This Is War

6 10-17-2024


Notas iniciais
Esse saiu mais rápido, hehe =B

14:07

Preciso sair daqui. E rápido.

Nesta manhã, saí para a reunião. Dirigi por ruas desertas, como sempre. Parecia uma calma e normal manhã de sábado, fora os montes de carros incinerados pelas ruas e alguns corpos por aí, muitos baleados. E vi um esmagado de tal forma que só pode ter sido por um tanque.

Normalmente, eu ficaria petrificado de medo de uma cena dessas e voltaria direto para casa, mas já comecei a me acostumar vendo a mesma coisa todos os dias na frente de onde moro.

Isso não seria uma característica psicopata?

Anyway, nossos encontros também dão medo. Muitos países não compareceram mais, dos quais a maioria nem sabemos se ainda está vivo ou não. Até Rússia sumiu...

Rússia, pelamordedeus! Aquele país gigante do norte da Ásia!

Well, o bom é que os mais desenvolvidos continuam lá. A pergunta é: Por quanto tempo?

Quando voltei para casa depois da reunião, a rua não era mais a mesma tenebrosamente calma de antes. Passei perto de uma onde milhares de manifestantes protestavam contra a falta de ajuda por parte do governo. E tacavam fogo. Em casas.

Porra, sinceramente, vão tacar fogo nos seus... Enfim.

Havia muita gente contra poucos soldados e um número ainda menor de tanques – nem tinha ideia de que ainda haviam tantas pessoas aqui – e percebi que não duraria muito tempo até que o exército fosse derrubado. E estava certo.

Da janela, consigo ver o incêndio em uma rua próxima. Muito. Próxima. E não acho que eles vão parar por ali. Vai chegar a vez da minha casa logo logo.

Já arrumei minhas malas com as coisas mais importantes e estou tomando minha última – quente, mas última – lata de Coca. Ainda não sei para onde vou, mas não importa muito. Tenho pouca bagagem para facilitar, sendo a maioria apenas comida.

Aliás, a casa do outro vizinho só tinha porcaria, mas levei todos os pacotes de salgadinhos que consegui. Vão ser úteis, acho eu. Porque eu mesmo não tenho muita comida não perecível aqui.

Mas acho que vou achar algum lugar para ficar antes de acabar esse dia.

Já começaram a incendiar as casas da minha rua. Se eu sair vivo, conto como foi a “fuga”.

22:45

Estou vivo.

E bem instalado junto de Hambúrguer perto de uma lareira.

Estou na casa de meu irmão, Matthew, ou Canadá, como quiserem chamá-lo. Ele pode até morar perto... Mas minha viagem parece ter durado muito mais tempo do que o normal.

Primeira merda: Perdi um tempo valioso que poderia ter usado para fugir procurando meu gato. O medroso deve ter sentido o cheiro de fumaça e seu instinto felino aconselhou-o a se enfiar em um lugar que julgava seguro. Acabei por achá-lo debaixo do fogão. Deu um puta de um trabalho para tirá-lo de lá. Ele simplismente não queria cooperar...!

Quando o fiz, já ouvia os gritos revoltados dos civis na frente da minha casa. Espiei pela janela da cozinha e, mesmo assim, tive dificuldades para vê-los. O fogo da casa vizinha, com ajuda do vento, ocultava tudo e não tardaria a passar para a minha casa também.

Santa sorte, viu...

Mesmo assim, eles tacaram fogo nela jogando um pano em chamas – deve ter sido regado com gasolina e ter entrado em combustão com um isqueiro — perto da porta. Por entre as labaredas conseguia ver uns caras segurando metralhadoras e outras armas um tanto brutais provavelmente roubadas dos soldados que nem sei que fim levaram.

Fico pensando se, algum dia, imaginavam que iriam ter que proteger sua pátria atirando nos próprios filhos dela...

Oh, ironia.

Enfim, tive que mudar meus planos. Não podia mais sair pela porta da frente e pegar meu carro que estava lá. Não conseguiria passar pelo fogo e, mesmo se consguisse, acho que seria baleado pelos civis que assistiam o fogaréu da rua. Eu não tinha porta dos fundos e tive que sair pela janela. Por sorte, estacionei minha moto atrás de casa. E minha bagagem era pequena o suficiente para eu levar nela. O único problema era meu gato, que eu acabei “enfiando” dentro da jaqueta que eu usava – estava um calor do cacete, mas explico depois por que usava a jaqueta -. Ele ficou assustado, mas eu não tinha tempo de aparziguá-lo. A culpa de estarmos naquela situação era dele, afinal.

Minha pobre moto...

É uma Chopper marrom e branca em algumas partes, o guidão antes tão alto que eu nem alcançava direito. Tive que cortar. Abri o escapamento e equipei-a com uma pedaleira de descanso. Tenho muito orgulho dela. Ganhou alguns bons arranhões na viagem que me doem no peito, mas continua comigo. Quando arranjar um tempo, cuido dela.

Voltando à cena de ação, eu preferi passar pelas ruas que ainda não tinham sido atingidas pela ira dos civis, mas a cena era bem pior...

Não estou me sentindo bem. Continuo mais tarde.

23:49

Acabou a pausa dos comerciais.

Nas calçadas haviam muitos homens com as mais diversas armas – vi um jovem de uns 16 anos com um fuzil de guerra – e algumas mulheres, também. Não quero nem imaginar onde conseguiram. Nos EUA, qualquer um pode comprar bazooka no bar do Zé da esquina.

Metralharam um cara praticamente na minha frente. Ele corria, cruzando a rua, e eu desviei a tempo de não atropelá-lo – façanha, vendo que estava em uma velocidade considerável para uma ruazinha como aquela -. Mas acabaram por matá-lo de qualquer jeito. Na cabeça.

E quando atiram na cabeça de um cara, não é como nos filmes. Não abre um buraquinho e sai um tantinho de sangue. Ela EXPLODE. É, explode. Espirra sangue, miolos e pedaços de crânio para todo o lado e essa merda vai longe. Naquele caso, chegou a me atingir. Quase vomitei quando senti sangue e mais algumas coisas espirrarem em mim, mas me segurei, de algum modo...

Não sei por que mataram ele, mas não foi o único.

Naquele momento, percebi que a rua estava cheia de cadáveres, todos com furos enormes feitos por tiros em diversas partes do corpo. Não eram apenas dos revoltados mortos pelo exército.

Haviam grávidas, crianças, idosos... Alguns até sem nenhum machucado. Deviam ter sofrido algum ataque cardíaco no pânico enquanto fugiam para sabe Deus onde e ninguém se importou em parar para ajudar.

Cheguei a ver um recém-nascido esmagado pela roda de algum veículo. Só alguns membros se safaram para identificá-lo como um bebê, mas não quero descrever isso. Por Deus... Aquilo foi demais. Me saíram lágrimas de terror. Ainda gelo pensando naquilo.

Aconteceu uma carnificina naquela rua.

Estava tão distraído com os corpos – mesmo passando mal com a cena, não dava para não olhar – que acabei eu mesmo passando por cima de um. Preferi nem ver o que era; só escutei um “crack”.

E depois, o barulho de tiros.

Uma bala passou na minha frente. Perto. Bem perto.

Eu estava na mira deles.

Essa foi a segunda merda.

Até agora não entendo o porquê de matar gente. Na verdade, não entendo merda nenhuma, mesmo. Tacar fogo em carros? Nonsense. Mas acho que não queriam que ninguém fugisse, que todos se fodessem junto com eles. Ou matavam os que não eram dos seus grupos, que provavelmente reconheciam, de alguma forma.

Qualquer que fosse o motivo, fazia eles atirarem em mim, de modo que acelerei ainda mais pelas ruas, desviando dos corpos e carros queimados como podia – mais uma façanha, diga-se de passagem -. Gente que provavelmente nunca havia pego em uma arma na vida tentava me acertar em alta velocidade. Nem a roda conseguiram danificar.

Minto. Um deles acertou o pneu, tanto que está furado até agora. Quase caí na hora.

Saí daquela cidade em 30 minutos. Demorou o dobro do tempo normal sem trânsito por causa dos problemas citados acima.

Evitei olhar para trás. Devia ser o cenário do inferno.

Ainda lembro da paisagem tão bem como se houvesse um quadro da cidade diante de mim. Seus prédios, árvores, as águas que passam pela Bunker Hill Bridge, o oceano que a banha...

Good bye, Boston...

Nas estradas desertas, rodei mais calmo, apenas desviando de algum acidente aqui e acolá. Tive tempo para refletir, pensar na vida... Andar de moto nas estradas é uma terapia. Mas chorei parte do caminho. Podem me chamar de emo, mas antes se coloquem no meu lugar.

Abandonei minha cidade, meus filhos estão se matando, corro risco de morte pelo menos umas duas vezes por dia e não tenho notícias da maioria dos meus amigos, que estou perdendo aos poucos.

Caralho...

Meu gato mexia-se impaciente dentro de minha jaqueta. Eu estava torrando de calor e ele, com todos aqueles pelos e gordura, devia estar ainda mais. Mas tinha dois motivos para não tirar a jaqueta: primeiro, serve de transporte para meu gato e segundo, é minha jaqueta de estimação que não largo nem a pau.

Enquanto dirigia, aproveitava para pensar em a quem pedir abrigo. Imediatamente abandonei todas as outras opções quando lembrei-me de Matthew; era meu irmão e morava perto.

Mas não foi tão fácil quanto eu pensava.

Já escurecia quando cheguei na fronteira com o Canadá. Brequei forte antes que os soldados me vissem.... Talvez forte demais.

Inclinei a moto e ela bateu no chão comigo junto, deslizando mais alguns centímetros à frente.

Bati no chão o mesmo braço que doía há uns dias atrás. Agora, dói mais ainda. Ainda está dando umas pontadas de dor do caralho, mas Matthew me deu um pouco de gelo para amenizar a dor. Faço contorcionismo escrevendo e segurando esse gelo no braço.

Anyway. Os guardas deviam ter algum problema de audição, porque não ouviram nada. Ou fingiram não ouvir. Sei lá.

Com dificuldades, consegui levantar a moto apenas com o braço bom. Levei-a até a sombra de uma árvore. O vento batia forte contra mim, afastando o barulho daquele ponto de controle. Talvez por isso não tivessem ouvido nada.

Sentei-me lá e tirei o estressado Hambúrguer de dentro da minha jaqueta. O pobre bichano pagou todos os seus pecados de gato depois daquela...

Fiquei a acariciá-lo enquanto refletia.

Tinha um muro de Berlim entre eu e meu irmão.

Coisa do droga do meu chefe.

E essa foi a terceira merda.

Tinha um celular num dos bolsos da minha jaqueta, mas não fazia nem ideia de por que o havia trazido. O sinal caiu até antes de acabar a luz por causa das greves nas centrais de comunicação.

Fiquei olhando os soldados. Eles comunicavam-se via Walkie-Talkies, que depois constatei serem, na verdade, realmente celulares, o que abria uma cartela de novas oportunidades para mim; ali, o sinal ainda pegava, de algum modo.

Peguei o celular e literalmente fiquei rezando enquanto esperava que fosse completada a ligação para Matthew.

E ele atendeu.

Bro?!”

Nunca fiquei tão feliz em ouvir aquela voz baixa e acanhada que ele tinha. Era um alívio. Ele não havia comparecido a nenhuma das reuniões e não havia um dia em que eu não pensasse nele. Mas ele também parecia preocupado comigo e, quando fica desse jeito, é difícil fazê-lo parar de falar. E a última coisa que eu queria era que a ligação caísse e eu não conseguisse fazer-lhe o pedido.

“ Libere a passagem para mim, Matt! Eu explico tudo depois!”

Assim, aproximei-me com a moto dos guardas. Consegui entrar minutos depois, após a confirmação de Canadá. Os barulhos da minha Chopper nas ruas desertas do meu irmão soavam como rugidos de canhões.

Como estava tudo mais limpo ali do que na minha cidade, dirigir até Ottawa, mesmo com apenas um braço útil, foi fácil e cheguei ao meu objetivo rápido. Nenhuma alma cruzou meu caminho na viagem ou, pelo menos, não vi nenhuma.

Está tudo realmente abandonado. Parece que o governo daqui deixou que todos fugissem à vontade. Ou... Estavam mortos.

Realmente não sei. Mattie sabe esconder muito bem seus sentimentos e não estou a fim de fazer-lhe esse tipo de pergunta.

“ Matt, seus filhos fugiram ou estão todos mortos?”

Queria escrever mais, mas estou com sono. Hambúrguer já dorme no meu colo. Continuarei amanhã.

Notas finais
América tenso que fica escrevendo enquanto tacam fogo na casa dele u_u /apanha