Todos os Segredos da Rua Cornélia

6 Capítulo 6 - Os Gatos Camaradas


Dizem que o cerrado tem raízes muito profundas, a fim de poder sobreviver no solo seco, quase árido, que lhe é reservado. Naquela região entre florestas tropicais e córregos de águas escuras, em que a mata atlântica lutava para se erguer em transição contra a ferocidade do cerrado, às árvores ganhavam delineados mais fortes e Homéricos, vivendo Ilíadas de desespero na batalha para se tornarem soberanas numa terra manchada pelo sol e pela chuva.

Naufragando entre mares de morros verdejantes, erguia-se a rua Cornélia, num prisma de transição entre o cerrado, semi-árido e seco, e a tropical mata atlântica, beijada pela brisa oceânica, num passado tão distante quanto a história da vida, quando as águas salgadas e torpes do mar deleitavam-se entre as curvas de Minas Gerais, esculpindo morros, fertilizando terras e mantendo eterno e frenético o ciclo da vida.

Havia tantos jacarandás nessa terra quanto haviam oliveiras no caminho do redentor. E a natureza se curvava, esplendorosa e ardentemente, a majestade rosa dos túneis floridos que se erguiam na rua Cornélia. E era um espetáculo de sublime encanto, que só podia ser visto poucos dias por ano, mas que nunca atrasaram, tardavam ou deixavam de acontecer. Foi justamente nessa época que cheguei lá pela primeira vez… e foi justamente nessa época que decidi nunca mais sair de lá.

As árvores do cerrado tem raízes grossas… e eu também.



Élio se sentou ao meu lado, inesperadamente. Estava terminando de organizar alguns documentos antigos, sentado na varanda da casa, aproveitando o vento suave daquele dia quente cheio de mormaço. Olhei para ele, surpreso, cumprimentei, ouvi seu cumprimento em respostas e mergulhamos em um silêncio contemplativo, nada irritante ou constrangedor, em que eu trabalhava e ele ficava lá, me acompanhando.

— Você gosta de tocar o que naquela flauta? — questionei. Ele jogou os ombros para trás, pensativo.

— Qualquer coisa. Geralmente o que conseguir imitar só de ouvir.

Ergui as sobrancelhas, surpreso.

— Você consegue tocar uma música só de ouvir?

— Aham. Nem é tão difícil — ele respondeu, com convicção — A música é engraçada, sabe? Ela é quase como uma sanduíche — Élio pegou uma mão minha e colocou entre suas duas. Percebi um meio sorriso tímido surgindo no seu rosto — Quando se olha por fora, no caso se ouve, parece tudo uma única coisa: melodia, instrumentos, letra, sons — delicada e lentamente, Élio tirou cada uma das suas mãos, até que só sobrou a minha — Mas se você consegue separar cada um dos elementos, você tem em mãos uma infinidade de artifícios musicais. É difícil imitar uma música se você ouve e entende ela como uma coisa só, imutável e rígida, mas se você consegue extrair dela a melodia… aí você consegue tocar qualquer coisa, com muita propriedade.

Sempre fui muito conectado com a música, que me alentava nos momentos mais perturbadores de silêncio profundo, mas nunca havia chegado a um nível de conexão e pertencimento tão grande quanto Élio, que empunhava uma propriedade e uma certeza tão afiadas quanto a faca de um cangaceiro. Aquilo acalentou meu coração e me fez sentir próximo dele, de uma maneira que, até então, não havia experimentado, tendo Élio seus momentos de secura e acidez frequentes. Agora, todavia, ele estava aqui, diante de mim, envolvendo minha mão nas suas e suspirando palavras doces e gentis. Sorri, genuinamente, e percebi como, suavemente, os cachos dele esvoaçavam com sua brisa fantasma, tão certeira e pontual quanto possível.

— O que você costuma ouvir? — ele me questionou.

— Ah, todo tipo de coisa. Gosto de todos os gêneros musicais, sabe?

Ele riu.

— Você tá sempre de fone. Fico com vontade de perguntar o que você está ouvindo, mas tenho vergonha a maioria das vezes — ele disse. Em resposta, esbocei um sorriso e tirei o celular com os fones de ouvido do bolso e, delicadamente, coloquei um em cada orelha de Élio.

— Eu ultimamente ando ouvindo muito essa — afirmei, apertando o play no spotify. Élio ergueu o rosto, imediatamente, e fechou os olhos, absorvendo cada segundo daquela melodia dentro da própria alma. Sua expressão se atenuou em um sorriso agradável, enquanto chacoalhava lentamente a cabeça, no ritmo da canção.

— Como se chama? — ele questionou, ainda se deleitando com o som.

Slow Dancing — respondi. — O refrão é algo como “eu não preciso de nada extravagante” — e, involuntariamente, meus olhos desceram e encararam os lábios vermelhos de Élio, envoltos no seu sorriso de contemplação para com a música nos fones — “eu só preciso de você e eu, dançando uma música lenta” — afirmei, em nervosismo. Engoli seco quando o refrão tornou a chegar e a expressão de Élio se tornou ainda mais amável e extremamente beijável. Ele sorriu, como nunca havia sorrido diante de mim antes, selvagem, fugaz, prófugo e tocante.

Então o trem apitou, cortando, por completo, nosso momento. Élio deu uma gargalhada animada e me devolveu o celular, agradecido, e voltou para seus afazeres. Entendi aquele curto momento como um acordo de paz e amizade, agora definitivo. Élio gostava de mim, apesar de tudo.

E eu gostava muito dele. Bem mais do que eu podia imaginar.



O bando de gatos liderado por Dengoso era composto por outros quatro gatos das redondezas. Nenhum tinha um nome comum como "Garfield" ou “Chiquinho”, os camaradas felinos eram conhecidos por apelidos aprazíveis, que faziam jus às suas personalidades e personas: Dengoso, o sialata gorducho e sexagenário, que sempre dividia sua ração cara a contragosto de dona Dita; Peralta, um gatinho amarelinho muito espevitado, que uma vez foi tentar andar nos fios dos postes de luz, levou um choque e ficou permanentemente com os pelos arrepiados, parecendo estar sempre a ponto de atacar — de vez em quando tinha uns espasmos e uns tremeliques espontâneos, que sempre assustavam os demais camaradas; Bernoulli, um gato frajolinha com uma franja espontânea feita pela pelagem, com uma aparência intelectual, parecia ser aquele que compunha e trazia ideias ao bando; Briosa, uma gata borralheira, alva como leite, de profundos olhos amarelos, elegante, altiva e esguia, que andava sempre com uma fita rosada no rabo; e por fim (e menos importante), Vigarista, um gato marrom chinfrim, mal-humorado, que vivia de roubar comida dos desprevenidos.

Alguns, como Peralta e Vigarista, não tinham dono, viviam como andarilhos de casa em casa na rua Cornélia, cometendo pequenos furtos e dividindo com os amigos o pouco que tinham, e recebendo deles refeições diferentes que ganhavam dos donos. Bernoulli morava nos fundos da casa do tabelião Rodolfo, mas ninguém, nem mesmo ele, dizia ser dono do gato erudito, que tinha a inteligência suficiente para viver sozinho, aquém do próprio instinto que todos os gatos tinham, mas como o homem soturno assim o batizou, mantinham-se atados a ideia de que eram dono e gato, até que a morte os separasse.

Ninguém sabia quem era o dono de Briosa, mas tinham certeza que uma gata tão bem criada, com o pelo tão sedoso e limpo não era uma gata de rua, e assim aceitavam — mesmo que sempre a vissem em muretas das redondezas e casebres abandonados, mas nunca na sua própria caminha de linho, como Dengoso dispunha.

Acontece que os gatos camaradas eram uma parte tão importante da rua Cornélia que no passado o Élio sonhador escreveu sobre eles um conto, em que retratou um acontecimento verídico que aconteceu ali, envolvendo a primeira geração de camaradas há habitar as redondezas.

Encontrei o conto um dia desses, enquanto limpava a poeira dos livros aos fundos da biblioteca. O título era algo como “De garra em garra, os gatos começam uma revolução”, quando comentei com Élio ele esboçou um olhar surpreso.

— Não sabia desse conto. Onde você encontrou?

— Estava no meio de um livro de memórias — respondi. Élio riu, em ironia.

— Um dos livros de memórias, você quer dizer. O José Élio era extremamente narcisista, escreveu pelo menos uns cinco desses. Ninguém nunca leu a coleção dele inteira — ele respondeu, ironicamente. — Mas ele escrevia algumas coisas muito boas, principalmente em relação à história da rua. Ele era meio vidente também, sabe? Pelo que diziam.

— Sério?

— Aham, não como a Cornélia, claro, mas diziam que muitas as coisas que ele escrevia espontaneamente eram coisas que já aconteceram, mas ninguém sabia, pois estavam perdidas no passado — Élio fez uma pausa pensativa e me devolveu o papel — Você poderia ler pra mim? Sabe… — arregalei os olhos, surpreso, me dando conta da gafe.

— Desculpa. Foi no automático.

— Tudo bem. Só lê, bobão. Tô curioso — ele disse. Assenti e desdobrei o papel diante dos meus olhos.

De garra em garra, os gatos começam uma revolução

Todos os homens nascem presos à roda do sistema, eternamente amargados à triste sina de serem só peões no jogo dos reis e das rainhas. Mas não os gatos. Gatos são espertos, ferinos e instintivos, que se debruçam na própria barriga e observam friamente os espetáculos humanos que se desenrolam diante de si. Tem quem diga que os gatos compartilham uma memória coletiva, que comporta as lembranças de todo ancestral que viveu no seu passado. A memória felina, no entanto, é tão boa quanto a de qualquer animal. Movem-se pelos instintos, então não tem porque pensar ou mesmo lembrar, mas alguns se lembram… E não por escolha própria. Karl Marx disse, uma vez, que “a história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”.

A história dos gatos camaradas da Rua Cornélia não é diferente: começou com uma tragédia grega e terminou com uma das tramas mais amarradas e bem esquematizadas que se tem notícia. Houve um gato sem nome, um vira-latas qualquer que vivia de restos deixados nas portas das casas. Era um serzinho simpático e muito amoroso, que todos na rua gostavam e acariciavam. Lembro dele e dos seus bigodes prateados, sua pelagem cinza e seus olhos dourados. Era magricela, mas muito forte, forte demais para sua espécie. Era esperto, até demais para sua raça. Ia se esgueirando de casa em casa, rondando nas sacolas e lixo, comendo um osso de frango aqui, um pedaço de pão duro ali. Caçava alguns ratos, deixando a rua livre das pragas e da peste; fazia cocô distante das casas dos humanos, pois sabia, na sua limitada consciência felina, que o cheiro os irritava (E só Deus sabe o quanto esse gatinho sem nome vivia para ser amigo dos homens. Só é triste saber que eles não tinham o mesmo empenho do felino) e evitava sempre ser um incômodo. Mal sabia ele, o pobre e gentil Cinzento, que, para algumas pessoas, a simples existência de um gato era suficiente para gerar incômodo.

Havia ainda um homem na rua, um açougueiro gorducho e bigodudo, mal humorado e mal encarado, que andava para cima e para baixo com um cutelo afiado amarrado na cintura. Era um serzinho desprezível, que, diferente de Cinzento, vivia para incomodar e irritar: mostrava a língua para atazanar as crianças, dizia coisas obscenas às carolas, arrancava as flores de jacarandás que davam à sua porta e chutava todos os gatos que atravessavam seu caminho, sem dó nem piedade.

Cinzento muito tentava ser dócil e se aproximar do Açougueiro: ronronava alto, coçava as orelhas na sua perna e matava todos os ratos que corriam pelo quintal da sua casa, mas tudo que recebia em troca era uma bicuda no pé da barriga, que o fazia contorcer em espasmos de dor por longos minutos. Os demais gatos da rua observavam indiferentes, como se uma parte de sua consciência estivesse dormindo eternamente, e só viam naquilo a graça de um gato bobão que tentava lutar uma batalha perdida, mas nem isso eles entendiam. Só Cinzento sabia o peso da sua própria necessidade, como se a parte de sua consciência estivesse acordada há muito tempo, mas direcionada à bondade e a necessidade de ser amado pelos homens do mundo, todos, sem exceção.

Mas algumas pessoas não foram feitas para serem amadas, e o Açougueiro, com toda certeza, era uma delas, pois um dia, sem razão nenhuma, quando o pobre Cinzento tentou, mais uma vez, fazer uma troca de pura amizade, recebeu, em resposta, o gélido toque do aço do cutelo no pescoço. Tão rápido quanto um gato, a lâmina do açougueiro atravessou o pobre gatinho e o fez em dois num instante.

E o homem riu, em resposta, com a lâmina ensanguentada em mãos e o pobre animalzinho estirado no chão.

Tragédia. Desgraça. Consciência.

Um gatinho pardo chamado Mequetrefe, que espreitava do alto de uma árvore de jacarandá, assistiu, perplexo, toda cena se desenrolando, com as pétalas rosa caindo diante dos seus olhos. Inesperadamente, se viu tocado pela tragédia, e, pela primeira vez na sua longa vida felina, ele chorou. E suas lágrimas espessas caíram sobre os pés de jacarandás e se espalharam na terra da rua Cornélia. Com um choque corporal que arrepiou por completo seus pelos, da pontinha da cauda até o focinho gelado, Mequetrefe sentiu despertar em si uma parte há muitos séculos adormecida: a consciência, que lhe pareceu uma suntuosa luz vermelha dentro da própria cabecinha. Quando o açougueiro foi pra casa, indiferente ao assassinato que havia cometido, Mequetrefe se aproximou do corpo desfalecido de Cinzeto e chorou, copiosamente, como um humano, e toda a dor que o amigo felino sentiu pareceu refletir em si. Então ele miou, tão alto e tão estridente que seria impossível não se ouvir, e das redondezas da rua Cornélia, todo gato levantou suas orelhas, mesmo àqueles que dormiam, mesmo àqueles que não podiam mais ouvir, mesmo àqueles que não habitavam mais o mundo dos vivos, e sentiram despertar, em si, aquilo que há muito tempo hibernava, eterna e ininterruptamente.

Dos telhados, das calhas, da mata e dos casebres, gatos surgiram por todos os lados, em uma marcha fúnebre e extremamente bem organizada, como se fossem uma só mente, e se aproximaram do quintal do açougueiro, ao redor do corpo de Cinzento. De todos os traços, idades e origens, vivos ou fantasmas, grávidas ou no cio, feios ou bonitos, selvagens ou caseiros, gatos pretos, gatos brancos, frajolas, sialatas, onças pintadas, suçuaranas, jaguatiricas, maracajás e jaguarundis: a rua Cornélia havia se tornado o epicentro dos felinos, que andavam para lá e pra cá numa procissão entristecida, e se detinham diante do irmão assassinado.

Eles podiam ser dezenas, centenas ou milhares, todos expectadores da mesma tragédia, mas compartilhavam uma única consciência, um único pensamento e uma única vontade: revolta.

Revolta por conta da maldade humana, diante de um ser tão puro e tão gentil como Cinzento, que só queria ser amado pelos homens. Mequetrefe liderava a “gatilha” dos camaradas, com miados estridentes e melodiosos, como as preces de um pastor, e recebia em resposta roncos dos mais diferentes trejeitos, que variavam de acordo com a espécie. O rugido das onças e das suçuaranas era tão alto que se destacavam na multidão, e faziam todos os habitantes humanos das redondezas se trancarem nas casas, assustados. O açougueiro, todavia, trancando em casa com o toca-discos muito alto, ouvindo alguma coisa em italiano que os gatos definitivamente não compreendiam, não se deu conta de nada.

Depois de dar um enterro digno ao amigo esfolado, contemplando seu funeral com a maior das amabilidades e camaradagem, os felinos voltaram sua atenção à Mequetrefe, e passaram a debater, ali mesmo no quintal do Açougueiro o que deviam fazer, pois a única certeza era de que aquela história não passaria a limpo, pois não havia humano no mundo com o direito de tirar a vida de um gato.

Só que então um deles interveio, miando muito alto, o que, na tradução, poderia soar como “só que o açougueiro não é o primeiro e nem o último humano que mata um gato. Isso é parte deles. Homens são maus, matam a própria espécie sem razão, imagine as diferentes”.

“E o que devemos fazer quanto a isso?” um outro questionou.

“Matar!” uma jaguatirica rosnou.

“Matar!” um gato pardo respondeu.

“Matar?” uma onça questionou. Todos a encararam “Matar!” ela exclamou, com o que pareceu ser um sorriso.

Mequetrefe tomou a frente da multidão novamente e exclamou:

“Só matar não vai resolver nossos problemas. Nós acordamos, camaradas, agora precisamos mudar o sistema”.

“Como?” o puma questionou, impassível e entediado. Mequetrefe sorriu como um diabo, selvagem, astuto e sagaz.

— Revolução — ele disse, numa língua que definitivamente não era felina, mas que também não era exatamente humana, era como uma mescla imperfeita das duas.

Não houve um só segundo de silêncio pelos próximos instantes. Todos os felinos das redondezas se juntaram ao coro em uníssono, repetindo a expressão arguida por Mequetrefe, na mesma tonalidade e na mesma imperfeição da junção dos dois mundos, humano e felino.

— Revolução! — disse o gato vira-latas.

— Revolução! — rosnou a onça-pintada.

— Revolução. — exclamou Mequetrefe, novamente.

Não existem registros o suficiente para determinar o que houve na noite dos gatos, em que a lua-cheira fora a única testemunha crível a acompanhar todo o desenrolar da trama felina. Sabe-se que naquela fatídica noite, quando voltaram às suas casas, alguns gatos puseram-se de pé, como humanos, e repetiram, em perfeita sincronia, as palavras de revolução ensinadas por Mequetrefe, para o desespero dos homens, que tentaram, como previsto, apelar para a força bruta, diante do absurdo daquelas cenas. Só que agora, diferentemente de Cinzento, não havia gato sozinho no mundo: ao despertarem a consciência há muito adormecida num canto da mente felina, tomaram ciência de que eram um só e, unidos, eram mais fortes que os humanos, seus antigos senhores e agora seus futuros subordinados. Lembraram-se do passado, quando seus ancestrais eram venerados como deuses, por fruto do uso da mesma consciência que agora estavam clamando para si e, porventura disso, estabeleceram uma nova ordem mundana, em que gato era Rei e homem era Rato.

Alguns dizem que naquela noite houve apenas uma morte: a do Açougueiro. Eu, mero expectador, afirmo que não houve nenhuma. A morte não era suficiente para ele, e todos os gatos tinham ciência disso… Talvez em razão disso deram para ele um destino… mais agonizante.

Ouvi dizer que um dia ele acordou com uma dor muito forte na cabeça, como se tivesse levado uma pancada capaz de desmaiar uma pessoa… e foi então que ele percebeu que não se lembrava de quando havia ido dormir. Mas estava escuro, muito, muito escuro. E estava quente, abafado. Estava de olhos abertos, de fato, mas não enxergava nada. Tentou se levantar, mas bateu a cabeça em algo feito de madeira que estava sobre si… e ao seu lado… e a baixo.

Era uma caixa. Aliás, um caixão.

Foi então que ele sentiu alguns grãos de terra caírem sobre sua nuca. E ele entendeu tudo. E se desesperou, gritando, gritando e gritando, mas não havia homem no mundo que pudesse lhe ajudar.

Do lado de fora, sete palmos acima daquela sepultura, dezenas, centenas, milhares de felinos miavam, rosnavam e rugiam: “revolução!” “revolução!” “revolução!”, em torno da terra mexida nos fundos do quintal do açougueiro, onde seu corpo jazia, agora para sempre, esquecido na mesma terra onde Cinzento e tantos outros inocentes foram enterrados. Só que, diferente deles, ele tinha consciência, mas uma consciência diferente da felina: a consciência de que ele estava vivo e enterrado, e que de lá não sairia. Nunca.

..

Élio ergueu uma sobrancelha, surpreso e boquiaberto.

— É só isso? — ele questionou. Assenti com um “uhum” desanimado. Ele pigarreou, irritado — É uma das piores histórias que eu já ouvi. Onde entra a farsa nisso?

— Que farsa?

— Da frase do Karl Marx. Ele usou aquilo sem razão nenhuma? Tipo, só pra evidenciar a tragédia? — ele perguntou. Cocei o queixo, pensativo.

— Nem tinha me tocado. Agora que você falou… — Élio bufou, irritado.

— Acho que deixar de falar foi uma benção pro José Élio. Imagina ler esse conto para alguém?

Aquilo me fez rir.

— Eu até que achei legal. Tem uma boa premissa. Sabe envolver.

Élio deu de ombros. Dona Ana chegou à varanda naquele mesmo instante e observou os papéis em minha mão.

— Eu esperava mais. Às vezes ele acerta muito, mas às vezes ele se perde — ele respondeu, convicto.

— De quem estão falando? — dona Ana questionou.

— José Élio Padilha. Encontramos um conto dele. O Gustavo estava lendo pra mim — ele respondeu. Dona Ana sorriu e me deu uma olhadinha astuta, animada.

— Qual conto se trata?

— O dos gatos revolucionários.

— Ah, sim! Há muito tempo não via esse… — ela riu e pegou os papéis em minha mão, observando atentamente — Alguns contos não foram finalizados, sabe? Creio que esse seja um deles, apesar de ter um “certo final”. Sabe de algo interessante? Nem tudo nessa história é fictício.

Encarei dona Ana, confuso.

— Houve mesmo um açougueiro muito mal, que vivia matando os gatos da vizinhança. Um dia ele sumiu, simplesmente — ela continuou — E diziam que nesse dia todos os gatos da rua se juntaram na frente da casa dele, para observar o que quer que seja que tivesse se passado por lá. Esse “Mequetrefe”, inclusive, era o pai do Dengoso. Era o gato do José Élio. Não sei se ele teve participação na “revolta” como o Élio tentou dizer que tinha, mas que ele existiu, existiu.

Encarei Élio e dona Ana por alguns instantes, em silêncio, e quando observei no canto da sala, Dengoso observava tudo, atentamente, com uma expressão de ironia ácida e sagaz. Ele chacoalhou a cabeça em desdém, ronronou algo e saiu andando, com o rabo empinado.

— Esse é um dos doze segredos, com toda certeza — afirmei, convicto. Dona Ana me encarou, surpresa, e sorriu, tal qual Élio.

À tardinha, rabisquei no meu caderno a imagem que desenhei nos meus pensamentos, dos gatos, em perfeita harmonia e consciência, se unindo diante do Açougueiro assassino, estabelecendo sua ordem de vingança e começando sua Revolução Felina. Quando retirei a caneta do papel, tendo terminado a gravura do misterioso acontecimento, ouvi o estranho e inesperado badalar de sinos de latão, como aqueles que colocam no pescoço das vacas para evitar que se percam no desconhecido. Olhei ao redor, mas não vi nada e nem ninguém que explicasse aquele som.

— Rua Cornélia…