The truth of the Mountain
2 Carter
— Tudo bem, senhor? – Wilson sempre se preocupa demais comigo, não é atoa que ele é o melhor assistente que já tive.
— Talvez eu estivesse melhor se fossemos de carro – respondi ao jovem, que não era tão novo quanto eu.
— O que foi Carter? Ainda não superou seu medo? – um tapa me acertou em cheio no ombro e eu já sabia quem era, meu irmão.
— Eu não tenho medo Afonso, só não confio nessa maquina gigante – eu sou um homem da ciência então deveria confiar no helicóptero que engenheiros bem capacitados construíram, mas seria vergonhoso demais admitir meu medo de altura.
— Eu vou aceitar sua desculpa irmãozinho, porém, se não confia no meu helicóptero então deveria confiar em mim – ele deu uma piscadinha antes de por o capacete e sentar no banco do piloto, sempre audacioso demais.
O vento frio entra pelo meu casaco, como se eu nem estivesse usando um, e o maldito cachecol não para de voar. Porque eu deixei o Wilson escolher como iriamos para a conferencia? E quase como se conseguisse ler meu pensamento, ele me pede desculpa.
— Você não tem que se desculpar, eu devia ter dito sobre meu medo – segurei seu ombro tentando passar alguma confiança, ele era um bom assistente então não podia culpa-lo – é só que, estou com um pressentimento estranho sobre essa viagem.
— O senhor deseja que eu cancele? – sempre preocupado demais, mas talvez eu devesse ter cancelado.
— Não, está tudo bem – mal terminei de falar e as hélices começaram a girar, ensurdecendo a todos.
— Todos prontos? – gritou meu irmão todo orgulhoso.
Olhei uma ultima vez para a cidade majestosa de Quebec, no Canadá, talvez eu devesse ter pegado o cartão postal que tinha no posto de gasolina, mas a vista dele não se compara com a que vejo de cima do prédio mais alto da cidade. É cedo demais para voar, o sol esta nascendo agora e iluminando a névoa matinal que preenche o corredor de prédios. Uma vista maravilhosa que ninguém deveria esquecer.
Embarco no helicóptero deixando a vista da cidade para trás, é hora de mudar as coisas.
Já passado algumas horas, sobrevoamos a floresta, minha segunda paixão. As montanhas são lindas e o rio que sai delas é mais lindo ainda. Lembro-me das histórias que meu avô contava, eram só lendas urbanas, mas ainda sim encantadoras. Existem vilas na região, inspiradas nos vikings perdidos que vieram pra cá e se estabeleceram aqui. O norte sempre teve um toque místico nele, na floresta, nas montanhas e nas próprias pessoas daqui, meu avô era um deles. Perdido no passado, nem percebo o quanto o clima se fechou e começou a nevar.
— Precisamos parar – anuncia o piloto.
— Como vamos aterrissar em um lugar seguro com essa neve? – pergunto já entrando em desespero – a previsão do tempo informou que não iria nevar hoje.
— A previsão do tempo não é confiável, irmãozinho, mas o importante é não nevar forte, caso isso aconteça vamos ter problemas.
Quando olho a paisagem de novo não consigo ver nada e, por acaso, me lembro que estamos alto demais. O pânico preenche meu corpo, agora meus tremores não são mais de frio. Vejo Wilson ao meu lado, ele parece tranquilo com o que está acontecendo, até acena pra mim.
— Quanto falta pra chegar? – meu nervosismo se sobrepõe em minha voz, talvez fosse melhor ter vindo de carro.
— Faltava pouco, mas agora eu não sei dizer – o copiloto responde.
— Nós vamos conseguir – meu irmão fala, mas a confiança se foi, ele diz isso agora como os capitães em um filme de ação no mar enfrentando uma tempestade. O problema disso é que, nos filmes, poucos sobrevivem à tempestade.
De repente, o helicóptero inteiro começa a tremer, agora estamos no meio de uma nevasca. Aperto os cintos e me seguro no banco, entrar em pânico não é o ideal, mas é minha segunda especialidade, então é inevitável.
Fecho os olhos, como crianças fecham quando vão no brinquedo radical do parquinho pela primeira vez, mas nesse caso, não tem trilhos que vão me fazer voltar ao chão em segurança.
— O motor está falhando – grita o copiloto.
— Eu estou perdendo o controle – meu irmão grita, sua voz tenta se manter séria, mas sei que está em desespero também.
Nosso transporte começa a girar, girar e girar pelo ar, estamos caindo, cada vez mais rápido, meu estomago se revira e me sinto tonto, o barulho de alarmes tocando ao mesmo tempo não torna a situação melhor. Abro os olhos, e vejo meu irmão mexendo em vários botões do painel, luzes piscando, o copiloto tentando assumir o controle, olho para Wilson e ele está desmaiado, droga Wilson. De repente estamos fora das nuvens, mas as arvores estão ficando mais perto, continuamos girando, girando, até que um impacto, a última coisa que sinto é dor, antes do mundo inteiro desaparecer diante de mim.
No primeiro passo que dou meu pé afunda, nevou durante a noite, olho para um céu limpo e sem sinal de qualquer nuvem, mas é provável que neve de novo. Alguns pássaros se arriscam em meio aos galhos secos nas árvores, cantarolando e procurando insetos indefesos, buscam comida e já está na hora de caçar a minha.
Fico aliviada de ter pego agasalhos antes de me mudar para a floresta do Norte, mesmo sabendo do clima frio, faltou pouco para abandonar minhas roupas no Sul – carregar peso durante essas épocas de mudança não é muito eficaz nas minhas circunstâncias – preparo meu arco deixando uma flecha pronta para a primeira vítima da manhã, gosto do modo como a neve cobre o chão da floresta e a torna mais encantada do que já é, mas tentar andar nela atrás de presas fica mais difícil a cada passo.
Depois de um tempo procurando, descansar não parece uma má ideia. Sento-me em um tronco, velho e oco, caído no chão. Fecho os olhos e aprecio a brisa fria que toca meu rosto, o capuz do casaco cai e meu cabelo se solta, sendo levado pelo vento. É um dia bom, diferente dos outros, ele veio com uma paz inexplicável.
Abro os olhos e, como mais um bom sinal do dia, uma lebre sai de trás da árvore saltitando. Ela ainda não me viu ainda não se assustou, pego meu arco e a flecha que deixei de lado. Posiciono o arco, os braços firme depois de tanta prática tencionam a flecha enquanto miro, não vai doer nada querido, solto meus dedos e, como um leve sopro, ela voa até seu destino. Uma morte por mais um dia de vida.
Caminho lentamente até a presa e vejo o pequeno ser que se tornará meu almoço mais tarde. Ajoelho ao seu lado fazendo uma curta prece.
“Ó Criador, obrigada pela refeição que me mandaste e obrigada pela força que me deste para manda-la de volta a ti, que sua alma encontre os caminhos do céu assim como os outros encontraram e um dia eu encontrarei.”
A flecha atravessou seu olho e o animal morreu no mesmo instante, foi uma morte limpa e rápida como tem que ser. Coloco a lebre dentro da bolsa, já é hora de voltar pra casa enfim, me viro para pegar o caminho que fiz quando a temperatura cai bruscamente.
O céu fica escuro, neve começa a cair rápido e com força – eu sabia que ia nevar de novo, mas não achei que fosse cair uma nevasca. O vento fica forte e cubro meus olhos para poder enxergar o pouco que dá, a brisa que tinha se tornou uma ventania incansável, puxo meu capuz e tento abrir passagem em meio a toda aquela bagunça que o clima se tornou em menos de segundos. Ficou mais difícil de caminhar então talvez seja melhor se abrigar em algum lugar mais perto.
Enquanto penso em um abrigo, sinto cheiro de fumaça, algo está queimando, porém não está na floresta, não há sinal de fogo ou calor. Então um barulho de galhos se quebrando, mas não podem ser galhos, olho para cima com uma dificuldade de ver até que algo imenso atravessa as nuvens e sai abrindo espaço entre as árvores, quebrando algumas e derrubando outras.
É aquela estrutura gigante que está pegando fogo! Ela gira enquanto cruza o céu passando por cima de mim, me jogo na neve em busca de uma proteção inútil. Cubro meu rosto e meus ouvidos, um barulho horrível misturado com aqueles ventos preenche a floresta. Apitos estranhos soam longe e o cheiro ficou mais forte, aquilo deve estar perto.
Levanto com pressa enquanto busco ao redor o que atingiu o chão, não demora até que consigo ver o fogo, a fumaça e o rastro terrível que aquilo deixou. Cinzas estão voando por todo o lugar, o que era branco se tornou quase preto, a terra está revirada e misturada com a neve, aquilo está um caos. Quero fugir, correr para o mais longe possível dali, ao mesmo tempo quero ir até lá e ver o que foi aquilo que caiu do céu – já vi estruturas como essa antes voando alto, a cima das árvores igual a pássaros, porém nunca vi uma cair.
Caminho com cuidado pela bagunça é fácil chegar lá quando há uma passagem totalmente aberta e exposta deixada para trás, mas nada se compara ao que aconteceu com o pássaro de metal. Ele se partiu e tem pedaços por toda a parte, fogo queima em volta do lugar, peças de metal estão espalhadas. Sinto que tenho algo para achar, só não sei o que eu teria perdido aqui.
— Alguém, por favor – é quase um sussurro solto em meio à tosse – socorro.
Tem alguém no meio de tudo isso? Como pode estar vivo? Procuro desesperadamente no meio dos metais, existem até papeis voando. Eu devo estar alucinando, não tem como uma pessoa ter sobrevivido a isso tudo.
“É melhor eu ir embora antes que eu tenha companhia”, penso.
Viro de costas para aquela cena horrível, mas, repentinamente, lembro de minha mãe e o modo como ela nunca desistia fácil, como sempre achava estar certa e no final estava mesmo. Dou um suspiro, nada de bom pode acontecer se eu insistir nisso, mas não posso desistir tão fácil.
— Olá? Tem alguém ai? Alguém está vivo ai? – pergunto nenhuma resposta, talvez eu deva falar mais alto.
— Aqui, aqui – a mesma voz que falou antes diz mais alto dessa vez.
Olho em volta, uma placa de metal grande se mexe – ela estava fincada no chão de pé, nem pensei em olhar atrás dela – ouço o barulho de algo atingindo neve. Corro o mais rápido possível para trás da placa, caindo de joelhos ao lado de um corpo, está de bruços estendo meu braço para vira-lo de frente. Um arrepio passa por mim, aquilo não era um bom sinal.
Recuo, meus sentidos não estão bons ou estou ficando louca, mas acho que estou com medo. Respiro fundo e fecho os olhos, está inconsciente então não vai me machucar, abro os olhos e com uma súbita coragem, pego no ombro da pessoa e o viro. Tento me levantar, mas tropeço nos meus próprios pés, desespero e terror são tudo que sinto agora. Cubro meu rosto com as mãos.
“Não, não, não, não, não, não”, sinto vontade de gritar, “não pode ser”.
Tento manter a calma, mas é impossível. É um homem.
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