Time Traveller
5 Tempo Inumano
Notas iniciais
Minha cabeça infernal dói. Mas simplesmente dói, no carro roubado. Um celta velho. Como uma máquina do tempo, poderíamos deixar ele novo. Mas não temos tempo. Paramos na cidade, e nada me lembra como a minha cidade que morei antes de ser um Viajante do Tempo. Aquela destruída num ponto que toda a noite o céu era laranja.
–Nenhum ataque alienígena?- pergunta Julie. -Acho que estamos abusando da sorte.
–Calma aí.- eu digo. -Só viemos conferir primeiro, ok? Se for verdade, nós destruímos as amostras.
–Mas era isso?- ela me pergunta, ajeitando o cabelo. -Era esse nosso propósito?
–Eu sei que não.- tento acalmá-la. -Mas não se muda o destino do mundo em um dia, não é?
Ela concorda, e pegamos um táxi. Paramos em algumas rua de distância da NASA. Há uma cerca elétrica contornando o local.
–Pagamento em cheque? Ou dinheiro?- pergunta o taxista.
–Só um minuto.- peço-lhe, enquanto movimento o horário no Tempo-Misto. Estranhamente, o carro dele volta atrás a ré, assim como as pessoas. As nuvens também mudam rumo, e nós nos livramos do taxista.
Sorrio para Julie. Ela também tem um sorriso no rosto, mas por pouco tempo. Logo ela olha para o campo.
–Então, como nós vamos atravessar a cerca?- ela pergunta.
Tento arranjar um plano. Podemos voltar até um tempo em que a base não era nada mas um terreno vazio. Mas não sei se meu Tempo-Misto aguentaria tanto. Olho pelos lados.
Tem uma loja de marcenaria ao lado. Talvez um alicate pudesse cortar a cerca.
–Fique aí.- eu peço para Julie, e aperto o botão de tempo lento. Segurando o Tempo-Misto, corro até a loja do marceneiro Juca( ou pelo menos é o que consta no nome lá fora) e caminho pelas prateleiras. Ninguém se movimenta uma vez. Estão paralisados. Até os piscares de olhos demoram minutos. Pego um alicate, o maior possível, e volto correndo, pulando por cima da frente de uma picape e caindo suavemente no chão. Aperto o botão novamente.
Ela pisca. -Você... pegou um alicate...
–De modo superveloz?- eu sorrio. -Esse Tempo-Misto é bem impressionante.
–Bem que eu queria ter um.- ela responde.
Nós caminhamos até a cerca. Está um pouco frio aqui, então não me dá suor quando começo a cortar a rede. Ela espera, encostada na cerca, e olhando para mim.
–Então...- quebro o silêncio. -Como você não passou?
Seu olhar quebra. Começa a olhar na rua, mas não tem ninguém por perto. -Eu não salvei as crianças.- diz ela. -Na segunda guerra mundial, eu falhei. Elas sangraram nos meus pés. O que eu fiz de errado? Eu estava indo tão bem.
–Calma.- eu digo. -Talvez você só passou pelo lugar errado.
–É.- ela concorda. Mas seu olhar é triste. Eu tenho certeza que não é só porque ela falhou. É por causa do que ela teve que passar. O sangue vago. As explosões. A morte. Eu me lembro de como eu estava desesperado a ponto de choramingar. Mas eu permaneci forte e atirei em qualquer guarda. Mas era cada decisão que tinha que fazer. Todo beco poderia ser a escolha errada.
Termino de cortar. Um retângulo bem feito na cerca. -Vamos?- ofereço para Julie, mostrando a mão para a NASA. O campo é bem grande, mas vamos conseguir. Entramos correndo, escolhendo um dos lados para procurar por uma porta. Paro o tempo novamente, e corro pelos lados, passando despercebido pelos vigias. Tem uma porta do lado de um, então tenho tempo para virar meu alicate na parte de trás do vigia deste lado. O alicate bate lentamente, mas dói só de ver. Ao menos consegui nocautear um.
Volto para onde Julie está. Ela não percebeu a minha falta. Ativo o tempo.
–Eu vou por ali!- ela aponta para onde eu voltei. Eu sorrio para ela, e ela não entende.
–Acabei de voltar de lá.- eu digo, animado. -É para lá mesmo que nós temos de ir.
–Não acha que tem gente lá dentro?- pergunta Julie.
–É claro.- eu empurro as portas. -Mas nós cuidaremos deles.
Nós entramos em uma sala pequena, com um elevador ao lado de uma escada. A sala é cheia de soldados em vigia que nós vimos lá fora, mas estes aqui foram todos postos a dormir.
–Tomara que foi você que fez isso.- ela diz. -Ou senão quem seria?
Volto uma hora no tempo, mas os soldados não se levantam. Torno a voltar para frente.
–Eles estão assim a mais de uma hora.- eu digo, passando entre eles até a escada. -Devem estar mortos.
–Não deveria ter um cheiro de cadáver?- ela pergunta, examinando um. -Eles não tem.
–Graças a Deus.- eu digo brincando, mas ela me olha incrédula. Então digo: -Nos dois sentidos. Graças a Deus, sem cheiro, e também não estão mortos.
–Pare.- ela fala. Então se levanta e começa a descer as escadas. Acompanho-a. Mais gente dormindo, é o que se resume. Mas dessa vez são cientistas. Ou cobaias. Não sei dizer. Mas continuo a andar.
No fim das escadas, começam a atirar, repentinamente. Nós quase somos atingidos, mas nos escondemos na parede.
–Quem tá atirando?- sussurra Julie.
–Te respondo em um segundo- eu pego meu Tempo-Misto.
Corro até os atiradores. Desvio as balas, elas estão expostas, perfurando o ar lentamente. Coloco uma em direção a parede. A outra deixo continuar, não vão nos acertar, mesmo. Olho para quem atirou. São altos, sem expressão. Usando uma roupa preta, com o simbolo ômega. Sem face. Segurando a arma com firmeza. Sem piedade.
São os Inumanos.
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