Todos os Segredos da Rua Cornélia
5 Capítulo 5 - O Garoto do Chapéu Turco
Dona Ana me recebeu na horta de vegetais. Estava colhendo e observando as alfaces com uma minuciosa curiosidade, usava uma lupa para analisar cada folha e cada broto. Usava um enorme chapéu branco cheio de babados, que cobria todo seu corpo do sol escaldante que jazia sobre nossas cabeças, enquanto uma cortinaria branca caía ao redor de suas roupas, como um véu de noiva, e mantinha os mosquitos longe. Na horta ainda haviam alguns pés de mandioca e serraia, enormes pés de couve com caules roxos, cebolinha, abóbora d’água e um gracioso e solitário pé de mandioca.
— Esse pé de mandioca está aqui tem mais de cem anos — ela afirmou, convicta — Antes era uma plantação, mas todos foram colhidos, menos esse. Ninguém consegue arrancar ele… e não foi por falta de tentativa. Olhe ao redor, a terra como é mexida. Todas as gerações de Padilha tentaram arrancar essa bendita mandioca, mas é quase uma excalibur, aguardando o seu rei Arthur — afirmou, sorridente.
— A Dona Dita disse que a senhora queria me ver. — afirmei, sem me prolongar no assunto. Dona Ana sorriu, suspirou e estendeu a mão para que eu lhe ajudasse a ficar de pé.
— É, soube do seu pequeno desentendimento com o Élio — ela respondeu, limpando a sujeira dos joelhos. Antes que eu pudesse me explicar ou pedir desculpas, Dona Ana assoprou o dedo e pediu silêncio — Élio me contou tudo. Ele é um garoto difícil, Gustavo, conheço meu neto. E, por ele assumir a culpa por algo… — ela riu — Você realmente deve ser um rapaz muito especial.
Aquela informação me pegou de surpresa. Ergui uma sobrancelha, confuso.
— Ele fez o quê?
— Assumiu a culpa. Disse que te provocou até que explodisse. E eu sei bem que ele consegue fazer isso com facilidade, afinal, você não é o primeiro a ser contratado para trabalhar conosco, mas talvez seja o último — ela sorriu, amavelmente — Isso, claro, se você quiser continuar.
— Não que eu tenha muita escolha, Dona Ana. Eu preciso trabalhar, como eu disse para ele — afirmei. Dona Ana cerrou o cenho, pensativa.
— Bom, isso ele não me contou.
E novamente me peguei surpreso com os atos de Élio.
— Eu achei que…
— Não precisa se explicar. Tome seu tempo. Não precisa dividir suas feridas conosco, mas caso queira será muito bem vindo a tal — Dona Ana me envolveu num caloroso abraço. A senhorinha era, pelo menos, vinte centímetros menor que eu, o que tornou a situação engraçada — Só tenha um pouco de paciência com o Élio, por favor. Ele é um bom garoto, só é meio complicado — afirmou, entregando uma cabeça de alface nas minhas mãos e caminhando de volta para o casarão, me deixando lá com meus pensamentos.
Além do casarão no fim da Rua Cornélia havia um bosque fechado, cujas enormes árvores criavam um paredão vegetal que se estendia até onde a vista podia alcançar. Pude perceber algo que o trajeto plano pelo asfalto não permitia: a rua estava numa parte mais baixa, tendo a mata se curvado ao seu redor como uma “ilha” de plantas. No cume entre dois montes erguia-se a Rua Cornélia, o corredor de jacarandás-rosa e todos os seus excêntricos moradores, o que explicava as intempéries climáticas, os animais incomuns que atravessavam o caminho e as plantas tão diferentes das habituais que floresciam por ali.
O bosque não era muito convidativo. Começava no extremo da propriedade dos Padilha e terminava só Deus sabe onde, rodeando todas as casas da vizinhança e criando uma zona verdejante por todo o lado, erguendo-se sobre morros e montanhas.
Estava sentado na varanda traseira do casarão, fazendo uma pequena pausa no trabalho para rabiscar algumas gravuras no caderninho dado por dona Ana, quando ouvi alguns passos vindos da porção mais intrusa da mata, que invadia o terreno do casarão e quase fazia fronteira com a horta de alfaces. Um farfalhar de folhas, um quebra-quebra de galhos secos e o som inconfundível de uma respiração ressoavam nos meus ouvidos. Ergui meus olhos, atento, e me deparei com um rapaz, não muito mais velho que eu, muito parecido com Élio, só que com uma elegante barba que lhe dava um aspecto maduro. Tinha olhos vís e ardilosos, com um sorriso brilhante e austero como o de um demônio. Engoli seco, sem dizer nada, esperando até o momento que ele percebeu minha presença e acenou.
— Uh, olá — ele disse, meio surpreso — Quem é você?
— Gustavo — respondi. Ele se aproximou lentamente, limpando a barba que estava cheia de folhinhas e as calças cheia de picão. Usava um chapéu vermelho com uma cordinha preta e um colete de camurça, muito parecido com o chapéu que o macaco do Aladim usava.
— Que Gustavo?
— Ah, você não me conhece — afirmei, estendendo a mão — Eu sou o novo assistente da dona Ana.
Ele riu em um tom debochado, mas apertou minha mão. Seu aperto firme e cheio de energia fez correr pelo meu corpo um choque instantâneo.
— Dona Ana… Essa, pra mim, é nova — afirmou, me puxando para o lado e ficando com o rosto bem próximo do meu por alguns instantes. Pude sentir sua respiração pesada sobre minha bochecha e seu hálito quente incinerando os sentimentos e pensamentos que carregava tão intimamente. Ele sorriu, tão bonito quanto um diabo, e me afastou, abrindo espaço para dentro da casa — Vózinha, ch eguei! — gritou, e atravessou para dentro do casarão, me puxando consigo. — Élio. Meu nome.
— Igual o… outro Élio? — questionei. Ele riu.
— Igual todos os homens da minha família — ele sorriu — Mas não sabia que o Rique tinha usurpado meu apelido. Vê só! Você some um tempinho e já dão seu nome para outra pessoa — afirmou, sorridente — Pode me chamar de Léo, então. Léonardo é meu segundo nome.
Dona Dita veio nos receber na cozinha. Quando botou os olhos em Léo, abriu um enorme sorriso de orelha a orelha. A senhorinha deu uns pulinhos animados e correu para abraçar o rapaz, se pendurando no seu pescoço e coçando seus cabelos escuros, ouvi os piados de inúmeros passarinhos, em felicidade, do lado de fora da casa. O chapéu vermelho caiu no chão e veio rodando até parar diante dos meus pés.
— Menino, por onde foi que você andou? — ela questionou, em um tom de reprimenda, mas sem deixar de acariciar o rapaz, que tentava se desvencilhar dos abraços e beijos da senhorinha.
— Pelo mundo, vó — afirmou, num tom de voz galante e carismático. Só então me dei conta de que a avó de Léo não era dona Ana, mas sim dona Dita, o que fazia com que Élio fosse seu primo — Passei um tempinho na Arábia. Conheci tanta gente interessante!
Dona Ana e Élio chegaram à cozinha em seguida, mas não foram tão calorosos com Léo quanto dona Dita. Ficaram atônitos, da soleira da porta, onde dona Ana observava, perplexa, e Élio ouvia, meio confuso. Observei os quatro, sem nada dizer, e peguei o chapéu vermelho que estava aos meus pés e devolvi à Léo.
— Obrigado Gustavo — ele disse, com um sorriso amigável. Duas covinhas surgiram na sua face, num olhar adorável, mas meio sagaz, como de uma raposa. Léo observou Élio parado e ergueu uma sobrancelha — Primo Rique. Tia Ana.
— Élio Léonardo — Dona Ana cumprimentou, meio desconfiada — Acabou de chegar, mais uma vez? Achei que sua última partida seria a derradeira, como você tinha dito.
Léo sorriu, ironicamente.
— Eu tenho certeza que a senhora teria adorado se fosse — respondeu, rispidamente, e se voltou para um cacho de bananas sobre a mesa. Se serviu de uma, descascou e começou a comer — Mas não. O bom filho à casa torna. Não é o que dizem?
— Certamente é, mas você está longe de ser um bom filho — ela respondeu, irritada.
— Ana, agora não. Deixa o menino descansar. Ele acabou de chegar de viagem, não precisa ouvir sermão agora — dona Dita interveio, irritada — Não agora — ela completou, num tom amargo. Léo engoliu o último pedaço da banana com um olhar preocupado e forçou um sorrisinho sádico.
— Quanto drama familiar. Parece até que convidaram um vampiro para o jantar — ele disse, num tom de ironia, mas pareceu arrancar dos Padilha uma certa angústia, o que me surpreendeu — Calma gente, é só uma piada. Águas passadas não movem moinho — e riu, voltando-se à Élio. Léo tinha um pouco mais de altura que ele, além da barba e do cabelo grande, que distanciava-os em aparência, mas ainda eram parecidos, como todos os Élios — Soube que você é o Élio da casa agora. Parabéns primo. Você sempre teve mais vocação para isso que eu.
Hesitei um instante, no meu silêncio observador, e dei um passo para trás que chamou a atenção de Léo, o fazendo perceber minha curiosidade e confusão com aquela contenda familiar.
— Ah é, Gustavo. Já sabe da nossa tradição, creio eu. Ou precisamos explicar mais alguma coisa? Um Élio por geração. Era eu, até não ser mais — ele riu, com certa amargura no fundo de toda ironia que tentava demonstrar — Nunca fui bom o suficiente para isso. Afinal, não tinha minha própria bendita maldição e meu maldito milagre.
— Léonardo Élio, não envolve o Gustavo nessas coisas — dona Ana afirmou, irritada. Sua pele ficou avermelhada. — Ele acabou de chegar à rua. Não precisa estar a par de tudo.
— Léo. Já que tomaram meu nome, usem pelo menos um que me agrade dessa vez — ele afirmou.
Dona Ana segurou a testa como se tivesse uma crise de enxaqueca. Élio permaneceu em silêncio, com os olhos baixos e o olhar melancólico. A brisa invisível de seus cabelos havia cedido espaço para um marejar estranho sob seus olhos, lágrimas que nunca pendiam sobre sua face, mas estavam ali, lutando para serem percebidas. O silêncio do garoto fez Léo se irritar como se tivesse, ele, dito mil e uma palavras. Ele chacoalhou a cabeça em desdém e forçou um risinho irônico, com o nervosismo entoado no profundo de seus sentimentos.
— Aqui nessa casa nunca se tem um “bem vindo” de volta — e dito isso, virou-se para a saída e desapareceu através da porta. Antes que qualquer um pudesse ir procurá-lo, ouviu-se o bom de uma porta batendo com agressividade no segundo andar da casa, como se Léo tivesse se teleportado do quintal para o quarto, e gritou — Quem mexeu na minha coleção de selos? Tava catalogado por país!
Dona Ana e dona Dita trocaram olhares preocupados antes de dispersarem, cada uma para seu canto, sem nada dizerem. Élio continuou ali, meio atônito. Senti que devia dizer alguma coisa, mas não sabia muito bem o que. Nunca fui bom em consolar as pessoas, o silêncio meio a tormenta era sempre minha única saída. Mesmo assim, tomado por circunstâncias e razões que eu mesmo desconhecia, me aproximei dele e toquei seu ombro.
— Tudo bem?
Ele forçou um sorriso.
— Vai ficar.
— Me desculpa pelo outro dia. Tava com muita coisa nos ombros, não devia ter descontado em você assim — Élio suspirou, com sinceridade.
— Não precisa se desculpar. É o que eu faço todos os dias — e abriu um sorriso desanimado — Você é gentil, Gustavo. Gentil e sincero. Obrigado.
Não sabia exatamente o que responder naquela situação, então só sorri e dei um tapinha animado no ombro de Élio antes de sair da cozinha e ir continuar meu trabalho.
Na Rua Cornélia havia uma linha de trem que atravessava nos fundos da casa de dona Ana e seguia rumo a mata, onde desbravava toda grandeza quase intocada da natureza verdejante que rondava aquele lugarzinho cheio de jacarandás e ipês amarelos. O trem, todavia, só passava em momentos raros, já que as rodovias tornaram-se o principal veículo de transporte por aquelas bandas. Mesmo assim, o som do aço sendo atravessado por uma maquinaria enorme, que buzina um som tão estridente que atravessa seus ouvidos e percorre toda extensão da sua alma podia ser ouvido sempre nas sextas, ao fim da tarde. A primeira vez que ouvi quase morri do coração, achando que se tratava de alguma espécie de trombeta apocalíptica, trazendo consigo o fim dos tempos. Naqueles curtos segundos de desespero, me perguntei porque ali? Por que ali, na rua Cornélia, encontraria meu fim? E, ainda que houvesse dúvida e estranheza quanto a esse questionamento, algo no fundo da minha alma atormentada dizia que era assim que devia ser e seria, como um pressentimento sádico que todo mundo conhece, mas ignora.
Só que aí o som demoníaco parou, tão rápido quanto surgiu, e do farfalhar de folhas na mata que rondava, surgiu Léo, desgrenhado e barbudo, com um chapéu vermelho. Mais tarde naquele dia, enquanto a casa se mantinha em silêncio com a volta indesejada do filho pródigo, me peguei pensando na coincidência do trem ter passado no exato momento que ele retornou, o que me fez ligar as duas coisas.
— Mas como alguém viaja da Arábia para Minas Gerais de trem? — me perguntava, mas não havia sentido o suficiente em continuar com aquela dúvida. Voltei às minhas obrigações e deixei com que o tempo curasse as feridas da família Padilha, afinal, no fim, não era problema meu.
As folhas dos jacarandás estavam embebidas do dourado do pôr-do-sol quando saí. A meia-luz do fim de tarde dava às construções traços góticos romanescos, com uma brisa fria que irritava os calcanhares expostos e levava consigo meus cabelos em uma onda agradável. Leila estava sentada no muro, como de costume, observando a noite se pôr sobre a cidade como um véu negro e misterioso.
— Você já descobriu algum segredo? — ela perguntou, me surpreendendo. Ainda não estava acostumado com a soturnidade da moça.
— Você diz, da rua Cornélia? — ela assentiu. Usava duas tranças vermelhas no cabelo, colocadas rente ao seu rosto sardento — Nem cheguei a tentar descobrir — ela riu e saltou do muro.
— Você não precisa tentar, uai, eles vem até você — ela afirmou, com um sorriso confiante, e, colocando-se entre o portão de saída de sua casa e a rua, ela suspirou — É assim que a rua funciona. Quanto menos você tenta saber, mais você descobre. Já, quanto mais você busca, menos você acha.
Não sabia exatamente o que responder. Aquelas palavras soavam, para mim, quase como poéticas, mas sem nexo. Me limitei a sorrir e me despedir de Leila, a caminho do ponto de ônibus.
Nazira Bartuli foi provavelmente a primeira bruxa do mundo, quando sequer chamávamos, assim, as mulheres de sua estirpe. Era curta e grossa. Esguia como uma enguia e embasbacada como uma parca. Se cercava de equidnas e serpentes, e vivia para ser a mulher entre as mulheres. Nazira Bartuli era alta como uma torre, mas mal podia aguentar nos próprios pés, tamanha a desgraça que lhe acometeu e roubou toda a força. Era esperta como um leviathan, mas auspiciosa como um pavão. Nada nela fazia sentido, tanto quanto podia fazer, é claro. Era bruxa, mas também era mãe. Era santa, era pecadora. Nazira Bartuli foi queimada, mas suas cinzas viraram nascente, cujas águas insípidas se derramaram sobre a terra dos homens e poluíram plantações, fertilizando as ervas daninhas e as romãs, enquanto murchava o milho, o café e a cana de açúcar. Nazira Bartuli viveu como qualquer pessoa, a não ser, é claro, pelo fato de ter vivido pelo menos trezentos anos. Ninguém sabia o porquê de tamanha longevidade: uns diziam que era um pacto, fadado à desgraça, com uma entidade, já outros diziam que os queijos de cabra que ela comia rejuvenesciam sua imagem. Tamanho problema foi quando a última cabrita da linhagem tão bem quista por Nazira Bartuli morreu, misteriosamente, nas mãos de sua dona, “mãe” e amiga, Cornélia.
Foi aí que Nazira Bartuli enlouqueceu. Tornou-se mais fera que mulher; comeu do fel e amassou as romãs do jardim. Rasgou a própria carne e definhou sobre si mesma, como uma rosa murcha em um jardim de videiras. Quando não havia mais cabra, nem leite, nem queijo, Nazira Bartuli tornou-se refém da própria idade, e se afogou no alento desconexo do tempo, que lhe consumiu como o beijo mais venenoso de uma viúva-negra. E então ela virou pó, como nunca devia ter deixado de ser. E o pó correu pela rua Cornélia e se espalhou por todo o mundo. E todas as maldades de Nazira se desfizeram tão rapidamente quanto seu corpo se acinzentou em brasas na fogueira inquisitória.
Só que Nazira sempre foi uma mulher esperta. Esperta como uma víbora. E, antes que morresse, jurou que voltaria diante do rosário — e promessas feitas diante do rosario, mesmo se feitas por pecadoras ou incrédulas, têm a força divina para se concretizarem. E então Nazira Bartuli voltou, só que ninguém sabe como. Dizem por aí que ela anda junto dos homens na rua Cornélia, escondida sobre a face de algum desconhecido. Não sendo Élio ou qualquer Padilha, é claro, menos ainda o tal Gustavo. Não… Não tenho certeza se ela voltou ao mundo como gente. Certeza é que voltou. E que observa. E que espera o momento certo para ascender em sua grandeza e poder dizer, novamente:
— Nazira Bartuli, a primeira mulher, a primeira bruxa.
Enquanto chacoalha as mangas esvoaçantes cheias de lantejoulas e bibelôs de prata, ouro, bronze e ferro.
Dona Ana tinha um velho gato mequetrefe, de pêlo acinzentado e rosto preto, um legítimo “sia-lata”, mistura de siamês com vira-latas, chamado Dengoso, que de dengonão tinha nada. Era arisco como um gato selvagem, mesmo tendo sido criado à pão e mel, sob panos caros e carícias constantes na barriga. Não se dava bem com Élio ou com dona Dita, que volta e meia dizia não gostar de gatos porque, segundo sua crendice:
— Quando o Nazareno foi pedir água na casa de Lázaro, um gato veio e mijou no copo dele — o que, todavia, não passava de uma crença sem fundamento algum, visto que não havia sequer citação desse acontecimento na bíblia ou qualquer outro texto sacro.
Dengoso era o líder de uma quadrilha de gatos da Rua Cornélia, que furtavam comida e se juntavam num casebre velho do casarão dos Padilha para dividir o que conseguiram juntar, de maneira igual e alinhada. Quando descobri tal façanha e característica, passei a chamá-los de “camaradas”, os companheiros, na luta pela abolição do capitalismo. Dengoso já era velhinho e meio cego, então em vez de furtar comidas complicadas, tirava um pouco da própria ração e levava para dividir com os amigos, e sempre voltava carregando um osso de boi ou fedendo a peixe. Não sei se por senso de comunidade e solidariedade, ou pela simples felicidade em comer coisas diferentes do habitual, movia aquela dúzia de gatos dos mais diferentes traços e origens à se organizarem de maneira tão factual e ordenada, além de pontual, já que, todos os dias, às doze horas da manhã, lá estava Dengoso, carregando seu potinho de ração meio-cheio pelo quintal até o casebre. Era nesse momento que começava a orquestra de miados e ronronados que nunca terminavam.
— Quem dera as pessoas fossem como você — me peguei dizendo-lhe uma vez, quando retornou à casa mordiscando um pedaço de asinha de frango. Ele só me olhou de cima a baixo, miou e voltou para sua almofada encardida.
— Ele gosta de você — Léo disse ao se aproximar. Estava mais alinhado, menos sujo da viagem, com a barba e os cabelos bem aprumados. O chapéu vermelho continuava na cabeça, mas trocou as roupas, vestindo um macacão verde-petróLéo e um lenço vermelho amarrado no pescoço. Estava segurando uma vara de pesca.
Olhei ao redor, surpreendido, e percebi Élio sentado, sozinho, num canto do jardim, ouvindo músicas e praticando a leitura em braile, o que me fez sorrir. Léo percebeu.
— O gato, é claro — ele sorriu e me deu um tapinha no ombro — o Élio é mais complicado.
Engoli seco, nervoso. Léo deu uma risada e começou a caminhar pelo jardim. Aquelas palavras me deixaram confuso e um pouco ansioso, o que me obrigou a seguir meu algoz e tentar entender o que ele estava tentando insinuar.
— O que você quer dizer com isso? — questionei. Ele riu, próximo ao portão de aço, com a vara de pescar sobre os ombros.
— Que o Élio é mais complicado, ué — Léo atravessou o portão, com uma expressão irônica — Esperava mais profundidade? Não percebeu que sou o personagem misterioso dessa história?
Revirei os olhos. Léo deu uma risada e me levou consigo por uma pequena trilha entre o casarão e a mata, que nos deixou diante de um pequeno córrego de águas marrons, onde alguns peixinhos cinzentos navegavam em plena paz de espírito. Libélulas e pequenas moscas felpudas voavam entre as florestas de taboa e jardins de vitórias-régia. Haviam algumas poucas borboletas pelos lados, mais interessadas nas árvores frutíferas que rondavam o córrego. Senti o cheiro de limão em flor e goiaba.
— Qual é o trem entre vocês dois? — ele questionou, sentando-se na beira do córrego e atirando a isca nas águas. Sentei ao seu lado, pensativo.
— Não tem trem nenhum. Ele não gostava muito de mim, mas acho que era só um jeito dele se defender — respondi. Léo suspirou — Acho que ele gosta mais de mim agora. Acho.
— Achar já é um começo — Léo me olhou, sorrindo como um diabo, tão belo e tão imoral quanto um sacrilégio, o que me desmontou por completo.
A linha tênue entre os dois primos era surpreendentemente fugaz. Olhar e pensar em ambos era como admirar uma sanfona, que se afasta e se aproxima em segundos. Às vezes eram tão iguais que poderiam ser gêmeos, com seus rostos retangulares e elegantes, com os olhares furtivos e infames, selvagens e apaixonantes, mas às vezes pareciam tão iguais quanto um anjo e um demônio. Só que, no fim de tudo, era a mesma coisa, afinal, Lúcifer, antes de ser o rei do inferno, era o mais belo dos anjos. Léo tinha uma acidez no olhar, com um sorriso circunscrito que arrancava suspiros e súplicas masoquistas por atenção, algo que Élio demonstrava, as vezes, só que com a diferença de que haviam toques mais suaves, mais divinos, de pureza incólume, que faziam nascer em mim a necessidade estridente de ser compreendido e contemplado por cada pedacinho da extensão de seu ser. Eram como duas faces de uma mesma moeda, que encantavam e assombravam na mesma medida.
— Eu já tenho certeza que ele não gosta de mim — ele respondeu, pensativo. Me sentei ao seu lado, curioso, e observei os peixinhos fazendo pequenas ondulações na água, onde a isca de Léo flutuava.
— Qual o lance entre vocês? Tipo, por que dona Ana e o Élio ficaram tão surpresos com a sua volta? — questionei. Léo suspirou e me observou de canto de olho.
— É que eu escolhi fazer o que eu queria, em vez do que diziam que eu tinha que fazer. Nessa rua isso é muito perigoso — ele respondeu, pensativo — Eu sou o homem mais velho da família, então o ideal era que eu tomasse meu lugar como “homem da casa”. Mas eu queria conhecer o mundo, oras. É pecado demais?
— Não sei, eu acho que não — e, ao mesmo tempo que dizia isso, minha mente se enchia de pensamentos conflituosos, que delineavam em harmonia a situação que recaía sobre Léo e que eu estava submetido. Assim como ele, o fato de ser o mais velho me colocava na posição de “homem da casa”, estando eternamente obrigado a prover o básico para a existência de todos que estavam sob minha responsabilidade, como minha irmã e minha mãe, só que eu nunca havia questionado esse posto, só aceitado. Como a maioria das coisas na minha vida. Léo olhou pra mim, com aquele olhar infame e prófugo, observando o mais íntimo dos meus pensamentos, e sorriu, como um diabo.
— Que triste fim esse de não poder sonhar os próprios sonhos e nem viver a própria vida, não acha? — ele questionou, certeiro como uma flecha no coração. Sabia que havia mais acidez naquela aparente pergunta inocente do que eu podia imaginar. Ele havia me lido e visto em mim as mesmas dúvidas que recaiam sobre ele. Aquilo me assustou… mas também me encantou.
— É, pois é.
— Adoro esse clima daqui. Sabia que é uma característica quase que exclusiva dessa região? — ele questionou, com um sorriso irreverente — É por conta do relevo. Essa região aqui de minas tem tanta colina que chamam isso aqui de “mar de morros”, legal não é? É muito comum ter esse clima de transição, que muda muito rapidamente. Em cima dos morros geralmente é um clima, uma temperatura, enquanto embaixo é outro, bem adverso. Por isso que às vezes chove aqui na rua Cornélia, mas na cidade faz sol o dia todo.
— Achei que essa era uma característica mágica da rua Cornélia — respondi, ele riu.
— É uma característica mágica do sul de Minas. Estamos navegando bem no meio do mar de morros — ele deu uma risada, pensativo — Meu pai costumava dizer que a rua Cornélia era quase o triângulo das bermudas.
Olhei pra ele e sorri.
— Navegando? Naufragando, talvez — ele riu — O que houve com seu pai? — questionei. Ele suspirou.
— Morreu logo depois dos pais do Élio. Foi uma tragédia.
— Disso eu entendo.
Ele olhou no fundo dos meus olhos, como se pudesse tocar no mais profundo da minha alma, e disse:
— Se você contar eu conto.
E riu. E rimos.
— Ele morreu eletrocutado, meu pai. Minha mãe ficou traumatizada e acabou em quase um estado vegetativo — respondi, pensativo. Léo retirou a isca do córrego e deixou a vara de lado, deitando-se na grama beira-água e observando o céu azul verônico.
— Meu pai não sabia fazer boas escolhas, nunca soube — Léo deu uma risada nervosa — É impossível pensar sem querer rir de tão absurdo. Você não vai acreditar.
— Experimenta.
Ele parou um instante, pensativo, e puxou minha camisa para trás, até que eu me deitasse ao seu lado na grama. Com os dedos, Léo começou a desenhar formas incomuns no céu, ao redor de nuvens e, como mágica, a brisa foi moldando seus pensamentos e criando desenhos sob o esplendor azul daquele dia encantado.
— Ele tinha uma barba enorme que nunca cortou, em pelo menos vinte anos — Léo fez uma pausa pensativa e me encarou, olhos profundos e penetrantes sobre minha face corada, o que me fez arrepiar os pelos — Ela era tão grande que o apelido dele era “Rapunzel”. Ele costumava usar um laço para prender ela rente ao corpo… Mas um dia ele decidiu sair sem esse laço… e tropeçou. Bum! Queda da própria altura, tropeçando na própria barba. Bateu a testa direto no chão. Foi morte cerebral na hora.
Não pude evitar ficar de olhos arregalados. Léo me observou, sem muitas mesuras. Fiquei sem palavras.
— Caralho — foi tudo que pude dizer. Ele riu.
— Eu disse que era absurdo.
— Não esperava que fosse tanto.
Léo se levantou e estalou as costas.
— Tanto é eufemismo para as coisas que acontecem nessa rua. Essa nem foi a pior morte. Foi uma das piores, óbvio, mas ainda tem umas que se sobressaem.
— Mal posso esperar para estar a par disso.
Nós rimos e ele me estendeu a mão para que eu me levantasse. De pé, olhos nos olhos, suspirei profundamente, sentindo o toque frenético de Léo sobre meu braço, e sorri. Ele sorriu de volta, mas antes que falássemos de qualquer coisa, me afastei de imediato, tentando conter qualquer coisa imprudente.
— Melhor eu ir trabalhar — afirmei. Ele riu.
— Melhor mesmo.
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