The Woman Of Mafia
7 Rubbish Salvation
Notas iniciais
“Eu sei que às vezes é foda
Dá vontade de parar
Mas se eu parar...
Quem vai ter história pra poder contar?”
— Bonde da Stronda
»♥«
Toda a extremidade de minha cabeça doía de uma forma incansável. Não sabia se estava com os olhos abertos, apenas percebia tudo escuro. Ao perceber que estava de olhos fechados, tratei de abri-los rapidamente. Estava extremamente atordoada, não sabia ao menos onde estava. Apoiei minhas mãos em algo, que depois percebi que era terra. Ninguém tem ao menos a decência de me colocar num lugar asfaltado? Meus pés mal se aguentavam em pé, e eu tentava inutilmente me apoiar em paredes que mais pareciam estacas de madeira. Em que merda de lugar eu estava?
Barulhos estranhos me chamaram atenção, fazendo-me ficar quieta. Vozes ao longe conversavam, e eu tentava entender o assunto, porém, não tinha sucesso. Ouvia apenas palavras soltas, tentando encaixá-las em algum lugar. Encostei meu ouvido na parede, conseguindo ouvir melhor a conversa.
— Ele disse que estava vindo ver ela. É até melhor ele vir logo e pegá-la, não aguento mais ficar trancado nessa mata. – Dizia uma voz grave. Seu tom de voz mostrava indignação, e tentava contestar algo com outra pessoa. – Você colocou a dose de quanto? A garota não acorda seu imbecil.
— Nem foi tanto assim. Ela que deve ser fraca demais, e isso até ajuda. — Uma voz mais fina continuava. Ok, eu fiquei um pouco ofendida na parte do “fraca demais”, mas deixava passar. – Vou ver.
Só tinha informações básicas, que eram: Alguém estava vindo atrás de mim e eu estava numa mata. É Thalia, ótima situação você se encontra. O ambiente se iluminou e alguém entrou no cômodo. O homem que eu julgava ter a voz mais fina me olhou de forma assustada. Analisei o homem, que era baixinho e gordinho. O mesmo gritou para o outro, que veio às pressas. Os dois me analisavam como se eu fosse uma espécie de criatura em estudo, e é claro, isso me incomodou demais. Não diria que aqueles caras me deixavam com algum tipo de medo, mas olhando as circunstâncias, aqueles mesmos caras haviam me sequestrado, reforçando o ditado de que as aparências enganam.
— A vista está boa? – Debochei dos mesmos, fazendo com que a cara assustada de ambos se tornasse uma feição enraivada. – Foi mal, mas quando a gente passa por esses momentos de tensão tem que arrumar algo pra distrair, não concorda?
Sorri de forma forçada, me odiando profundamente por não conseguir perder a piada mesmo em situações de risco. Eu realmente era uma filha da puta que merecia morrer. O mais baixo me segurou pelo braço esquerdo, fazendo-me erguer completamente do chão. Fiz uma careta quando o mesmo apertou fortemente o meu braço, tentando inutilmente fazer com que o mesmo me soltasse. O cara me largou, virando-se para o parceiro e pegando uma arma na mão do mesmo.
— É o seguinte, princesa. – Meus olhos trataram de analisar muito bem o individuo em minha frente. Ele era baixo, gordo e feio. Provavelmente, não poderia correr muito rápido. Não era atlético. – Você tem muita sorte. O chefe não me deixou tocar em você. – O homem sorriu, mostrando uma dentição falha. – Mas isso não significa que eu não tenha o direito de espancar esse rostinho lindo, caso ele me desobedeça.
— Phil. – O parceiro chamou. Ele era bem mais alto, com uma boa estatura. Tinha pele escura e braços fortes. Aquele sim, eu deveria tomar cuidado. – Lembre-se do que Martinez disse. Sem ameaças.
Dei uma risada rouca. Os dois me olharam com cara feia. – Qual é gente! O cara me sequestrou com que motivo? Gostou da nova carinha naquele grupo? Pois saibam que eu não vou ser mais útil pra ele, devem avisar o mais rápido possível. Quem sabe vocês não perdem tempo.
Os dois se entreolharam. – Do que está falando, garota? – Phil, o mais baixo, cutucou o outro. – Becker, ela está tentando manipular a gente. É claro que ela é útil.
— Por que não seria útil, Thalia Grace? – Becker, que julguei ser o maior, rosnou. – Você é a nossa preciosidade contra o di Ângelo.
Bati palmas para eles. – Que ótimo, as frutinhas me acham uma joia? Bem, digamos que eu seja. Mas não nesse caso. Eu não estou mais com eles. Você realmente acha que se eu ainda estivesse de bando com eles, estaria aqui? Que eu estaria naquela droga de aeroporto, praticamente com uma plaquinha de “me sequestrem”?
Becker se encostou mais em Phil, tentando sussurrar com o mesmo, falhando na ação, já que eu consegui ouvir eles. – Acha que é verdade?
— Baboseiras! – Rugiu o mais baixo. – Ela está tentando manipular a gente, não vê?
Bocejei, tentando demonstrar desinteresse. – Acha mesmo que eu perderia meu tempo? Se eu estivesse com eles, vocês realmente acham que eu ainda estaria aqui? Ah, Nico já teria vindo me buscar muitas horas atrás. Mas como veem, não tem nenhum Nico aqui.
— Irei falar com Martínez. Temos que rever isso mesmo. Oque a menina fala tem um fundo de verdade. – Becker disse, retirando-se do cômodo.
Phil semicerrou os olhos, me encarando com raiva. – Você pode enganar ele. Mas não consegue fazer isso comigo. Ele é burro, eu não.
— Jura? Pensei que você fosse o burro. – Sorri irônica. O mesmo rosnou, apertando a arma que havia em sua mão. Meu sorriso se desfez, dividindo o olhar entre a arma e o rosto psicótico do mesmo. Phil sorriu, vendo que havia me deixado assustada. – Me deixa em paz.
— Ah, sem problemas. – Phil sorriu de forma assustadora. – Se você não for útil para Martínez, será útil para mim, princesinha.
Ponto de Vista: Nico di Ângelo
Minhas mãos estavam inquietas em cima da mesa. Como eu consegui ser burro naquele ponto? Jason estava na outra extremidade da sala, os olhos marejados de ódio, encarando o chão. Não consegui ao menos dirigir uma palavra a ele. Eu realmente havia errado, e não conseguia achar formas de reverter isso. Talvez, pela primeira vez na minha vida, eu estava agindo que nem um merda.
— Jason... – Comecei, vendo o loiro levantar o olhar, o ódio cegando suas vistas.
— Não comece Nico! Se não fosse por você, ela estaria segura agora. Meu pai a trouxe porque queria segurança, e você só fodeu com tudo. Não sabe ao menos se controlar quando vê um rabo de saia, e se ela morrer... – Jason se desencostou da parede, apontando para mim — Eu nunca irei perdoar você.
O loiro virou, saindo da sala. Minha cabeça doía descontroladamente, eu estava completamente sem saída. Por um momento eu pensei que estava aliviado, que Thalia estaria segura em Seattle, que nunca mais iria se envolver com esse tipo de coisa. Que ela poderia ser uma adolescente comum, com uma família comum e amigos comuns. Porém, novamente, eu havia me enganado. A única pergunta que no momento revirava minha cabeça era que se ela estivesse comigo, estaria segura? Estaria em meus braços agora?
Tentei de alguma forma retirar esses pensamentos de minha mente. A porta foi aberta, levando minha atenção à ruiva que entrava. Ela tinha um rosto calmo, e se aproximava lentamente, me observando intensamente. Bee se aproximou de mim, sentando-se em meu colo. O ar que não percebi estar segurando se soltou, enquanto a mesma distribuía beijos em meu pescoço.
— Será que você não percebe que as coisas não estão nada boas? – Segurei em seus ombros, afastando a mesma de mim.
A ruiva bufou. Encarou-me com certo mau-gosto, levantando-se de meu colo. Apoiou-se na mesa, cruzando os braços abaixo dos seios. — O que você sugere? Que eu fique sensibilizada pelo fato da nossa amiga Thalia ter sido tragicamente sequestrada?
— Será que você não pode agir que nem uma pessoa comum, com sentimentos, pelo menos uma vez na sua vida Bee?
— Eu tenho sentimentos, Nico. E você sabe muito bem disso! Aliás... é oque mais sabe. – Deu um sorriso pervertido, aproximando-se novamente de mim. Empurrei a ruiva mais uma vez, deixando a mesma irritada. – Por que se importa tanto com aquela pirralha? Vai me dizer que finalmente conseguiu abrir seu coração pra alguém?
— E se for? – As palavras saíram sem minha permissão. A mesma arregalou os olhos, dando uma leve cambaleada para trás.
Bee segurou firme na mesa, ficando totalmente ereta. Seu olhar ficou sem foco, dando a perceber vários pensamentos e sentimentos frustrados tentando sair. A ruiva levantou o olhar, seu rosto demonstrando raiva. – Depois de tantos anos com você, nessa merda de relacionamento mal acabado, você me vem dizer que quer abrir seu coração para ela?
— Eu nunca afirmei isso. – Retruquei. Eu não disse para Bee que estava criando aquele sentimento por Thalia, até porque realmente não estava. Ou pelo menos tentava acreditar nisso. Nunca iria negar para Thalia que quando fiquei com ela, quando dormi com a mesma, presenciei um sentimento de aconchego e de carinho. Mas também ela não havia sido a única. Mesmo depois de tantos desentendimentos, tantas briguinhas idiotas, tantas desilusões, tantas ficadas... meu coração ainda conseguia pertencer aquela ruiva. – Eu ainda não te esqueci. Você, infelizmente, foi a única mulher que fez com que eu me sentisse assim.
Um pequeno sorriso se formou nas bochechas avermelhadas. Talvez eu entendesse o motivo do ódio de ambas, mas apesar do que havia dito agora, eu ainda me preocupava com Thalia. Eu não estava me entendendo. Por que diabos ela me deixava confuso? Bee soltou-se da mesa, vindo até mim. Suas mãos foram até minha nuca, levando meus lábios de encontro aos seus. Minhas mãos se prenderam em sua cintura, apertando fracamente aquela região. Não me lembrava da última vez que havia beijado ela, mas só aquele beijo me fez, finalmente, esquecer Thalia. Talvez eu estivesse errado, com ela sumida, e eu me preocupando com uma vida amorosa, que por acaso, a morena fazia parte.
Separei meus lábios dela, encarando os olhos verdes que me analisavam com cuidado. – Eu ainda preciso achar ela, mesmo que você a odeie. – Sussurrei, vendo a mesma fechar os olhos. – Ela é uma ótima pessoa, porque ao menos você não tenta se aproximar?
Bee deu um sorriso irônico, levantando os olhos para mim. – Mas ela não está aqui, não é?
Bufei. – Grande capacidade você tem, em? – Empurrei seu corpo de leve, e a ruiva fez um bico.
— Ah, foi só uma brincadeira. Qual é Nico, ela sempre faz isso e você nunca reclama. – Bee acariciou meu rosto de leve, dando uma mordida no lábio inferior. Ela estava tentando me fazer esquecer algo que eu não podia. – Ela quer roubar você de mim.
Fui até a porta, abrindo a mesma e virando-me para encarar Bee mais uma vez.
— Não se pode roubar uma coisa que não é sua.
Ponto de Vista: Annabeth Chase
Minhas mãos bateram dolorosamente na parede, e minha respiração não era uma das melhores. Senti meu cabelo ser puxado de forma violenta, enquanto meu pescoço era destroçado pelos dentes de Percy. A pressão que os quadris do moreno faziam em mim era enlouquecedora. Algumas vezes o mesmo colocava sua boca próxima ao meu ouvido, só para dizer safadezas e me ver revirar os olhos. Isso fazia o mesmo dar aquela maldita risada rouca que me atormentava nos sonhos mais íntimos.
— Vamos, Annie. – Sussurrou perto de meu ouvido, suas mãos agora em minha cintura. – Eu estou pegando leve, você sabe.
Minhas unhas tentavam descontar o prazer em algum local que não era encontrado. A superfície lisa da parede naquele momento não servia de nada para mim, além de apoio para que Percy não me tratasse como uma cadelinha de quatro. O moreno encostou a boca em minhas costas, seus gemidos quentes batendo em minha pele. Percebi que ele estava perto de chegar, então pelo menos desta vez tentei aguentar até o final. Digamos que quando eu o interrompia em certos momentos ele não ficava muito feliz. Novamente o antigo prazer começou a transformar-se em pontadas de dor interna, fazendo-me tentar, inutilmente, abraçar a parede. As pontas loiras, antes cacheadas, agora caiam molhadas em meus seios desnudos. Suas mãos fortes apertavam minha cintura e barriga, certas vezes subindo para estimular meus seios.
A voz rouca de Percy ecoou pelo quarto, em forma de um gemido final, encerrando finalmente aquela dor que tanto estava me atormentando. Seus braços me soltaram, fazendo com que meu corpo caísse fraco no canto do quarto. Minhas costas se apoiaram na parede, e minhas mãos descansavam em minha barriga. Levantei meu olhar, e percebi Percy me encarando de cima. Seu olhar tinha um rastro satisfeito, que pelo menos o moreno tentava esconder. O mesmo se virou, pegando suas roupas que estavam espalhadas pelo quarto.
— Não me deixa sozinha assim novamente. – Sussurrei fraca, e o moreno virou-se para mim, analisando minha situação. – Por favor, Percy.
Percy vestiu os jeans escuros, abotoando a blusa social azul-escuro, enquanto se agachava em minha frente. Seus dedos agora gelados, pelo ar-condicionado e a falta do antigo calor, tocaram levemente a pele de meu rosto. Seus olhos verdes, agora clareados como as águas marítimas, me encaravam fixamente.
— Está doendo? – Me perguntou, enquanto colocava um lençol fino para cobrir meu corpo. – Como eu sei que não está você pode muito bem voltar sozinha. Aliás, Nico me ligou pra saber sobre Thalia. Tenta, pelo menos, encontrar ela.
O moreno se levantou, tirando algumas notas do bolso e colocando em cima da cômoda que ali havia. A última coisa que vi foi Percy sair do quarto, sem ao menos se importar com oque deixava para trás.
»♥«
Meus dedos digitavam freneticamente, tentando, mais uma vez, achar alguma informação de onde Thalia se encontrava. Meus olhos pesavam de sono pela noite mal dormida, com apenas algumas horas de sono. Piper havia acabado de sair do meu quarto, dizendo que ia, novamente, tentar consolar Jason. Oque, em certas partes, me irritava. Do que adianta Jason ficar chorando sem fazer porra nenhuma? Não era porque eu estava sofrendo que eu iria ficar chorando no cantinho. Isso eu aprendi já faz certo tempo.
A porta foi aberta, revelando Percy, que guardava o celular no bolso da bermuda. O mesmo fechou a porta, vindo até mim e sentando-se ao meu lado na cama. Observava o notebook que estava posto na cama, carregando informações do GPS.
— Conseguiu algo? – Sua comunicação era superficial. Isso de certo modo me machucava, mas também não podia demonstrar esse sentimento de frustração, pelo menos não agora. Balancei a cabeça negativamente, tentando não falar. Sabia que não teria voz firme, pelo menos não com ele. Na verdade, nunca com ele.
O GPS parou, dando zoom na área encontrada. Era uma reserva florestal não habitada, destinada para um projeto de zoológico, que nunca havia saído do papel. Minhas mãos tremeram de alegria, eu finalmente havia encontrado ela. Fechei o notebook com força pegando o mesmo e correndo do quarto. Invadi o escritório de Nico, vendo o mesmo observar a janela, seu rosto demonstrando pensamentos longínquos. O mesmo se assustou ao me perceber ali, com um sorriso provavelmente maior que o próprio rosto, encarando ele com um notebook em mãos. Apoiei-me em sua mesa, abrindo o mesmo e mostrando oque havia encontrado para Nico.
— Ela está aqui. – Apontei para certa área na tela do notebook, enquanto Nico analisava atentamente. Percy havia vindo também, observando o local. – É uma antiga reserva florestal que não é mais utilizada. Digamos, não é utilizada legalmente, até porque é do governo. Mas se ela está ai, quer dizer que Martínez e seu bando têm domínio do local. Só precisamos saber como entrar e como sair.
— Percy. – Nico disse, sem olhar para o mesmo, ainda observando o notebook. – Iremos todos. Só não avise a Jason, ele irá ficar mais nervoso do que já está. Carregue o carro com oque precisaremos. Eu conheço esse lugar, e por acaso, já estive lá. – Sorriu de forma divertida e sanguinária. – Vai ser como detonar um quartel de policia.
Ponto de Vista: Thalia Grace
Dois dias. Exatamente dois dias trancada naquela merda de lugar, sem ao menos ver o sol, sem ao menos tomar um banho. Banho! Ah, eu nem me lembro de como é bom tomar banho. Eu deveria estar imunda, e quando meu herói Nico chegasse, não iria querer beijar sua princesa – eu, claro – naquele estado. Sinceramente, a minha situação era absurdamente precária. Não tinha comida de gente, isso dizendo não por frescura, mas sim por realidade. Eles me davam restos de comida malfeita! Eu posso estar presa em cativeiro, mas ainda sou uma pessoa, não um animal irracional.
Minhas roupas estavam em trapos, com rasgos em praticamente todos os lugares e manchas de terra. Minha boca estava seca, e ninguém tinha a decência de me trazer água encanada. Eu tinha vontade de gritar, gritar e gritar mais ainda de ódio. O tédio me consumia nesses dias aqui, e a única coisa divertida que eu havia feito foi jogar uma partida de xadrez com Becker, que por sinal, não era tão ruim como Phil. Tentava todas as vezes não demonstrar meu desespero para ambos, mas tal ato estava se tornando impossível. Eu precisava, necessitava e estava desesperada por um banho e comida de gente. Passei minhas mãos pelos cabelos agora embaraçados, desamarrando o antigo nó que havia feito. Deslizei meus dedos sobre eles, tentando desembaraçar os mesmos, porém sem sucesso.
A porta de madeira foi aberta, revelando Becker com uma vasilha escura e quebrada em alguns lados, colocando a mesma em minha frente. O mesmo se ajoelhou, sentando-se comigo. – Isso vai acabar. Martínez disse que amanhã vem te buscar, provavelmente vai te levar pra um lugar melhor que aqui. – Disse, enquanto eu observava atentamente a comida aparentemente nojenta em minha frente.
— Qualquer lugar é melhor que aqui, você sabe disso. – Respondi sem olhar para ele, colocando um pouco da comida estranha em minha boca. – Quem é que cozinha?
— Sou eu, oras! – Falou de forma orgulhosa. Seu olhar por alguns instantes ficou distante, como se relembrasse de algo. – Minha mãe que me ensinou maravilhosas receitas, seus temperos eram de gosto inimagináveis.
Levantei a colher, vendo a comida deslizar mole por entre as beiras, voltando para a vasilha. Fiz uma cara de nojo, levantando o olhar para Becker. – Sim, temperos maravilhosos! Realmente não vejo comida melhor nesse momento.
— Ah, modéstia a parte, eu sei. – Disse, ainda não percebendo a ironia em minha afirmação. Becker se levantou, sentando-se agora perto da porta. – Tento fazer o meu máximo, mas muitas das vezes não tem os ingredientes necessários para deixar a comida realmente gostosa.
Uma explosão não muito longe impediu minha resposta ao homem agora assustado em minha frente. Ele levantou-se bruscamente, tapeando a própria cintura em busca da arma, que logo foi encontrada. Saiu em disparada do ambiente, deixando-o completamente aberto. Essa finalmente era a minha chance. Levantei-me com pouca força do chão, correndo porta a fora daquele local.
Eu devia ter a mínima noção de ao menos conhecer o lugar. Só que era bem óbvio que eu não conhecia. Todo o ambiente era desarrumado e entulhado de objetos desnecessários. O mau-cheiro era predominante, me deixando enjoada. Comecei a correr pelos corredores sem fim, ficando confusa a cada “esquina” em que virava. Numa delas me esbarrei fortemente no que parecia ser um muro, sendo empurrada ao chão, com a cabeça a mil. Levantei a cabeça meio zonza, encontrando os tão desesperados olhos cinza. Annabeth deu um sorriso para mim, puxando-me do chão para um abraço.
— Grace! – A mesma gritou alto, devido ao outro estrondo. – A gente precisa sair daqui antes que detonem com a gente dentro. Vamos logo, corre!
Estava meio atordoada do que acontecia. Meus ouvidos doíam pelo alto som de explosões e tiros. Tiros! Ah, eu sabia, eles tinham vindo me buscar. Um sorriso involuntário nasceu em meu rosto, enquanto eu corria sem descanso com a Chase ao meu lado. Um pouco da luz do sol invadiu minhas vistas ao passar por algumas janelas, dando a perceber que antes eu me encontrava no subsolo da casa. Meus pés começaram a ter pontadas de dor, resultado da corrida incansável pela liberdade. Annabeth chutou a possível porta dos fundos, me tirando finalmente daquele lugar infernal. Só que a vista que foi me concedida valeu por tudo que passei lá dentro.
Fui ingênua ao pensar que estava sozinha com Phil e Becker. Homens corriam de um lado para o outro, com variedades de armas em mãos, dividindo-se em atirar e recarregar as mesmas. Corpos estavam espalhados pelo chão, alguns banhados em sangue. Olhei para Annabeth, e a mesma sorria, virando-se para mim. A loira me entregou uma arma, falando o mais alto possível para mim:
— Hora de brincar. – Saiu em disparada em meio à confusão, me deixando um pouco sem saber oque fazer.
Bem, havia uma arma carregada em minha mão, e vários homens tentando matar meus adoráveis amigos. Acho que era meio óbvio que eu tinha de sair atirando em qualquer filha da puta que quisesse impedir minha saída daquele local infernal. Um sorriso sem motivo específico nasceu em meu rosto. Comecei a correr novamente, atirando em qualquer pessoa que demonstrasse ameaça para mim. Fogo alto se alastrava no que percebi ser uma floresta, com algumas baixas torres espalhadas pelo campo queimado. Sabia que eu estava exalando adrenalina, logo me assustando quando senti alguém se aproximar. Virei rapidamente, percebendo um homem mais velho apontar duas armas para mim. A mão que segurava minha arma tremeu num relance, e o antigo sorriso se desfez.
Só que a sensação de medo não passou de um mero detalhe. Ver aquele homem cair sem a mínima ação no chão, com um notável buraco em sua cabeça não me fez sentir remorso. Aliás, ele queria me matar, então não faz nenhuma diferença. Minha felicidade interna aumentou ainda mais ao ver quem era meu herói particular. Nico me analisava com um sorriso mínimo no rosto, a arma pesada em sua mão direita. Corri até ele, sendo segurada fortemente pela cintura e puxada para um beijo feroz. Sua boca estava prestes a me engolir, e eu não tinha motivo nenhum para reclamar daquilo. Senti a base da arma bater dolorosamente em meu quadril, fazendo-me descer para o chão. O eco do tiro acima de minha cabeça me fez fechar os olhos com força. Nico me puxou para cima, segurando em minha mão e correndo floresta adentro. Apoiou-se em uma árvore, me colocando entre o tronco e o corpo do mesmo.
— Você vai para lá. – Apontou para trás de si, sua respiração acelerada e ofegante. Seu olhar se dividia em meus olhos e minha boca, de vez em quando dando uma leve mordida em seu próprio lábio inferior. Um sorriso meio louco tomou conta de seu rosto, e Nico se afastou. – Eu quero ter o prazer de explodir esse lugar todo.
— E por que você tem que ir sozinho? – Indaguei, não aceitando ser protegida por ele daquela forma. Eu sinceramente odiava quando as pessoas praticamente me deixavam de fora das partes mais legais. – Eu posso te ajudar.
— Não. Piper e Leo estão no carro e você vai para lá ficar com eles até que voltemos. – Puxou a arma de minha mão, recarregando a mesma. – Já sabe, se alguém que você não conhece se aproximar, atire. Num piscar de olhos isso tudo vai acabar, e iremos estar em casa fingindo que nada disso aconteceu.
Eu, do fundinho do meu coração, odiava aquele ser.
Nico se afastou, me deixando sozinha em meio as árvores que pareciam não ter fim. Comecei a caminhar pelo lado contrário, observando ao longe um carro preto. Uma sensação de alivio se apoderou de mim quando vi Leo sair do carro com o notebook em mãos. Finalmente, em “casa”.
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