Time Traveller
6 Uma Grande Mudança
Notas iniciais
Os Inumanos atiram sem piedade. Suas armas carregadas estão todas miradas para nós. Nos escondemos, cada um em cada lugar.
Eu fico atrás da coluna que segurava o teto. Thomas pula embaixo de uma das mesas. Ele está querendo morrer? Dos melhores lugares que tínhamos para fugir, a mesa era sua melhor opção?
Espero que seu Tempo-misto também tenha opção de regeneração, porque ele irá precisar.
Olho para nossos inimigos, apenas um instante. Depois um deles atira, raspando a coluna de metal. Sinto um calafrio percorrer meu corpo. Seria possível derrotarmos eles? Não sei.
—Ei!- Thomas grita. Não é a perfeita hora para gritar. Faço uma cara de impaciência para ele.
—Que foi? Agora não é hora de conversar!- me afasto, logo outro tiro vem. Preciso lembrar de me manter afastada da visão deles.
Então os tiros cessam. Os Inumanos começam a se aproximar.
—Corra!- ele berra. Nos levantamos e voltamos para a saída, onde viemos. Ao correr, tento me desviar da mira deles. Espero que eles não tenham boa mira ao movimentar. Um outro tiro percorre a sala. Estamos chegando perto do último corredor. Precisamos pensar em algo.
—Julie!- Thomas me chama novamente. Percebo que na parede ao lado está escrito "Secundo Armada/Noitre". O que aquilo queria dizer? Não tinha tempo para isso. Os corredores continuam frios e sem iluminação, apenas as luzes das salas iluminam o chão a cada três passos.
Corro mais rápido, temendo ser alcançada. Então pergunto para Thomas.
—Que foi dessa vez?!
—Eu tive uma ideia!- Ele passa a máquina em formato de um relógio de bolso para mim. -Você sabe usar, né?
—Mais ou menos!- minto. Não sabia colocar data exata. Não sabia apertar o tal botão de tempo lento. O que realmente sabia era que o botão de cima levava você aonde você colocou na data e local.
—Olha, eu preciso ter certeza!- ele grita. -Quer saber? Dê aqui!
Jogo para ele, errando alguns centímetros. Ele pega no ar, levando o braço para trás, quase não alcançando. Ele me olha ferozmente.
—Cuidado!
—Desculpe!- grito. Não consigo ficar correndo assim. O corredor largo acabará em poucos metros, e ele precisa fazer alguma coisa.
Então vejo ele apertar o botão esquerdo e encima, que aponta o Noroeste.
O tempo passa lento. Ao menos para ele.
Aperto o botão de Retardamento de Tempo. Em um efeito prolongado, cada segundo torna minuto, cada minuto torna meia-hora.
Os tiros dos Inumanos passam lentamente. São grandes armadilhas, com eletricidade percorrendo o tiro. Os soldados permanecem parados, mirando o cano longo de suas armas para onde eu estava.
Eles estariam lá por causa de Julie? Por que tinha me metido nessa? Por que a salvei? Não sei. Talvez o impulso de saber que podia mudar o destino de alguém me moveu. Talvez até estivessem ali por mim... Porque abusei do poder que me foi dado.
Mas eu não iria mudar nada. Nenhuma circunstância, se pudesse. Eu não voltaria no tempo e deixaria que ela morresse enquanto eu corria para fora. Se pudesse, faria tudo de novo.
E eu continuo a pensar. Nesse mundo, não existe falta de tempo. Existem tiros que movem lentamente. Soldados especializados em matar-nos também. Corro até eles.
Corro, cada passo rápido comparado ao deles e de Julie, lá atrás. Com essa minha velocidade, consigo derrotá-los. Chego perto de um, pronto para direcionar sua arma para o colega Inumano ao lado, coisa que qualquer um faria.
Pronto, encosto o dedo na arma.
—Variação de velocidade detectada.- a voz repentina saiu da arma, vibrando até os meus ouvidos. —Iniciando metabolismo acelerado...
Espere. Fico parado, ainda com a mão no cano da arma, os Inumanos ainda congelados no tempo, mas a voz saiu sem problema de velocidade. O que está acontecendo aqui?
WHEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!! Um som incrivelmente alto é lançado ao ar. Uma dor atinge meus tímpanos. Caio no chão, soltando a arma do Inumano, e tento voltar até Julie. Tento alcançá-la. Ela podia ouvir o barulho também? Mas então o barulho acaba. Aproveito o tempo para correr, mas uma outra mão me alcança. Os Inumanos me agarram e me atiram ao chão, o que me faz derrubar o Tempo-Misto.
—NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOO!!!- saio do efeito Retardamento do Tempo, e sinto o ar em minha volta pesar, como se a gravidade e a pressão finalmente me alcançassem.
Julie parou também, ouvindo meu grito e sabendo onde eu estava. Correndo até mim, percebi que ela também não conseguiria vencê-los. Tento lutar contra eles, e consigo me soltar por um tempo, e então arrumo a data do Tempo-Misto. Logo eles me agarram novamente.
Sinto eletricidade fundir com meu corpo. Batendo no meu coração quando eles me atacam com suas armas de choque. Berro de dor. Mas isso não é importante. Julie. Ela é importante.
Chuto o Tempo-Misto até ela.
—NÃO!- ela grita.
—Julie! FICA AÍ!- grito. Mas por pouco tempo. Outras correntes de choque percorrem minhas veias.
—Usa...gggghh... o Tempo-Misto... AAAAAGGH! Aperta... o gatilho direito... ele... aggh... vai te levar para um lugar seguro.
Um lugar seguro. Isso ainda existia?
Espero que sim. Pelo bem dela.
Agarro a máquina, pequena e redonda, como um relógio de bolso. Gatilho direito. Mas como poderia saber voltar? Voltar e salvá-lo?
Retiro o cabelo da face enquanto pego o objeto. Os Inumanos imobilizam Thomas, alguns deles já partem para cima. Não posso fazer nada.
Se eu conseguisse salvar aquelas crianças, nada disso teria acontecido. Ou se eu conseguisse aceitar o fardo de ter falhado na fase 2 e tivesse deixado aquele homem me matar. O que naquele mundo destruído, que sei que será o futuro das pessoas desse tempo, o que naquele futuro valia a pena? Valia a dor de viver? Apenas a minha mãe? É tudo o que eu tenho.
Não vou deixá-los matarem Thomas pelos meus erros. Eu vou voltar, Thomas.
Vou salvar você do fardo de morrer pela minha causa.
Nem que demore mil anos, eu irei decifrar o Tempo-Misto, e conseguirei salvar você. Olho os Inumanos aproximarem, um passo, dois passos, assim em diante. Thomas olha uma última vez para mim. Seus olhos dizem tudo.
Vá logo.
Não há outra alternativa. Elevo a mão direita até a máquina dourada. Meu dedo encosta no gatilho frio. Com um peso envolvendo-me, puxo o gatilho com toda a força.
O lugar ao meu redor gira e contorce. O prédio desaparece, o Sol dá inúmeras voltas. Árvores voltam ao local. Prédios são desconstruídos, tijolo por tijolo. Quase nada sobra.
O quão longe eu estou indo? Olho a data.
24 de dezembro de 1860.
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