A lembrança era nítida: fazia um dia agradável e primaveril. As flores despontavam por toda parte, feito cor em festa. Asami tinha a postura irretocável mesmo no banco sem apoio, mas seus olhos a entregavam; volta e meia eles se desviavam e dançavam pelos arredores daquele perímetro do Parque Cidade República. Às vezes sua atenção era capturada por alguma criança correndo livre ou pelo barulho do que ela julgava que poderia ser o carrinho de sorvetes; em outros instantes, o simples farfalhar de algum galho de árvore era o suficiente para distrai-la.

Hiroshi lhe chamou a atenção pelo que pareceu – para os dois – ser a centésima vez naquela manhã, embora não demonstrasse irritação com o fato. Ainda assim, Asami sentiu o rosto corar quando se obrigou a olhar para o pai outra vez. À sua frente, uma mesa pública de pai sho demonstrava, para qualquer passante que entendesse do jogo, duas estratégias em desenvolvimento.

Asami era inteligente o suficiente para saber que a sua estava em desvantagem e isso lhe tirava do sério por dentro. A menina não encontrava paciência em si mesma para vencer o pai. Ou talvez fosse um pouco mais complicado do que isso: naquela época, ela o achava invencível. Em qualquer coisa. De modo que não via ponto em se lançar vezes sem fim rumo ao fracasso. Apesar disso, lá estava ela, porque de todo modo aquele era o momento que tinham juntos.

Hiroshi era um homem ocupado e Asami era uma criança ocupada também: durante os dias úteis havia o internato em tempo integral e nos finais de semana ela tinha aulas de defesa pessoal e línguas estrangeiras. Nos raros momentos em que os dois estavam livres, o CEO das Indústrias Futuro gostava de manter o vínculo com sua única herdeira convidando-a para partidas de pai sho. Em algum nível, era mais um dever do que uma diversão para Asami. Mas ela apreciava a companhia do progenitor, bem como as risadas orgulhosas que ele soltava quando ela fazia jogadas inteligentes. Gostava, sobretudo, quando ele se dispunha a jogar em algum lugar fora da mansão, como naquela ocasião.

— Como a vida, o segredo do pai sho está no tempo, querida. Tudo tem um tempo certo. — ele lhe confidenciou e mostrou a ela uma tática que lhe permitia ganhar e que Asami não tinha vislumbrado ainda. Raras eram as vezes que ele fazia isso. Num geral, Asami assimilava as possibilidades observando-o de maneira silenciosa.

— Mas o tempo não é uma coisa confiável, papai. Ele varia de acordo com o humor, o lugar e as pessoas com quem você está. – Asami murmurou, pensando em como as aulas de redação pareciam duras anos inteiros.

Hiroshi sorriu, dando-lhe três tapinhas na mão de maneira solidária.

— Por isso mesmo, querida, por isso mesmo. — repetiu. Asami concordou com a cabeça enquanto ele repetia "confie no tempo", mesmo que o conselho lhe parecesse vago e enigmático demais. Ela queria um sorvete e aparentemente o tempo certo para o doce seria depois de vencê-lo, então se concentrou para vencer e esse foi o máximo que absorveu do conselho na ocasião.

Agora, ali estava ela, outra vez no mesmo banco. O parque continuava quase o mesmo de suas lembranças infantis, embora tivesse sido rebatizado com o nome de sua namorada – a mesma que lhe encarava de maneira preocupada no assento ao lado. O sol a pino e o verde infinito não combinava em nada com as roupas pretas que Korra havia insistido em usar em sinal de respeito.

Tanta coisa havia acontecido entre a lembrança e o presente, tantas versões Asami precisou inaugurar e depois se despedir para estar ali com ela naquele instante. A vida era uma sucessão de mudanças boas e ruins e curiosas, tudo acontecendo simultaneamente. Por alguma razão, constatar isso lhe deu vontade de rir. Fazia sentido agora. O conselho.

— O segredo está no tempo. – Sato murmurou, olhando para o horizonte, o coração menos pesado do que achou que seria possível no aniversário de morte do pai;

— O que você disse? – Korra perguntou, o rosto ainda talhado naquela expressão comovente de quem estava genuinamente preocupada.

— Eu disse que está na hora de irmos andando. – Asami decidiu, sorrindo. Algo na maneira como ela o fez aliviou o coração de Korra, que sorriu também. Elas se levantaram e Asami entrelaçou os seus dedos com os da Avatar como quem entrelaça uma memória nova de vida na palma da mão: bem na linha do coração.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.