The warmth of Winter
7 A diferença de técnica
Notas iniciais
Acordei caindo no chão. Não era das melhores sensações, mas por sorte consegui desviar inconscientemente do criado mudo, do contrário seria muito pior. Sentei-me no chão mesmo e tratei de regularizar a respiração.
– Inocência? De quem era o sonho? Eu acordara daquela forma por culpa de um pesadelo, o problema é que ele não pertencia a mim.
– Não era um sonho, era uma memória.
– Como assim?! Aquilo é horrível, impensável. Não pode ser uma memória. Constato me lembrando aos poucos do “sonho”, de fato era muito real, e consigo recordar sozinha que era de Kanda, procuro por sua mente, ele se encontra acordado, é real. Sinto um arrepio, levanto e vou ao armário, procuro um casaco.
– Aonde vai? Pergunta coração curiosa.
– Falar com Kanda-san.
– Você não pretende dizer o que viu a ele, não? Visto o casaco e saio do quarto. — Sério Fuyu, ele não vai gostar, acho que já te falei antes, ele não é amigável. Não comente sobre isso, lembre-se que ninguém sabe do que a inocência coração é capaz.
– Não sei o que vou dizer. Porém não se preocupe, não pretendo revelar nosso segredo, contudo, não posso deixa-lo sozinho, não depois do que vi. As lembranças dele eram sobre seu passado, seu “nascimento” no projeto segundo exorcista, percebi que a inocência tentava evitar que eu acessasse mais informações, desisti de tentar e voltei ao sonho. Haviam também algumas memórias sobre Allen Walker, Kanda estava preocupado, ele queria encontrar Allen.
Assim que cheguei ao corredor da sala de meditação, local onde o moreno se encontrava, decidi sobre o que falar. Respirei fundo e segui até a sala.
– Boa noite. Falei entrando cautelosamente na sala.
– O que faz aqui? Disse o moreno olhando o relógio na parede, segui seu olhar, duas da manhã.
– Não conseguia dormir. Menti, não era como se faltasse motivo para insônia.
Ele apenas me olhou por mais alguns segundos e depois, voltou a meditar.
– Posso me sentar?
– Essa sala é comunitária. Sorri e me aproximei dele, sentei e abracei os joelhos. Eu vestia uma longa camisola lilás e por cima um casaco bege de tricô, Kanda ainda vestia suas roupas de treinamento.
– Se importar se eu falar? Questionei deitando a cabeça sobre o joelho e olhando para ele.
– É uma sala de meditação, mas não veio aqui para isso, é óbvio. Respondeu finalmente abrindo os olhos e me fitando.
– Tomarei isso como um sim. Falei sorrindo. — Se importa se lhe fizer uma pergunta? Claro que não precisa responder se não quiser. Minha única resposta foi o silêncio.
– Tomarei como outro sim. Por que está acordado?
– Estava meditando. Disse como uma indireta, o que me fez rir.
– Certo, é uma resposta. Parei para pensar em uma nova forma de tentar começar uma conversa, ele realmente era difícil.
– Por que não fala logo o que quer. Seu tom era frio, percebi que tinha algo errado.
– Na verdade só estou tentando conversar, porém, você não é exatamente sociável, certo?
– Não perca seu tempo dando voltas. Não pretendo deixa-la ganhar. O encarei incrédula, ele realmente pensou isso, bocejei, não tinha percebido que estava com tanto sono. Mudei de posição, sentei sobre minhas pernas, virada para ele.
– A última coisa que te pediria, seria para me deixar ganhar, na verdade, peço que me leve a sério, como um verdadeiro oponente. Sei que não tenho a sua habilidade com a espada, mas acredite, eu não pretendo ser derrotada. Aquilo fez sua expressão se suavizar, seu olhar demonstrava certa diversão, o tipo de olhar que se dá quando uma criança diz algo absurdo, convicta de que seja realidade.
– Então a que veio?
– Na verdade é uma longa história. Eu carregara no O. — De maneira sucinta, o que me traz aqui, é Allen Walker. Sua postura enrijeceu ao ouvir o nome, ele estreitou os olhos, e para meu completo choque, me encarou com ódio.
– Deixe-o em paz. Falou de forma ameaçadora, não consigo imaginar se era possível minha expressão demonstrar tamanha descrença. O que ele estava pensando?
– Como assim? Indaguei confusa.
– Vocês são realmente espertos, não? Uma vez que ele não estava conseguindo sozinho, você apareceu para ajudá-lo, foi muito comovente seu teatrinho sobre ajudar os exorcistas. Por alguns segundo fiquei em completo silêncio, muitas emoções se misturavam em meu interior, então uma delas se sobressaiu.
– Qual é o seu problema?! O que eu te fiz? Eu não sei de quem você está falando, mas não venha me acusar de nada. Mais do que ninguém eu me importo com os exorcistas, e se estou aqui agora, é por que estava preocupada com você. Rebati ultrajada, respirei fundo e continuei antes que ele tivesse a chance. — A inocência coração está ligada a um nível emocional com as outras, ou seja, o que vocês sentem, eu sinto. Não é assim o tempo todo, contudo, quando eu baixo a guarda, por exemplo, enquanto durmo, isso fica mais forte. É complicado de explicar.
Parei para tomar fôlego, ele aproveitou essa interrupção.
– Você disse que estava aqui por causa do novato. Ele me lembrou.
– Você está preocupado com ele, não é? Seus sentimentos estavam agitados então eles me acordaram. Eu vi sua preocupação com Walker, e também… Eu precisava dizer, ou ele não acreditaria em mim. — Sobre seu passado. O projeto segundo exorcista. Ficamos em silêncio por um longo tempo.
– E o que você quer? Suspirei, eu precisaria de muito mais, para conquistar a confiança de Kanda, mas por enquanto, me contentaria em lhe contar a verdade, e esperar que ele cooperasse.
– Eu posso ajudá-lo. Tanto sobre a ferida, quanto sobre o décimo quarto, creio que com meus poderes, podemos constringi-lo.
– E por que veio aqui me dizer isso? Percebi que meus olhos estavam ficando pesados, cocei-os.
– Primeiro para tentar acalma-lo, segundo por que isso é algo no qual só você pode… Me ajudar. Fui interrompida por um bocejo.
– O que isso quer dizer?
– Você é a única pessoa que seria capaz de trazer Allen de volta a ordem, foi por isso que se tornou general, não? Pergunto me inclinando em sua direção, por favor, acredite em mim, Kanda.
– Você sabe que ele seria morto se voltasse à ordem. Respondeu como se eu fosse louca.
– Não se eu conseguir conter o décimo quarto, também posso provar que ele está do nosso lado, e é inocente na suspeita de “assassinato”. Digo deixando implícito o que sei sobre Link.
– Então você mesma deveria trazê-lo de volta. Aquilo me fez sorrir. O espadachim se levantara, já se encaminhando para a saída.
– Nós dois sabemos qual é a chance de eu ganhar amanhã. Falei aumentando o tom de voz, ele parou na porta.
– Achei que tivesse dito que não seria derrotada. Disse e então se retirou, é parece que consegui conquistar, mesmo que pouco, a confiança dele.
A manhã seguinte chegou mais rápido do que eu esperava, não tinha dormido o suficiente, todavia não podia dormir agora, havia sido decido que o combate seria após o café. Tomei um banho rápido e levei algum tempo escolhendo a roupa, eu precisava de algo confortável e flexível, por essa razão escolhi um macacão branco de short e regata, coloquei por cima um vestido de moletom vinho cujo decote não permitia que o usasse sem algo por baixo, calcei meias 5/8 brancas e por ultimo minha bota, me encarei no espelho, percebi que seria mais lógico prender o cabelo, fiz uma trança fofa e decidi que estava ótimo, respirei fundo e deixei o quarto.
– Bom dia! Boa sorte hoje. Disseram alguns finders que passaram por mim no corredor, agradeci e continuei meu caminho.
Descobri rapidamente que todos já sabiam sobre o duelo, e pelo jeito torciam para mim, muitas pessoas me desejaram sorte em meu caminho para o refeitório, e ao chegar no mesmo, todos pararam de conversar e me encararam, senti minhas bochechas corarem.
– Preparada? Pergunta Layla, que se juntara a mim logo que parei na fila, acenei com a cabeça, tentando controlar o nervosismo, eu não estava com medo do combate, estava terrivelmente constrangida de tantas pessoas saberem, e muito provavelmente quererem assistir.
– Sua trança esta frouxa, deixe-me arruma-la. Fala a loira soltando meu cabelo, ela o penteia com a mão e começa a refazer a trança, aquele simples ato me acalma, sempre tive Layla arrumando meu cabelo, ela costuma implicar, dizendo que não faço direito sozinha. — Prontinho. Diz ela puxando a trança para que eu a veja.
– Obrigada! Respondo sorrindo. — Bom dia Jerry.
– Fuyu-chan, bom dia! O que será hoje, você precisa de muita energia, então tem que comer muito. Diz ele animado.
– Pelo contrário, não posso estar muito pesada. Acho que uma fatia de torta de chocolate e um café com chantilly será o suficiente. Esperamos nossas bandejas e então seguimos para uma mesa, procuro por uma vazia, sento de frente para a Foster, que ao perceber o meu estado, decide me distrair com assuntos frívolos.
– Lala, todos já sabem, sobre mim? Eu precisava confirmar, mesmo que tivesse noventa por cento de certeza.
– Sobre a inocência, sabem. Ontem foi feito um anúncio para os outros, depois que fomos liberados. Fala, me olhando com compaixão.
Depois de ter sido liberada, fui direto para o quarto e “estudei” métodos de luta de espada, a inocência acessou todas as informações de luta que achou que poderiam ser úteis e me mostrou, ela me mostrou também a técnica de Kanda, para podermos bolar uma estratégia, no meio de todo esse estudo acabei ficando cansada, e decidi dormir, isso explicava o porquê eu não sabia sobre esse anúncio.
Terminei meu café rapidamente, e logo fugi do salão, o problema é que Layla também estava agitada, mesmo que tentasse se conter, eu podia perceber o nervosismo em sua voz. Usei o caminho para repassar todas as táticas de batalha, coração tinha me dito que eu, ao menos, tinha meus reflexos aumentados, o problema é que Kanda também tinha, e além do mais tinha anos de treinamento, algo que eu não possuía. Iríamos apostar em minha “vantagem”, eu era cerca de trinta centímetros mais baixa que ele, o plano era usar isso ao meu favor, me mantendo longe dele.
Assim que entrei no campo de treinamento, reparei que o moreno já estava lá, respirei fundo algumas vezes, uma coisa era imaginar a cena, outra era estar nela, me aproximei dele, que estava acompanhado por Marie.
– Bom dia. Minha voz tremeu nessas simples palavras, eu precisava me acalmar, não teria nenhuma chance nesse estado.
– Bom dia. Responde Marie gentilmente. — Preparada?
– Sim… Ah, obrigada. Kanda me entregara uma katana.
– Está pronta? Indaga o general, respiro fundo e aceno com a cabeça, ele então se encaminha para o centro do campo. Vou primeiro até a Foster, retiro o moletom e a entrego, ela me puxa para um abraço, sorrio e sigo para o centro do campo.
– Os dois estão prontos? Pergunta Leverrier, visivelmente animado, me posiciono e vejo Kanda fazer o mesmo.
– Boa sorte! Sussurra a inocência.
– Comecem. Fala o inspetor.
Meu olhar encontra o do espadachim por um momento, e no momento seguinte ele já se lança em minha direção, consigo desviar com perfeição, ele se vira, percebo que não posso desviar, agacho. Tento lhe passar uma rasteira, contudo, ele pula, já descendo pronto para me acertar, dou uma cambalhota para trás, levanto bem a tempo de receber seu ataque, obviamente a força não se compara, sou empurrada alguns metros para trás. Sem me dar tempo, ele se aproxima cortando na diagonal, na tentativa de evitar ter que segurar seu ataque, acabo por ser cortada de raspão no braço, salto para trás, a inocência grita ordens de ataque e defesa, porém não dou ouvidos a ela.
É engraçado, mas no momento em que a batalha começou, todo o resto sumiu, não vejo ou ouço nada que não seja eu e Kanda, meu sangue corre muito rápido, todavia não estou mais nervosa, me sinto ótima, parece que pela primeira vez na vida estou verdadeiramente usando todo o potencial de meu corpo, nunca imaginei que tivesse reflexos tão rápidos, nem que fosse capaz de sequer desviar do espadachim, e aqui estou eu, lutando de igual para igual, bom, exceto pela força é claro. E o melhor de tudo, eu estava me divertindo, nem mesmo o corte me incomodava, por sinal, teria que me lembrar de agradecer ao general por estar me levando a sério.
Cruzávamos espadas novamente, joguei todo o peso de meu corpo, contudo não fez grande diferença, Kanda novamente me empurrara para longe, acabei perdendo o equilíbrio, ele aproveitou o momento e me desarmou, em um golpe de sorte consegui dar uma estrela para trás, decidi que deveria tornar isso uma vantagem, eu controlava melhor o meu corpo do que a espada, assim que ele se aproximou tentei chutar seu estomago, ele notou e segurou minha perna, aproveitei a brecha e apoiei as duas mãos no chão, girando o corpo e acertando um chute na mão que segurava a espada, fazendo-a voar longe. Agora estávamos novamente igualados, consegui me livrar do moreno e dei um mortal de costas, analisamos um ao outro por um segundo, de novo foi ele quem avançou, a coração havia me avisado ontem que ele costumava começar atacando. Ele tentara acertar um soco, desviei, porém ele já esperava por isso, transformando rapidamente o soco em uma cotovelada, outra vez agachei, aproveitei para tentar acertar um soco vindo de baixo, ele percebeu e se virou.
Eu já tinha bolado o plano perfeito, teria que derruba-lo, e colocar uma das espadas em seu pescoço, era a única forma de ganhar, eu jamais o venceria usando a força, então usaria de tática. Kanda atacou novamente, dessa vez ele conseguiu mascarar seu movimentos, me fazendo acreditar que ia chutar minha lateral, quando na verdade, ele me passou uma rasteira, cai com tudo no chão, todavia, ao invés de me imobilizar, ele se aproveitou para pegar a minha espada, que se encontrava a meio metro de onde estávamos, droga, aquilo deve ter sido uma estratégia, ele o tempo todo, esteve me trazendo para esse lado do campo. Quando se virou para mim, já apontando a arma, dei outra cambalhota, contudo quando me levantei, prendi um pé no outro caindo para frente, o moreno vinha com a espada em minha direção, fechei os olhos, já sabendo o como aquilo terminaria.
– Você perdeu. Ouvi a voz de Kanda em meu ouvido, abri aos poucos os olhos, com medo do que veria, para minha completa surpresa, eu estava sentada, de alguma maneira, o espadachim conseguira desviar a espada no ultimo segundo, porém eu cai em cima dele, levando nos dois ao chão, então no exato momento estávamos sentados, minhas costas pressionada contra seu peito e a espada em meu pescoço.
Se possível fiquei ainda mais impressionada com a habilidade dele, eu mal sentira qualquer daqueles movimentos.
– Você tem razão, mas foi uma bela luta. Obrigada!
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