Those Eyes
1 Prólogo
Notas iniciais
Lembro-me de estar sentada no sofá, assistindo a um desenho animado. Minha mãe tranquilamente preparava alguma coisa na cozinha, não muito longe de onde eu estava. Ri divertida com qualquer cena da TV. Estava concentrada demais para perceber que, de repente, minha mãe parara de cantarolar.
Ouvi vozes, por mais que elas tentassem ser inaudíveis. Os sussurros de minha mãe declaravam abertamente que ela não queria quem quer que fosse ali. Levantei-me, indo sorrateira até a cozinha. Foi fácil...
– Vá embora, ela não está preparada. – Mamãe choramingou.
– Você sabe que não posso, Lydia. – Uma voz masculina respondeu. – Sabia que esse dia chegaria e devia ter se preparado para ele.
Aquela voz... Tinha a sensação de que já a ouvira antes. Queria ver a quem ela pertencia. Emanava tanta força e confiança.
– Mas ela é só uma criança! – Mamãe se exasperou, descuidando do tom em que falava.
– Hera está aflita, — o homem continuou. – tem a sensação de que Lylah tem a ver com alguma coisa importante. Não quero ela se metendo na vida da sua filha.
– Nossa filha. – Mamãe corrigiu.
Era meu pai. Tinha o imaginado de várias formas. Um empresário rico que andava sempre de terno; às vezes imaginava que papai até fosse parecido com Herald, o pescador que vendia peixes diretamente para mamãe; quem sabe meu pai fosse até um astronauta.
No entanto, lá estava ele: altivo, esguio, até um pouco atlético. Seu cabelo encaracolado diferenciava do meu. Vestia uma camiseta da Maratona de New York e uma calça jeans. Parecia um tanto comum para mim.
Dei mais um passo em direção a cozinha, me desprotegendo do batente da porta, meu esconderijo. Papai me percebeu.
– Olá, Lylah. – Ele disse enquanto abria seu melhor sorriso.
Não respondi. Tive medo de que se eu falasse com ele, talvez me desse conta de que ele não estava lá de verdade. Corri para mamãe, que me pegou em seus braços, levando-me para seu colo.
– Por favor, — ela choramingou uma última vez para meu pai.
A súplica de mamãe não pareceu ter efeito. A batalha já estava ganha há muito tempo.
– Vou esperar lá fora enquanto vocês duas conversam.
Papai deixou a cozinha. Ouvi a porta da casa abrindo e fechando. Mamãe me colocou no chão e encarou-me com um olhar triste. Nunca havia visto minha mãe triste. Seus olhos verde-escuro guardavam lágrimas teimosas... Ela estava prestes a chorar.
– Lylah, — Ela chamou enquanto afastava as mechas de cabelo castanho de meu rosto. Ela queria me dizer algo, mas por algum motivo nada saia de sua garganta.
– Sim? – Perguntei.
– Você vai... – Ela procurou alguma forma de dizer aquilo da maneira mais sutil possível. – Você vai sair para umas férias com seu pai. Ele te levará a um lugar lindo e você ficará lá por um tempo.
Mamãe não tinha certeza do que dizia. Lembro-me de ter me desesperado naquela situação.
– Você não vem com a gente? – Perguntei segurando o choro.
Ela, no entanto, percebeu ser impossível segurar sua própria tristeza e insatisfação... E chorou. Chorou como se estivesse prestes a perder o seu bem mais preciso. Ela me abraçou, envolvendo toda a dimensão de seus braços por volta de minhas costas. Seus cabelos se misturaram com os meus; o mesmo castanho. Passei meus bracinhos por volta de seu pescoço e, como uma tentativa de me manter ali, ela me ergueu novamente para seu colo.
Senti seus lábios tocando minhas bochechas... Estavam molhados, provavelmente com as lágrimas que escorreram por seu rosto.
– Eu te amo. – Ela disse. Foi aí que eu percebi que era um adeus.
Mamãe me levou para fora, onde papai nos esperava. Ele estendeu os braços em minha direção e mamãe entregou-me para ele. Seu colo era quente, mas em nada se comparava ao de mamãe. De certa forma, por mais que eu quisesse, não conseguia sentir conforto algum em seus braços.
– Para onde você vai leva-la? – Mamãe perguntou. Quis parecer trivial para que eu não percebesse a incerteza em sua voz.
– Não se preocupe, Lydia, — Papai tentou acalmá-la. – Ela estará em boas mãos. Digamos que um certo irmão meu me deve um favor.
Não pareceu o suficiente para mamãe, mas ela sabia que não conseguiria argumentar contra qualquer coisa que meu pai dissesse. Ela então abaixou a cabeça... Não conseguiria ver sua filha partindo. Papai suspirou longamente e, comigo em seus braços, andou para longe.
Pude ver mamãe por cima do ombro de papai... Ela estava em frente à porta de casa, ainda encarando os próprios pés. Talvez tenha sido só uma memória falsa que criei para me lembrar da última vez que a vi, porque mesmo sem o vento, seus cabelos dançavam em direção ao norte.
Tentei parecer forte e segurar o choro... Não queria mostrar a meu pai minha vulnerabilidade.
– Não se preocupe, criança. – Papai disse ao pé do meu ouvido. – Você está a salvo.
Papai sorriu discretamente, mesmo parecendo que ele não queria sorrir. Seus braços me apertaram forte e de repente, no intervalo de uma piscada, não estávamos mais em frente a minha casa. Parecia que não estávamos em qualquer lugar que eu conhecesse.
Estávamos numa espécie de rua, embora não houvesse asfalto. Todo o chão era coberto por uma camada fina da mais verde grama que eu já havia visto. Bem em frente a nós estava uma enorme e linda mansão.
Jurava que poderia ser uma escola particular: seus portões elegantes protegidos por dois leões de mármore, um longo caminho de grama e jardim até a magnifica mansão, decorada de forma que lembrasse um antigo templo grego.
Lembro-me de ter ficado com medo daquele lugar, mesmo embora ele fosse tão bonito e, de certa forma, acolhedor. Ao mesmo tempo em que queria ir embora dali, também queria ficar... Era como se a aura de toda a mansão cantasse músicas especialmente para mim.
Papai se aproximava dos portões, quando um clarão surgiu atrás de nós. Ele se virou tranquilamente, como se toda aquela luz não fizesse nenhum mal para seus olhos. Lá estava um rapaz, por volta dos seus dezesseis anos. Loiro, alto, com um sorriso escondido no canto da boca.
O rapaz parecia emanar a luz dele mesmo — olhar diretamente para ele fazia meus olhos doerem – e de repente tudo pareceu mais quente. Tive a sensação de que o calor também vinha dele. Meu pai se aproximou dele...
– Você está atrasado. – Papai disse irritado.
– Você é que está sempre adiantado... – O rapaz respondeu debochado. – Você e a sua mania de correr, sempre apressado.
Papai não pareceu gostar da brincadeira. Talvez julgasse que aquele assunto não era nada trivial. O rapaz, percebendo o descontentamento de meu pai, retirou o sorriso do rosto e perguntou:
– Então essa é a sua filha? – Ele me estudou. Tentou ver por de trás das minhas mãos que cobriam o rosto, mas não pareceu muito interessado. – Não se parece muito com você.
– Tem certeza de que ela ficará segura aqui? – Papai perguntou.
O rapaz radiante não respondeu.
Papai suspirou decepcionado.
– Assegure-se de que irão cuidar bem dela... – Papai disse com certa raiva em seu tom. – Você me deve isso.
– Não se preocupe... Hermes. – O rapaz abriu o sorriso novamente e estendeu os braços em minha direção, pegando-me em seu colo. – Ela estará em boas mãos.
Fale com o autor