Minha mãe disse que tínhamos que fugir, então corri o mais rápido possível em meio a floresta escura. A lua estava nos guiando pelo caminho com o pouco de luz que tinha para nos ajudar.

Ouvi algo cortar o vento ao meu lado e logo a frente minha mãe caiu brutalmente no chão, a perna dela sangrava, enquanto tentava levantar suas costas foram atingidas por uma lâmina, eu parei ao seu lado ofegante e chorando, eu sabia o que ia acontecer.

— Vamos, mãe, vamos – eu dizia em meio aos soluços e tentava puxá-la – você vai conseguir e elas não vão nos alcançar.

— Querida – ela fez uma careta, dor – você tem que ir com Luna, ela vai cuidar de você até conseguir viver sozinha, tudo bem?

— Não, não, eu não vou deixa-la aqui! – eu não podia aceitar que ela ficaria ali.

— Vai ficar tudo bem querida – ela segurou meu rosto calmamente – eu vou estar sempre com você – fechei os olhos e encostei minha testa na dela, ouvi os meus soluços misturados aos seus até ela assoviar.

Os arbustos se remexeram e uma respiração pesada surgiu em minha nuca e soube que era hora de ir, eu sabia que implorando ou não teria que ir. Então me calei para não sofrer mais, abri os olhos afastando meu rosto do de minha mãe, aquela era a hora em que todas passamos, tentei gravar o máximo possível de seu rosto para sempre carregar a imagem comigo.

Pude ouvir os ruídos que nossas perseguidoras faziam. Virei-me e encarei o grande lobo que respirava atrás de mim, Luna, com mais ou menos um metro de altura, pelo negro e olhos azuis como a água, eu agarrei o pelo de seu pescoço montando em seu lombo e quando ela começou a correr me dei o luxo de olhar para trás uma última vez e ver minha mãe puxar a lâmina de trás das costas e acertar o próprio peito, fechei os olhos logo depois com a dor da perda se preenchendo dentro de mim era impossível não chorar, mas eu tinha que ser forte, por ela, voltei-me para frente e tentei me lembrar de momentos felizes que tive. Lembrei de quando ela estava me ensinando a usar o arco.

— Querida, você tem que saber primeiro o que quer acertar com a sua flecha, vamos lá se concentre e escolha algo – mamãe estava animada para meu primeiro dia, ela sempre disse que no primeiro dia dela conseguiu acertar um galho de árvore e o fez cair na cabeça de minha avó, ela disse que riu muito aquele dia, mas minha avó não estava tão bem humorada assim.

Mirei no centro de uma árvore, estava prestes a soltar a flecha quando um pequeno esquilo saiu saltitando por um dos galhos, foi tão rápido que nem consegui sentir o momento em que soltei a flecha e seu pequeno corpo caiu em meios às folhas secas, aquele foi o outono mais sujo e lindo que já vi, mamãe saiu correndo em direção ao esquilo, ela estava tão feliz, como se todos os sonhos dela estivessem se realizando. Então ela ergueu a flecha e lá estava o pequeno esquilo atravessado, mamãe o sacudia como se fosse um troféu.

— Vejam só! Ela conseguiu um esquilo! – gritou ela para as árvores – Você é brilhante querida!

Sai correndo para abraça-la, aquilo era fantástico comparado a um galho de árvore, ela me abraçou e beijou minha testa.

— Eu te amo muito nunca se esqueça disso – ela sussurrou em meu ouvido.

— Eu sei mãe, eu também amo muito a senhora – respondi. Ela estava tão sorridente e seu rosto brilhava de alegria.

Uma lagrima escorreu pela minha face, não havia mais dor dentro de mim, o ódio me encheu por completo. O que elas fizeram a minha mãe não estava certo e eu faria elas pagarem por aquilo.

Apertei os pelos de Luna em minhas mãos e ela correu o mais rápido possível, desaparecemos em meio à floresta. Prometi a mim mesma que minha linhagem teria fim comigo.