Todo Mundo Mente no Currículo
5 Analista Sênior Kento Nanami
Notas iniciais
“Ferrou de vez!”
Nanami colocou Shoko de pé novamente e a assistiu caminhar até o bar, posicionando dois copos sobre a bancada e servindo a si mesma e a ele com um uísque que escolheu a dedo dentre os disponíveis:
— Beba. — ela disse, empurrando a bebida para o loiro.
E só então ele reagiu. Para se justificar:
— Antes de qualquer coisa, eu juro que eu não sou mau caráter! — seu olhar era suplicante e as mãos tremiam, acariciando uma a outra num gesto apaziguador — Shoko, eu… na festa… ver você depois de anos… eu entrei em pânico! Você estava lá, não apenas socialmente inalcançável, mas me dizendo que se tornou uma cirurgiã-chefe; o que foi foda pra caralho, tá? — ele logo emendou, reconhecendo seu mérito — E eu... eu era apenas Kento Nanami: sem sobrenome relevante, nem fortuna. Eu só… eu só quis… parecer mais interessante.
Nervosamente, ele começou a andar pelo tapete felpudo e se sentou no sofá, enfiando o rosto entre as mãos. Continuando seu discurso:
— Quando o Gojo percebeu o que eu estava fazendo, ele fez o que faz de melhor e pegou a minha pequena faísca de insegurança para transformá-la em um incêndio! Ele criou tudo por conta própria: a ilha, o jatinho, os iates, as conexões... e eu? Eu até podia, mas não o impedi. Meio que… me alimentei daquilo. — ele soltou o ar, envergonhado, pronto para levar um esporro merecidíssimo dela — Tudo o que você viu hoje... foi só eu me aproveitando do fato de que eu ser “desmascarado” também prejudicaria o Gojo; então o convenci a me arrumar aquele chá para te dar, o carro para te levar ao restaurante que ele pagou para nós jantarmos e esta suíte… essa encenação com a finalidade de que eu, por pelo menos uma noite, fosse alguém que você pudesse admirar.
O silêncio voltou a dominar o ambiente de um modo denso e sufocante. Shoko continuava encostada no balcão, o copo de uísque na mão e o olhar fixo nele, como se estivesse analisando um paciente ainda aberto na mesa da sala de cirurgia. Ela não moveu um músculo durante a confissão dele, tampouco esboçou descontentamento ou pena — apenas esperou ele terminar de se afogar no eco das verdades que soltava uma atrás da outra para, enfim, tirá-lo de lá:
— Sabe… — ela tomou um gole torturantemente lento da bebida, depois continuou — A Utahime adora organizar festas. Ela fez questão de ser a responsável pelo envio dos convites da nossa reunião de 10 anos. Foi numa “noite de garotas” que ela foi para minha casa com a lista. Nós bebemos saquê e fizemos comentários maldosos sobre nossos ex-colegas e como a maioria deles continuavam um bando de playboyzinhos. Foi bem divertido, não vou nem fingir que não. — ela mordeu o lábio para não rir — …aí, entre todos, estava você.
— Espera… — ele levantou o olhar, surpreso. Lembrou-se vagamente de Satoru ter mencionado algo sobre a Iori ter sido parte da comissão — Vocês duas… desde o primeiro minuto…?
— A empresa onde você trabalha tem site e perfis em mídias sociais, Kento. Por favor! — ela riu de vez, sentando-se ao lado dele — Eu sabia que seu cargo não era tão alto quanto você me disse e que seria impossível seu bônus ser tão substancial numa expansão, já que você nem é sócio. Mas confesso que a reunião em Londres me deixou em dúvida.
— Foi uma videochamada. — ele soltou de imediato. Bastava de mentiras ou verdades floreadas — Mas… se vocês já tinham acesso a essas informações minhas… por que deixaram o Gojo espalhar tantas mentiras?
— Utahime jamais perde uma oportunidade de implicar com ele. Quando eu estava saindo da festa, ela pediu que eu fingisse que estava acreditando em tudo, que puxaria o tapete do Gojo assim que tivesse a chance.
— Você me deixou fazer todo esse papel de ridículo por conta de uma birra da sua amiga?! — ele tomou a bebida num só gole e a encarou, incrédulo e ofendido — Eu passei a noite pisando em ovos, vivendo uma dualidade constante entre me sentir incrivelmente realizado e o homem mais desprezível do Japão por esconder a verdade de você!
— E você foi um "desprezível" extremamente dedicado ao seu papel. — Shoko disse, levantando-se para levar os copos de volta ao balcão — Eu diria que estamos quites. Ambos tínhamos motivos bem egoístas para omitir os fatos um para o outro. — jogou, colocando as mãos na cintura, parada diante dele.
— Acho que eu preferia só levar um tapa na cara e ser chamado de cretino. — ele riu sem humor, recostando-se no estofado de um jeito desleixado — É horrível saber que fui feito de bobo.
— É mesmo, bonitão? — ela ironizou, levantando a cabeça dele ao segurar firme em seu queixo — E como você chamaria o fato de quase ter transado comigo sem me falar nada? O que isso me faria parecer?
— Por favor... não pense que eu não aceitei esse... “monumento ao absurdo” apenas por uma noite vazia com você. Não investiria tanto em algo tão… efêmero. — ele segurou a mão que o tocava, puxando Shoko pela cintura para que ela se acomodasse entre suas pernas — Eu passei a última década apaixonado por você. Cada mulher que eu conheci competia com esse sentimento e era uma batalha perdida para elas. — soltou, a confissão saindo de forma crua — Sempre foi você, Shoko Ieiri, a quem meu coração pertencia e ainda pertence… mesmo eu não estando no mesmo nível seu.
— O que mais eu preciso fazer para você parar com essa bobagem de “classes sociais”, hein? — ela acariciou seu maxilar com o polegar, sorrindo gentilmente — Eu já achava um charme seu visual “emo culposo” na adolescência e acho uma delícia sua skin atual de CLT com músculos definidos. — deu uma piscadinha, aliviando o momento consideravelmente — Mas, mais importante que isso, é que esse homem, com quem eu decidi por livre e espontânea vontade me enfiar num quarto de hotel mesmo ele não desmentindo aquele monte de histórias inventadas… é o homem que eu realmente quero comigo. Agora me diga, Kento… ainda quer que eu te dê um tapa na cara? — perguntou, sussurrando ao seu ouvido.
— Não acha que eu mereço ser punido? — ele provocou, a segurando pelos ombros e fazendo-a deitar-se no sofá, posicionando-se sobre seu corpo — Me diga o que eu tenho que fazer para me redimir com você, doutora Ieiri.
— Use sua imaginação. — Shoko rebateu, afastando-o para ter espaço para se levantar — Vem me convencer. — convidou, puxando o zíper do seu vestido para baixo e deixando a peça cair no piso, saltando-a enquanto caminhava na direção da cama.
Nanami foi deixando as peças de roupa pelo caminho, abandonando-as no sofá. No quarto, eles se amaram com intensidade, o homem fazendo de tudo para mostrar como a queria por inteiro em cada toque, recebendo o mesmo desejo de volta.
Foi simplesmente... fenomenal.
Quando atingiram o ápice final, ainda dominados pelo prazer, eles se beijaram com avidez. Kento estendeu o carinho por todo o rosto dela antes de tomar novamente seus lábios com uma ternura que contrastava com a luxúria de segundos antes:
— Eu te amo. — confessou, falando a milímetros da boca dela — Posso não ser um magnata, meus horários podem ser meio complicados… mas eu adoraria dividir cada um dos meus momentos livres com você, nós dois sendo oficialmente namorados.
— De horários complicados eu entendo, benzinho. E eu adoraria ser sua namorada. — ela disse, girando com ele na cama e reacendendo o desejo que sequer tinha se extinguido.
.☘︎ ܁˖💸⠂⠄⠄⠂⠁
Por volta das seis da manhã, Shoko, que dormira aninhada em Nanami, acordou ainda meio preguiçosa. Ela tentou se levantar sem perturbá-lo, mas o mínimo movimento fez o braço que a envolvia apertá-la mais:
— Pra onde você pensa que vai, doutora? — a voz grave e rouca de sono do homem ao seu lado disse, perto demais do seu ouvido para seu bem.
— Nem me lembro mais. — Shoko virou-se para ele, beijando sua boca lenta e sensualmente, seus dedos se perdendo naqueles cabelos loiros — Temos quanto tempo antes de você precisar ir trabalhar?
— Depois eu confiro.
Contudo, antes de as coisas esquentarem ainda mais, o celular de Kento começou a vibrar ruidosamente sobre a cabeceira, quebrando a atmosfera como uma marretada.
O loiro resmungou, tateando o móvel sem desgrudar os lábios dos dela, mas Shoko foi mais rápida e pegou o aparelho:
— É o Gojo? — ela perguntou, vendo o nome “Idiota Rico” piscando na tela.
— Sim. Ignora.
Mas ela atendeu, fazendo um sinal de silêncio e colocando a chamada no viva-voz:
— Bom dia, Gojo. — ela ronronou, encostando a cabeça no ombro de Nanami — A que devo a honra de uma ligação tão cedo?
O silêncio do outro lado da linha era quase palpável. Nanami conseguia imaginar perfeitamente a cara choque do herdeiro por ser Shoko a falar.
— Shoko?! — Satoru se espantou, falando agudo e depois começando a gaguejar — Ah... eu só estava… ligando pro Nanamin para... sabe como é. Eu… preciso do… jatinho! É. O jatinho!
— Desculpa ser a portadora das más notícias, Gojo, mas eu sempre soube quem o Kento era, tá? — ela disse, gargalhando, e o loiro ao seu lado tentava conter o riso, sem muito sucesso — Ah, a Utahime também.
— Que malditas! Eu odeio as duas! Tá ouvindo isso, amor?! — virou-se para Geto, que agora ria mais alto — A gente faz de tudo pra um amigo conseguir a gata e ele se junta com o inimigo! NÃO RI DE MIM, SUGURU!
— Eu adoraria ficar ouvindo seu lamento, mas meu namorado e eu não temos mais muito tempo aqui. O Analista Sênior tem que ir ao escritório trabalhar. Mas, como não é todo dia que você tira o escorpião do bolso para presentear os amigos, vou aproveitar bastante essa suíte incrível, tá? Obrigada pelo jantar e agradece ao Suguru pelo carro e pela playlist incrível da Celine Dion. Tenha um bom dia, cupido!
— ESPERA, SHOK—
Ela desligou antes que Gojo pudesse gritar o restante de sua indignação, colocando o celular de volta na cabeceira. Nanami, que finalmente teve a atenção dela inteiramente para si de novo, exibiu um sorriso pequeno e indisfarçavelmente satisfeito, comentando:
— A Iori vai acabar com ele. — constatou, puxando Shoko de volta para seu abraço.
— Ela vai. Por semanas! — concordou, beijando-o novamente — Infelizmente pro Gojo, a punição dele não vai ser… caprichada como foi a sua. Inclusive… onde estávamos antes de sermos interrompidos pelo nosso patrono?
Fale com o autor