Todo Mundo Mente no Currículo
4 Encontro Cheio de Luxo
Pontualmente às 19h30, o sedan preto parou em frente à guarita do estacionamento de funcionários do hospital onde Shoko trabalhava. Nanami ainda chegou a conferir as horas no rolex em seu pulso — mais uma extravagância que Satoru chamou de “humilde adição ao look” que ele foi obrigado a usar enquanto era vestido como um boneco —, só para ver se não estava adiantado, mas achou melhor mandar uma mensagem perguntando por ela antes de começar a se autossabotar com a ideia de que ela estava lhe dando um bolo.
A resposta veio rápida e simples: imprevistos.
Ele foi autorizado a deixar o carro numa das vagas da diretoria e pegar o elevador dos funcionários até o andar onde a sala da cirurgiã ficava, deparando-se com ela não usando um jaleco, mas sim um vestido elegante com um decote que, na opinião dele, bem que poderia descer só mais um pouquinho.
— Um segundinho. — Shoko disse, sinalizando para ele enquanto tinha os olhos no monitor à sua frente e um telefone no ouvido — Não, Ijichi, o paciente da 402 só receberá alta após mais três horas de observação. Sim, eu sei que a família está esperando. Todos estamos. — ela suspirou, esfregando a testa — Te envio já já por e-mail isso. A doutora Yuki vai ficar responsável por dar uma última olhada nele.
— Se preferir desmarcar e ir para sua casa, a gente vê outro dia em que não esteja com a cabeça cheia. — Nanami, que ficou encostado no batente da porta observando-a em silêncio, disse quando ela pôs o telefone de volta no gancho.
— Esse dia não existe. — ela riu, apertando o botão esquerdo do mouse com mais força do que deveria, depois desligando o monitor — Pronto. Oficialmente de folga. — e se levantou, pegou a bolsa e caminhou até ele — Você me surpreendeu vestido assim, sabia? Achei que viria no “modo executivo”.
— A noite de hoje pedia algo menos… corporativo. — Nanami respondeu, caminhando ao lado dela rumo ao estacionamento — A propósito, você está linda.
— Obrigada. Coloquei meu melhor perfume aroma assepsia hospitalar especialmente para você. — disse, apertando o botão do subsolo quando os dois entraram no elevador.
— Meu novo cheiro preferido. — ele rebateu, ousado, e ela apenas umedeceu os lábios e desviou o olhar para o teto, voltando-o para frente quando as portas se abriram.
Como um verdadeiro cavalheiro, Nanami abriu a porta do carro para Shoko entrar e só depois que ela estava devidamente acomodada, ele deu a volta e assumiu o volante. Ele dirigia concentrado, revisando em sua mente o protocolo de serviço do L'Effervescence para não parecer que nunca havia pisado ali, quando a mulher ao seu lado esticou a mão para tocar o painel touchscreen do sistema de som:
— Posso? Quero ver qual é a trilha sonora de suas viagens.
O coração de Nanami errou uma batida. Será que Suguru tinha desconectado suas contas?
— Shoko, er… eu não recomendaria... — ele tentou fazê-la mudar de ideia, a voz subitamente tensa — Minhas escolhas musicais podem não ser do seu agrado e…
— Ah, deixa disso! — ela riu, deslizando o dedo pela tela, colocando a última faixa executada para continuar a tocar.
Uma introdução de piano dramática preencheu o carro no mesmo instante. Não era música de concerto — algo que ele facilmente conseguiria demonstrar apreço, pois conhecia algumas sinfonias —, era uma balada bem sentimental de Celine Dion.
Kento sentiu o rosto pegar fogo. Ele apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Shoko ficou estática por três segundos, olhando para a tela que exibia a capa da playlist de sucessos da diva canadense.
— It's All Coming Back to Me Now? — ela tentava conter um sorriso, mas estava difícil — Você ouve “This is Celine Dion” no último volume enquanto dirige por Tóquio? Eu estava esperando, sei lá, Rachmaninoff e recebi uma música extremamente romântica?!
— Eu vou desligar isso.
Nanami esticou a mão, completamente ruborizado, mas Shoko o impediu, segurando seu braço de leve, ainda rindo:
— Não! Deixa tocar. É perfeito. O "Diretor sério" tem um lado sentimental secreto… quem diria? Sabe o que é mais engraçado? — Shoko disse, limpando uma lágrima no canto do olho — Isso te deixou muito mais... humano. Eu estava começando a achar que você tinha se transformado em um robô empresário, mas ninguém que ouve Celine Dion pode ser totalmente frio.
— Fico feliz que o meu suposto "sentimentalismo" sirva de entretenimento para você. — ele resmungou, embora o canto da sua boca tenha subido um pouco ao ver como ela parecia mais leve.
— Relaxa, Kento. Seu segredo está seguro comigo. — ela piscou para ele, enquanto Celine atingia a nota mais aguda da faixa, naquele quase final apoteótico.
Assim que eles pararam na frente do L'Effervescence, o manobrista abriu a porta para Shoko com toda a pompa do mundo, enquanto Nanami saía do lado do motorista, ajeitando a gola do sobretudo e tentando fingir normalidade. A partir desse ponto o plano era simples: não falar mais nada e deixar ela falar sobre tudo que quisesse, sendo um bom ouvinte e apenas comentando ocasionalmente quando coubesse fazê-lo.
E assim o encontro fluiu de uma forma que, mesmo com toda sofisticação ao redor e uma comida cara, mas verdadeiramente boa, Kento só tinha olhos para Shoko. Ela falou sobre a pressão de comandar um centro cirúrgico com aquele tom meio sarcástico que fazia a voz dela sair levemente rouca involuntariamente, contou sobre uma tentativa frustrada de noivado que seus pais insistiram que fosse para frente — mas o rapaz em questão desistiu porque queria uma esposa troféu, não uma companheira de fato…
…mas a melhor parte da noite foi que, por mais que nada fosse dito quando eles estavam mastigando, só de estarem um com o outro ali eles pareciam bem. Nanami a observava sob a luz das velas, percebendo como ela parecia relaxar a cada prato que chegava, aceitando a companhia dele não como uma obrigação social, mas como um sossego merecido para as mãos que carregavam tanta responsabilidade.
Quando a sobremesa finalmente foi anunciada — uma pequena escultura de chocolate e frutas sazonais — Shoko a saboreou por inteiro sem dizer uma palavra sequer, deixando a colher de lado quando terminou e se inclinando para frente, apoiando o queixo na mão:
— Kento, eu falei sobre três cirurgias complicadíssimas com final feliz, seguros médicos que nos dão dor de cabeça e um cara babaca com quem eu quase me casei. E você... — ela fez uma pausa dramática — se esquivou de todas as minhas tentativas de te fazer falar sobre você.
— Não queria te chatear com minha rotina de trabalho. — ele respondeu, tomando um gole do vinho para disfarçar.
— Mas… e o homem por trás de tantas conquistas fantásticas? O que você faz quando não tem ninguém olhando, Nanami? Qual é a sua vida quando o “cara de sucesso” sai de cena? — jogou, passando a polpa do dedo ao redor da borda da sua taça.
Nanami pousou sua bebida sobre a mesa com calma, o cansaço de sustentar mentiras o fazendo se abrir de uma forma como ele nunca fez com ninguém:
— Minha vida é... silenciosa, Shoko — ele começou, escolhendo as palavras com o coração enquanto via as luzes refletidas no cristal — Eu sou um homem de rotina, acho que eu dependo até demais dela. Eu acordo cedo, vou à academia, leio o jornal, trabalho mais horas do que o corpo deveria aguentar e gosto de sentir o ar gelado na varanda da minha casa quando volto para ela. — ele levantou o olhar para encontrá-la, sendo o mais genuíno possível — Eu valorizo o silêncio, mas valorizo ainda mais a companhia de quem não espera nada de mim além de... presença.
Shoko sustentou o encarar de Nanami por um longo tempo e depois riu com carinho. Nos olhos dele ainda tinha a mesma seriedade melancólica que ela via quando o encontrava estudando na biblioteca, na época de escola:
— Fico feliz. De verdade. — ela estendeu a mão sobre a mesa, tocando levemente os dedos de Nanami que se entrelaçaram nos dela — Sabe, Kento... o que eu gosto em você não é o que me disseram que você conquistou. É o que você manteve pela última década.
— E você prestava tanta atenção assim? — ele perguntou, quase aliviado.
— Mais do que você imagina. — ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha — Sabe… eu passei a semana inteira contando os minutos para ter esta folga maior. E agora... eu sinto que não estou nem perto de querer ir para casa.
— Podemos ir para o hotel onde eu estou hospedado e beber alguma coisa enquanto conversamos mais um pouco, se for tudo bem pra você. — arriscou e, com um sorriso sugestivo nos lábios, ela acenou positivamente com a cabeça.
Nanami pediu a conta e a assinou com uma velocidade absurda, virando o último gole de seu vinho de uma forma até engraçada. Quando os dois entraram novamente no carro e afivelaram seus cintos, contudo, Shoko perguntou:
— Por que um hotel mesmo? Você não mora mais na cidade?
— Meu apartamento está passando por reforma. — ele disse, usando a desculpa combinada com Satoru — Reservei, então, uma suíte no Bvlgari.
— Ceeeeerto. — Shoko disse, desconfiada, mas apenas colocou Celine Dion para tocar quando ele deu a partida.
Com o tempo, Nanami foi se acostumando e até gostando da voz da cantora. Ponderou, inclusive, se colocaria de fato algumas músicas dela em sua própria playlist quando voltasse para a vida real…
…porém, até a manhã seguinte, o plano era ser o hóspede regular de hotéis sofisticados, com Shoko em seus braços o máximo de tempo que pudesse tê-la.
Ao cruzarem a entrada do Bvlgari, o recepcionista fez uma reverência discreta, como se a presença de Kento ali fosse um evento esperado.
Satoru sabia fazer um bom trabalho quando queria. Ele tinha que admitir.
— Bem-vindo de volta, Nanami-sama. Sua suíte na cobertura está preparada conforme suas instruções. — o funcionário disse, entregando-lhe o cartão magnético — Gostaria que algo fosse levado para o senhor e a senhora?
— Não é necessário. Obrigado. — ele agradeceu com um aceno curto e, com a mão apoiada levemente nas costas de Shoko, seguiu com ela até o elevador.
Quando as portas de metal escovado se fecharam, isolando-os do mundo, o oxigênio pareceu desaparecer. O loiro tirou seu sobretudo, sentindo-se sufocado, e isso não passou despercebido por sua companhia:
— Tá tudo bem? — perguntou, olhando-o de lado.
— Sim, só… não há necessidade de usar esta peça. — ele lhe lançou um sorriso social, mas estava cada vez mais difícil conter a vontade louca que sentia de agarrá-la ali mesmo.
— Concordo. Acho que há formas melhores de… esquentar agora.
Aquilo foi a gota d’água.
Nanami, que passou a noite inteira mantendo a distância respeitosa, finalmente cedeu. Ele se virou para ela, os olhos escurecidos pela tensão acumulada, e a beijou. De início, sua intenção era verificar se de fato tinha entendido corretamente os sinais que ela lhe dava, então o toque de seus lábios contra os de Shoko foi cheio de hesitação.
— Finalmente! — ela disse quando eles se separaram, puxando-o de volta pela nuca para retomar o beijo, incendiando tudo em ambos com como suas línguas se enroscavam.
Nanami soltou um suspiro baixo, prendendo-a em seus braços, e apenas o plim do elevador o fez se lembrar do lugar onde eles estavam:
— É… aqui. — ele disse num ofegar, o rosto corado.
— Vamos? — Shoko deu um sorriso predatório, seus passos de salto ecoando no piso enquanto ela rebolava sutilmente.
“Essa mulher vai me matar antes mesmo de eu fechar a porta.” — Kento pensou, apressando o passo para pegá-la pela mão e alcançar o quanto antes seu “lar temporário”.
E lá dentro da suíte, outro beijo veio com uma fome desesperada, as mãos de Nanami encontrando a cintura dela, sentindo a pele quente sob o tecido fino. Ele sequer notou a vista de tirar o fôlego da cidade de Tóquio, emoldurada pelas enormes janelas da sala — essa mesma sensação ele tinha ali, com a mulher que realmente amava, e não queria perder um minuto que fosse dessa bênção que lhe foi concedida pelo destino.
Com um impulso preciso, ele a colocou em seus braços, fazendo-a cruzar as pernas ao seu redor. A mão que apoiava o corpo da doutora aproveitou-se e apertou suas nádegas, fazendo-a gemer baixinho contra sua boca. Ele caminhou assim com ela em direção à cama gigantesca do quarto, o coração martelando contra o peito como um tambor…
…mas, antes que ele pudesse colocá-la sobre o colchão, Shoko segurou o seu rosto com as duas mãos, obrigando-o a parar. Ela estava bagunçada, os olhos brilhando de desejo, mas sua voz rouca e sensual sussurrou algo que deu uma leve freada na luxúria que os cercava:
— Espera... eu preciso saber de uma coisa antes de continuarmos.
— Claro, o que quiser. — ele disse, olhando-a nos olhos cheio de expectativa.
— Quem vai me levar pra cama agora é o Diretor Associado Kento Nanami… — ela perguntou, inclinando o rosto para beijar seu pescoço, o hálito quente arrepiando sua pele — …ou é o Analista Sênior que trabalha num escritório comercial modesto em Shibuya?
Fale com o autor