Com ela não tinha sido diferente.

Ela se viu no meio de uma enorme encruzilhada e decidiu que estava passando dos limites.

Ela o seduzia depois o abandonava no meio do caminho.

Sara viu seus olhos, eles pediam por ela, e se não fosse tão estúpida, teria o beijado na ponte. Tinha experiência suficiente para saber que seus intuitos surtiam o efeito desejado. Ma agora estava com medo, embora se achasse mulher o suficiente, estava agindo feito uma imatura, com os pés em barcos diferentes. A estrada estava a levando para uma encruzilhada que ela mesma havia criado.

Precisava se “comportar”, havia ficado muito mais tempo sem um homem sobre ela, então a necessidade não era desculpa para seu comportamento lascivo.

Não tinha como explicar, como entender o que estava realmente acontecendo. Precisava parar de vê -lo, por uns dias.

Assim ela decidiu.

Se trancafiou dentro de sua casa, tinha comida suficiente na geladeira, ia se ocupar em consertar o que precisava, ajeitar o jardim, talvez ler algumas páginas de seu romance vagabundo.

No galpão anexo à casa, estavam todos os apetrechos necessários. Ela havia se animado a comprar tudo que precisava há algumas semanas, mas depois se rendeu à preguiça.

A porta, ela resolveu facilmente. Um pouco de óleo e aquele barulho assustador se foi.

A tela dos fundos que começava se esganiçar, foi trocada com um pouco mais de trabalho. A ripa da cerca trocada, e uma boa demão de tinta deixou um efeito de nova. Trocou as dobradiças do portão e por fim, revolveu a terra do jardim, espalhando algumas sementes de flores miúdas e coloridas que Mindy havia lhe sugerido.

E assim se passaram alguns dias.

Seu livro estranho era sua companhia e ela não queria pensar em Grissom, mas pensava.

Pendleton tinha algumas coisas dele, antes de conhecê — lo julgou o contrário, agora ele é quem tinha algumas coisas de seu vaqueiro misterioso.

Os olhos, que descaradamente eram mesmo azuis e olhava para Carmem, sua hóspede silenciosa, da mesma maneira intensa que ele a olhava.

Aquela tensão sexual e sensual estava presente nas páginas amareladas também.

Ela bateu as partes, jogando seu companheiro noturno ao lado da cama, depois de ler …

Meu delírio repete seu nome, meu desejo só quer seu calor, imperfeito sou carne sou homem me alimento só do seu amor

_ Basta ! Vai ficar quietinho aí … de castigo.

Ela apontava o livro como se ele fosse o causador de suas emoções conflitantes.

A morena se levantou e se abandonou em uma cadeira na varanda da frente, os pés sobre a amurada, cruzados. Ela se viu no meio do nada, bastava um enorme chapéu e um fiapo de capim seco entre os dentes para se transformar em uma rancheira.

Era uma discrepância de seu mundo urbano.

….......

Grissom também algumas coisas para fazer, como comprar coisas básicas para casa, suprimentos de primeira necessidade e cumprir um contrato com sua editora.

Ele tinha que responder à alguns temas propostos antecipadamente, e naquele momento, analisava sua escrita com cuidado.

Estava se ocupando, mas ainda assim, estranhando o sumiço dela.

Ele havia ido até a loja de Marthy, comprado alguns cobertores, já que a noite esfriava consideravelmente.

Os olhos da mulher o acompanhava de todo lado. Ele estava se sentindo desconfortável, até que ela resolver assumir o que lhe ia por dentro.

_Vi você e a Sara …. juntos …. se conhecem ?

_Nos conhecemos aqui …

_Ela é uma mulher maravilhosa e está tão sumida. Tem a visto ?

_Não ! — Ele respondeu apenas.

_Ela costuma fazer caminhadas e passar por aqui, mas estou começando a ficar preocupada, será que está na cidade ?

_Eu sinceramente não sei mesmo, Marthy.

Isso me preocupa também !”

Ela não aparecia nas caminhadas, como ele esperava ansiosamente, nada no restaurante de Dick, na loja de doces.

Estava tentado a procurá — la mas perdia a coragem cada vez que imaginava que talvez, não quisesse vê — lo. Chegou a sair de casa com o propósito mas desistira no meio do caminho.

Talvez ela tivesse mesmo fora, queria muito saber de seu paradeiro.

Depois de corrigir algumas palavras e enviar ao seu editor, ele resolveu enviar também o relatório para Robert.

Durante aqueles dias, se sentiu desconfortável apenas mais uma vez e omitiu suas reações de dias atrás.

Estava lavando uma pequena louça na pia quando ouviu o bip de mensagem em seu notebook.

Mensagem recebida com sucesso.

Outo bip.

Nova mensagem.

Ola Gil, tenho recebido seus relatos e confesso que eles me deixam menos preocupado, mas quero que seja mais explícito da próxima vez. Preciso saber sobre ansiedade, preocupações e como está reagindo sexualmente. Um grande abraço. Robert !”

Grissom arqueou suas sobrancelhas e ficou surpreso. Ia pensar em uma maneira menos estranha de relatar os acontecimentos.

….......

A lua estava bem alta no céu e refletia sua luz prateada sobre o campo.

Ela suspirou e olhou para o portão. Seu coração quase parou !

_Hei …

Grissom ?

Ela se levantou em um pulo e foi até o portão, o abrindo.

Sua vontade de saber o que estava acontecendo foi maior que seus medos e ele tinha que estar ali.

_Entre !

Eles caminharam para dentro.

_Quer se sentar ?

Ele aceitou.

_Toma alguma coisa ?

_Não.

Ela se sentou de frente a ele. Aquele olhar, outra vez.

_O que o traz aqui ?

Ele olhou ao redor, também era uma casa aconchegante e cheirava bem. Ou talvez fosse ela.

Canela !

_Você está bem ?

_Sim … muito bem. — Ele viu ela baixar os olhar e teve a impressão de que ela não queria olhar em seus olhos.

_Você .. desapareceu ! — Ele arriscou.

_Estive por aqui o tempo todo, cuidando de algumas coisas.

_Hum … fico aliviado que esteja tudo bem.

Ele ficaram sem assunto, mas ela insistia em não olhar para ele.

De repente uma coisa minúscula atravessou a sala e foi parar em seus pés.

_Ei amiguinho … você é o presente dela ?

Ele viu um sorriso em seu rosto e depois gargalhou quando ele “criou” uma pequena pocinha no tapete.

_Ah … seu danadinho ! Ele é teimoso feito uma porta. Estou tentando ensinar a ele alguns modos, mas está difícil.

_Ainda é muito pequeno, Sara.

Ele o pegou no colo, analisando sua linhagem.

_Sabe a raça dele ?

_Acho que nem a Mathy sabe !

_Ele é muito desobediente ?

_Bastante, acho que não ouve direito… se quer saber.

Ele entortou a boca.

_Sinto muito mas … acho que preciso te dizer uma coisa que … talvez vá decepcioná – la.

_O que é ? — Ela se assustou.

_Ele é um bloodhound !

_E que diabos é um bloodhound ?

_Um cão de caça … muito inteligente mas teimoso !

_E como sabe disso ?

_É que … meu tio criava esses bichinhos teimosos em Marina Del Rey, onde cresci. Ele os adorava justamente por isso, dizia que qualquer coisa era melhor que as reclamações de minha tia.

_Você só pode estar brincando.

Ele riu mais uma vez, deixando o ambiente mais suave.

_Ele vai crescer bastante, é um cão muito bonito de aparência nobre, essas orelhas ainda vão ficar enormes também.

_Ai meu Deus !

_Você mora em apartamento ?

_Não !

_Que bom. Vai ser uma boa companhia, Sara ! Costumam ser afetuosos e sensíveis, bastante apegado ao dono.

_Oh … isso me conforta bastante.

_Me diz … não chegou a ver os pais dos filhotes ?

_Não ! Foi ela quem me disse que ainda restavam três.

Ele colocou o animalzinho no chão e continuou rindo com a maneira dele andar. Era engraçada.

_Como é o nome dele ?

_Eu não sei … queria que crescesse um pouco mais, para decidir.

_Não pode fazer isso ! Ele tem que ter um nome, para se acostumar.

_Não quero pensar nisso, agora.

Grissom balançou a cabeça se rendendo aquele jeitinho que, admitia ter sentido falta.

Eles se encaram e foi alguma coisa entre estranho e assustador.

_Sara … eu … — De repente ele se levantou. _ Tenho que ir.

Ela estava bem, viu com seus próprios olhos mas estar perto dela lhe dava sensações desconhecidas.

Se ela havia se afastado, talvez não quisesse realmente vê -lo.

_Não !

Ela se viu soltando aquela palavra sonora, talvez um pouco alto demais.

_Espere … tome alguma coisa, cerveja, vinho …

_Obrigado Sara.

_Um suco ?

Ela tinha que reconhecer que sentiu falta dele. Como podia ser tão preocupantemente bonito ?

_Está bem.

Ela sumiu pela cozinha e ele ficou olhando ao redor com mais atenção.

Muitos livros, a maioria combinando com suas preferência.

Ele os analisava, entornando a cabeça para ler melhor os títulos.

_Gosta deles ?

_Bastante !

Ela apareceu com uma jarra e a depositou na enorme mesa da sala.

Sara deu graças pelo livro “proibido” estar no quarto.

Ela o serviu e seus dedos se tocaram.

_O que é isso ?

_Frutas cítricas. Sei que é refrescante, mas tem outro efeito durante o dia.

_É gostoso.

_Se bem que não posso lhe oferecer chocolate quente !

_Por que ? Eu adoro chocolate quente !

_Mas é estranho … muito …

_Intimo ?

Era isso, mas não admitiu.

_Posso te fazer uma pergunta, Grissom ?

_Claro !

_Não gosta de bebidas alcoólicas ?

_Gosto.

_E não bebe ?

Ele a olhou em silêncio.

_Você é alcoólatra ?

Ele quase cuspiu o líquido que levava à boca.

_Não !

_Isso é muito comum em nosso meio, sabe disso não é ?

_Sei … mas não é o meu caso.

_Hum … e qual é o seu caso ?

_Eu … — ele apertou os lábios e ela reconheceu aquele gesto. Ele estava pensando em uma resposta.

_Você … tem alguma problema ? É isso ?

Ele suspirou vencido, batendo os dedos abertos uns contra os outros.

_Sara … eu …

Ele parecia buscar as palavras, Sara percebeu uma sombra de tristeza em seus olhos, e seu instinto de proteção falou mais alto outra vez.

Ela se levantou e sentou ao lado dele, segurando sua mão.

Ele não acreditou, pela segunda vez ela o tocava e a sensação era estonteante.

_O que você tem ?

Seus olhos pousaram em suas mãos juntas, e ele sentiu um leve aperto, que veio coroar a sensação gostosa que estava sentindo agora.

_Fiz uma cirurgia delicada ….

Ele contou calmamente todo o processo que tinha passado, desde a descoberta, a cirurgia, o tratamento, até aquele momento presente.

_Meu Deus ! Você teve uma segunda chance !

_Pois é … é no que acredito.

_E assim … o que mudou desde então, na sua concepção ?

Era uma pergunta complexa que se confundia com suas reações mais recentes, e nada tinha a ver com o que tinha passado. Pensou bastante antes de responder.

_Estou mais cuidadoso com minha saúde, vivendo um dia de cada vez, e esperando minha total recuperação.

E agora tentando entender o que se passa em meu coração !”

_Desculpe … Sara … eu não tenho hábito de falar feito um tagarela e ...

_Pode parar … fui eu quem quis saber e sinceramente agradeço a confiança em mim, eu tenho que te confessar … não tenho nenhum problema, mas minhas férias, não são exatamente férias !

_Não ?

Ela soltou sua mão e virou para frente, imitando seu gesto, juntou sua mãos.

_Não estava mais aguentando, eu … cheguei no meu limite e precisava de um tempo. — Ela não queria contar a ele que tinha escapado das mãos de um assassino bastante perigoso, talvez em outra ocasião.

_Eu imaginei … dois meses de férias … não é muito comum !

Ela sorriu.

_Mas .. você está bem, quer dizer … tem valido a pena, Sara ?

_Bastante, faço tudo que não me permitia fazer …

Ele levantou uma sobrancelha.

Como conquistar um homem totalmente desinteressante ?”

_Não penso no próximo passo, não racionalizo, também vivo um dia de cada vez, e o melhor … tenho paz.

Não depois que te conheci !”

_Acho que pegamos o mesmo barco … e nos encontramos …

_Na proa ! — Ela completou, afinal suas mentes eram brilhantes.

Sara jogou uma mecha de cabelo atrás da orelha e o encarou.

Aquilo tinha sido um próximo passo, a mecha displicente voltou em seu rosto e dessa vez foi ele quem a ajeitou com uma delicadeza que a assustou.

_Você é … linda !

_Obrigada ! — Seus olhos piscaram devagar, mas continuaram se encarando, profundamente.

Depois ela viu seus olhos em sua boca …