Todos os Segredos da Rua Cornélia

8 Capítulo 8 - Uma Saída para a Maldição


Foi uma das epifanias mais aleatórias da minha vida. Estava regando as beladonas do jardim, com a mente desligada, pensando aleatoriedades como abelhas e borboletas, enquanto Lady Sienna e Geni debatiam sobre qual flor tinha o veneno mais letal, quando me peguei fazendo uma pergunta acidental, que surgiu entre meus pensamentos mais fortuitos:

— Onde a Nazira Bartuli encontrou um hospital para atormentar?

Lady Sienna e Geni se entreolharam, confusos com o imediatismo daquela questão, e me encararam em seguida.

— Havia um hospital na rua Cornélia, lá pros anos trinta — uma voz fortuita e grossa falou além dos muros do casarão. Consegui perceber só a ponta do chapéu panamá passando despretensiosamente sobre a mureta de pedras cinzentas, até chegar perto do portão de aço, onde o tabelião Rodolfo me cumprimentou com um gracejo educado — Peço perdão pela intromissão, senhor Gustavo, estava passando e ouvi seus pensamentos.

Deixei o regador de lado e estendi a mão para cumprimentar o excêntrico e educado senhor, que tinha polido seu bigode negro e desenhado perfeitamente a barba e o cavanhaque. Usava roupas “mais leves”, mas ainda de alto rigor social, se abstendo apenas de usar o terno que normalmente compunha seus visuais.

— Tabelião Rodolfo — cumprimentei com um olhar curioso — O que o senhor disse sobre um hospital aqui? — ele assentiu com convicção.

— Não era um tipo comum de hospital. Me recordo desse fato pois a senhora minha mãe, ou talvez minha avó… Quem sabe minha bisavó? Não, definitivamente não era minha bisavó — o tabelião Rodolfo pensou e pensou, perdido nas próprias lembranças, encarando cada uma das mulheres de sua ascendência. Enquanto pensava, seu bigode mexia, para cima e para baixo, como um compasso musical — Enfim, quem quer que seja, antes de ter seus oito filhos como manda a tradição, trabalhou como enfermeira aqui, na rua Cornélia, nesse dito hospital — ele afirmou, convicto, com o bigode dançando mais suavemente — Na verdade, o nome adequado seria asilo. O asilo dos sonhos. Era um lugar singular, na parte mais ocidental da Rua Cornélia, praticamente no meio da mata. Quem idealizou foi um senhor… Deixe-me ver se lembro seu nome…

Observei curiosamente, com meus pensamentos tomados por epifanias, gritos profundos nas minhas memórias, que diziam coisas que eu não conhecia.

— Élio? — questionei. O tabelião me encarou, pensou por alguns instantes e abriu uma expressão surpresa.

— Não, na verdade… Marco Aurélio. Mas ele tinha um irmão chamado Élio, o nauta — respondeu, convicto, com uma expressão cheia de nostalgias — Ele havia desenvolvido uma técnica única para tratar a grande maioria das doenças: o sonho induzido.

— E o que isso fazia, exatamente?

Ele me observou, com os bigodes farfalhando.

— Segundo o que minha… parente feminina distante… costumava contar, eles levavam seus pacientes ao estado de sonho, para que assim curassem os seus males, por meio deles mesmos. Ele usava um tipo de gás do sono com efeitos diferentes do habitual, que ninguém sabia a origem, mas que dava às pessoas sonhos longos, vívidos, que eram fortes o suficiente para quebrarem a barreira dos sonhos e visitarem a realidade — afirmou — Os pacientes dormiam por dias e mais dias, às vezes meses, e quando acordavam estavam recuperados.

Ergui as sobrancelhas, descrente.

— O que? — e foi tudo que eu consegui dizer. Rodolfo só assentiu e continuou a contar, com olhos furtivos e bigodes parados.

— É. Parece absurdo, mas dizem que funcionou, até certo ponto pelo menos.

Encarei o tabelião, curioso.

— E o que aconteceu depois desse certo ponto?

Ele engoliu seco e coçou a nuca, meio desconcertado, e respondeu:

— Cada dose que você tomava te fazia dormir por mais tempo, até o momento em que as pessoas deixaram, inclusive, de acordar — ergui as sobrancelhas, surpreso e chocado. O sentido da megalomania dos Élios era certeiro quase sempre. Não havia indivíduo dessa espécie de homem que viesse ao mundo para passar despercebido, sem fazer algum rebuliço — Então o asilo, com o tempo, se tornou um centro de cuidados para pessoas em coma… Um estado que o próprio Marco Aurélio induziu nos pobres pacientes.

Nos entreolhamos, surpresos e sem palavras. Talvez isso explicasse a existência de Zózimo e da garota que vivia nos próprios sonhos. O Asilo dos Sonhos era o local perfeito para a existência de uma entidade que habitava os sonhos, como o zelador, bem como um local ideal para que Nazira Bartuli realizasse duas diabruras de bruxa e mulher.

— E o que aconteceu com o hospital? — questionei. O tabelião olhou ao redor e se aproximou de mim, através das grades do portão, como se fosse me segredar algo, e disse:

— Foi abandonado. Houve um incidente, um dia, que fez com que todos os que estivessem acordados fugissem — ele respondeu — Mas eu nunca soube o que foi. Minha mãe não estava trabalhando no dia e só soube mesmo que ninguém ia voltar pro asilo. E realmente não voltaram.

— Mas e a estrutura? Do hospital, sabe, onde foi parar? — o tabelião deu de ombros, com uma expressão desalentada, e respondeu:

— Não tenho ideia. Deve estar por aí, pela mata — e se voltou a mim com um olhar curioso — Mas por que o senhor demonstrou tanto interesse pelo assunto tão inesperadamente?

Olhei para ele, irritado com o fato de que alguém que estava ouvindo pensamentos alheios pela parede tivesse tanta pretensão em perguntar tal coisa, mas só respondi que era apenas curiosidade em descobrir mais sobre a história da rua Cornélia, e ele pareceu acreditar. Quando o tabelião finalmente desapareceu rua afora, Lady Sienna e Geni surgiram num piscar de olhos e me encararam.

— Que gajo curioso — ela disse, alisando as unhas com uma lixa fantasma — Certamente, mais cultivou dúvidas que semeou respostas.

— Geni, esses acontecimentos são mais próximos da sua época de vivo. Você sabia desse tal asilo? — questionei. Geni se recolheu em pensamentos, debruçado na pilastra da varanda, e negou.

— Nem tanto. Eu tinha no máximo dez anos nos anos trinta, menino — ele respondeu — Mas, sabe, esse nome que ele disse… Asilo dos Sonhos. Já ouvi isso antes… ou melhor, li.

— Eu também — respondi, com mais uma epifania momentânea. Encarei os fantasmas um último instante e corri para dentro do casarão, à procura de uma fotografia específica no corredor repleto de faces e paisagens registradas pela família Padilha. Logo abaixo de uma fotografia de José Élio ao lado de uma máquina de escrever, o semblante cansado de cientista louco de Marco Aurélio Padilha, acompanhado de três enfermeiras usando branco, segurando frascos redondos como modelos em propaganda de perfume. Estavam diante de uma parede monocromática, cuja cor se perdeu no tempo. — Impressionante como cada geração está registrada aqui, cada um dos Élios e cada uma das mulheres da família Padilha. Parece até uma tradição — pensei. Dona Ana surgiu às minhas costas, com uma camisola preta em mãos, e me encarou, surpresa.

— Gustavo! — ela exclamou — O que faz aqui?

Olhei para ela, confuso com aquela surpresa inesperada.

— Estava trabalhando no jardim, dona Ana — respondi. Ela engoliu seco, meio desconcertada.

— É que hoje é quinta feira. Sabe as regras — ela afirmou. Ergui as sobrancelhas, surpreso, e assenti. A inesperada revelação de Rodolfo me fez esquecer que hoje era o dia em que a casa devia se encontrar em absoluto silêncio e absoluta paz, pois a matriarca da família se trancava no seu quarto e não o deixava por nada até que o dia acabasse.

Me desculpei com dona Ana e pedi licença para que voltasse aos meus afazeres no jardim. A matriarca deu dois tapinhas no meu ombro, sorriu e foi-se esconder dentro dos próprios aposentos.

Aquele traço de excentricidade de dona Ana até aquele momento não fazia sentido algum para mim, mas, mesmo assim, num lugar onde garotos podiam conjurar tempestades, zeladores viajavam nos sonhos e gatos faziam revoluções, uma senhora se recolher para uma sesta que durava um dia todo parecia o mais normal possível. Naquela fatídica tarde, em que, por razão da minha eterna investigação da rua Cornélia, dona Ana me encontrou dentro da casa, quando o normal era que ficássemos todos do lado de fora até que ela dormisse, senti que, por um descuido da própria, algo seria diferente e a razão que explicava aquele desaparecimento semanal da matriarca se revelaria. Quando voltamos à casa, acreditando que ela já há muito havia dormido, por um descuido da própria senhora, ouvimos a porta do quarto se entreabrir lentamente, com um rangido estridente que doeu nos meus ouvidos. Estava sentado na sala, na companhia de Élio, que havia se tornado ainda mais próximo de mim desde nosso beijo, mas ainda preferíamos, naquela época, manter segredo quanto nossa ligação, quando, do alto das escadarias, do quarto de dona Ana, com o bater da porta, nossas atenções se voltaram para aquela misteriosa aparição.

Ergui meus olhos de imediato ao ouvir o som da batida. No último degrau observei o balançar frenético de um tecido preto sedoso, que era carregado magicamente pelos ares e levitava através da escadaria, degraus abaixo. Envolta no tecido negro, que mais tarde se revelou a camisola que segurava outrora, dona Ana flutuava, como um anjo, deitada, com os braços cruzados sobre o peito. Sua feição era tão angelical e juvenil que foi como se tivesse pelo menos vinte anos a menos, tornando-se o que um dia fora antes da terceira idade. Seus cabelos não acompanhavam o flutuar do resto do corpo, então se arrastavam pelo chão e onde tocavam libertavam um curioso brilho prateado, tal qual suas madeixas grisalhas. Dona Ana levitou lenta e delicadamente pela escadaria até chegar ao térreo, de olhos fechados, dormindo serenamente, enquanto sua camisola esvoaçava ao seu lado.

Ao pé da escada, a imagem sacra que ela havia se tornado ficou na vertical, pareceu observar a sala, ainda que de olhos fechados, voltou a se deitar, esplendidamente, e continuou a levitar pela casa como uma nuvem flutua pelo céu. Pairou diante de nós, pelo corredor de retratos, pela cozinha, onde dona Dita soltou um xingamento abafado, e pela varanda, até que foi segurada por Léo, que amarrou uma corda nos seus tornozelos e impediu que ela flutuasse eternamente para fora de casa.

Estava tão sem palavras quanto se podia estar. Diante da família Padilha, que pajeava dona Ana submersa nos sonhos flutuantes, ri, nervoso.

— Tá bom. Por essa eu não esperava — foi tudo que pude dizer. Élio deu uma risadinha e deu dois tapinhas no meu ombro — Isso acontece toda quinta feira?

— Aham, é por isso que ela se tranca no quarto e pede silêncio. Qualquer som atrapalha ela pegar no sono e se a vovó não dorme na quinta, ela fica flutuante toda semana — Élio respondeu, sorridente. A naturalidade que ele dizia aquelas coisas me dava certa gastura, mas naquela altura do campeonato tudo que ele dizia, para mim, era mágico.

— É, mas hoje ela não estava trancada e quase foi encontrar com o criador no céu — Léo afirmou, amargamente — O que será que aconteceu?

— Ela deve ter se distraído — respondi, com certa culpa. Léo ergueu uma sobrancelha, desconfiado, e observou os arredores.

— Nunca vi minha tia se distrair a esse ponto. Ela toma muito cuidado com certas coisas — afirmou. Élio esboçou uma expressão de preocupação, em concordância. Peguei rapidamente na sua mão, tentando reconfortar qualquer medo que o atingisse, e senti, imediatamente, uma leve corrente elétrica a percorrer meu corpo, que me fez sorrir, como cócegas.

— O que você acha que pode ter acontecido? — Élio questionou. Léo suspirou e deu de ombros.

— Não sei. Mas vou descobrir — respondeu.

E, no instante seguinte, antes que qualquer um pudesse realizar qualquer ação, ouvimos, tão inesperadamente, o som da buzina do trem, tão alto e tão estridente que foi como se tivesse sido tocada dentro do casarão. Tapei meus ouvidos, irritado com o som alarmante, e olhei os arredores. Élio e Dona Dita se encolheram, tapando os ouvidos tal qual a mim; dona Ana despertou com um sobressalto, e se libertou da flutuação, assustada, caindo de costas no sofá da casa; mas Léo parecia indiferente, como se não tivesse ouvido nada.

Ele ergueu o rosto, com uma expressão que poderia significar qualquer coisa ou simplesmente nada. Havia confusão, havia destempero, e, no fundo de tudo, gritando como um prisioneiro em prisão perpétua, havia medo e desespero. Percebi o rapaz engolindo seco, com uma preocupação latente no fundo dos olhos, enquanto lágrimas escuras tomavam sua face. Ele olhou para dona Dita e dona Dita olhou para ele. E despencou a chorar, gritando piamente “Não! Não! De novo não!”.

E Léo, por sua vez, se encolheu, amedrontado, e também se rendeu ao choro. Olhei para Élio, confuso, e o encontrei preocupado.

— O que foi? — questionei.

— O trem. Está chamando pelo Léo.

“Acho que estão só esperando. Quem que for pegar o trem, sabe bem desse destino” ouvi as palavras de dona Dita, tão distantes e mesmo assim tão próximas, nos meus pensamentos.

— O trem está esperando o Léo — repliquei. Os Padilha ergueram os olhos e me encararam — Todo esse tempo. Ele te trouxe e ele quer te levar embora.

Léo abraçou a avó e se encolheu num canto da sala. Élio ficou do meu lado, enquanto dona Ana se recuperava do súbito despertar provocado pela buzina do trem. O silêncio tomou o casarão, enquanto pensamentos fortuitos e palavras silenciadas amargavam em nossos corações.

— Cada um da nossa família tem sua própria maldição — Élio afirmou, num sussurro entristecido — Alguns demoram mais para encontrar que outros. A maldição do Léo não era clara certa até o dia que ele sumiu pela primeira vez: o trem. Ele sempre volta para buscá-lo. Ele não pode ficar muito tempo na rua Cornélia sem ser arrastado para longe por ele, novamente.

— Sua avó pareceu tão surpresa com a última vez que ele voltou — afirmei — Então isso é algo frequente? — questionei. Élio assentiu, entristecido.

— Sim, só que a situação era diferente antes. O Léo gostava de poder fugir da rua Cornélia e conhecer o mundo, só que cada vez que ele voltava, cada vez menos ele podia ficar em casa. Da última vez houve uma briga feia entre os dois. Acho que minha vó disse que eu assumiria o nome e isso deve ter deixado ele possesso.

— E o que tem de tão especial nisso, Élio? Carregar um nome? — questionei. Élio ergueu os olhos e esboçou um sorriso melancólico.

— Não tem nada. Até então é só uma maldição que se disfarça de tradição familiar — ele respondeu, alisando a palma da minha mão — Carregar um nome… Nunca tinha enxergado por esse lado, sabe? Mesmo sendo o mais óbvio de toda história. Ser um Élio sempre foi ser uma parte da história da nossa família, carregar um destino conjunto que todo primeiro homem da geração nasceu predestinado. Só que alguns…

— Alguns foram destituídos desse posto — Léo completou, insurgente, com olhar choroso — E ser o Élio era a única coisa que me prendia aqui, a rua, a minha casa e a minha família. Eu tenho medo de que perder esse título me faça ficar cada vez mais longe da rua Cornélia e mais preso ao trem, tal qual foi com o Vivêncio Élio.

— O Elio-nauta? — questionei. Léo assentiu.

— Ele era o Élio da geração, até começar a navegar e ir perdendo, pouco a pouco, o elo que o prendia à rua Cornélia, enquanto o irmão dele assumia o nome. Então, ele ficou dez anos navegando, regressou e mal pode ficar um mês com a família, até que o navio o buscou, novamente. E ele sumiu, dessa vez pra sempre — Léo afirmou, choroso. Dona Dita havia se retirado para descansar, acompanhada de dona Ana, que lhe prestava auxílio e se compadecia de seus medos e aflições para com o neto.

— E não tem nada que a gente possa fazer? — questionei.

Élio e Léo trocaram olhares fraternais antes de me encararem. Foi como se uma força invisível me atravessasse e lesse no mais profundo da minha alma.

— Não tem como mudar o destino, Gustavo — Élio respondeu, entristecido. Léo concordou com um olhar apagado. Ergui meus olhos, surpreso, com um comichão de epifanias na cabeça.

— Nem com a reunião de doze segredos?

E então, observei as expressões dos primos se abrilhantando com uma luz de esperança pífia, pequenininha, como quando a pilha de um brinquedo está acabando, mas ainda resta um pouquinho no fundo. Os olhos de Léo me encararam, enquanto a boca de Élio se torceu num pequeno meio sorriso de lado.

— E você acha que é possível? — Léo questionou, descrente. Dei de ombros, meio dissuadido. Parte de mim achava que era só uma lenda boba, mas algo lá no fundo me fazia acreditar que era a única saída, como uma vozinha gritando, mas abafada por paredes espessas de desesperança.

— Rua Cornélia não é conhecida por ser um lugar de poucas possibilidades — respondi, tentando forçar uma convicção que eu mesmo não tinha — E tem algo que nós não percebemos — Léo encarou Élio e voltou seu olhar para mim, curioso — Tem uma pessoa que reuniu os segredos e nós não percebemos.

Élio ergueu uma sobrancelha, confuso, enquanto Léo suspirou.

— Quem? — Élio questionou. Dei um meio sorriso animado.

— Dentre os Élios e os narcisistas, o Sonhador — afirmei. Ao longe, na parede de retratos, a fotografia em polaroide do Élio sonhador balançou com o peso daquela descoberta. Élio e Léo pareceram alegremente surpresos, mas meio confusos.

— José Élio? — Léo questionou, afobado — Como você pode ter certeza disso?

Olhei pra ele e suspirei. Minha expressão revelava toda a minha incerteza, dando obviedade ao fato de que trabalhava unicamente com minha esperança nas minhas teorias.

— Ele reuniu os segredos, de um jeito ou de outro. Ele escreveu livros, contos, que remontam toda a história que ronda a Rua Cornélia — esbocei um sorriso animado ao observar as expressões dos primos tornarem-se mais brandas — Os gatos camaradas, Zózimo, o zelador de sonhos, Nazira Bartuli, mais mulher que bruxa… são todos personagens dele e, certamente, parte da história dessa rua. Sem contar as odisseias dos próprios de sua família, que ele contou e reuniu. Muito do que nós sabemos hoje, sobre o passado, vem dos livros dele.

— Bem, isso é verdade — Élio interveio — Mas nunca tinha pensado por esse lado.

Olhei pra ele, sorridente. Sua expressão calma e esperançosa me dava calafrios agradáveis.

— Pensem bem: o cara escreveu livros, contos e todo tipo de coisa sobre a história da rua, conscientemente ou não, em determinado momento ele reuniu cada um dos doze segredos.

Léo me encarou, incrédulo.

— Não foi ausente de consciência — ele afirmou, perplexo — Ele sabia o que estava fazendo.

— Por que tem tanta certeza? — questionei. Léo deu um sorrisinho, o primeiro que abriu desde a buzina do trem.

— Porque ele mudou uma coisa no mundo. A coisa que mais o amaldiçoou: Michelina.

Dobrei uma sobrancelha, confuso, e observei Élio, tomado por uma surpresa tão grande que o fez arregalar os olhos e ficar boquiaberto. Léo estava tão confiante de si que a faísca de esperança parecia ter inflamado num pequeno fogaréu, que queimava lentamente em fogo brando e amenizava seu pavor recente.

— Quem? — questionei. Léo encarou Élio e suspirou.

— A mulher que ele mais amou em vida — ele se voltou para uma fotografia na parede, a mulher mais pálida que havia visto em vida, deitada num sofá como uma musa próxima a ser eternizada na tela de um pintor. Seus olhos estavam fechados, com enormes cílios caindo sobre a face e um batom vermelho forte. Algo naquela foto era mórbido, caótico e fantasmagórico. Quando me dei conta do óbvio, um arrepio percorreu meu corpo e me deixou sem palavras.

— Ela tá morta nessa foto? — questionei. Os primos assentiram — Puta merda — e, tomado de uma surpresa incrédula e azeda, percorreu em mim uma energia espectral que pareceu clarear minha visão por alguns instantes. Quando toda a luz repentina passou, diante de nós três, observei a mulher da foto, recostada na parede, atraída tão misteriosamente pelos meus pensamentos assustados e pela minha categórica habilidade de papear com fantasmas, que, como eu disse, algumas vezes saia de controle. Michelina suspirou profundamente, como quando prendemos a respiração por um longo instante, assustada.

— Onde foi que eu vim parar? — foi a primeira coisa que ela questionou, confusa e decrépita. Léo e Élio não perceberam a presença da moça pálida, encarando minha feição assustada que surgiu de repente. Michelina espreguiçou, estalou os braços e observou toda a casa, curiosamente — Olha só… Não é que voltei pra casa… de novo? Só tá um pouco diferente — e, voltando-se à Léo, ela arregalou os olhos, irritada — José Élio Padilha, seu maldito sacripanta insistente. Vou te pedir pela ÚLTIMA VEZ: Me deixe descansar em paz. É até que a morte nos separe, não entende o que isso significa? Foram quantas malditas vezes que eu morri e quantas malditas vezes que você me trouxe de volta? O que? Não está me ouvindo? José Élio? Élio? — e, observando as falhas na tentativa de tocar o rosto Léo, tendo seus dedos atravessando seu corpo e tocando em nada, Michelina encarou os outros na sala e percebeu que só eu podia enxergá-la. Com olhos surpresos e um mundo de cachos negros volumosos caindo sobre a testa, ela me encarou, com uma expressão assustadora e distorcida, tal qual os fantasmas assumiam quando julgavam necessário. — Quem é você?

— Por que todo mundo aqui tem que me perguntar isso? — respondi, de imediato. Léo entreolhou Élio, confuso.

— Perguntar o que, Gustavo? — Élio questionou.

Gustavo, não conheço nenhum Gustavo. É parente de alguém da casa? Ou mora na vizinhança?” — ela questionou, serpenteando entre a casa com curiosidade.

Michelina se colocou entre mim e os primos, implorando para ser respondida. Tentei ao máximo ignorar sua presença para evitar situações embaraçosas e focar minha atenção em Élio, que ainda debatia acerca da reunião dos segredos.

— Se formos reunir, acho que nós três devemos fazer isso, a gente se ajuda, mas cada um com sua coleção de segredos — ele afirmou, pensativo. Léo balançou a cabeça em concordância — Assim nós três seremos atendidos pela dádiva da reunião. Mas como será que funciona? É só juntar e mágicamente um gênio aparece e te concede três desejos?

Estão falando de reunir os segredos? — Michelina riu, ironicamente — Não é tão simples assim. E não é um gênio que concede desejo. É uma cabritinha. “

— Cabrita? — questionei, surpreso. Élio franziu o cenho, confuso, enquanto Léo me encarava, com uma expressão de julgamento. Engoli seco. Michelina deu uma risadinha.

Se vocês me ajudarem, ajudo vocês. Quem mais entende de segredos que eu? Fui revivida três vezes graças a eles… e a um ex marido muito insistente.”

Observei os três diante de mim, procurando as melhores palavras e mais certas explicações no meu âmago. Suspirei profundamente, analisando cenários e protelando palavras, e finalmente percebi que era tempo de dividir com eles aquilo que jazia tempos vinha me tornando uma figura estranha ao mundo.

— Eu preciso contar uma coisa pra vocês. Uma coisa que nem eu mesmo entendo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.