The warmth of Winter
55 Minha irmãzinha
Notas iniciais
Ichinose Akihiko POV
Deito-me olhando para o teto e fecho os olhos, Natsu tem razão, detesto isto, por que normalmente ela tem razão, mas ainda não posso permitir, não posso abrir mão. Viro-me na cama e estico a mão, obviamente está vazia, está assim há tanto tempo, e ainda assim eu me lembro como se fosse ontem de quando só dormíamos juntos, rio.
Eu não tenho lembranças do meu nascimento, porém sei por histórias, gostávamos de fazer nossa mãe nos contar em detalhes, e ela parecia gostar de contar. Natsu tinha quatro quando ela descobriu estar grávida, e como tudo havia corrido perfeitamente bem com a mais velha, minha mãe decidiu seguir o que fizera na gravidez anterior, ao invés de ficar indo ao médico. De fato, a gravidez foi tão tranquila quanto a anterior, a surpresa contudo, veio no dia em que ela deu a luz, mamãe esperava por um bebê, mas acabou por ter dois, de acordo com ela, sorte grande, era como se esperar por um presente de natal e ganhar dois no lugar, na época, era o que melhor servia de referência para nós.
Entretanto, o clima de festa não durou muito, de acordo com mamãe, Fuyuki não chorou, ela estava muito mole e parecia fraca demais para chorar, o desespero foi geral, acharam que ela não sobreviveria, enquanto isso, eu não parava de chorar nem por um segundo sequer, mamãe disse que estava ficando até tonta, todos falavam ao mesmo tempo e corriam de um lado para o outro, até que ela tomou uma decisão, mamãe era uma mulher incrível, ninguém jamais dizia a ela o que fazer e uma vez que colocasse algo na cabeça, ninguém a fazia mudar de ideia. Não que isto fosse algo muito surpreendente, é um traço de personalidade muito comum nos Ichinose.
Mamãe ordenou que os dois bebês fossem entregados a ela, independente do estado em que estivéssemos, ela era mãe e era dela que precisávamos, se Fuyu estava fraca devia estar com fome e eu também, já que não parava de chorar, foi isto que disse as enfermeiras e ao médico. Mesmo achando uma loucura, eles entregaram os bebês, e mamãe conta que no momento em que fomos colocados juntos, tudo se acalmou, eu parei de berrar e Fuyu aconchegou-se a mim, mamamos e caímos no sono.
Fuyuki é a pessoa mais doce que conheço, não digo isto por ser minha gêmea, digo por que tenho a capacidade de “ler” os sentimentos de todos a minha volta. Entre os sentimentos mais comuns estão a inveja, o orgulho, a falta de compaixão, a vaidade, e infelizmente as pessoas não podem controlar seus sentimentos, então você simplesmente sente. O verdadeiro problema é quando a própria pessoa usa isto como desculpa e não tenta se corrigir. Minha irmã nunca foi assim, ela se sentia culpada até mesmo por coisas as quais não estava minimamente ligada, me lembro de uma vez em que um ninho despencou de uma árvore, o achamos no dia seguinte, os filhotinhos já estavam mortos, Fuyu começou a soluçar, e enquanto tentava acalma-la, ela não parava de se culpar por não ter chego antes.
Eu era a única pessoa no mundo inteiro que a compreendia, não havia e jamais haveria outra pessoa capaz de fazer por Fuyuki o que eu fazia, quer dizer, nascemos juntos, mas antes disto, já estávamos juntos. Porém era mais que isso, eu podia sentir seus sentimentos, e nunca vou conseguir descrever o quanto sou grato a esta habilidade, me lembro bem que quando chegou a idade na qual apresentávamos nossas habilidades, todas as crianças queriam coisas como criar fogo, explodir coisas, entre outras capacidades destrutivas, eu em compensação queria o dom de cura, o motivo era óbvio, minha irmã mal podia sair da cama e eu era a única pessoa que a ouvia gemer de dor e se remexer durante o sono. Quando descobri que minha capacidade era a compreensão e manipulação de sentimentos, me senti lesado, que habilidade mais inútil, pensei desanimado.
Quando cheguei em casa, Fuyuki quase me derrubou no chão, pulando em mim e me enchendo de perguntas, fazíamos o teste aos cinco anos e Natsu o havia feito alguns anos atrás, porém era proibido que se contasse as crianças que ainda iriam realiza-lo, por esta razão, estávamos morrendo de curiosidade, obviamente minha irmã foi impedida de fazê-lo, ela não demonstrara nenhum dom até então, e seu estado de saúde era muito delicado. Contei a ela sobre o teste, estava pouco me lixando para as regras, porém me senti constrangido ao lhe revelar minha habilidade, para minha surpresa, ela ficou completamente fascinada, ainda me lembro de suas exatas palavras.
– Aki-kun, é incrível! Olhei para ela, sem saber exatamente que parte daquele poder era tão incrível. — Você pode fazer as pessoas felizes.
Infelizmente eu não era tão altruísta quanto minha gêmea, em compensação, descobri logo que ela tinha razão, aquele era o melhor poder que eu podia pedir, até por que, mesmo os curandeiros mais habilidosos da nossa família não estavam tendo nenhum resultado no problema dela, em compensação, Fuyuki nunca mais foi capaz de fingir que estava tudo bem. Vamos e venhamos, sou obrigado a dar o braço a torcer, deve ser um inferno ter as pessoas o tempo todo lhe “vigiando”, o tempo todo estar doente e ter alguém cuidando de você, para Fuyu, a fazia se sentir carcereira do resto da família e até mesmo dos funcionários.
O mais engraçado é que ninguém mais pensava assim, em grande parte dos casos, quando as pessoas cuidam de alguém doente, elas acabam cansando, mesmo que jamais falem, seus sentimentos a traem, elas costumam pensar que seriam muito mais livres se não tivessem que estar constantemente cuidando daquela pessoa.
Isto nunca aconteceu com Fuyuki, era uma pena eu ser novo demais, mas ainda assim, eu deveria ter notado o quanto aquilo era estranho, ninguém jamais se sentia mal perto dela, era quase como se ela tivesse também o dom de controlar sentimentos, as pessoas sempre gostavam de Fuyu. Novos ou velhos, homens ou mulheres, ricos ou pobres, não importava, se alguém se aproximasse dela, era atraído como que por uma força magnética e cativado pela morena.
A questão era, mesmo que todas as pessoas a adorassem e estivessem dispostas a fazer qualquer coisa por ela, Fuyuki ainda se sentia um estorvo. Para ela, estava fora de cogitação preocupar ou incomodar ainda mais qualquer um, para isto, ela costumava manter todas as suas dores guardadas para si. Na época eu não sabia do que se tratava, mas o sofrimento de Fuyu, me fazia pensar que aquela era sem dúvida a pior doença que existia. A sensação de que faltava ar não importava o quanto ela lutasse para respirar, a sensação de que seu peito iria se rachar ao meio, uma pressão tão grande em sua cabeça que a fazia pensar que ela iria explodir a qualquer momento, uma dor terrível em seus ossos, como se eles quisessem sair da pele…
– Aki. Viro-me e encontro Natsu na porta, nem a ouvira abri-la. — Nós precisamos baixar a barreira.
Encaro-a, tentando controlar meus sentimentos, ela não sabe, digo para mim mesmo, ela não tem como saber, não é capaz de sentir os sentimentos dos outros como você.
– Natsu. Solto o ar e balanço a cabeça. — Este assunto não está aberto a discussão.
Levanto-me e me encaminho para porta, ela segura meu braço e nos encaramos, começo a sentir que não vou conseguir controlar tudo que quero dizer a ela.
– Você não pode continuar a exauri-los daquela maneira. Rebate a morena.
– Que troquem, revisem-se em turnos. Não me importo, a barreira será mantida não importa como!
– Você não pode mudar o mundo para que se adapte a Fuyuki. Arranco meu braço de sua mão e viro-me, prestes a explodir.
– Ah é! A culpa não é minha se você não se importa com sua irmã! Eu sei que está com ciúme por que ela foi escolhida ao invés de você. Aquilo não era verdade, mas estava tão irritado que não importava nem um pouco.
– Deixe de ser babaca Akihiko. A esta altura estávamos gritando. — Você sabe o quanto me importo com Fuyu, e mais do que ninguém, sabe que eu jamais iria sentir inveja dela. Não a nada a se invejar em Fuyuki, o máximo que eu poderia sentir é pena.
Abro a boca para rebater, mas sei que ela tem razão, só alguém muito desinformado ou idiota invejaria Fuyu, não há nenhuma gloria, nenhuma vantagem, nenhuma saída. Por um lado ou por outro, Fuyuki está fadada a ser suprimida, seja pela inocência ou por seu próprio descontrole, sinto um nó na garganta.
– Eu não vou dizer que sei o quão difícil é para você, eu não sei. Não sou capaz de sentir os sentimentos das outras pessoas e mesmo que seja minha irmã, ela não é minha gêmea. Olho para Natsumi, me sentindo um babaca, ela está do meu lado e ainda assim, tentei atingi-la para aliviar minha própria dor. — Ainda assim, você precisa ser racional, e precisa confiar em Fuyuki.
A última parte me pegou completamente de surpresa, de todos os possíveis argumentos, jamais pensei que Natsu recorreria a este.
– O que foi? Seja honesto, você ainda a vê como a garotinha de sete anos que não dormia se você não se deitasse com ela. Minha irmã ri. - Ela se tornou uma mulher forte Aki, você pode não querer enxergar, mas ela é inteligente, decidida, capacidade e independente.
Me sinto levemente desconcertado, depois que ela se foi, dediquei minha vida a procurá-la, enquanto ela se esqueceu completamente de mim e seguiu em frente, agora eu que terminara me tornando dependente dela, enquanto Fuyu se tornou uma mulher forte e independente, exatamente como Natsu dissera.
– Além do mais, ela não está sozinha. Foi você mesmo quem me disse para convencê-la a transformar Kanda em seu guardião, pois não havia ninguém mais adequado para a função.
– Mas eu estava falando no quesito de proteção. Resmungo como uma criança, não gosto da ideia de ser substituído.
– Oh, acho que nos esquecemos de comentar isto com ela. Provoca Natsumi, me dando um sorriso irônico. — Já que agora não é mais você quem põe ela para dormir.
Antes que eu tenha a chance de rebater, minha irmã sai rindo, suspiro, ela vai me torturar com isto por bastante tempo.
– Vou liberar as barreiras! Grita Natsu do corredor, volto a suspirar, espero que ela tenha razão e tudo corra bem. Já que agora só me resta confiar nos dois.
Fale com o autor