Nos termos de existência possíveis para um cão urso polar, era uma boa vida.

Agitada demais às vezes – agora Naga sentia isso nos ossos, efeito físico irremediável da passagem de tempo em seu grande corpo peludo. Mas ela estava satisfeita. Tinha conseguido acompanhar o ritmo em erupção de Korra por toda a sua infância e adolescência humana e garantido que ela chegasse bem à vida adulta para contar histórias. Eram os seus momentos preferidos.

Naga adorava ouvir a voz animada de Korra, mesmo sem entender muito o que ela dizia. Reconhecia todas as diferentes entonações do timbre da humana (ao todo, Korra tinha sete vozes: uma para cada emoção básica) e era capaz de sentir a sua presença há muitos metros de distância, mesmo com todo o barulho e cheiros misturados advindos da Cidade República.

No início, quando eram só as duas correndo livres por entre o gelo naquele lugar distante de onde Naga sentia saudades, os sentidos eram mais nítidos. As vezes elas ainda voltavam. Naga tinha a impressão de que Korra – algo no modo como ela a olhava quando desembarcam na Tribo da Água – fazia isso mais por ela do que por si e lhe dava cabeçadas de agradecimento até que ela soltasse a risada alta que parecia uma explosão de fogos de artifício no céu.

Naga não gostava dos fogos, mas adorava os sons estrondosos que Korra conseguia produzir naquele corpo diminuto e bípede. Adorava quase tudo em Korra, exceto as vezes que ela decidia que Naga precisava de banhos. Nesses momentos, ela se ressentia e encontrava conforto em Asami, que jamais ousara lhe fazer esse tipo de maldade.

Também era a ela que recorria a umas voltinhas no parque todo fim de tarde quando Korra estava ocupada demais salvando o mundo. Em suma, Naga também gostava de Asami. Continuou gostando mesmo quando ela achou que era uma boa ideia trazer para casa aquele mini felino cinza esquisito.

Naga se recusou a ser uma babá. Por algum motivo misterioso o filhote se virou bem e cresceu em graça e petulância. Eles se cumprimentavam as vezes. A casa, felizmente, era grande demais para que ambos pudessem exercer suas áreas de domínio a parte um do outro. Além das humanas, eles tinham até um amigo em comum, Pabu, que de vez em quando aparecia nos ombros de Bolin.

Era uma boa vida, mesmo no verão quando o sol alto no céu lhe deixava desconsolada na terra. Era uma boa vida porque nem o calor, nem o gato, nem o tempo, nem os ossos, nem as forças malignas que por vezes ameaçavam a ordem de tudo, nem as muitas comunicações e relações estranhas entre os seres ou a regência do universo, enfim, nenhuma dessas coisas das quais Naga pouco ou nada entendia a impediam de ouvir um "ei garota!" vinda da sua voz preferida no final de cada dia.