Thousand Eyes.
10 Freya
Notas iniciais
Sala de interrogatório — FBI.
Ela não sabia quanto tempo havia passado desde sua prisão, mas, estava exausta.
A agente que havia lhe interrogado, Sharon Carter havia lhe trazido um café — que ela recusou — e um sanduíche que ela já havia comido.
Sua cabeça doía de cansaço e ela tentava não pensar em Bucky e no que ele havia dito. Não queria se lembrar de nada daquilo. Freya afundou na cadeira quando a porta se abriu e uma mulher entrou. Ela era baixa, morena e com os cabelos crespos presos em um rabo de cavalo volumoso.
Psiquiatra, Freya pensou na mesma hora. Nunca tinha passado em uma psiquiatra em sua vida, mas, sua mãe era uma e para Freya todas elas tinham aquele ar calmo e tranquilo.
Freya reprimiu aquela memória. Não queria pensar na mãe.
—Oi senhorita Hatkins. — a mulher disse se sentando na frente dela, onde Bucky havia se sentando ha algumas horas — Eu sou a doutora Sinclair. Vim conversar com você um pouco. Se importa se eu te chamar de Freya?
—Sem problemas. — Freya respondeu cansada. Sabia que aquela mulher estava ali para avaliar seu comportamento, mas, não se importava mais. Só queria sair daquela sala minuscula. Estava começando a parecer demais com as celas em que ela teve que viver.
—Freya, sou uma psiquiatra. A agente Carter me contou um pouco sobre você e sobre o que aconteceu. Eu quero te ajudar.
—Não preciso de psiquiatra. — Freya rebateu — Eu estou presa? Porque senão, então gostaria de ir embora.
—Você não gosta daqui? — a doutora perguntou. Freya ergueu uma sobrancelha.
—Por que eu iria gostar? É uma sala de interrogatório!
A doutora concordou com a cabeça.
—Você já esteve em uma sala de interrogatório antes? — ela perguntou.
—Não quero falar sobre isso. — Freya respondeu desviando o olhar da expressão avaliadora da doutora — Eu sei o que você está tentando fazer. Minha mãe também era psiquiatra.
—Era? — a doutora perguntou. Freya concordou com a cabeça — Você contou a agente Carter que sua mãe foi assassinada no dia em que te sequestraram.
—Ela foi assassinada porque eu me recusei a ir com eles. — Freya corrigiu.
—Sinto muito.
Freya não respondeu. A doutora escreveu alguma coisa em suas folhas.
—E é do meu entender que você ficou presa por oito anos, correto? — Sinclair insistiu.
—Isso, mas, também não quero falar sobre isso. — Freya respondeu agitando a perna. Ela viu a doutora reparar nisso e se xingou mentalmente.
—Então, vamos falar sobre como você escapou. Foi ha quase um ano?
—Sim.
—E como você escapou?
Freya sabia que ela ia perguntar aquilo e demorou um pouco para responder. A verdade era que aquela noite era um borrão em sua cabeça.
—Eu não me lembro exatamente. — ela disse — Só me lembro de fugir, mas, é confuso… Em um minuto estou na cela… E no outro correndo para fora do teatro…
—E o que você fez depois de fugir?
—Eu me escondi.
—Você não procurou a policia?
—Não. A HYDRA está em todos os lugares… Eu não sabia em quem confiar… Só fugi.
—E para onde você foi?
—Canadá. Pedi ajuda em um abrigo para mulheres, mas, depois fugi de novo.
—E para onde você foi depois?
—Islândia. Mas, me encontraram duas semanas. Então eu fugi de novo. Fui para a Bélgica, depois para Praga e por ultimo o Brasil.
—E quando voltou para os EUA? — a doutora perguntou.
—Ontem. — a doutora franziu a testa — Eles me acharam de novo e eu fugi.
—E você não pensou em ir para casa?
—Eu não tenho casa. — a voz de Freya vacilou e ela pigarreou antes de continuar — HYDRA tirou tudo de mim. Não tenho para onde voltar.
A doutora fez mais uma anotação.
—E como era a sua vida antes? — ela perguntou olhando nos olhos de Freya.
—Antes?- Freya foi pega de surpresa pela pergunta.
—Antes do sequestro. — a psiquiatra esclareceu.
Freya não esperava por aquela. As lembranças de sua vida antes da HYDRA eram como uma caixa que ela deixava guardada e só mexia em momentos que achava que não poderia mais aguentar. As vezes, em sua cela solitária, ela sonhava em voltar para a vida que tinha antes, mas, aquela Freya era uma pessoa completamente diferente. Ela já não conseguia mais associar a si mesma com aquela garota.
—Não sei… era boa, eu acho. — a psiquiatra esperou e ela continuou — Eu estudava em um internato no norte da Inglaterra, era bolsista. Voltava para casa nas férias de inverno e verão. Sei lá, eu tinha alguns amigos, era boa nas aulas…
—Mais do que boa pelo que eu fiquei sabendo. — Sinclair falou — Você era a melhor aluna da escola.
Freya sentiu um gosto amargo na boca com o comentário. De repente, não queria mais conversar.
—É e olha onde isso me levou. — ela falou acida.
A doutora olhou para ela. Freya achou que fosse falar alguma coisa, mas, a mulher apenas sorriu e se levantou.
—Me de um momento, por favor. — ela disse e saiu fechando a porta.
Freya bufou, se odiando. Se não tivesse sido tão burra para invadir aquela droga de teatro, nem estaria ali. Mas, é claro que ela tinha que ser impulsiva e irresponsável daquele jeito.
Ela continuou agitando a perna e olhou para o vidro, apoiando a cabeça nas mãos.
A porta se abriu alguns minutos depois e a doutora entrou, dessa vez acompanhada da agente Carter e de Tony Stark.
O que diabos ele estava fazendo ali?
—Hatkins, — Carter falou — esse é Tony Stark.
—Oi, senhorita Hatkins. — o Homem de Ferro disse.
Freya murmurou um “oi” sem entender o que estava acontecendo. Ela olhou para a doutora Sinclair de maneira inquisidora.
—Freya, depois de tudo o que você passou e pelo que conversamos, pude ver que está passando por TEPT (Transtorno de estresse pós — traumático). É comum em vitimas de abusos prolongados como os que você viveu, mas, você precisa de ajuda.
—Perai, você diagnosticou isso em meia-hora de conversa? — Freya perguntou cética.
—Esse é apenas um diagnóstico inicial — Sinclair falou — Mas, gostaria de continuar essa conversa com você.
Freya franziu a testa.
—Nós recebemos informações a alguns minutos de que a HYDRA realmente não foi extinta — a agente Carter falou — Nós podemos te proteger.
Aquilo era sério?
—Em troca de que? — Freya perguntou.
—Da sua ajuda. — Tony Stark falou — Precisamos da sua ajuda para entender o algoritmo de Zola e também pra entender como ele funcionava.
Freya olhou para cada um deles, considerando suas opções.
—E se eu não cooperar? — ela perguntou.
—A HYDRA ainda está por ai, — Stark respondeu — eles podem te encontrar de novo.
—Eu tenho me virado…
—Você tem fugido. — corrigiu ele — Mas, se aceitar nossa oferta, não precisará fugir mais.
Freya suspirou.
Que se dane, ela pensou, o que mais ela tinha a perder?
****************
ANTES
Sibéria — 2010.
Ela murmurou aquela melodia em sua cabeça, tentando controlar as mãos tremulas e as lagrimas que caiam.
Undo this storm, undo this storm, undo this storm… And wait.*
Daquela vez era Kampmann em sua cela. Ele tirou seu corpo pesado de cima do dela e se vestiu.
I can’t control withering wonders, flowes that lose their shape.*
Ela ficou ali deitada, não sentindo nada além de nojo de si mesma. Já não sentia desespero, já não sentia medo ou raiva. Só ficava ali rezando para que acabasse logo.
—Boa garota, passarinha. — Kampmann disse tocando em sua perna e saiu.
Ela fechou os olhos, deixando as lagrimas caírem livremente.
I lie awake and watch it all, it feels like thousand eyes.*
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