Notas iniciais
Quem quer chutar o Kou?
Boa leitura. *w*

Os dias foram passando e ele não comia, não bebia e não dormia. As janelas do apartamento estavam todas fechadas e a luz do sol não era vista por ele há alguns dias. Sentia-se franco, impotente. Sentia-se o pior homem da face da terra, um bicho asqueroso, um verme, um homem indigno de perdão.


Não se importava em ter de viver o resto dos seus dias ali sozinho naquele lugar, onde tudo lembrava o outro. Das paredes que pintaram juntos, aos objetos de decoração, a delicadeza dos lençóis de seda, ao cheiro em todo o ambiente; tudo tinha aquele toque amadeirado e natural que brotava da pele amorenada de Yuu. Ele estava presente sem estar e isso fazia Kouyou ter ímpetos de arrancar os próprios cabelos aloirados.


Só passamos a dar valor quando perdemos, ele sussurrava o tempo todo, para si próprio. Em meio à poeira e a falta de luz ele se arrastava pelo apartamento. O cheiro da solidão invadindo suas narinas, o medo, a falta de fé impregnada em sua pele. Hoje ele ousaria dizer que Shiroyama Yuu era a sua vida e mais do que nunca ele precisava de sua companhia.


Em alguns momentos sentia uma vontade quase insana de rir. Sim rir. Rir da sua própria desgraça, do quão idiota ele sempre fora e do quão a situação parecia ridícula para si. Perguntava-se em outros tantos momentos o porquê de nunca ter compreendido, aceitado, que aquele calor que aquecia seu peito toda vez que o mais velho o abraçava significava um amor puro. Não conseguia compreender a si mesmo, imaginava que estava sendo tomado por uma espécie de loucura ou que já havia nascido louco.


Aquele amor esteve sempre ali, diante seus olhos, lhe estendendo as mãos. Por que nunca se deixara cair nos braços? Por que nunca quis acreditar que poderia mesmo amar? Por que ignorou algo por tanto tempo, algo tão mágico?


As cortinas se abriram e relevaram a si o grande espetáculo que era amar aquele homem que tanta coisa boa dedicou a si, porém abriram-se tarde, como que se em uma traquinagem divina alguém lhe dissesse que nunca teria amor em sua vida.


Poderia enlouquecer ali mesmo, em meio às lembranças de um amor que talvez nunca possa retribuir a altura.



Como a vida pode ser contraditória. Kouyou agora vivia na pele essa contradição. Ele até poderia rir da sua desgraça, como insistia em dizer a si mesmo toda a manhã quando acordava, se não fosse tão dolorosa. Sabia que havia jeito algo muito idiota, sabia que era idiota e sabia ainda mais que durante todos aqueles anos com Yuu ao seu lado nunca fora capaz, ou teve coragem, de assumir a si mesmo que amava e dependia do outro.

O seu discurso de autodestruição já era repetitivo demais até para si mesmo. Não havia quem pudesse ouvir a si, o ajudar, estava sozinho, tinha total consciência disso. Era óbvio que todos os seus amigos nunca o apoiariam nessa história, imaginava que todos estavam do lado de Yuu e não tirava a razão de nenhum deles. Ele era o vilão da história, quem merecia o péssimo final e não tentava imaginar que teria um final melhor do que péssimo, embora algum pequeno fio de esperança via Shiroyama o abraçando ao anoitecer.


Quase um mês havia se passado desde a partida de Yuu. Desde aquele dia não houve uma ligação se quer, de quem quer que fosse, as poucas vezes que houve algum ruído semelhante ao tocar do telefone foram do interfone que anunciava a subida de algum entregador de comida, o que aconteceu raras vezes.


No decorrer desses tantos dias saíra de casa apenas três vezes. Por mais que se alimentasse pouco, precisou comprar alguns alimentos e produtos de limpeza. Poderia ser o fracasso o humano, um ser indigno de compaixão – como ele mesmo costumava se denominar -, mas não pretendia morrer de fome, acabar-se. Acreditava que deveria viver aquele caos, aquele pesadelo, era merecedor dar piores coisas do mundo e lutaria para pagar tudo que devia. Talvez assim pudesse purificar a sua alma, seu corpo e sua mente; talvez nessa escuridão estivesse a sua salvação e quem sabe ao término de seu castigo não pudesse ouvir a voz do outro novamente.


Pensou em procurar o mais baixo, realmente pensou. No entanto, não sabia onde encontrá-lo. Tinha as suas hipóteses de para onde poderia ter ido, mas não tinha coragem pra procurar. Atrás de suas olheiras havia medo e era esse medo que o impedia de correr pelas ruas a procura do seu amor, sim, apesar de tudo, agora ele tinha coragem de dizer que o outro era seu, que era seu amor.


Naquela tarde ensolarada e de temperatura agradável constatou que precisava dar um tempo naquele ambiente, um tempo para resfriar suas dores e suas marcas. Sabia que não poderia fugir do que a vida havia preparado para si, mas precisava de uma pequena válvula de escape em sua insanidade pessoal, não poderia se arriscar em perder o resto de sanidade que lhe restou. Por isso resolveu dar uma volta pelas ruas de Chiyoda, o Palácio Imperial ficava tão perto de si, precisava de algo belo para observar e purificar seus pensamentos.


Passou horas vagando pelas ruas e boa parte delas observando a imponente construção do Palácio. Lamentava profundamente serem poucas as áreas do lugar que estavam à disposição dos visitantes, já havia visitado todas elas, então tinha a curiosidade profunda de desvendar completamente aquele lugar, que para ele parecia tão surreal e misterioso. Lembrava-se completamente bem de seu sonho quando criança, sua fantasia pessoal de algum dia vir a se tornar o Imperador do Japão, e essa lembrança o fez sorrir por alguns segundos.


Era tão agradável ser criança que se tivesse tido a oportunidade, e se essa oportunidade pudesse realmente existir, jamais teria crescido. Talvez só assim ele nunca tivesse feito as burradas que fez e teria sido uma pessoa, uma criança, bem melhor.


Quando já eram quase 6 horas da tarde acabou por começar a fazer o caminho de volta para o apartamento. Logo o sol já teria se posto por completo e não havia levado um agasalho para enfrentar o anoitecer primaveril. Ao chegar à portaria de seu prédio fora abordado pelo porteiro que pedia para que ele esperasse um segundo, enquanto ele separava algumas correspondências, pois tinha algo a lhe falar.


– Pois não, Mori-san. – Sorriu, parando em frente ao balcão da portaria.


– Takashima-san, o Shiroyama-san pediu para que eu não contasse nada ao senhor, mas acho que o senhor acabaria por dar-se falta de alguma coisa no apartamento de vocês. — Falou gentil, o semblante calmo de um senhor pacato já beirando seus 50 anos.


– Como assim, dar falta de alguma coisa? – Franziu o cenho. – O Yuu esteve aqui?


– Sim, esteve, há mais ou menos umas duas horas. – Respondeu. – Chegou dizendo que pegaria algumas coisas que lhe pertenciam e que não gostaria que o Takashima-san fosse informado de que estava ou esteve aqui. – Fez uma pausa. – Não demorou muito e desceu com duas malas e algumas caixas. Estava com ele outro rapaz, amigo de vocês, aquele que usa uma faixa sobre o nariz, o Suzuki-san. – Completou, encarando o semblante surpreso do mais novo a sua frente.


– Ele não disse mais nada? – Indagou, um nó formando-se em sua garganta.


– Não, apenas agradeceu e foi embora. Desculpe-me ter o deixado subir assim, mas não sabia o que fazer, ele tem as chaves e também é dono do apartamento. Lamento muito, Takashima-san. – Sorriu ameno.


– Não tem porque se desculpar, Mori-san. Ele tinha todo o direito de subir e não era obrigação sua o impedir. – Suspirou. – Obrigado pela informação. – Tentou sorrir, mas acabou por fazer uma careta. Virou-se e caminhou em direção ao elevador, antes de adentrar o mesmo ouviu o senhor dizer-lhe:


– Sinto muito por tudo, Takashima-san. Não acreditava que a separação de vocês era algo concreto, ainda vejo amor nos olhos de ambos. Por isso desejo que tudo se acerte logo. Boa noite. – Sorriu, os olhos puxados quase que se fechando.


– Também desejo isso. – Sussurrou, vendo as portas de metal fechar-se a sua frente.


Não conseguia acreditar no que havia ouvido do senhor de cabelos grisalhos. Mas não encontrar roupa alguma de Yuu no armário fez com que todo o peso da realidade caísse sobre si. Constatar que o outro estava mesmo disposto a sair de sua vida doía como o inferno.


Claro que sabia que o moreno estava muito magoado, mas nunca deixara a esperança de ser perdoado morrer. No entanto, os fatos deixavam bem claro que Aoi queria distância e jamais o culparia por isso, mas também não o impediu de ser tomado pela onda de choro que durou tempo demais.


Já passavam das oito e trinta da noite quando Kouyou acordou e acabou dando-se conta de que havia dormido chorando, deitado em meio ao chão do quarto. Tudo em si doía, parecia que um ônibus havia passado sobre si enquanto dormia e seu coração parecia comprimido contra a sua caixa torácica. Levantou-se com um pouco de custo e então se jogou dolorosamente sobre a cama, abraçando o travesseiro que antes pertencera a Yuu, o olhar perdido no teto branco.


Cerca de quase uma hora depois se levantou da cama e arrastou-se pelo corredor até chegar à sala. Durante o tempo que passara abraçado ao travesseiro do mais velho tomou que talvez mudasse ou arruinasse de vez a sua vida, mas iria pô-la em prática. Sentou-se no sofá e pegou a telefone – que ficava sobre uma mesinha ao lado do sofá -, discou os números tão bem conhecidos por ele e rezou para que fosse atendido.


Talvez fosse a sua única oportunidade.


Chamou. Uma, duas, três, quatro vezes. Já estava disposto a desligar – compreendendo que já não havia mais chances para si — quando ouviu a voz, tão conhecida, do outro lado da linha.


O coração pareceu falhar uma batida ao ouvir a voz meio rouca.


Alô? – A pessoa do outro lado indagou, sabendo muito bem que estava a lhe ligar.


– Yuu, sou eu, o Kouyou. – Um sorriso nasceu em seus lábios bem desenhados. – Nós precisamos conversar. Por favor, me escuta, eu já não consigo mais viver sem... – Fora interrompido.


Nós não temos nada para conversar, Takashima. Por favor, não me ligue mais. Esqueça-me. O apartamento é todo seu, fique à-vontade para levar quem você bem entender para ai, não vou mais atrapalhar a sua vida. Passar bem. – Desligou o telefone.


O telefone foi posto de volta no gancho. Uma lágrima fria escorreu por sua face seguida de tantas outras. Ele estava perdendo, o perdendo para sempre. E não sabia como recuperá-lo de volta.


Notas finais
E agora, quem quer chutar o Yuu?
AWW, obrigada pelos reviews :333333