This Is War
15 11-13-2024 a 11-14-2024
Notas iniciais
07:20
Convenci Matthew a vir comigo para a cidade. Quero dar uma boa olhada lá.
Ele também está ligeiramente incomodado com a falta de ação dos países.
Vamos apenas passar pelas ruas da cidade, sem entrar em estabelecimentos. Queremos apenas ter uma breve noção do que rolou aqui em Halifax antes da nossa chegada. Sairemos em poucos minutos. Ou melhor, isso se eu achar meu irmão nesse meio tempo. Acordei e ele não estava em casa.
Se não voltar logo, vou procurá-lo. Estou realmente preocupado. Matthew não é do tipo que se atrasa e combinamos de sair às 7:45.
7:38
Graças a Deus, ele voltou.
Rússia nos acompanhará em nossa pequena “excursão”.
Sairemos daqui a pouco.
22:27
Inferno!
Uma madita palavra capaz de descrever com perfeição aquele lugar miserável e as últimas horas agoniantes pelas quais o mesmo e seus desafortunados habitantes passaram.
... Nossa, usei todas as minhas habilidades linguísticas nessa.
Mas puta merda... Aconteceu uma carnificina lá.
Demos os primeiros passos em um cenário normal. Lojas sequestradas, portas de moradias escancaradas e carros queimados parados no meio da rua. Normal. Normalzinho. Fomos avançando até não conseguirmos mais ver as casas da periferia onde estávamos alojados. Aí aquele cheiro de carniça que já conhecíamos desde que adentramos a casa escolhida errôneamente pelo francês voltou a penetrar nossas narinas.
Matthew instintivamente agarrou o meu braço. Estava pálido. Muito pálido, até. Mas recusou minha sugestão de dar meia-volta.
Continamos, então, e chegamos a uma praça com grandes árvores, calçadas e lâmpadas para iluminá-las. Estas últimas tão altas quanto as árvores, longas o bastante para iluminar uma boa parte das ruazelas para pedestres.
Em cada uma, pendiam pelo menos dois ou três corpos, alguns já em estado de decomposição. Haviam outros espatifados na rua com uma corda no pescoço, que acabou por não aguentar o peso do cadáver, cedo ou tarde.
Sim, Deus, houve um suicídio coletivo lá! Ou isso, ou um lento e torturoso, onde cada vez mais pessoas contribuíam para a paisagem macabra e pesadelos daqueles que ainda tinham esperança, induzindo-os a cortarem logo o fio da vida (Estou gostando dessa escrita poética).
E das casas de janelas e portas abertas saía aquele cheiro maldito de morte cuja fonte nem quero saber qual era.
Nossos passos ecoavam pela praça como o único som audível, formando um silêncio macabro quando parávamos. Nem mesmo o vento parecia querer contribuir para algo mais agradável, aparecendo e fazendo as folhas das árvores rasparem umas nas outras. Não havia nenhuma brisa lá e o dia estava uma fornalha. Não sei como o russo, metido naquele sobretudo e cachecol, aguentava.
Enfim, haviam vezes em que o silêncio era tanto que tentava nos enganar – ou, pelo menos, é isso o que eu acho -. Cheguei a ouvir um bebê chorar e o som de uma vitrola.
Dava medo...
Houve também uma hora em que percebemos, eu e Ivan, que Canadá chorava em silêncio. Mas não falamos nada. Estávamos todos praticamente no mesmo estado emocional que ele. Mas, caralho, cheguei a perguntar novamente se ele queria voltar e ele disse que não!
Voltando à descrição da cidade, que eu não estou com absolutamente nenhuma vontade de fazer e por isso fico desviando do assunto, mas preciso fazer, haviam vários prédios queimados, alguns até danificados com suas paredes quebradas de algum jeito, carros, coquetel Molotov, sei lá. Naqueles em que as paredes não estavam escuras demais devido ao fogo havia, em sua maioria, sangue. No chão também. Marcas de mãos, pegadas, apenas faixas rubras, tudo. Grandes e pequenas, de crianças e adultos. E fora aqueles corpos enforcados nas lâmpadas do parque também tinha uma porrada dentro de carros que invadiram estabelecimentos. Belas imagens que demorarei a esquecer.
Isso estava nas ruas que rodeavam a praça. Depois, viramos e entramos em outra que se afastava deste. Estava mais deserta, não tão caótica quanto as outras. Ainda assim, de algum jeito, tinha um ar de morte.
“ Vamos até o final desta e depois voltamos, da?”
Aquilo não era uma pergunta por parte do russo. Era uma ordem.
Atravessamos em silêncio. Não havia nem uma alma lá. Nem pessoas nem animais.
Fora os nossos bichos, aliás, não vi realmente nenhum. Por quê?
Mais uma pergunta.
As janelas abertas dos prédios mostravam as mobílias abandonadas. Cortinas tentavam voar para fora dali sem sucesso, presas aos cabos.
Cenário de filme...
Faltava descobrir o gênero.
Quando percebemos, havíamos chegado ao final da rua. A apreensão fez com que nós instintivamente apertássemos o passo para nos vermos logo salvos daquele cenário macabro (deve ser a quinta vez que eu uso essa palavra).
Nos olhamos e, sem dizer uma palavra, demos meia-volta para sair dali. Tão logo fizemos isso, senti um cheiro de queimado.
Comecei a andar em rumos aleatórios tentando descobrir a fonte daquilo enquanto Rússia e Canadá ficaram a observar provavelmente sem entender direito. Agora que penso nisso, deveria estar ridículo naquela hora.
Mas acabei chegando em um beco onde a luz do sol não penetrava, impedida pelos prédios.
Distinguia uma silhueta no final daquele beco, mas não sabia ainda o que era.
“ Tem algo aqui.”
Quando o russo e o canadense postaram-se ao meu lado, endamos juntos até o que vi. Nossa visão se acostumava com o escuro aos poucos. De início, pensei que era um monte de lixo amontoado.
Então estacamos. Nós três.
Porque não era lixo.
Eram corpos.
Corpos carbonizados dispostos em uma pilha fúnebre, de onde mãos esqueléticas tentavam alcançar a liberdade e rostos desfigurados expressavam o sofrimento daquela gente.
Clique. Mais uma imagem para a minha memória.
Ivan pragueujou algo em russo.
“ Vamos embora, da? É melhor irmos embora.”
Ele pegou eu e meu irmão, pálidos de terror, pelo braço e levou-nos a força para longe dali.
De modo que estamos todos de volta aqui na casa de Canadá, exaustos, mais confusos do que nunca.
Acabamos dormindo na sala. Canadá no sofá e eu e o russo no chão. Nem me lembro de ter deitado aqui, mas bem... Acho que, depois de chegar em casa, ninguém se lembra de muita coisa. Apagamos.
Acordei do nada e planejo voltar a dormir quando acabar este registro. Estou usando as costas de rússia de apoio para o diário. Acho que ele não se importa...
Prevejo que todos nós vamos acordar tarde amanhã.
¤¤¤
11/14/2024
14:15
God... I think I’m gonna die...
18:32
Não tenho a menor ideia do porquê de eu ter escrito que achava que ia morrer. Nem me lembro de ter acordado depois do registro de ontem, mas OK.
Acabei de acordar. Canadá não está mais aqui e o braço de Rússia está em cima do meu peito, impedindo que eu me levante.
Na verdade, eu nem estou com vontade de me levantar...
Mas preciso. Estou com fomem
18:58
Consegui me arrastar para longe de Ivan e agora estou na cozinha fazendo um chá. Apoiado na bancada, vejo o russo desmaiado no chão. Há algumas horas atrás, eu e Canadá estávamos do mesmo jeito.
Pergunto-me por onde anda meu irmão...
E eu devia colocar Rússia em um lugar mais confortável. O sofá, por exemplo. Mas o sujeito é enorme e pesado demais para até um herói como eu conseguir levantar. E estou com preguiça. Deixo quieto.
Peguei uma lata de língua da minha mochila. Estamos sem comida em casa e não estou a fim de sair para pedir para alguém. Também não estou a fim de comer aquilo. Tirei para o caso de Rússia acordar e já querer comer algo.
¤¤¤
Diário de Canadá – 11/14/2024
Estou com dor de cabeça. Como uma enxaqueca, tirando o fato de que não bebi. Se bem que alguma bebida forte seria uma boa, agora. Mesmo que eu nunca tenha gostado de álcool. Estou começando a sentir necessidade...
Acho que dói de tanto dormir. Não sei, também não estou com vontade de pensar sobre isso.
As imagens de ontem ainda aparecem em flashes diante de meus olhos. Não sei como não desmaiei na hora em que visitava a cidade. Agora, sempre que penso passo mal. Não consigo imaginar tudo aquilo acontecendo em tempo real, praticamente do meu lado, no meu país...
Me dói ainda mais pensando nisso.
Rússia e meu irmão ainda dormem no andar de baixo. É meio estranho vê-los desmaiados no chão. Ivan tem um braço sobre o peito de América e nenhum deles liga. Tiraria uma foto se tivesse uma camera. Do jeito que chegamos, nsimplismente desabamos e dormimos.
Aliás, acordei tão tonto que comecei a escrever no caderno de Alfred. Uma ou duas frases que nem lembro o que era, aí me toquei e subi para o eu quarto para escrever neste, mas acabei tropeçando e caindo na cama. E dormi em vez de me levantar.
Enfim. Estou com fome, mas antes quero falar com Alemanha. Preciso contar aos outros o que aconteceu. Não posso adiar. Alguma coisa aconteceu aqui, a poucos metros de todos nós, que levou as pessoas a cometerem aquelas loucuras. Quem sabe tenha algo a ver com aquela coisa que matou Polônia...
A cidade tinha um modernho sensor de desastres, portanto não foi essa a causa.
Então...?
¤¤¤
Субботу, 14 ноября 2024
Acordei no meio da sala, sozinho. Ouvia um barulho na cozinha.
Minhas costa doíam, o que fez com que eu demorasse para me levantar. Andar também estava difícil; mi8nhas pernas pareciam de madeira. Estávamos todos tão cansados que não nos preocupamos em procurar algum lugar mais confortável para dormir. Foi no chão, mesmo.
Estava faminto e senti um cheiro de chá vindo da cozinha. Cheguei a pensar que era Inglaterra quem estava lá, mas ele está morto...
Era Alfred.
“ Priviet, Amerika-Kun!”, fui sentando-me em um bgalcão da cozinha.
O estadunidense levou um susto. Foi tão engraçado que tive que soltar um riso curto.
“ Good morning…”, ele respondeu totalmente sem senso de humor, voltando a concentrar-se na bebida que fazia.
“ … Are? Onde está Kanada-Kun?”
Ele deu de ombros. Não gostava de seu silêncio. Dava vontade de esmagar-lhe a garganta para que as palavras saíssem.
Peguei uma lata que estava em cima do balcão.
“ O que é isso?”
“ Ah…”, América finalmente voltou a atenção para mim e andou até o balcão onde eu estava sentado, apoiando-se nele, “ É... Algo. Uma lata de língua em conserva. Achei aqui. Nunca provei. Se quiser...”
Ele mentia em alguma coisa. Reconheci os sinais da falsidade. Mas, como os segredos sobre uma lata de conserva não poderiam ser muito grandes, não falei nada. Apenas pedi uma faca e ele me deu. Por algum motivo, o estadunidense mantinha os olhos fixos em mim enquanto eu abria a comida. Só quando comecei a comer nele voltou a concentrar-se no chá.
Comi rápido por causa da fome. Agora estou escrevendo enquanto sinto o peso do olhar curioso de América sobre mim e o meu diário. Pobre estadunidense, pensa que eu não sei que estou sendo observado...
Bom, esse caderninho é pequeno o bastante para eu guardar no bolso interno do meu sobretudo, que sempre levo comigo. Agora que o clima está voltando a se estabilizar, fica mais agradável usá-lo. Fico feliz por isso. Gosto dele.
Matthew chegou. Vou parar de escrever.
¤¤¤
19:36
Matthew chegou.
Estava falando com Alemanha e Áustria sobre nossa experiência na cidade. Foi sua única resposta quando perguntei-lhe onde estava. Não entrou em detalhes, dando a entender que não foram resultados bons.
Aliás, Rússia acordou uns minutos antes de sua chegada. Comeu – devorou, praticamente- o enlatado que tirei da mochila enquanto eu prematava meu segundo bule de chá. Estava esquentando quando a porta abriu.
Agora estamos sentados na mesa da cozinha comendo e bebendo em silêncio. E escrevendo.
Aliás, se Mattie não falar mais nada sobre seu encontro com os germânicos hoje, converso com ele amanhã.
¤¤¤
Diário de bordo – 14 de novembro de 2024
Acabei de atracar no litoral de Halifax.
Há mais ou menos uma semana atrás, captei uma mensagem dos países enquanto mexia nas frequências do rádiol, Estava ruim, cheia de chiados, mas consegui entender o assunto. Todos os países europeus correndo perigo de serem contaminados por uma núvem radioativa vinda de uma usina nuclear que explodiu na Rússia eram recomendados a fugirem para Halifax, Canadá. E qualquer outro que estivesse passando por problemas também era convidado a ir.
Por que eu não iria?
Dei partida no barco e saí silenciosamente das águas pertencentes a outro país cujua entrada não me era, na verdade, autorizada. Em três dias, estava em alto-mar. Liguei o modo submarino e acionei as turbinas aquáticas. Em quatro dias, entrei em território canadense.
Não havia me preparado direito para a viagem. Na verdade, nem tinha como. Consumi o mínimo possível de alimenhtos e ainda fiquei metade do dia sem ter o que comer até enchergar terra firme.
Digo eu que foi sorte.
Desliguei as turbinas e voltei lentamente à superfície, aproximando-me da costa sem provocar barulho. Via uma praia com mata fechada a cercá-la, paisagem que eu não via fazia tempo.
Ninguém estava lá. Deveriam estar instalados nas moradias abandonadas da cidade e quem chegasse aqui deveria procurar os outros. Não era o meu caso. Decidi durante a viagem que ficaria o maior tempo possível na moita.
Precisava apenas de comida, que poderia arranjar à noite. Mas antes preciso fazer um reconhecimento do local e localizar os países. Isso significa que vou muito provavelmente passar fome hoje. Tranquilo para mim.
Mais ou menos ao entardecer coloco os pés em terra firme.
Fale com o autor