This Is War

21 11-25-2024


Notas iniciais
Eu amo esse capítulo~

Diário de Canadá – 11/25/2024

O sol está raiando.

Não ouvi mais tiros. Ou a pessoa se safou ou... Está morta.

Vou dormir agora. Com certeza a probabilidade de o “soldado” aparecer é quase nula.

Soldado entre aspas porque foi Alfred quem falou que era um soldado. Estou começando a pensar que ele está tendo alucinações. Primeiro o cachorro e depois o soldado...

Mas vou continuar confiando nele até ter provas de que ele realmente não está são, mentalmente.

Só penso nisso porque Bielorrússia também está meio perturbada pelas guerras e desastres. Mais um pouco e comete besteira com suas manias de perseguição. E nós, sem medicamento ou psicólogo (se bem que nem em circunstâncias normais um psicólogo aceitaria examiná-la), acho que nada podemos fazer senão esperar o pior acontecer.

Bien, vou dormir.


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11:12

Acordei faz uma hora. Deu vontade de ficar na cama... Mas aí veio Rússia e pediu que eu não demorasse. Resmunguei e saí da cama.

O bom (ou mau?) do Fim do Mundo é que ninguém mais se importa com a higiene. Trocamos de roupa apenas quando realmente necessário e banho saiu do dicionário. Não tem água quente para o banho. Água fria é bom de dia, que dá um calor dos infernos, mas estamos ocupados demais para esses luxos, e água é coisa rara, finita, principalmente agora. Poucas casas têm banheiro. A maioria só tem toalhas regadas em um óleo de nome estranho que serve para limpeza, mesmo. A casa de Matthew tem banheiro, mas ninguém sabe disso. Só a nossa tem e se os outros soubessem iriam todos querer usar. Aí rolaria briga e a água acabaria rápido demais. Não, só em casos extremos.

Nem mar resolve, que mais suja que limpa. Além de ficarmos cheios de areia e sal, a água ali pode ter toxinas, radioatividade e todas essas bostas que ferram nosso corpo. E matam. E, claro, o mar desidrata nossa pele, e não podemos desidratar assim. Não há água potável o suficiente para o consumo habitual e um banho de mar juntos.

Estamos fodidos.

Sinto saudades dessas coisas...

Enfim, desci para o primeiro andar. Comemos cereal puro e, quando Matthew desceu, perguntamos quase que em coro:

“ O que aconteceu ontem de noite?”

Ele levantou a mão para que esperássemos, preparou seu café da manhã e começou:

“ Não vi ninguém. Mas ouvi tiros vindos do centro da cidade.”

Ele esperou que nós absorvêssemos as informações. Pisquei, arriscando umas palavras discriminadoras:

“ Será que não foi só o silêncio que... Te fez ouvir isso? Todos estivemos envolvidos em muitas guerras...”

“ Ah, e o cachorro foi bem convincente!”

Ele me metralhava com o olhar.

“ A gente vai lá olhar ou continua procurando o homem do barco?”, continuou.

“ Melhor continuar procurando-o. É cada um por si agora. Quem quer que estivesse lá ontem à noite deve ter tido um bom motivo para atirar. Melhor não arriscar.”

Matthew e Ivan concordaram.

Aprendi a controlar meus instintos de herói no Fim do Mundo se não quiser me foder. Já bastou procurar meu gato em casa antes da fuga para Ottawa.

“ Quem vigia hoje?”, Ivan já pousava o olhar de mil quilos em mim.

“ Pode ser eu, mesmo...”, cedi àquele peso.

Ele se levantou e foi para a rua sem dizer nada. Ficamos eu e meu irmão na casa.

“ O que deu nele?”

“ Bielorrússia não está bem...”

“ Ela já esteve, algum dia?”

Ele me lançou outro olhar venenoso e, por um momento, tive medo.

Matt não está muito para brincadeiras ultimamente. Mostra um lado sombrio que nunca vi. Acho que é apenas estresse. Tudo o que ocorre aqui é mais ou menos responsabilidade dele, parte dele. E é muito difícil engolir essas merdas...

Acho que não ajudei muito.

Vou me desculpar mais tarde.


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Среда, 18 ноября 2024

Depois de nossa pequena reunião, fui ver como estava minha irmã. Ouvi dizer que ela estava meio mal e eu não fiquei realmente perto dela nesses dias, então senti-me na obrigação de ir visitá-la.

“ O que você quer?!”, ela perguntou logo que cheguei.

“ Vim te ver, mana.”, sorri, sem tirar os olhos da faca que ela segurava e nem sei de onde pegou.

Dava para ver que ela estava mais pálida que o normal, se é que isso era possível. Quase consegui compará-la com um fantasma, e isso tornou-a mais assustadora do que já era.

Ela ficou parada por um segundo, pensando.

“ Traidor! Saia!”

Fechei logo a porta para satisfazer à sua vontade e à minha também, antes que ela decidisse usar a faca.

Ela não está nada bem mesmo... E não sei por quanto tempo continuará entre nós.

É uma pena...


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Diário de Bordo – 25 de novembro de 2024

Vou escrever o que aconteceu ontem.

Ao entardecer, encaixei a metralhadora em seu suporte no meu braço esquerdo e coloquei duas correntes de munição a transparem o peito. Nas costas carregava uma mochila vazia e no cinto prendi uma lanterna. Já não via mais o sol e com ele ia embora o sentimento de segurança.

Pisei em terra firme e quase que imediatamente senti enjoo. Fiquei tempo demais no barco, acostumei-me à vida nele e agora me sinto mal em terra. Mas continuei andando.

Quando o litoral acabou, dando espaco à parte urbana, soltei a trava do gatilho de minha arma. Avancei com cautela pela selva de pedra, temendo não sabia o quê. O mundo estava morto, o único perigo era a natureza... Mas ainda assim temia algo.

Já de início vi uma loja de equipamentos eletrônicos. Minha prioridade era a comida, mas achei melhor aproveitar que a lanterna ainda não era necessária e me dirigi a ela. Estava trancada e ninguém pareceu interessado o suficiente em seus produtos para quebrá-la, de modo que eu mesmo tive que quebrar com a metralhadora. Nenhum alarme tocou, mas o barulho do vidro se quebrando pôde com certeza ser ouvido por quilômetros naquele silêncio.

Passei pela vitrine e fui logo procurando o que queria. Bateria e pilhas, apenas isso. Era melhor não perder tempo com outras coisas.

As últimas achei de imediato. Peguei dois pacotes para não desperdiçar espaço e enfiei no bolso. As baterias não achei na loja.Fui vasculhando até achar a placa “Geradores de Energia de Grande Porte”. Baterias para placas solares eram considerávelmente grandes. Abri a porta.

Quase caí para trás, mas segurei-me em uma estante. Segurei também um grito. Ainda tenho aquela imagem bem viva em minha cabeça...

Não entrarei em detalhes, mas bem no meio da sala, pendurado por alguns fios elétricos, estava um homem. Provavelmente o dono da loja. Pendia, o pescoço quase se separando do resto do corpo com o peso deste (não estou dizendo que era gordo), e provavelmente acontecerá em um processo de decomposição mais avançado. Ele só mostrava umas feridas terríveis no braço e no rosto, provavelmente causadas por bactérias depois de sua morte, e os olhos esbugalhados quase saíam das órbitas.

Tentei ignorar o corpo e ver o que havia dentro da sala. Avistei as baterias bem ao lado daquele cadáver.

Fui dando passos vacilantes sala adentro, mais perto daquele corpo. Tentava ignorar, olhar para as baterias. Mas ao lado delas pendiam pés mortos.

Foi um impulso.

Inclinei-me e peguei duas com uma força quase desumana que não sabia que tinha e logo fechei a porta com força, escorregando aos poucos até me sentar encostado a ela.

Comecei a chorar.

Lágrimas de terror, de medo. Uma vontade imensa de sair logo daquela cidade, de volta para o barco. De ir para as casas onde os países sobreviventes estavam instalados, bater na porta de algum deles, pedir abrigo e comida lá. Simplesmente uma vontade de me sentir seguro...

Depois de uns minutos, consegui me recompor. Tinha novas energias para avançar, mesmo o medo sendo maior. A escuridão já era quase completa. Mas foi um alívio conseguir soltar toda a tensão que sentia nos últimos dias...

Levantei-me e coloquei a mochila nas costas novamente. O peso das baterias me levou para o chão.

A fome me torturava.

Fazia dias que eu não comia bem.

Me afastei da porta, dando uma última olhada naquele portão dos infernos.

Vi uns arranhados nela quando voltei a olhá-la. Pareciam feitos por um animal, mas não me importei. Acabei por achar em uma plateleira uns cartuchos de plasma (a metralhadora tem várias funções) e colquei em outro bolso.

Saí da loja. O medo petrificou-me novamente. Estava escuro. Quieto. Frio.

Há uns dias o frio voltou para o hemisfério norte. Agora o dia é uma fornalha e a noite, a própria Antártida. Tudo hostil, a natureza rosna para nós, ansiando por tirar-nos a vida.

Será que o calor voltou para o sul?

Quis voltar para o barco. Correr para ele. Mas precisava pegar comida, ou pelo menos bebida. A sede me castigava já haviam dois dias. Drenava-me todas as forças.

Fui andando pelas ruas desertas. A negridão forçava-me a ligar a lanterna para procurar pelos estabelecimentos. A busca foi mais longa do que imaginei. Todas as lojas que antes vendiam alimentos já haviam sido totalmente saqueadas e o restante estava no chão, pisoteado ou estragado.

Minha ansiedade ia aumentando. Não queria voltar sem comida, mas também não queria permanecer naquela cidade. Me dava medo.

Já via uma praça à minha frente; mas antes da praça havia mais uma loja de conveniência. Joguei a luz da lanterna ali.

Ainda havia comida. Pouca, mas havia. Bastava. Queria logo sair de lá.

Entrei pela porta de vidro quebrado, passando a luz da lanterna apressadamente pelo local, procurando algo pestrável, que não estragasse rápido. Eram sempre as mesmas coisas.

Peguei enlatados, uns pacotes de alguma coisa que não vi o que era, outras caixas de outras coisas que também não vi o que era e até um pacote grande de arroz e um pequeno de feijão. Soquei tudo na mochila e ia sair quando me lembrei de pegar algo para beber. Voltei, praguejando, e peguei uns sacos de suco e refrigerante instantâneos simplesmente por terem sido a primeira coisa que vi. Mas para prepará-los precisava de água...

Comecei a procurar pela sala onde ela era guardada quando ouvi um barulho. Algo como o arfar de um cachorro.

Virei-me para trás, para a parte da frente da loja.

Deparei-me com uns três, quatro pares de olhos afogueados olhando para mim. Olhos que julguei vindos do inferno.

Ouvi um ronco. Não sabia se era o rosnado de uma daquelas criaturas ou meu estômago, mesmo.

Mas sabia que precisava atirar.

Mirei a metralhadora nos monstros. Não via nada naquele breu. Apenas o contorno das estantes da loja e os olhos daqueles seres, que pareciam flutuar. O que eram ou a forma que tinham eu não conseguia saber, mas a altura de seus olhos devia bater em meu peito.

Dei um tiro no escuro e escutei um ganido. Um dos pares de olhos desapareceram; os outros avançaram até mim, fechando-me, bloqueando-me a saída.

Mirei a arma para eles e metralhei, descrevendo um meio-círculo. Não tinha ideia do que acertava. Apenas atirei e saí correndo para a porta, na mesma direção onde antes haviam os monstros, cientes de que qualquer um deles pudesse ter se safado e pular em cima de mim, o que seria fatal. Mas não aconteceu. Continuei correndo, recarregando a metralhadora enquanto isso. Ouvia passos não-humanos atrás de mim e senti-me como uma gazela correndo de um leão. Não sabia se estava alucinando. Não raciocinava direito. Mirei para trás e atirei novamente. Vi os mesmos olhos, mas em uma quantidade muito maior. Muito maior. Segurei o grito, virei-me para a frente novamente e consegui ver a região praieira. De algum jeito, consegui aumentar a velocidade de meus passos. Corria literalmente pela vida.

Depois de uns segundos, não ouvi mais nada atrás de mim. Como se aqueles seres tivessem sumido.

Não me virei e tampouco diminui a velocidade. Cheguei ao barco extremamente cansado, ofegante. Meu peito ardia, minha respiração saía chiada e a sede e fome haviam duplicado-se. Mas o cansaço era mais forte.

Desabei na cama e voltei a chorar. Mal havia começado, dormi.

Não quero mais voltar lá. Nunca mais. Tremo até agora. A imagem daquele cadáver enforcado não me sai da cabeça.

Vou pegar comida dos outros países. Não me importam mais as consequências. Não quero morrer.

Estou vivo e viver, mesmo nessa merda de Fim de Mundo, é bom. Viver é maravilhoso.

Notas finais
GOSTARAM? ODIARAM? DEU MEDO? FOI FRAQUINHO DEMAIS? REVIEWS REVIEWS EU QUERO AGORAAA~