Todo Mundo Mente no Currículo
3 Um Magnata com Bom Gosto
A manhã de sábado estava rotineira e tranquila. Mesmo tendo dormido pouco e mal, Nanami mantinha o foco no trabalho, espantando os devaneios sobre a noite anterior. Como ele saíra de casa um assalariado qualquer e voltara da escola um bilionário filantropo bem relacionado, a mente dele ainda estava tentando processar o absurdo.
O cartão que Shoko lhe deu, levemente amassado pelo constante manuseio, descansava apoiado no porta-canetas à sua direita. Ele até já havia decorado o número dela de tanto digitá-lo, mas a falta de coragem para apertar "ligar" o fazia apagá-lo e se xingar de "frouxo" em cada uma dessas vezes.
Na última tentativa, salvou o contato.
Então o aparelho começou a vibrar em sua mão e ele quase o atirou do outro lado da sala. Passado o susto, Kento ficou olhando para o nome Suguru Geto na tela enquanto dava um gole em seu café de máquina, o atendendo quando a ligação estava prestes a cair:
— Escritório do Diretor Kento Nanami. Como posso ajudar? — debochou.
— Para com isso! — a voz de Satoru, do outro lado da linha, veio num desespero indisfarçável — Eu passei o dia inteiro ouvindo minha mãe, a Utahime e o comitê do Green Valley querendo evitar um escândalo! Eles querem saber até a droga do nome do capitão do seu iate!
— Sinto muito, Gojo. Não seria prudente fazer a divulgação desses dados para clubes recreativos que estão aquém de mim. Acho que é melhor para todos os envolvidos que eu apenas não vá ao casamento. — ironizou, colocando a ligação em viva-voz enquanto continuava o trabalho do dia, organizando alguns relatórios em sua mesa.
— MAS NEM FODENDO! Se você não for, a Utahime vai me atormentar pra sempre, dizendo que fui eu quem te arrastou pra isso só para sair do tédio. E o traidor do meu noivo não para de rir de mim aqui do meu lado! — ele respirou fundo, tentando se acalmar — O que você quer pra me ajudar a sair dessa sem que nós dois sejamos humilhados? Eu faço qualquer coisa.
— Bom... — Nanami fez uma pausa dramática, tamborilando os dedos na mesa com o olhar fixo no monograma da família Ieiri, grafado em um rosé gold de bom gosto — Eu posso ir lá com você, dizer que não tenho interesse em me tornar afiliado. Das duas uma: ou eles vão abrir uma exceção para mim e me dar um passe de visitante ou algo do tipo para o dia do seu casamento; o que é bem provável com o tanto de mentiras que você inventou sobre mim… ou eles vão só aceitar e seguir.
— Parece mesmo a melhor solução. — Gojo ponderou, falando até mais baixo — Quanto isso vai me custar?
— Um chá exclusivo de Shizuoka, para presentear a Shoko. Ele precisa ser entregue por um concierge, em meu nome, com um cartão timbrado e uma embalagem bem elegante.
— Só isso? Não preciso nem de dez minutos pra organizar! — Satoru pareceu aliviado — O chá chegará no hospital no começo da noite. Passo para te buscar pra gente ir no clube daqui a pouco.
— Amanhã iremos, Gojo. — o corrigiu — Eu não posso sair no meio do expediente só porque você quer. Foi um prazer fazer negócios com você. — e desligou o telefone.
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Às 20h, Kento chegou em sua casa exausto depois de uma viagem num ônibus lotado onde ficou de pé por 15 minutos. Ele tirou seu paletó resmungando de dores musculares e o pendurou no cabideiro da entrada num gesto tão automático quanto o que fez para pegar o celular e levar ao ouvido:
— Kento Nanami falando.
— Oi, espero não estar incomodando. Só consegui seu número agora, graças ao Geto.
— Shoko! — ele olhou rápido para o nome que era exibido e voltou a falar em seguida — Não estou ocupado. Pode falar.
— Queria que soubesse que recebi o chá e olha… foi o melhor que já tomei na minha vida. — ela disse, empolgada, mas era perceptível que estava cansada — Muitíssimo obrigada!
Nanami se sentou no seu sofá, recostando-se no estofado com um sorriso bobo no rosto:
— Fico feliz em saber disso. Espero que ajude com o estresse do hospital enquanto durar.
— Meu receio é que minha sala é acessível demais aos meus colegas igualmente exaustos que também adorariam prová-lo. — ela brincou e um breve silêncio antecedeu a mudança no rumo da conversa — Queria ter conversado mais com você ontem, Kento. De verdade. A maioria das coisas que eu soube sobre o que mudou em sua vida foi pelos outros.
— Eu adoraria ter te contado tudo. — ele soltou, antes que pudesse se conter. Não era mentira, só estava muito longe da verdade que ele queria contar — Pelo menos… temos o número um do outro agora.
— Significa que vai me convidar para conversar pessoalmente qualquer dia desses?
— O que me diz de um jantar? Para compensar o tempo perdido.
— Com seu chef particular?
O bendito chef que Satoru inventou, que tinha no currículo 20 anos a serviço do Imperador e agora trabalhava exclusivamente para ele.
— Ele está de férias. — Nanami disse, olhando diretamente para sua cozinha compacta onde ele preparava as refeições mais baratas e funcionais que sua habilidade culinária permitia — Iremos a um bom restaurante, não se preocupe.
— Não duvidei disso em nenhum minuto. Você é o especialista em alta gastronomia de nós dois. — ela disse, fazendo ele bater na própria testa com mais esse detalhe inventado de sua vida — Que horas você me pega… amanhã?
— Amanhã?! — ele ficou nervoso, colocando seu notebook sobre a bancada e abrindo o aplicativo do banco para ver quanto tinha em conta.
Não dava nem para um restaurante 1 estrela Michelin.
— É que não vou ter outra folga seguida por um bom tempo. Amanhã é a janela.
Os dedos dele congelaram sobre o teclado. Nanami não tinha certeza se entendeu o real sentido do que ela acabara de dizer, mas queria muito que fosse o que ele pensou.
— Te pego às 19h30. — respondeu, engolindo em seco.
— Combinado. Até lá, Diretor. — e a chamada foi encerrada.
O pingar constante da torneira da pia da cozinha foi, por uns bons instantes, o único som naquele ambiente. Ele encostou o celular no peito, a respiração descompassada fazendo seu peito subir e descer um pouco mais rápido do que o de costume. O canto da boca subiu antes que ele pudesse contê-lo. Ele sentiu como se tivesse voltado no tempo e fosse novamente um adolescente completamente apaixonado pela colega de turma…
Até que a realidade desabou sobre sua cabeça. Para o restaurante até dava para conseguir um dinheiro emprestado no banco, pelo seu bom histórico, e depois se organizaria para pagar. Mas um carro digno de um encontro com Shoko Ieiri era outra história.
— Oh, não! — ele sussurrou, deixando o rosto cair sobre as mãos — Eu vou decretar falência antes do fim do mês e aí, além de contar para ela que não sou nem um milésimo do homem que ela acha que eu sou, vou ter que dizer que me afundei ainda mais para sustentar essa rede de mentiras! Isso é o que eu ganho por deixar o Goj—
Num estalo, ele pegou o celular novamente. Odiava o fato de ter que ser Satoru a resolver as coisas, mas ele lhe devia isso:
— Está com o seu noivo, Geto? — Nanami começou a falar assim que foi atendido.
— O que vocês estão aprontando, hein? — Suguru perguntou. Parecia preocupado.
— Por favor, passe para ele. É urgente! — insistiu e, depois de um tempo, ouviu a voz de Satoru do outro lado da linha — Gojo. Shoko aceitou jantar comigo amanhã. Se eu aparecer lá de metrô ou levá-la para comer num restaurante com foto dos pratos no cardápio, não é só minha credibilidade que vai para o ralo, a sua vai junto!
— Ah, caralho! Você tem razão... — Gojo murmurou, sério — A Shoko só não é pior do que a Utahime para me encher o saco se me pegar no pulo. — suspirou — O que você precisa? Já tem algum lugar em mente?
— Primeiro, eu gostaria de um veículo sóbrio, mas que não tenha cara de “aluguei especialmente para nossa noite”. Você consegue uma reserva no L'Effervescence o quanto antes? Não quero pegá-la desprevenida e acabar gerando um desconforto se ela achar que não está vestida adequadamente para a ocasião.
— Sobre o carro, eu dei um sedan pro Suguru de aniversário. Ele gosta dessas coisas sem graça também, então vai ser esse. — ele comentou, soltando em seguida um “ai, amor! Essa doeu!” — Agora eu tenho que dizer: para quem não é tão bem de vida, você até que conhece lugares chiques, hein?
— Eu tenho acesso à internet. — Nanami revirou os olhos, impaciente.
— Que seja. Eu vou pedir pro meu assistente ver isso e te aviso quando estiver tudo certo. Mais alguma coisa?
O loiro sentiu o rosto esquentar e respirou fundo antes de responder:
— Se a conversa durante o jantar for bem… se ela se estender… eu não posso... eu não posso trazê-la para o meu apartamento, nem pedir para ir para a casa dela. — ele murmurou, a voz quase sumindo antes de ele concluir.
Houve uma pausa longa demais. Nanami já estava pronto para desligar e acrescentar assexualidade ao rol de mentiras quando ouviu o grito eufórico de Gojo:
— NANAMIN! VOCÊ É UM SAFADO DE MARCA MAIOR, QUEM DIRIA! — disse, virando-se para Suguru para sussurrar o que ele tinha acabado de ouvir, fazendo o moreno soltar um assobio surpreso — Você quer meu apartamento em Shibuya ou prefere uma suíte no Bvlgari Hotel?
— Nada com sua cara de playboy, Gojo! Temos estilos diferentes demais! — o rosto de Kento parecia o sinal vermelho de um semáforo de tão envergonhado que ele estava — Eu fico com o hotel. Direi que estou hospedado lá enquanto minha casa está em reforma ou algo assim.
— O álibi da reforma! Clássico! Vou passar isso também para o meu assistente.
— Obrigado. É… só isso que preciso pra amanhã. — Nanami murmurou, sentindo-se ansioso e culpado ao mesmo tempo — Agradeça ao Geto por mim por permitir nossa conversa pelo celular dele.
— Deixa de bobagem e salve o meu contato para futuras emergências. — Satoru disse e, após desligar, mandou uma mensagem de texto para o loiro de seu próprio número.
O conteúdo: um emoji de mão com o dedo do meio em riste.
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Foi mais simples do que o esperado resolver a questão do Green Valley.
O conselho estava tão focado em não ter um escândalo nas colunas sociais envolvendo o clube que, quando Nanami disse que para ele bastava ir apenas no dia do casamento de Gojo e Geto, eles aceitaram imediatamente; sequer insistiram, para tentar fazê-lo repensar a questão da associação, no “passeio guiado” pela propriedade que eles faziam com todos os candidatos.
Antes de ser deixado em casa para se arrumar para o encontro com Shoko, todavia, eles passaram pelo apartamento de Satoru, descendo Suguru e ele cerca de meia hora depois com uma bolsa de viagem e uma capa preta de tecido segurada por um cabide:
— Vocês vão viajar? — Nanami perguntou quando pegou a bagagem deles e colocou ao seu lado no banco.
— É meio que um… acampamento de uma noite. — Gojo disse, enigmático.
— Não sei se eu deveria perguntar, mas… onde? — o loiro fechou os olhos, concentrando-se para não se alterar.
— A gente vai cuidar bem da sua casa, Nanami. — Geto disse, atento à estrada — Só estamos levando algumas coisas para passar a noite, caso você tire a sorte grande hoje.
— E ele vai tirar. — Satoru disse, confiante — Inclusive, o Suguru escolheu uma roupa pra você no nosso closet. Aposto que ia de terno. Respeito a escolha, é algo bem Nanami das ideias, mas magnatas não usam terno 100% do tempo. Existem alternativas tão finas quanto.
— E se a Shoko…?
— A Shoko é capaz de aparecer lá de jaleco, acredite em mim. Foi o que ela fez no nosso jantar de noivado.
— Tinha que ter visto a cara da mãe do Sato, Nanami. — Geto riu pelo nariz, se divertindo com a lembrança — Ficou jogando indiretas em todas as interações que teve com ela, e a Shoko, que está com menos vontade ainda do que na adolescência de seguir dresscode à risca, respondia na mesma altura. Foi uma cena linda de insultos nas entrelinhas.
— Acho que acabei de me apaixonar mais um pouco agora. — Kento soltou de forma avulsa, nem percebendo que falou alto o suficiente para que os outros ouvissem. Satoru até chegou a abrir a boca para fazer um comentário, mas Suguru gentilmente repousou a mão na sua coxa e o conteve, seguindo os três em silêncio rumo ao seu destino.
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