Thunder Chronicles

13 O caçador de macacos


Estava tudo tão escuro quando aquela criatura brilhante surgiu, não era possível distinguir bem o que era, mas sua cor amarelada iluminava tudo. Em cima de sua cabeça um homem completamente azul guiava aquele ser que parecia ser um dragão, apontando para onde a criatura deveria ir, e ela obedecia, era como se aquele homem tivesse conquistado toda a confiança do dragão.

Eles iam para frente rapidamente, até que um vulto apareceu, parado e em pé na frente dos dois, com os braços cruzados, despreocupado. Ele era totalmente preto. O dragão rugiu mas o vulto não se assustou, foi quando o homem azul ordenou que o dragão atacasse, mas antes que ele pudesse fazê-lo, daquele homem sem cor, várias projeções de tentáculos negros pontudos saíram de seu corpo e perfuraram o homem na cabeça do dragão, aquilo fez a criatura entrar em desespero, num estado de fúria que ela nunca havia estado antes.

Eu o matei, mas eu quero você.” —Disse o vulto.

—Eu tive um sonho esquisito hoje. -Tatsuo acordou, Yara já estava do seu lado, com algumas malas. -Então resolveu ir hoje? -Ele sorriu.

—Você disse que está bem, não é? E sinto que precisamos voltar logo para Pilastra… Estou com uma sensação horrível.

—Espero que esteja errada. -Ele levantou da cama do hospital, ainda com os curativos no braço. -Bom, nosso próximo inimigo é esse Zodíaco agora, não?

—Não sei de mais nada, Tatsuo, aquele homem descobriu quem você era e não te matou, isso vai dar a ele um status de traidor… Não sei o que ele fará, o que o Zodíaco fará e nem faço ideia do que está prestes a acontecer.

Após Tatsuo se trocar e arrumar a cama, eles saíram do quarto e foram para onde Mardak estava. O comandante estava ferido, mas já se sentia em condições de voltar para casa. Eles, ao sair, agradeceram aos médicos e enfermeiras por tudo e foram rumo à Mithra, no castelo, para conversar e se despedir.

—Então vocês realmente já vão? -Disse Mithra ao ver os dois entrando em sua sala. Ela estava triste, tinha gostado do pouco tempo que passou do lado daqueles dois, sentiu que eram diferentes. -Quanto ao objetivo original de vocês aqui, não se preocupem, meu Reino ajudará vocês no que precisar, qualquer coisa mesmo.

—Muito obrigado, Mithra, Yamamoto ficará feliz de saber. -Disse Yara. Mithra, tirou o sorriso da cara na hora.

—Olhem… Chegou uma mensagem de urgência hoje logo antes do sol nascer… Ia deixar vocês descobrirem quando voltassem, mas acho que vou contar agora, assim já chegam preparados.

—Do que está falando? -Perguntou Tatsuo

—A mensagem é do Reino de vocês, ela diz algumas coisas que… Bom, resumindo… Ganya, pelo que diz aqui, era conselheiro do governante, ele é um traidor, membro do Zodíaco, ele causou a morte do profeta Yoropac que estava no Reino de vocês, derrotou Yamamoto numa luta, e matou dezenas de civis. -Yara e Tatsuo não podiam acreditar no que estavam ouvindo, o garoto andou e de forma rude, pegou a carta da mão da rainha.

—Não vou acreditar se eu não ler! -As mãos dele tremiam enquanto segurava o papel. — “[...] A derrota de Yamamoto, junto com as mortes dos civis, fizeram com que o governante abandonasse seu cargo, deixando seu Reino hoje (dia em que lê essa carta) de manhã, e nomeando Samuel Zillistra o novo chefe de Pilastra.”

—Não pode ser… -Yara leu junto com Tatsuo.

—Isso, além de gerar uma desgraça para vocês, vai ocasionar uma crise sem precedentes. -Mithra estava assustada assim como os dois, apenas tentava não demonstrar. -Um membro do Zodíaco pôde driblar Zulk, Samuel e todas as suas defesas, derrotar Yamamoto e sair impune, esses caras não estão de brincadeira.

—Não… Dina, também foi morta por Ganya? -Tatsuo suou frio, cerrou os dentes, estava com mais raiva do que jamais havia sentido. -Ganya era um dos caras do governo que eu já conhecia antes, uma vez o encontrei num lugar que fui tentar almoçar sem pagar porque estava sem dinheiro… Ele pagou minha refeição. -As lágrimas começaram a cair. -Como ele pôde? AHHHHHHH -Tatsuo gritou. -EU VOU ACABAR COM A RAÇA DELE! Vamos, Yara!! -Ele saiu da sala enfurecido, sem se despedir de Mithra.

—Desculpe… -Quando Yara foi falar, Mithra interrompeu.

—Vão, eu entendo, seu Reino precisa de ajuda, e eu infelizmente preciso ficar aqui, mas lembrem-se, se precisarem, estarei de prontidão.

Yara concordou e também saiu.

Mais um capítulo ia começar para Tatsuo, mas antes ele precisava voltar para casa, a salvo, com seus companheiros.

Muitos civis estavam ali, afinal, alguns entenderam o que tinha acontecido e não culpavam Yamamoto, e ficaram tristes com sua ida. Zulk, Samuel, Silas e outros oficiais estavam lá também.

Yamamoto estava em cima de um minúsculo barco com dois remos que estava amarrado a uma madeira no porto, ele colocava as comidas e algumas peças de roupas ali.

—Talvez o que eu esteja fazendo seja irresponsabilidade e imaturidade, mas eu sinto que é o que devo fazer. -Ele tinha um semblante triste e sério. -Ontem, foi um desastre, mas não quero que pensem que estou desistindo após uma derrota, eu estou é indo procurar um jeito de me tornar mais forte para defender esse Reino.

—Não nos deve satisfação, Yamamoto. -Disse Zulk. -O Reino estará são e salvo, iremos protegê-lo com nossas vidas.

—Eu também faço isso, mas temo não ser suficiente, por isso estou indo. -Ele ter falado aquilo surpreendeu os dois.

—Nós faremos direito. -Disse Samuel, que ficou sentido.

—Eu espero… Ganya fez algo com a minha cabeça, eu estou ouvindo todos que morreram aqui, eu preciso vencer isso… Eu vou voltar, eu prometo.

Ele desamarrou a corda do barco e começou a remar para longe. Ninguém que assistia aquilo tinha acreditado ainda, o governante estava deixando seu Reino, como isso era possível? Muita coisa aconteceu no dia anterior. Traição, morte de uma oficial, chacina, derrota. Isso tudo não mexeu só com Yamamoto, mas é como se ele tivesse sentido que fosse, agora ele deixava o fardo de tudo isso para Samuel, um garoto sem experiência política nenhuma, o que ele tinha na cabeça?

—Zulk.

—Sim, Samuel… Governante.

—Quero que indique alguém para ser o novo líder da FT… Tudo que Ganya fez ontem, vamos reparar ainda hoje. -Ele se virou para Zulk, e após dizer isso, andou um pouco e falou com outro homem. -Tairos, ache gente para arrumar toda a arena, HOJE! Silas, quero que calcule os gastos da reconstrução da arena e me passe. E Mira, nós vamos pagar todos os enterros dos mortos ontem, entre em contato com as famílias e veja os custos.

Quando ele saiu andando, Zulk viu um homem crescido naquele moleque, talvez ele tivesse talento pro que estava fazendo. Seu fardo era difícil de carregar, estava sucedendo Dakko e Yamamoto, não podia passar vergonha.

O viajante solitário para em uma ilha pequena, com muitas árvores e mato, não deve ter muitas pessoas morando nela, só se estiverem do outro lado.

—Ainda bem que cortei o Link com ela antes de chegar na ilha, eles podem saber da minha traição mas não da minha localização. -Damon começou sua fuga do Zodíaco. -Humph, que merda estou fazendo, hein? -Ele falava sozinho enquanto andava pela floresta para achar algum rio e comida. -Traindo justo o Zodíaco, merda, eu sou um idio… -Ele ouviu um barulho, algo no alto das árvores, pode ter sido um macaco. -Um dia sem o link e eles já me acharam? -Pensou. -Não, é paranoia. -Levou a mão a cabeça por um segundo. -Mas mesmo sendo paranoia não posso ignorar.

Ele achou uma árvore baixa com amora e pegou as frutas para comer, fazia alguns dias que ele não se alimentava, ninguém consegue sobreviver assim, sua barriga roncava de fome.

—Nenhum guerreiro aguenta sem comer, sei como é.

Ele se virou para trás e já preparou um golpe, concentrando água em volta de seus punhos.

—Calma, amigo, eu sou só um caçador, essa ilha aqui tem muitos macacos, então costumo pegar alguns para comer.

O homem tinha um colete, uma calça e sapatos normais, tinha cabelos loiros e um rosto de um homem bem cansado, em torno de seus 40 anos. Ele, ao ouvir o barulho de um macaco na árvore, sacou uma agulha gigante, do tamanho de uma kunai e a lançou para cima, acertando o macaco em cheio por trás das folhagens. O animal caiu no chão bem ao lado do tronco.

—Embora eu use uma ferramenta peculiar, sou só um caçador.

—Então… Macacos são gostosos? -Damon abaixou os braços.

—Cara -Ele sorriu. -Vou assar esse agora mesmo. -Ele andou até o corpo do animal e o pegou. -Venha até em casa, experimente e garanto que não vai se arrepender.

Damon pensou duas vezes antes de ir, poderia ser uma armadilha, mas sua autoconfiança e a fome o fez ir.

O homem morava em uma casa simples, com apenas os cômodos principais, mas era aconchegante. Para chegar lá ele precisou passar pelo centro da ilha, era pequena demais, havia apenas algumas casas e poucos comércios, não vivia muita gente ali, o que era bom, significava que aquele era um lugar tranquilo, sossegado, sem bagunça nenhuma.

Após apenas uma hora, o macaco estava pronto e o caçador o serviu na mesa.

—Pode vir comer, forasteiro. -Damon sentou na cadeira e pegou um pedaço.

—Obrigado… Nem perguntei seu nome.

—Pensei que lembrasse, Damon. -O homem disse, sorrindo. -Tantas missões no Zodíaco, como iria se lembrar né? -Damon fez um projétil de água que rapidamente atingiu o homem no peito e o lançou até colidir com a parede, e depois ele foi até ele.

—Como sabe quem eu sou? Eles te mandaram, não é mesmo? -Damon estava com raiva.

—Hein? Do que está falando? Eu sou Viryna, naquele dia… Na ilha Scicros, quando você e seu amigo aniquilaram o clã Doruma, você me matou. Eu percebi que você não tinha lembrado..

—Do que está falando? Se eu te matei porque você está aqui?

—Porque ela me encontrou! Ela me trouxe de volta, ela revive as pessoas, Damon.

—Ela quem?

—Ela. -Ele apontou para a porta da frente, onde estava uma moça linda, de cabelos pretos, aparentemente nova. -Ela me trouxe de volta. -Damon o soltou.

—Estou indo embora, obrigado pela comida.

—Você mudou. -Ele parou para escutar. -Você mudou muito, cadê aquele instinto assassino daquele dia? Você não tinha tido piedade de ninguém, não tinha dado chance para ninguém, você agora tem um coração bom, não é? Ou talvez nunca tenha sido mal.

—Cala a boca!

—Fique aqui. Você não lembra, mas eu era um assassino também, agora não sou mais… Talvez eu possa te ajudar.

—Eu traí o Zodíaco, Viryna, eles virão atrás de mim, não vou colocar vocês em risco.

—Não está colocando, nós vamos ajudar a te proteger. Não nos torne um fardo, nos veja como reforço. -Disse a garota.

—Ouça ela.

O Reino de Lambertia era um dos menores, sim, era rico, mas pequeno, o governante já era o mesmo há 40 anos, eles não gostavam de mudar as coisas. Mas talvez, em breve fossem obrigados.

Num restaurante que estava bem pouco movimentado, Getus, o governante conversava com uma figura um tanto incomum, o profeta Garo. Se Yoropac foi para Pilastra, Garo para Lambertia, o único paradeiro ainda desconhecido era o de Kalyun.

—Entendo sua preocupação, profeta, mas… Não posso envolver meu Reino nisso, não temos muito soldados, e se só eu e mais alguns lutarmos, não seremos de grande ajuda. -Dizia Getus.

—Isso é ser covarde, não querer nem mesmo tentar. -Garo era direto. -Me arranje um barco, já estou há um tempo tentando te convencer, eu não consegui, vou ter que ir para outros Reinos.

Nesse momento, um rapaz com cabelos loiros quase brancos e dois chifres de bode na cabeça entrou no restaurante, ele era alto mas muito magro, com certeza estava bem abaixo do peso. Seu semblante era de alguém tranquilo, calmo, que não se irritava com nada.

—Que merda, não devia ter ficado aqui nem no primeiro dia para descansar. -Garo se levantou, nervoso que Getus não juntaria forças com outros Reinos para ajudar na guerra. -Eu sei o que vamos enfrentar, e precisamos da sua ajuda, mas a escolha é… -Ele olhou para frente e viu aquele homem magro. -Não…

Sem nem mesmo ter tempo de pensar, o homem atirou um hexágono tridimensional transparente e fosco no profeta, que foi se defender mas não conseguiu a tempo. Ao colidir com o corpo dele, a força foi tanta que jogou o profeta para fora do restaurante, quebrando a parede atrás dele, Getus se levantou e foi ajudá-lo.

—Você não vai para a guerra. -Ele se levantou sozinho e rápido. -Mas ela vem até você… Getus, esse é Áries.

O governante de Lambertia olhou para seu oponente com os olhos arregalados, sem acreditar que ele realmente tenha vindo para seu Reino.

—Você é Getus, não é? -Perguntou Áries, que teve uma resposta positiva com um aceno de cabeça. Ele apontou para o centro da cidade. -Recomendo ir lá, antes que o caos seja maior. -Quando ele olhou, viu construções caindo e pessoas fugindo. -Câncer está lá, e ela é perigosa, vá defender seus civis.

Getus ficou com medo, ele olhou para Garo, que disse a ele que se fosse um rei de verdade, iria lá enfrentar seu adversário pelo bem das pessoas que estavam ali.

Ele foi. Correu para o centro da cidade, para enfrentar um membro do Zodíaco.

—Então vocês vão acabar com nós três que sobrevivemos? Que covardes, só atacam agora que já fizeram metade do trabalho. -Garo tirou a parte de cima de sua roupa e as setas em seu corpo começaram a brilhar. -Venha com tudo para cima.

—Não precisa nem pedir.

—Ex-discípulo contra seu velho mestre, vamos ver quem vai sair vivo, Hyora!