Ainda me lembro da primeira vez que eu vi a princesa, já ouvira muitos falarem do quão bela era, inteligente, talentosa, gentil, não foi de forma tão majestosa que a vi naquele dia, mas, mesmo suada e com seu vestido completamente sujo de lama, ela ainda parecia linda.

Eu tinha 6 anos na época, meu pai, Antoine Nithercott, era um ferreiro comum, o chefe de nossa família simples de sobrenome insignificante, éramos apenas eu e ele depois que minha mãe havia morrido pela peste, nossa renda não era a melhor de todas, mas era o suficiente para não passarmos fome, eu insisti em começar a trabalhar com ele desde cedo, sua vontade era que eu fosse para a escola e conseguisse um emprego melhor no futuro, mas mesmo uma criança como eu sabia que não tínhamos tempo o suficiente para isso, então, com 6 anos de idade, eu já começara a aprender a arte da confecção de espadas de ferro pesadas.

Eu estava trabalhando como sempre, cansada, com os pequenos braços doloridos, quando escutei os passos pesados e os barulhos inconfundíveis das armaduras dos soldados reais se movendo pelas ruas de pedra, desviei o olhar para a pequena garota loira de cabelos cachados presos em uma maria chiquinha com dois laços rosas, ela parecia cansada e seu vestido cor de rosa cheio de bordados estava completamente sujo, assim como seus sapatinhos de mesma cor, ela corria com todas as suas forças e se escondera atrás de algumas caixas de madeira tentando esperançosamente despistar os soldados.

Pouco depois eles conseguiram a avistar e ela apenas correu para um beco, eu sabia que elas estava indo para um beco sem saída, mas não era problema meu, eu abaixo o olhar para a espada de ponta vermelha incandescente à minha frente esperando ser moldada e não conseguia me concentrar nem m pouco. Sem pensar em nada direito e sendo movida por impulso, eu larguei tudo para correr atrás dela.

A garota havia mesmo corrido para o beco sem saída, estava desesperadamente olhando para os lados procurando qualquer caminho que pudesse seguir.

— Por aqui! — eu grito para ela por cima de um muro, eu me agacho e estendo minha mão para baixo, ela pula o mais alto que consegue e agarra minha mão quase derrubando nós duas, a seguro com as duas mãos e puxo com força, até nós caímos para o outro lado do muro, bato com as costas no chão e ela cai encima da minha barriga.

Não tenho tempo de pergunta-la se ela estava bem, pois os barulhos dos passos dos soldados estavam próximos de mais, eu apenas agarro a pequena mão dela novamente e corro desajeitadamente entre tropeços para longe dali, ela apenas vem comigo sem questionar em nenhum momento. Eu conhecia um local próximo onde eu sabia que eles não iam nos achar, ficava um pouco fora dos limites da cidade, além do grande muro que cercava o reino inteiro, mas naquela época eu ainda não sabia o quão perigoso aquele lugar poderia ser, apenas nos abaixamos e passamos pelo buraco pequeno próximo ao chão e corremos ate uma árvore próxima.

— Obrigada. — ela diz arfando de tão cansada

— Não tem de quê. — digo desajeitadamente me encolhendo e abraçando os joelhos

— Eu sou Eleanor, Eleanor Abigail Woodbead. — estende sua mão para um aperto e eu o faço

— Eu sou Magnolia Nithercott,... tenho 6 anos e.... sou só um ferreira comum

— Ferreira? Mesmo? Parece emocionante! — ela dá um grande sorriso — Eu tenho 4 anos, sou uma princesa!

— Como pensado

— Você sabia? — me olha curiosa

— Bem, sua roupas parecem.... bem caras... — encaro seu belo vestido bordado e o comparo com meu velho macacão que foi de meu pai quando ele era jovem

— Mesmo? — ela encara suas roupas — Achei que era o comum...

— Então... por estava fugindo?

— Eu não quero voltar pra casa

— Mas você mora num castelo, deve ter todos os vestidos, comidas e brinquedos que quiser!

— Eu tenho, mas....

— O que mais alguém precisaria na vida?

— Amigos...

— O que?

— Amigos! Meus pais não me deixam brincar com nenhuma criança, eu não quero brincar com minhas empregadas o tempo todo, todo mundo tem amigos, menos eu!

"Eu não tenho amigos e nem nada que você tem", pensei por um segundo sentindo um pouco de inveja dela.

— Então... — ela me olha — Podemos ser amigas... não?

— Podemos?! — ela agarra minha mãos com um sorriso indo de orelha a orelha

— Se você não se importar... — ela me dá um grande abraço e eu abraço ela de volta, na verdade eu nunca havia visto muitas outras crianças, então eu era cercada de adultos, meu pai, os feirantes, o padeiro que nos ajudava, a florista que sempre conversava comigo, então era estranho sentir alguém ainda menor que eu me abraçando, ela parecia ainda menor do que sei tamanho normal quando passei meus braços por debaixo dos seus

— Então, o que vamos fazer primeiro? — me encara sorridente e eu aponto para cima, para os galhos da grande arvore sobre nós — O que tem ela?

— Vamos subi-la

— Subir, por que?

— Por que é divertido, meu pai me ensinou

— Mas não é perigoso?

— Eu seguro você se você cair. — me levanto e bato as mão uma na outra as limpando da terra

— Tem certeza? — se levanta também e eu aceno com a cabeça

Eu me agarro no casco grosso da arvore e começo a subir deixando meus sapatos para trás, ela me segue com alguma dificuldade, alcanço o primeiro galho com facilidade ela estendo minha mão para ela a ajudando a pisar nele.

— Acha que consegue mais um? — pergunto e ela balança a cabeça afirmativamente

Subimos mais um pouco, agora já estávamos bem longe do chão, eu me sento no meio do galho e ela se senta perto de mim olhando nervosamente para o chão. Prendo bem as minhas pernas ao galho e jogo meu corpo para trás ficando pendurada pelas pernas com os braços balançando no ar, ela me olha maravilhada e tenta fazer o mesmo com uma pontada de receio, mas consegue e dá uma grande gargalhada ao fazer.

— O mundo inteiro está de cabeça pra baixo! — ela continua a rir, mas para quando seu vestido começa a levantar e ela tenta desesperadamente o colocar no lugar, eu começo a rir e ela faz o mesmo, apenas deixando o vestido pra lá e estendendo os braços ao chão

Me impulsiono de volta para cima e puxo sua mão a ajudando a se levantar também, ela ficou impressionada com a paisagem de fora do castelo e olhava para tudo como se fosse uma pilha de moedas de ouro. Descemos da arvore pouco depois e ela saiu correndo para um canto ali próximo onde varias flores cresciam, todas eram apenas flores comuns e matinhos, mas ela nunca tinha visto flores que crescem naturalmente, apenas todas aquelas flores importantes do jardim de sua família, eu contei a ela o nome de todas, já que a florista havia me ensinado, ela pareceu gostar muito do dente-de-leão, já que assoprou todos o que conseguiu achar.

No entanto, nosso momento ali durou pouco, pois, quando notei que os guardas se aproximavam rapidamente dali, já não havia mais lugar para se esconder, então eu apenas a abracei e me encolhi no chão ficando por cima dela como um casco de tartaruga enquanto ela tremia ajoelhada na grama, os guardas não pareciam muito pacientes, então apenas me puxaram para cima, eram muito mais fortes do que eu, e nos levaram de volta para dentro dos muros de pedra. Passando do portão, eles apenas me largaram em qualquer lugar e arrastaram a princesa, que chorava, gritava e dava socos na mão do que a levava, de volta ao castelo.

Em um movimento rápido, ela se solta e corre ate mim, se abaixa onde eu estava sentada e solta um dos laços de seu cabelo e o entre nas minhas mãos.

— Eu vou voltar pra brincarmos mais. — ela diz soluçando com lagrimas correndo pelas suas bochechas — Então espere por mim, ok?

Antes que eu pudesse responder, eles nos alcançam e um deles a carrega no ombro a levando para longe de mim, eu aperto o pequeno laço rosa nas minhas mãos.

— Eu vou esperar! — eu grito o mais alto que meus pulmões me permitiram, ela me escuta e responde com um sorriso

Foi assim, naquele dia como qualquer outro, que eu conheci uma princesa, a joia mais preciosa da coroa real, a garota mais sortuda e, ao mesmo tempo, mais infeliz, de todo o reino, tão frágil quanto um dente-de-leão, mas determinada como um girassol, a garota mais importante do mundo pra mim.

— Ei, Maggie, eu demorei um pouco, porque os criados se recusaram a me deixar trazer a bandeja por mim mesma, então eu tive que trazer escondida. — ela diz entrando na grande biblioteca do castelo

— Eu disse que podia ajudar, Abby. — respondo abaixando o livro que estava lendo

— Minha convidada merece tratamento especial

— Seu pai com certeza quer minha cabeça nessa bandeja

— Mas não vai conseguir. — ela se senta no braço da poltrona onde eu estava sentada — Sua cabeça e todo o resto pertencem apenas à mim

— Socorro, a princesa tirana vai me empalhar e colocar no seu quarto para ninguém mais poder me ter. — faço um "grito" irônico e sorrio para ela

— 17 anos e não mudou nada desde que te conheci

— 15 anos e continua a mesma princesa mimada e chorona

— Ok, se café pra você

— O que? — pergunto indignada

— Isso mesmo, sem café, só chá

— Chá é viadagem real

— Tarde demais. — ela pega minha xicara de café da bandeja e começa a beber

— Não, não, não, não, não. — digo me levantando e correndo atrás dela pela grande biblioteca enquanto ela ria

Aquela risada ecoando melodiosamente pelas paredes da biblioteca, o barulho de nossos pés descalços batendo na cerâmica do chão e a forma dos seus lábios curvados em um sorriso quando eu a faço cair e derrubar a xicara que se quebra no chão, ela continua rindo tão despreocupadamente fazendo eu me sentir bem apenas ao escutar aquele som, eu me levanto de onde eu havia caído encima dela e a puxo a ajudando a se levantar.

— Maldita princesa mimada. — digo sorrindo, enquanto apenas queria dizer o quanto a amava