Those Eyes
2 Seu Destino, Sua Escolha...
Acordei com o som fino dos aulos de Euterpe. A melodia vinha do lado de fora da janela de meu quarto. Era uma maneira um tanto agradável de acordar. Mesmo que com o passar do tempo eu começasse achar monótona, era impossível não ser tomada por sentimentos agradáveis ao ouvir a música de minha irmã.
Na verdade ela não era minha irmã... Euterpe, assim como as outras nove garotas com quem eu morava, era uma musa. E não é atoa que são chamadas assim; carregam consigo a beleza das deusas do Olimpo; suas vozes inspiram até mesmo os que não têm talento algum e cada uma delas é matrona de uma arte diferente.
Eu, por outro lado, sou apenas... Eu. Confesso que depois de onze anos consegui aprender a tocar algum instrumento e dançar com Terpsichore, mesmo embora não chegue aos pés dela.
Levantei-me vagarosamente, cobrindo o rosto da luz que invadia o quarto pela fresta da cortina. Não me importei em arrumar a cama ou trocar de roupa, apenas desci as escadas da mansão até sair no jardim. Contornei a casa e fui parar em frente ao lago. Quatro ou cinco de minhas irmãs estavam lá, cada uma dispersa em uma atividade.
Euterpe ainda assoprava sua flauta. O ritmo de sua melodia parecia reger todo o universo... Ou pelo menos só o ambiente por dentro dos limites da mansão. Erato estava distraída com um pergaminho antigo e amarelado. Thalia provavelmente lia um livro de comédia, porque ria exageradamente – mesmo que seu riso não fosse nada desconfortante. Clio e Melpomene conversavam discretamente enquanto brincavam com os pés mergulhados na lagoa.
Aproximei-me cinco ou seis passos, me sentando na grama entre Euterpe e Thalia. Nenhuma delas se quer parou de fazer o que estava fazendo para me dar bom dia, mas não ligava para isso. Há muito tempo aprendera que quando musas estão ocupadas com suas atividades, dificilmente alguém conseguirá despertá-las.
Estendi as costas no tapete verde de grama fofa e sorri quando a luz do Sol irradiou em meu rosto. Era uma sensação confortável, familiar... Algo que eu conhecia bem e gostava – mais do que conseguia admitir.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali, mas só acordei quando Euterpe parou de tocar e ouvi a voz de Calliope chamando por mim.
Calliope era a musa da poesia heroica, por isso eu tinha a impressão de tudo que ela falava saia como uma história de aventura, como se ela estivesse sempre exaltando os lados positivos de tudo.
– Lylah, — ela chamara. Sua voz dançou em meus ouvidos. – Isso não é maneira de uma musa se apresentar em meio a outras pessoas.
Todas elas me tratavam como se eu fosse uma delas de fato. Eu tentei aprender a falar corretamente, a afinar o tom de minha voz, a me mover com graça; mas por mais que eu tentasse, sempre fui desajeitada demais. Jamais chegaria aos pés de nenhuma delas.
Além do mais, era muito mais fácil acertar um alvo com uma flecha do que cantar um poema épico.
– Mas eu... – Eu tentei.
– Não me venha com a história de que você não é uma musa, Lylah, — Calliope bradou. – Você mora conosco e por isso vive como nós. Vá se vestir.
Subi as escadas novamente resmungando entre os dentes. Vestidos de seda longa eram simplesmente desconfortáveis demais para mim. Impediam com que eu me movesse com agilidade. No entanto, não adiantava argumentar contra Calliope.
Tirei a camisola azul para entrar em um vestido longo branco, suas alças grossas e trançadas formavam um X em minhas costas e a cintura era marcada por um cordão feito de crina de Pégaso branco. Havia ganhado aquele vestido de Polyhymnia no meu último aniversário. Prendi os cabelos numa trança e desci novamente para ter com minhas irmãs.
Estavam todas juntas na mesa do jardim. Ela Estava posta com o café da manhã daquele dia: pão, leite e muitas frutas. Todas elas conversavam entre si, rindo e divertindo-se logo de manhã. Era uma cena encantadora. Até mesmo suas risadas soavam como música para meus ouvidos.
No entanto de todas elas Urania parecia ser a única que não estava se divertindo. Sua expressão era preocupante, como se ela tivesse descoberto um segredo terrível e tivesse que esconder aquilo de todas nós. Não seria a primeira vez que isso acontece. Urania é a musa da astronomia. Ela aprendeu a ver nas estrelas os segredos do universo.
Queria perguntar-lhe o que havia de errado, mas fazer isso na frente de Calliope simplesmente me pareceu perigoso. Andei discretamente até a mesa e me sentei onde de costume. Estendi os dedos em direção a uma uva, levando-a boca, sem em momento algum tirar os olhos de Urania.
Ela era a mais nova das musas, ou pelo menos aparentava ser. Tinha um ar juvenil, como se não tivesse passado dos seus quinze anos. Até eu parecia mais velha que ela. Calliope, por outro lado, adotava a forma de matriarca. Suas feições e olhar transmitiam sabedoria de uma anciã, mesmo embora ela aparentasse ter no máximo trinta anos de idade. Ela cuidava de todas nós como se fossemos suas filhas... Eu em particular.
As musas conversavam entre si. Eu mal prestava atenção, toda a minha preocupação estava na expressão de Urania. Entretanto, embora nenhuma delas percebesse o meu silêncio, Calliope fez questão de me incluir na conversa:
– Lylah, — ela chamou. Sua voz exclamando a sua autoridade. — Lembre-se que nos prometeu que mostraria seu progresso com a lira hoje.
Eu tinha me esquecido disto. De tempos em tempos minhas irmãs exigiam uma mostra de minhas habilidades com alguns instrumentos. Como elas eram perfeitas, sempre acabavam achando algum defeito em minhas melodias. Eu estava acostumada. No entanto nenhuma delas se importava com o meu progresso com arco e flecha. A única coisa em que eu vinha mostrando melhoras desde o dia em que o peguei pela primeira vez, há onze anos.
Talvez elas só não quisessem admitir que eu não tinha nada de musa em mim...
– Ah, claro — respondi depois de engolir a uva.
Não tinha nem um pouco de certeza em minha voz. Na verdade eu engoli em seco. Pena que minhas irmãs sempre percebem quando isso acontece.
– Qual o problema? — Perguntou Terpsichore um pouco procupada. — Você praticou, não praticou?
A verdade é que enquanto eu devia estar praticando com a lira, eu estava praticando com o arco, num alvo um tanto perigoso. Afinal, a estátua do pavão no meio do bosque da mansão era um tributo a Hera e eu tinha medo de que um dia ela descesse do Monte Olimpo para me castigar por abrir inúmeros buracos em seu pavão.
– Ah, por Zeus, — Polyhmynia se exaltou. — Ela andou escapando para treinar com arco e flecha.
Nessa hora Calliope fechou a cara de uma forma amedrontadora. Todas as outras musas pararam de rir para me encarar. Só Urania ainda mantinha sua atenção em seus próprios pés.
– Não acredito, — Calliope ralhou. — Eu amaldiçoo o dia em que Apollo te trouxe aquele arco. Aquele deus do Sol metido a príncipe encantado.
Todas as outras musas pareceram entrar na briga contra mim, cada uma delas chamando o deus do Sol de um nome diferente, um pior que o outro. Mas eu não conseguia admitir que elas falassem daquele jeito... Era como se cuspissem do prato em que comeram.
– Parem, — eu gritei enquanto batia as mãos na mesa. — Vocês são... São... — Eu tinha vários nomes na cabeça, mas tinha medo de que um raio caisse direto em cima de mim se eu falasse apenas metade do que havia pensado. — São uma ingratas... Ou vocês já se esqueceram quem lhes deu essa mansão?!
Levantei-me. Meu peito arfava conforme todas elas iam se calando. Não havia sido a primeira vez que eu estourava dessa maneira. Minhas irmãs tinham o dom de me deixar nervosa. Além do mais, elas sempre arranjavam alguma desculpa para falarem mal dele...
Ele...
A simples lembrança de seu nome me fez arrepiar até a alma.
Eu sai correndo. Fugi para meu quarto no andar de cima da mansão. O Sol mal nascera e eu tinha uma vontade persistente de me prender a minha cama. Minha lira descansava num cesto de barbante ao lado da cama. Eu deveria estar tocando-a. No entanto, meu arco, descansando num suporte na parede, chamava mais minha atenção...
Ai! Tudo naquela mansão simplesmente me fazia lembrar dele. O Sol, a lira, o arco.
Ouvi batidas suaves na porta. Não era difícil imaginar quem era. Até o toque na madeira grossa era gracioso vindo de uma de minhas irmãs. No entanto eu esperava Calliope, mas dera de cara com Urania, aflita em meu quarto.
Ela sentou-se ao meu lado na cama e voltou a encarar os pés. Ela tinha algo a me dizer, caso contrário não estaria ali, mas eu sentia que, de alguma forma, ela queria que eu quebrasse o silêncio.
– Algum problema, Urania?
O silêncio permaneceu por mais alguns segundos. O olhar vidrado de minha irmã ainda encarava o nada, mas ela pareceu tomar fôlego para responder.
– Lylah, — ela choramingou. — Eu... Eu sinto que... A sua profecia está para ser cumprida.
Eu não entendia muito bem do que ela estava falando, mas permaneci quieta, continuando a ouvi-la.
– Seu tempo conosco está chegando ao fim, você precisa tomar seu próprio caminho.
– Do que é que você está falando, Urania?
– Você se lembra? — Ela então finalmente me encarou. — Há onze anos quando Apollo te trouxe até nós?
– Lembro-me de uma coisa ou outra. Por que?
– Sabe porque ele te trouxe?
Eu sempre me perguntara — e às vezes perguntava a Calliope também, — o porquê de eu ter sido trazida para cá. Calliope sempre dava a mesma resposta: "Um acerto de contas".
– Não. — Eu respondi.
– Quando você nasceu, Hera, deusa dos deuses, foi até sua mãe e lhe disse que você seria uma heroína. Você faria parte de um seleto grupo de semideuses que cumpririão a profecia.
– Espera um pouco... — Eu engasguei. — Semideuses?
Existiam mais de mim? Claro que nas velhas histórias de minha irmã os protagonistas sempre eram heróis, filhos de um deus e um mortal. E haviam centenas deles: Hércules, Theseus, Jason dos Argonautas... Mas eu, por alguma razão, fui levada a acreditar que esse heróis não existiam mais. Que os deuses, os meus deuses, simplesmente tinham coisas mais importantes para fazer do que sair tendo filhos pelo mundo. Eu achava que o simples fato de eu existir era... Raridade.
– Semideuses, mais pessoas como você. Jovens mortais, filhos de deuses e humanos. — Urania explicou. — Você não é a única. E Hera escolheu os melhores para protegê-la.
– Você quer dizer que eu estou nesse grupo de semideuses que protegerão Hera?
– Pelo menos era isso que ela queria. Ela havia visto que seu futuro seria difícil, cheio de dor e miséria, mas que você se tornaria forte e valente. Por isso na noite de seu nascimento ela alertou sua mãe de que um dia você daria sua vida por ela.
Eu estava atônita. Meu passado... Vindo à superfície.
– Por isso seu pai te tirou da sua mãe. Ele não queria Hera se intrometendo no seu destino — Urania continuou. Eu sabia pouco sobre meu pai. Sabia sim quem ele era, Calliope fizera questão de que eu soubesse de quem era filha. No entanto ela e as outras musas tomavam cuidado para não falar muito perto de mim. — Quando você tinha cinco anos, Hermes foi até onde você e sua mãe moravam e te entregou a Apollo.
Apollo...
– Apollo, o Senhor do Sol, deus da música. Nosso fiél companheiro. Uma espécie de protetor das musas. Ele te trouxe para cá, onde sabia que você estaria segura não só de Hera, mas também de todos os perigos que um semideus enfrenta no mundo mortal.
– Mas... Hera é uma deusa. Ela... Ela pode tudo. Ela poderia simplesmente adentrar a mansão e me tirar de vocês.
– Nós também somos deusas, Lylah. — Urania explicou. — Embora nenhuma de nós tenha poder contra a rainha dos deuses, ela não se atreveria a mexer conosco, ainda mais quando estamos sob a proteção de Apollo e também de nosso pai, Zeus.
Engoli em seco. Eu começava a ter uma noção do perigo que era ter Hera como inimiga. O silêncio mais uma vez reinara. O local todo mergulhado numa aura quieta e solitária, exceto por meu coração, que pulsava forte em meu peito.
Uma lágrima escorregara por minha bochecha, caindo na seda fina do meu vestido.
– Entenda que você não é um caso natural, — Urania completou. — Não é comum um deus interferir na vida de seu filho mortal da forma como Hermes fez. Muitos dos outros deuses desconhecem sua existência. Hera em pessoa acredita que você morreu há onze anos, junto com sua mãe.
Minha mãe? A única lembrança que eu tinha dela. O dia em que fui levada embora. O cabelo esvoaçante. E só depois de onze anos descobri seu verdadeiro destino.
– Minha... Minha mãe, está morta?
Urania então se deu conta do que tinha feito. Tive a impressão de que ela tentou achar uma maneira de me explicar como, ou porque ela e minhas irmãs tinham escondido isso de mim durante tanto tempo. No final, tudo que ela conseguiu foi abaixar a cabeça e me envolver em seus braços finos.
– Você deverá partir em breve... — Isso soou como se ela estivesse me expulsando da mansão. — Enfretar seu destino. Mas leve em conta que a partir do momento que deixar os limites da mansão, a camada de Névoa que a esconde do mundo mortal não a protegerá mais.
Abracei-a de volta, apertando forte suas costas contra a minha.
– Eu não quero ir. Já me tiraram de casa uma vez. — Chorei em seu ombro.
Ela balançou a cabeça como se eu não tivesse muita escolha.
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