muito interessante, não acha? Às vezes ela é verdadeiramente má, mas às vezes ela faz umas bondades, acreditando piamente que são maldades.
— Nazira Bartuli?
— Primeira mulher, primeira bruxa — ele sorriu — É uma personagem constante nas histórias da rua Cornélia, bem como o Zózimo. Com o tempo eles meio que se tornaram “nêmesis”. Zózimo representa os sonhos e Nazira os pesadelos, mas isso é outra história do José Élio — Élio foi apalpando pelas prateleiras até encontrar uma cadeira para sentar e sentou-se, segurando um livro escrito em braile.
— E o que você está lendo?
— As Mil e Uma Noites — respondeu, com um sorriso — Eu costumava ler no quintal, mas com o Léo lá fica muito barulhento. Ele é cheio de tiques, odeia ficar em silêncio. Parece uma criança peralta.
Aquela era a primeira vez que ouvia Élio mencionar o primo, em um tom amigável e sem despeito, mágoa ou acidez, o que me fez abrir um sorriso sincero e aliviado. Era óbvio que tudo que se perpassou não era nada além de picuinha comum de qualquer família que se ama e, com o tempo, se curaria, como qualquer ferida. Léo não era perfeito, mas estava longe de ser uma pessoa ruim. Ele era como… Nazira Bartuli.
— Me pergunto como essa Nazira Bartuli veio parar aqui. Ela parece mais uma personagem comum das Mil e uma Noites que da rua Cornélia — afirmei. Élio jogou a cabeça para o lado, pensativo, e coçou a orelha.
— Muitas coisas e pessoas incomuns vêm parar aqui. A Rua Cornélia atrai excentricidades — Élio fechou o livro, pensativo — Mas eu tenho uma teoria quanto a Nazira Bartuli.
— Qual?
Ele sorriu.
— No corredor das fotografias, embaixo da fotografia da igreja queimada e ao lado da pintura da Valise Padilha — ele afirmou, convicto — Você vai achar uma fotografia e um mapa emoldurados juntos. Pega lá, por favor.
Não tinha certeza da propriedade de Élio em se lembrar dos lugares e das fotografias que compunham as paredes do casarão, mas não queria contrariá-lo. Meio desconfiado, fui até o lugar indicado e procurei entre as pistas dadas. A fotografia em preto e branco da igreja queimada tinha um ar de vazio e solidão, pois não havia nada além das chamas e dos destroços. A pintura de Valise Padilha tinha um ar soturno, meio noctívago e vampiresco, com um olhar pecaminoso sem sobrancelhas que parecia seguir e observar tudo que estivesse ao seu redor. Entre ambas havia lá, como dito com toda convicção por Élio, uma belíssima fotografia, com um ar antiquíssimo, de um navio aportado próximo à margem de um rio, com cinco homens barbudos e magricelas encarando o fotógrafo com olhares de angústia e medo. Abaixo do retrato, a legenda escrita com letra cursiva:
“Travessia do Rio Grande até onde deus puder levar, por Vivêncio Élio Padilha e companhia”
— Vicêncio Élio Padilha — Élio exclamou, sorridente, assim que ouviu meus passos na biblioteca — O Élio-nauta. Dizem que em 1890 ele comprou um navio de mar movido a vapor, juntou uma tripulação e foi desbravar o Rio Grande.
Acabei dando uma risadinha irônica, segurando a foto entre os dedos.
— Tem algum Élio que não tenha sido megalomaníaco? — questionei. Ele riu — Como esse navio chegou aqui?
— Pelo trem. Demorou dez anos até que ficasse pronto, pois ele veio desmontado — ele respondeu — E o trem fez pelo menos umas sete viagens até trazer todas as peças, de Santos até a rua Cornélia — Élio fez uma pausa e se ajeitou na cadeira, pensativo — Tem um desemboque do Rio Grande aqui perto, no fim da mata, que acaba virando o córrego. Eles montaram o navio e foram navegando de lá até Nepomuceno e de Nepomuceno foram seguindo o Rio Grande, passaram pelo Paraná, Uruguai, Argentina e Paraguai… Depois desapareceram. Levaram dez anos para colocar o navio no rio e ficaram mais dez anos navegando. Em 1910 ele retornou da sua viagem longínqua, depois de ser dado como morto, dizendo ter dado a volta ao mundo. O último lugar que ele passou foi no Líbano e desembarcou aqui, sem saber como, com outras sete pessoas, uma de cada canto do mundo, inclusive uma esposa russa, chamada Anya Ivanova.
— Devo dizer que esse é o nome russo mais clichê que já ouvi? Tipo, Anastácia Romanov estava em uso?
Élio revirou os olhos, irritado, e suspirou.
— Para de ser descrente. Você não viu as pessoas que moram aqui? São todas diferentes. Sabe por que? Porque são descendentes dos brasileiros com esses sete tripulantes do mundo lá fora.
— E a Nazira Bartuli veio daí?
Ele deu de ombros, surpreso.
— Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Muito provavelmente não, pois a lenda dela vem desde antes… Mas acho que ela se assentou aí. Ganhou nome, mais delineados, pois a chegada da tripulação, segundo umas cartas do Élio-nauta, coincidiu com uma disputa de conhecimentos de feitiçaria entre uma bruxa japonesa que estava na tripulação, Izanami, e uma feiticeira local, que usava mangas esvoaçantes e jóias barulhentas. Nazira Bartuli, primeira mulher, primeira bruxa.
Ergui uma sobrancelha, pensativo.
— Faz sentido. Esse navio me parece um dos segredos, você não acha?
— Verdade — Élio coçou a nuca, pensativo — Quantos segredos nós já descobrimos?
Nós. Ele disse nós. Quando foi que nos tornamos nós? Não sei, mas isso me fazia feliz. Esbocei um sorriso tão bobo e intransigente que por um momento corei de vergonha com a ideia de que Élio percebesse, mas no fim… Eu o vi sorrindo também.
— Não sei, alguns. Deveria registrá-los em algum lugar, mas de uma maneira direta, sabe? — observei os calhamaços que me rodeavam na enorme biblioteca de dona Ana e suspirei — Não criar uma biblioteca cheia de coisa, escondendo os segredos.
Élio sorriu.
— O que você sugere?
Olhei para ele, observando seus delicados cachos esvoaçando na brisa mágica, exteriorizando seus sentimentos mais profundos.
— Eu ando desenhando algumas cenas que eu imagino dos segredos no caderninho que sua avó me deu — respondi — Mas queria uma maneira que você pudesse perceber também.
Élio coçou os calcanhares.
— Bem, podemos pensar em alguma coisa — Élio volveu a mim e fez uma mesura delicada, percebendo exatamente onde me encontrava — Por exemplo, posso não te enxergar, mas consigo sentir seu cheiro e ouvir os batimentos do seu coração.
Arregalei os olhos, surpreso com aquela informação.
— Você consegue ouvir meus batimentos? — ele sorriu.
— Agora melhor do que antes, agitado como está.
Olhei para ele, sem palavras. Ele pareceu ler facilmente a tempestuosa tormenta sentimental que transparece no meu coração, mas guardou para si com um olhar minucioso e certeiro.
— Uma das coisas que a Cornélia disse, anos e anos atrás, era que quem descobrisse e conseguisse reunir todos os segredos poderia mudar uma coisa no mundo — ele afirmou, convicto — Parece realmente bom demais pra ser verdade, não é?
Me recostei ao seu lado, na cadeira da biblioteca, e suspirei colocando as mãos na nuca, enquanto um zilhão de possibilidades de coisas que eu poderia mudar atravessou meus pensamentos. Suspirei.
— É. Que foda — respondi, meio descrente — Mas as coisas aqui não estão muito atreladas na verdade, não é? As excentricidades, que parecem mentiras, tornam a rua Cornélia o que ela é.
Élio ergueu uma sobrancelha.
— Então você notou as excentricidades — ele afirmou, em ironia — Achei que nunca fosse comentar comigo, pelo menos não usando essas palavras.
Encarei Élio, confuso.
— E por que achou isso? — ele riu.
— Porque a maioria das pessoas simplesmente aceita as excentricidades como parte da realidade. Eu, vovó, tia Dita, Léo e toda vizinhança inclusa — ele fez uma pausa pensativa e logo interveio — É um efeito que a grande maioria dos meus antepassados tentaram explicar: como a realidade fantástica da rua Cornélia nos hipnotiza a ponto de tudo que é absurdo ser tão… notável e, ao mesmo tempo, crível.
— Realidade fantástica — repeti — Essa sim é uma expressão que descreve perfeitamente a situação dessa rua.
Élio deu uma risadinha e tocou meu ombro com as pontas dos dedos, o que me fez corar.
— Se você reunisse todos os segredos, o que você mudaria no mundo?
Olhei pra ele, sem palavras. Sua expressão era tão agradável e tão gentil que nem parecia o mesmo garoto ácido e venenoso que até outrora ficava me tratando com desdém e maldade. Depois, olhei para dentro de mim mesmo, e eviscerei todos os meus pensamentos mais íntimos em busca de uma resposta apropriada, mas não sabia, não agora. Ninguém devia ter o poder de mudar o mundo, muito menos um adolescente cheio de traumas.
— Não sei. Acho que ia dar um jeito de curar minha mãe e minha irmã.
Élio deu um risinho.
— Muito egoísta da minha parte?
— Não. Só curioso.
— O que é curioso?
— Como você não se coloca em primeiro lugar. É sempre assim com você? Está sempre cuidando de alguém?
— Mais ou menos. Eu tenho obrigações.
— Quem disse?
Suspirei.
“Você tem que ser o homem da casa agora”, ouvi papai dizer nos meus pensamentos mais flutuantes.
— Fantasmas me disseram.
Élio apertou meu ombro.
— Fantasmas nos dizem muitas coisas — ele respondeu e se voltou a mim — Mas, no fim, o que importa são os vivos. Você está vivo, Gustavo. Não precisa carregar o mundo nos seus ombros. Eu sei como é isso e não desejo para mais ninguém, muito menos para você.
— Certas coisas não são opções na nossa vida, Élio.
Ele me olhou uma última vez e sorriu, entristecido, depois, ergueu a mão e tocou com as pontas dos dedos no meu rosto, tateando cada detalhe e cada traço, até encontrar uma lágrima rebelde e fauja que atravessava minha bochecha, o que o fez recuar um instante, surpreso, mas logo continuou seu toque macio e suave.
— Você é uma criatura linda, Gustavo. Desculpa se em algum momento eu disse o contrário. Era puro despeito.
Aquilo me fez sorrir, inesperadamente, e foi munição o suficiente para que mais lágrimas tomassem meus olhos e escorressem sobre minha face como uma tempestade visceral e salgada. Élio se deteve quando sentiu minha respiração mais pesada com a tristeza do choro, mas em seguida envolveu sua mão no meu rosto e fez uma carícia gentil.
— Ainda quero dançar um dia com você. Uma dança bem lenta — ele afirmou e sorriu — E vai ser no dia que nós reunirmos todos os segredos.
— Promete?
Ele sorriu.
— Que vamos reunir os segredos ou que vamos dançar uma música lenta?
— Que você não vai achar que eu não gosto de você.
Houve um silêncio eterno e tormentoso, como se toda rua Cornélia se calasse diante daquela pergunta. A cena se consolidou com o rosto de Élio erguido na minha direção, como se ele pudesse me enxergar, tão intimamente como se visse dentro de mim e tomasse minha alma para seus pensamentos mais profundos. Ele sabia que eu estava olhando para ele.
Então ele sorriu, um sorriso que falou mais que qualquer afirmação. E assentiu, mesmo sabendo que não precisava disso.
Foi então que lhe envolvi no nosso primeiro beijo. Algo entre o elétrico e o sádico. Foi como se ele não estivesse esperando, mas havia se pego tão surpreendentemente satisfeito que não queria afastar nossos lábios sob nenhuma razão. Fechei meus olhos e senti a respiração quente de Élio sobre minhas bochechas, enquanto meus cabelos se encontravam com os dele e dançavam com a magia da brisa fantasma que até então eram sua excentricidade. No silêncio da rua Cornélia, observados por fantasmas e carregados por ventos mágicos, nos envolvemos um no outro, tão inocente quanto um primeiro beijo poderia ser, nossos lábios se deliciaram na doçura um do outro, nossos corações batiam no mesmo ritmo e nossas respirações exalavam diferentes temperaturas: a dele quente, como seu próprio coração, e a minha fria, como meus próprios medos. Adrenalina pura corria pelo meu sangue e agitava meus órgãos numa eterna odisséia de amor e tato. Élio desbravava minhas costas com seus dedos quentes, enquanto os meus acariciavam sua nuca e lhe causava alguns calafrios.
Então ele se afastou de mim, abriu os olhos e me presenteou com o sorriso mais lindo que já vi em toda minha existência: sádico, selvagem, fugaz, prófugo e tocante; e, em complemento ao sorriso, debruçou um olhar, aquele olhar que eu tanto havia ouvido falar: olhar de mata, meio desconfiado, meio triste, com uma beleza que não existe em nenhum outro, que enxerga tudo, mesmo o que se passa despercebido. e, por um curto instante, acreditei que Élio conseguia me ver.
— Élio? — chamei.
— Gustavo. — ele respondeu.
Fale com o autor