The warmth of Winter
19 Cinderela
Notas iniciais
– Hum, acho que a sombra deveria ser mais escura. Diz Bea, pensativa.
– De jeito nenhum. Sério Bea, eu nunca usei nenhum tipo de maquiagem, seria um choque muito grande.
Ao vermos um anuncio sobre o baile que aconteceria essa noite, nos tocamos que provavelmente era para lá que a dona do bracelete estava indo, por essa razão, teríamos de nos infiltrar. Voltamos para o hotel, pois combináramos de encontrar Kanda lá, porém Beatrice decidiu que já que iríamos a um baile, eu precisava me arrumar de acordo, e isso também contava para seu novo projeto, que ela denominou lista de desejos, eu tentaria coisas novas, até descobrir do que eu realmente gostava, começaríamos pelo meu estilo.
– Certo, certo, continue de olhos fechados como uma boa garota.
A morena decidira me “ajudar” a achar coisas que me interessassem, e para isso, ela iria até mesmo me forçar a fazer coisas diferentes, a menos que eu concordasse em dizer o que eu tinha vontade de tentar, por essa razão, ela estava me provocando sobre me maquiar de maneira exagerada, mas a verdade é que eu estava gostando bastante de tê-la me arrumando.
– Sabe, o segredo para os lábios é… Sua frase foi interrompida pelo barulho da porta se abrindo.
– Bem vindo! Falei, virando-me para o general.
– Que tal? Linda, não? Diz Beatrice, se levantando e indo para sua mala.
– Vocês não deveriam estar procurando pela inocência? Rebate o moreno.
– Fuyu acha que a inocência estará no baile do duque sei-la-do-que. Responde Bea, voltando para meu lado com uma blusa em mãos. — Isso ficará perfeito.
Ela me puxa para que fique de pé e coloca a roupa em frente ao meu corpo, ela murmura algumas coisas para si mesma, enquanto me vira e testa a roupa de vários ângulos, uma vez que ela parece satisfeita, se aproxima de mim e passa a abrir os botões de minha camisa.
– BEATRICE! Afasto-me segurando a camisa e a olhando chocada, novamente escuto o barulho da porta e respiro aliviada soltando a mão.
– O que foi? Indaga, aparentemente confusa.
– Kanda ainda estava no quarto!
– E daí? Questiona, voltando a abrir minha camisa.
– Como assim, e daí? Eu não posso trocar de roupa na frente de um homem. Ela finalmente pareceu entender, deu uma risada e comentou.
– Mas você ia continuar de sutiã, não precisa se preocupar. Suspirei, parece que ela não entendeu afinal, é melhor eu tomar cuidado ao redor de Bea.
Quando ela passou a tentar arrancar minha saia, foi uma nova discussão, aquilo que eu supunha ser uma blusa, era um vestido, que se ficou curto em mim, eu nem imagino o como fica nela, sem contar que era extremamente apertado.
– Beatrice, isso não vai dar, eu não sou tão magra quanto você. Falo, enquanto ela tenta fechar o zíper nas costas.
– Você não precisa ser tão modesta, pode dizer que seus peitos são o dobro do meu.
– BEA!
Por fim, depois de muita luta contra a total liberdade da morena, consegui ficar pronta, ao me olhar no espelho, não consegui me reconhecer, meus olhos estavam marcados por grossas linhas pretas, contudo a sombra perolada dava um ar delicado, minhas bochechas estavam bem rosadas, assim como meus lábios, o vestido era azul marinho, chegava a metade da minha coxa, a parte superior se parecia a um espartilho, de tão apertada, já a parte de baixo era uma saia solta que balançava com o menor movimento, ele não tinha alças, mas fechava no pescoço, deixando um pouco das minhas costas descobertas.
– Uau! Sou eu mesma? Perguntei descrente.
– Sim, sim, só falta uma coisa, princesa. Ri de seu comentário, ela se aproximou e soltou meu cabelo, ajeitando-o com a mão, depois colocou uma espécie de tiara, que de fato se parecia a uma coroa. — Agora sim, perfeita.
Viramos de volta para o espelho, eu não conseguia deixar de sorrir, nunca estive tão bonita, não sou uma pessoa vaidosa, mas não podia negar que amei me achar bonita.
– Vamos. Diz Beatrice, me puxando pela mão até o andar de baixo. — Obrigada pela espera, agora observe minha obra completa.
Ela me segurou pelos ombros, me colocando de frente para o general que se encontrava sentado olhando pela janela, sua expressão não mudou quando me olhou, porém o olhar que lançou a Bea foi claramente um olhar irritado.
No caminho para o baile, a morena foi me contando mais sobre sua vida e seus interesses, o tempo estava frio, porém ela não me deixara usar mais que um xale, já que outra peça iria estragar o visual, foi sua explicação.
– É aqui. Fala Kanda, assim que se torna possível ver a enorme mansão e as carruagens na entrada.
– Acho que teremos que entrar pelos fundos, espero que não seja difícil. Comentei, olhando para o vestido, eu estava acostumada a roupas práticas e sem dúvidas, aquela era a última coisa que ele era.
Demos a volta na construção, tomando o cuidado de não sermos vistos, chegamos finalmente a um lugar onde não havia segurança, entretanto era um muro de pedra, com uma aparência nada fácil de escalar.
– Parece que vocês terão que… A frase do moreno foi interrompida quando um galho de árvore parou a minha frente, como se me convidasse a subi-lo.
– Você estava falando o que, general? Diz Beatrice de modo irônico, ela estica a mão para mim, me ajudando a subir na árvore e completa. — Acho melhor ficar sentada.
Sigo seu conselho, Kanda sobe no galho, e ela o faz passar por cima do muro, me sinto um pouco nervosa sobre estar em um galho que se mexe, e a essa altura, por isso, assim que ele aterrissa, salto para o chão. Sem dar tempo para discussão, Bea me pega pela mão e diz que vamos procurar juntas, dou um sorriso apologético ao general e a sigo. Passamos um bom tempo tentando encontrar uma entrada, até que ela se irrita e decide quebrar uma janela, obviamente o barulho não passa despercebido, e minutos depois os seguranças aparecem, no meio da confusão acabo por me separar da morena.
Inicialmente ficar do lado de fora da mansão me pareceu uma ótima ideia, uma vez que, se eu corri para fora, eles iriam supor que eu já tinha até saído da mansão a essa altura, porém, após uns dez minutos de caminhada, começou a garoar, e minha roupa era fria demais, decidi me abrigar na sacada ao lado do salão, aproveitei para espiar o baile.
– Uau, eu deveria adicionar isso a lista de desejos. Falei prensando meu rosto contra a janela.
– Lista de desejos? Meu sangue congelou, droga, pensei enquanto me virava para a fonte da voz.
Meu queixo caiu, durante toda minha vida, eu nunca entendi muito bem as conversas das meninas sobre garotos, afinal, como elas podiam ficar sem fala, constrangidas ou envergonhadas, apenas por ver alguém “bonito”, bom, agora eu entendia. O homem parado atrás de mim, era lindo, cabelos negros, pele morena e olhos dourados, por suas roupas, ele muito provavelmente era um nobre, meu coração estava acelerado e eu não sabia bem o por que.
– M-me, me, des… culpe. Minha nossa, eu nunca gaguejei, o que tem de errado comigo, ele sorriu e meu coração deu uma cambalhota.
– Apenas se me contar o que é essa lista de desejos. Disse, dando uma piscadela, era só impressão minha, ou estava faltando ar na atmosfera.
– É uma… lista. Por que eu não conseguia fazer sentido?
– Bom, esse tanto eu já tinha imaginado, mas, de desejos, que desejos? Questionou, se recostando na parede de modo displicente, eu não conseguia parar de encara-lo, bobamente.
– Foi minha amiga que criou. Me obriguei a olhar para minhas botas, assim eu conseguiria continuar, por mais que estivesse muito consciente de seu olhar fixo em mim. — Ela acha que eu preciso testar coisas novas, para poder descobrir do que eu gosto.
– E o que você pretendia adicionar a lista?
– Ahm? Levantei os olhos e me arrependi, fechei-os com força e baixei a cabeça.
– Você disse que deveria adicionar algo a lista, enquanto olhava pela janela. Aquilo me trouxe um pouco de lucidez, abri meus olhos, todavia os mantive fixos em meus sapatos.
– Me desculpe, juro que não viemos a festa para fazer nada ruim, só estávamos, hum, curiosos. Esperava que aquilo o distraísse.
– Viemos, estávamos. O olhei em choque, droga, eu acabara de entregar meus amigos, o ruim é que mesmo preocupada, eu não conseguia deixar de ficar boba por causa dele.
– Você vai nos entregar para a segurança? Nos desculpe, eu juro que não fizemos por mal… Fui interrompida por sua risada, aquele som me acalmou, trazendo uma sensação agradável a meu coração, acabei sorrindo.
– Você notou quantas vezes pediu desculpas? Ele riu mais um pouco e se aproximou, um sorriso maroto brincava em seus lábios e meu coração parecia querer sair do peito. — Façamos assim, você me conta o que deseja adicionar a lista e eu finjo que não te vi.
Balancei bobamente a cabeça, concordando, eu estava começando a me sentir tonta, será que isso é normal?
– Eu não sei bem, tudo é tão lindo, tantas luzes e as decorações, a comida, a música, a dança. Virei-me para a janela e voltei a olhar o interior do salão. — Parece tão mágico.
– Hum, então você gostaria de ir a um baile?
– Acho que, pode-se dizer que sim. Respondi, suspirando.
– Que tal ser minha acompanhante?
O choque foi tão grande, que me fez cambalear para trás tropeçando em minhas próprias pernas, fechei os olhos esperando a queda, porém ao invés de tombar para trás, tombei para frente, de alguma maneira ele havia sido capaz de agarrar meu braço e me puxar para si. Senti uma verdadeira corrente elétrica correndo por meu corpo, tentei me afastar dele, contudo eu estava um pouco zonza pela proximidade súbita, fazendo assim com que cambaleasse novamente e ele me mantivesse em seus braços para garantir que eu não fosse ao chão.
– Você está bem?
– Não. Falei, sem levantar os olhos.
– Faz sentindo, você está congelando, o tempo está frio demais para usar só isso. Mantendo um braço em minha cintura, ele retirou um lado de seu fraque, depois trocou o braço e retirou o outro, por fim, colocou-o sobre meus ombros. — Assim está melhor, mas talvez você já esteja febril, seu rosto está vermelho.
Desvencilhei-me de seus braços, antes que ele pudesse tocar minha testa, me xinguei internamente por ter corado, puxei as bordas de seu casaco, estava quente e tinha um cheiro tão bom, suspirei.
– Obrigada. Sussurrei, sem encara-lo. — Mas eu não posso aceitar, você já fez muito por mim. Retirei o terno e o entreguei.
– Eu não posso deixar uma dama em apuros, certo? Que tipo de cavalheiro eu seria, se o fizesse. Aquilo me fez rir, fazendo com que eu me acalmasse um pouco, levantei os olhos, e me aproximei, esticando a blusa em sua direção.
Ele a pegou, aproximou-se e a passou novamente por meus ombros, minhas pernas pareciam feitas de gelatina, depois de largar o fraque, ele pegou minha mão levando-a aos lábios, meu coração parou por um minuto, meu rosto pegou fogo e minhas pernas fraquejaram, ele enlaçou minha cintura, e me aproximou de si.
– Me concede a honra dessa dança, milady? Eu grasnei algo que se parecia com um sim, e ele passou a nos mover de um lado para o outro, nossos olhos não se desgrudando nem por um segundo.
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